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Quinta-feira, Novembro 22, 2007
UM CONTO
Cabaré Mineiro foi publicado pela REVISTA DA ACADEMIA MINEIRA DE LETRAS (volume XLIV, abril/maio/junho de 2007). Mas, por um desses atos inexplicáveis de CENSURA, teve sua paragrafação modificada e, pior, textos suprimidos (acho que o editor imaginou que certas palavras e expressões podiam ofender os ouvidos sensíveis da tradicional família mineira). Publico-o, aqui, como registro de uma certa mentalidade ainda vigente em pleno século XXI. Grifei o trecho censurado e publico, abaixo, o mesmo trecho como os acadêmicos de Minas acharam que devia ser.
CABARÉ MINEIRO
Moulin Rouge, o velho cabaré de Paris. Ali estávamos, eu, minha mulher e uma dezena de outros casais de nossa idade, todos ansiosos pelo espetáculo que tinha todo o jeito de decadente apresentação para turistas, parte do pacote, fazer o quê, e ali estávamos. Meus olhos turvos buscavam motivação para o que haveria a seguir, cansados já de tantos passeios, já sem nenhuma excitação, apenas curiosidade. Não tenho mais idade para isto, pensei, para gastas pernas e seios nus de dançarinas de cabaré, ilusão de adolescente, não têm mais o gosto do pecado. Mas soa o terceiro sinal para o início do espetáculo. Luzes se apagam. Do fundo do palco, do fundo do poço, do fundo de minha memória, a música da orquestra, de repente, corta o ar pesado e abre em minha cabeça um buraco, o buraco por onde entra o passado. Não sou mais dono de mim: são acordes que nunca mais ouvi, há mais de cinqüenta anos, mais, talvez, não sei, só sei que, antes mesmo de se abrirem as cortinas do Moulin Rouge, antes mesmo que pernas de alabastro e seios de silicone enchessem e preenchessem meus sentidos, foram meus olhos que se abriram para a perdida cidade do interior de Minas, o menino de calças curtas cruza as ruas barrentas da velha e perdida cidade para viver a aventura de sua vida, uma aventura esquecida num escaninho escuro da memória, um alumbramento nunca mais tido e sentido. Relembro detalhes esmaecidos e agora perfeitos, como um retrato de polaróide. Sonho. Tenho sete anos e calças curtas. Lembro o pai, a mãe, o casebre pobre da roça, a lida diária com bois, porcos, galinhas. O pai que conversa baixinho com a mãe, depois da janta, ao pé do fogo do fumarento fogão de lenha. O instinto de moleque levado diz: estão falando de mim. Tento ouvir. Palavras desconexas. Não entendo. Preocupo-me. Algo vai acontecer, meu pai está com o cenho franzido das grandes decisões, a mãe chora um pouco, mas logo o mistério se esclarece. Devo ir à escola. Na cidade. Um susto: escola? E a roça, as galinhas, o canteiro de verduras, quem vai cuidar? Meu pai não deixa dúvidas: escola, a partir de amanhã e vai já dormir que vamos acordar cedo. No colchão de palha, a noite insone, viro, reviro. A cidade me assusta. Fui lá poucas vezes, na Semana Santa, as procissões, as missas a que a mãe assistia com fervor; e mais uma ou duas com o pai, para comprar na casa do agricultor algum grão ou ferramenta; muito poucas vezes, para saber direito como funciona a cidade, com seus automóveis negros, suas casas grudadas umas nas outras, pessoas andando na rua, o bonde, bicho estranho a sacolejar nos longos trilhos para cima e para baixo, tocando sino, o povo dentro, gente de paletó e gravata, de vestidos longos, sombrinhas e guarda-chuvas, gente orgulhosa, não cumprimenta ninguém; a cidade povoa meus pensamentos e não me deixa dormir; o galo canta várias vezes e eu rolo ainda na cama quando o pai vem chamar. Levanto num susto, tonto pela noite mal dormida, coloco no embornal com prazer e receio os cadernos encapados e os lápis bem apontados que o pai já comprara, visto o uniforme que a mãe fizera, calças azuis de brim e camisa branca, com um emblema no bolso esquerdo, o que me deixa orgulhoso, não sei bem o que está escrito ali, mas as letras bordadas me encantam, saio com o pai, a pé, para o centro da cidade, caminhada de quase hora e meia. O grupo escolar. Imenso, assustador. Sentado num banco comprido, espero meu pai conversar com alguém numa sala, espio, os olhos compridos nos retratos pendurados, homens e mulheres sisudos, nos mapas coloridos, nas paredes pintadas, altas, no forro de madeira, e o cheiro, ah, o cheiro, estranho, inesquecível, indefinível. O assombro do primeiro dia de aula, os colegas de classe, a algazarra do recreio, a merenda de gosto diferente da comida da mãe, os dias difíceis do longo aprendizado das letras, a tabuada cantada e depois gaguejada nos exames finais, o primeiro livro de leitura, as brigas no pátio, os amigos que fiz, os adversários que venci nos jogos de bola de meia, as professoras com suas réguas compridas que de vez em quando estalavam em nossas pernas, a qualquer indisciplina, as histórias que elas contavam e que povoavam nossas mentes, o cavalo com estrela na testa, o saci-pererê, os rios imensos e suas pororocas incompreensíveis, as festas cívicas, as paradas nos dias da independência, as provas difíceis, tudo passa como uma fita de cinema na minha cabeça, ali, naquele cabaré parisiense que não existia mais, que era apenas o pano de fundo para lembranças esquecidas. A velha trilha da casa para a cidade: um caminho no mato, moldado no lento passo de cada passante, serpente coleante a levar ao fim da rua, ao velho sobrado, enorme, sempre fechado. Eu tinha muito medo daquele sobrado assombrado, falavam que ali vivia a alma penada do antigo dono, senhor de escravos, e então passei a contornar, numa longa curva, o caminho que por ali passava, temendo sempre encontrar o fantasma daquele homem, e durante muito tempo eu dei a volta para não passar perto do sobrado velho. E um dia, já no quarto ano de grupo, meu pai veio comigo até a cidade. Prático, o meu pai, sem assombro e assombrações, não teve dúvida: pegou o caminho reto, o que passava pelo sobrado assombrado e, não tendo eu coragem para contrariá-lo, respirei fundo e fui em frente, e então, ao chegar perto do casarão, eu o vi: reluzente, novo de novo, todo pintado de amarelo, portas azuis, um imenso letreiro, automóveis estacionados a seu redor, num passe de mágica os fantasmas expulsos. Tentei perguntar ao pai o que era aquilo, o que havia acontecido, mas ele desconversou e, diante da minha insistência, acabou ameaçando me dar uma coça de vara de marmelo, se insistisse. Mesmo do alto de meus intrépidos onze anos, recuei, amuei e não mais mudei o caminho para a escola e todo dia passava à porta do tal sobrado, na ida e na volta. De manhã bem cedo, tudo fechado, alguns carros parados e o silêncio. De tardinha, na volta, a porta aberta para o que parecia um bar, roupas estendidas no quintal dos fundos, roupas coloridas, vestidos imensos e peças estranhas, que eu não sabia bem o que eram, e pessoas, gente de verdade, homens e mulheres e não fantasmas. Passava rápido, temeroso, aquela gente bem vestida, rica, ar desenvolto, e eu tímido, franzino ainda, não ousava parar ou passar mais perto. E a curiosidade corroía meu pensamento, povoava minha imaginação de ouros, pratas, dinheiro, muito dinheiro, músicas, danças, aventuras, romances e beijos furtivos, festas, um mundo que eu não entendia, um mundo sobre o qual não ousava perguntar a ninguém, um mundo tão misterioso que escondia seus tesouros sob uma palavra misteriosa, cabalística, escrita no grande letreiro, cabaret, assim mesmo, que eu lia “cabareti” e que fizera o pai ficar tão bravo, quando lhe perguntei o que era. E me vem a lembrança nítida de uma sexta-feira, quando voltava tarde para casa, quase noite. Tinha ido fazer umas compras para o pai e demorara na cidade. Vergado sob o embornal pesado, levantei o olho curioso para ver, surgido das sombras, o sobrado já todo iluminado, uma entidade pulsante ao som de um piano, as janelas abertas vazavam luz e pecado, vozes e risos, cantos e tilintar de copos. Passei rápido, mais rápido ainda, pela rua do cabaré, a curiosidade aumentando o peso do embornal de compras. Cheguei a casa, jantei e fui dormir. Ali pela meia-noite, acordei a tempo de ouvir o primeiro canto do galo. Levantei. Do outro quarto, vinham o ronco de pai e o ressonar de mãe. Cheguei ao quintal, lua cheia, noite fria, vesti o velho casaco e tomei a trilha que me levava à rua do casarão. Aproximei-me pelo meio do mato, até um barranco encimado por uma árvore, subi como um gato até o galho mais alto e as janelas escancaradas do sobrado me revelaram o seu interior. Meus olhos aos poucos transformavam os vultos em homens e mulheres, a dançar, a conversar, a beber; meus sentidos se aguçavam para tentar entender o que era aquilo e eu fiquei ali, transido de frio, feliz com a felicidade daquela gente. Foi então que ouvi distintamente a música que nunca mais ia me sair da memória, a música que só ouvi naquele dia tão distante e hoje, neste cabaré de Paris, enquanto se abriam as cortinas do Moulin Rouge para mais um espetáculo de luzes e mulheres inefáveis. E ao som daquela música, uma cortina vermelha se abriu lentamente para um pequeno palco e surgiu uma mulher deslumbrante, num longo vestido azul, quase diáfano, a dançar uma dança exótica de gestos medidos e precisos, ao compasso daquela música, ela escondia e mostrava o rosto, os olhos grandes e azuis, a boca vermelha, movendo um enorme e sensual leque oriental, e os homens aplaudem e assobiam e gritos acompanham seu gestos de jogar a um canto o leque e começar a despir-se, cobra coleante em meneios e requebros que alternavam o despudor da bailarina e a vergonha da virgem que ela representava a sorrir, a provocar, ora avançando ora recuando, cobrindo-se e mostrando-se, a despir-se em estudados gestos, e eu fecho os olhos em êxtase e quando os abro há duas luas trêmulas a competir com a lua do céu, duas auréolas sutis de fruto e flor, de cobiça e desejo, e então meus olhos não entendem como ela tira a última peça de roupa e dança nua e loira, nua, as pernas longas, a bunda perfeita, a barriga reta, os pêlos loiros no encontro das coxas brancas e fortes, deusa de meu delírio, e eu entorpeço e eu sonho e eu não entendo o que está acontecendo com meu corpo que treme todo num espasmo profundo, quase perco os sentidos, e o galho da árvore onde estou encarapitado balança e estala e eu sinto um jorro quente escorrer por entre minhas pernas e eu estou voando, voando para as nuvens, para a lua, para as luas, para aquelas pernas longas e aquele monte loiro e misterioso e eu só sinto o baque surdo de meu corpo sobre a terra fofa do barranco, amortecido pelo mato cheio de espinhos, molhado pelo sereno da madrugada, e eu só tenho tempo de me levantar como um cabrito assustado e correr, correr muito, campo afora, segundos depois de ouvir vozes perguntando que barulho é esse, quem está aí, e eu corri tanto que em poucos minutos estava de novo em meu colchão de palha, tremendo de medo e de frio, sem entender direito por que estava tão molhada a minha calça, com aquele líquido pegajoso e agora frio, frio... e as palmas me puxam de volta ao toque de minha mulher em meu braço, você gostou, sim, sim, gostei muito, maravilhoso o espetáculo, maravilhoso, e eu pensava, sim, o maior espetáculo de minha vida, um alumbramento, o primeiro, naquele cabaré, o cabaré mineiro de minhas lembranças de menino da roça, aguçadas por uma música que nunca mais ouvira na vida, até aquela noite no Moulin Rouge...
NA REVISTA DA ACADEMIA MINEIRA DE LETRAS:
... e então meus olhos não entendem como ela tira a última peça de roupa e dança nua e loira, nua, as pernas longas, o corpo perfeito, a barriga reta, os pêlos loiros no encontro das coxas brancas e fortes; deusa de meu delírio, e eu entorpeço e eu sonho e eu não entendo o que está acontecendo com meu corpo que treme todo num espasmo profundo, quase perco os sentidos. O galho da árvore onde estou encarapitado balança e estala e eu me esborracho no chão. Sinto apenas o baque surdo de meu corpo sobre a terra fofa do barranco, amortecido pelo mato cheio de espinhos, molhado pelo sereno da madrugada. Só tenho tempo de me levantar como um cabrito assustado e correr, correr muito, campo afora, segundos depois de ouvir vozes perguntando que barulho ´esse, quem está aí, e eu corri tanto que em poucos minutos estava de novo em meu colchão de palha, tremendo de medo e de frio.
As palmas me puxam de volta ao toque de minha mulher em meu braço, vocês gostou, sim, sim, gostei muito, maravilhoso o espetáculo, maravilhoso, e eu pensava, sim, o maior espetáculo de minha vida, um alumbramento, o primeiro naquele cabaré, o cabaré mineiro de minhas lembranças de menino da roça, aguçadas primeiro, naquele cabaré, o cabaré mineiro de minhas lembranças de menino da roça, aguçadas por uma música que nunca mais ourvira na vida, até aquela noite no Moulin Rouge...
Isaias Edson Sidney - isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:45 PM
Quarta-feira, Novembro 21, 2007
SOBRE BEM-TE-VIS E MORALISMOS
Dizem que é o sabiá a ave símbolo do Brasil. Sem desdouro desse belo pássaro, acho que esse título devia ser dado ao bem-te-vi. Sabe por quê?
Porque bem-te-vi se vê em todo lugar. No meu quintal, por exemplo, moram vários. E por todo lado que se vai, é só prestar atenção, lá está um esganiçado bem-te-vi a tartamudear ou a gritar alto e em bom som o seu canto onomatopaico.
E seu canto (ou seria melhor dizer seu grito?) é uma espécie de consciência, de aviso, de alerta: se desmatam uma floresta, pode estar certo de que lá está o assanhado pássaro a lembrar: bem-te-vi, bem te vi que não prestas.
Em escritórios, seria uma ave bastante útil: cada vez que um empresário estivesse a tentar comprar um político, lá estaria o bem-te-vi a lembrar: bem te vi, bem te vi, seu corruptor.
Nos gabinetes de políticos, então? Seria uma festa, o festival de bem-te-vis a alertar a todos: bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi. Pena é que ficariam roucos, de tanto gritar e ninguém os ouvir.
Para os conservadores, então, não haveria bem-te-vis que chegassem!
Duas historinhas, de minha vida, sobre essa raça triste, que é a raça dos conservadores, dos hipócritas e moralistas. Vivo encontrando-os por aí, em suas casacas pretas, mesmo quando usam bermudas, nas praias ou nos clubes elegantes. São uma gente que tem sobre si uma nuvem negra de caradurismo. Em sua maioria, são aparentemente inofensivos, mas... cuidado! Não dê poder, por menor que seja, a um moralista, que logo ele vira um Edward mãos de tesoura. Lembra o personagem do filme? Aquele estranho de mãos em forma de tesouras, que tanto cortava magnificamente os cabelos das madames quanto dava formatos às àrvores?
Pois, é: os moralistas, quando tem algum poder, são assim. Mãos de tesoura. Cortam tudo o que lhes desagrada. Sem nenhuma arte, no entanto.
Mas, vamos às histórias.
A primeira. Tinha eu uns quatorze anos, formava-me no antigo ginasial, as quatro séries que vinham logo depois do grupo escolar. Difícil explicar isso, mas seria hoje a oitava série do ensino fundamental, acho. Mais ou menos isso. Naquele tempo, tinha formatura. E então, ganhei do meu padrinho um livro: os Lusíadas, uma edição bastante interessante, da FTD. Li-o, encantado, embora ainda entendesse pouco da saga heróica de Camões. Mas, achei algo estranho, na tal edição: a numeração dos versos, lá pelo fim da aventura, tinha uma lacuna. Isto só fui descobrir mais tarde, na Faculdade de Letras: faltavam os versos do canto IX, o canto da Ilha Namorada, quando os navegantes, ao voltar para a velha terra, recebem da deusa o presente por suas conquistas, uma ilha povoada de ninfas, belas, loiras, nuas, para um banquete pantagruélico de sensualidade. Os padres da FTD, simplesmente, pularam o canto nono. Fico, agora, pensando: devia estar lá, atrás da cadeira do editor de batina, o nosso pássaro a gritar bem alto: bem-te-vi, bem-te-vi, seu imbecil!
Corta. Para a segunda história. Muitos e muitos anos se passaram. Até já me aposentei da dura lida de professor. Escrevo. E sempre que posso, atormento os amigos, para achar um lugarzinho onde publicar meus textos. E então, reencontro o José Arlindo. Camarada de lutas e lidas. Eu, aqui, em Sampa. Ele, lá, em BH. Correspondemo-nos. Por e-mail, claro. (Já estão dizendo que e-mail é coisa de gente velha, mas tudo bem). Gentil, como sempre, leva o Zé Arlindo a um amigo dele os meus textos. Para publicar numa revista de, digamos, certo prestígio: a Revista da Academia Mineira de Letras (afinal, embora não acadêmico, sou mineiro, uai!). Publicam dois contos meus. Exulto.
E o bem-te-vi, onde entra? Calma. Ele está sobrevoando e gritando por aí. Logo, logo, ele volta.
Para uma platéia seleta, aqui em Sampa, propus-me ler um de meus contos. Escolhi o que fora publicado pela Revista da Academia Mineira. Para isso, releio o original, no computador e, depois, o que está na revista, que vai ser a fonte da apresentação. Então, surpresa! Encontrei várias diferenças... e sabe em quê? Em trechos mais, digamos, fortes, do conto.
Explico. No conto, falo de um menino que tem o primeiro alumbramento com uma dançarina de cabaré, que ele espiona trepado (sem trocadilho, sem outras alusões) numa árvore, numa insone madrugada mineira. Escrevi (o conto é em primeira pessoa): e o galho da árvore onde estou encarapitado balança e estala e eu sinto um jorro quente escorrer por entre minhas pernas e eu estou voando, voando para as nuvens, para a lua, para as luas, para aquelas pernas longas e aquele monte loiro e misterioso e eu só sinto o baque surdo de meu corpo sobre a terra fofa do barranco.
Adivinhe: cortaram o jorro quente, como cortaram, também, outras expressões que explicavam aquele primeiro orgasmo que é, afinal, o motivo, o cerne, do conto. Não mereciam, os editores da revista, uma revoada de pássaros gritando: bem-te-vi? Bem-te-vi? Bem-te-vi?
Pois, é: se os moralistas, os conservadores, têm medo das palavras, de simples palavras, quanto mais de outras coisas, mais importantes, mais vitais. O mundo, para eles, tem de ser o que eles imaginam, tem de ser sempre igual, com os mesmos e velhos paradigmas, e não o que o mundo é, na realidade, cheio de som e fúria, como diria o Bardo, cheio de incertezas e safadezas, humano, demasiado humano, como diria o Nietzsche.
Por isso, acho que o bem-te-vi poderia ser bem essa espécie de alerta, em nossas consciências, para que deixássemos de ser aquilo que ele, o passarinho sem-vergonha, vive apontando que nos viu fazer ou pensar, para que deixemos de ser sempre os mesmos, os mesmos.
Bem te vejo, meu bem-te-vi!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:59 PM
Sexta-feira, Novembro 16, 2007
PODE UM REI (DE ESPANHA OU DE QUALQUER OUTRO LUGAR) MANDAR UM PRESIDENTE CONSTITUCIONALMENTE ELEITO CALAR A BOCA?
quando se mata um rei...
Devia-se poder todos os dias matar um rei.
Não importa que rei seja – de copas, de ouro, de espadas ou de nada –
Basta que seja um rei e seja morto.
Que o seu sangue cubra o céu, que seu sangue suje o mar,
Não importa: devia-se poder sempre matar um rei.
Quanto vale um rei? Quanto vale um mendigo?
O rei ao mendigo faz, mas um mendigo nunca fará um rei.
Devia-se, sim, devia-se poder matar a cada dia um rei.
Coroas regem destinos, mas o destino não se compactua
Com salamaleques de penacho e reinados de capacho.
Como seria melhor a vida, se se pudesse pelo menos um dia sim e outro também
Matar um rei.
Um rei que reina é cocô de cachorro na calçada: pisamos e sujamos e xingamos.
Mas não esquecemos nunca.
E assim como não se esquece da merda na calçada,
Não esqueçamos nunca de poder matar todos os dias um rei.
Uni-vos, todos, ó regicidas! E clamai para todos os povos:
É preciso, sim, matar todos os dias um rei,
Porque, quando se mata um rei, a vida volta a reinar!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:13 PM
Quarta-feira, Novembro 14, 2007
O PETRÓLEO NÃO É NOSSO! E AÍ?
Vamos fazer um exercício de futurologia às avessas. Ou de pesadelo, se preferirem.
Suponhamos (só suponhamos) que o presidente eleito de fato (e não eleito pela mídia) tivesse sido o Serra, em 2001. Como teria sido o seu governo?
Bem, primeiro ano de governo: uma grande devassa nas contas do Fernando Henrique. Mas nada se divulga, na imprensa. Aliás, a imprensa não se cansa de enaltercer seu espírito cívico, sua visão de futuro, publicando a íntegra de seus discursos, em Brasília, na ONU, na Europa, em encontros com dirigentes da Internacional Socialista.
Segundo ano de governo: idem.
Terceiro ano de governo: lança o grande plano de privatizações. Banco do Brasil, Caixa Econômica, Amazônia, Petrobrás, etc. etc.
Quarto ano de governo: todas as empresas são vendidas e a imprensa, claro, enaltece a economia para os cofres do governo. Serra é reeleito.
2007: a Petrobrás, privatizada, anuncia a descoberta do maior campo petrolífero na bacia de Santos: 5 a 8 bilhões de barris!
E aí? Como é que ficaria?
Hem?
Alguém teria alguma sugestão de qual dedo (do pé ou da mão) estaríamos chupando?
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 6:08 PM
Segunda-feira, Novembro 05, 2007
A QUESTÃO RACIAL, PARA PENSAR, OPINAR E DISCUTIR
Não acredito nas religiões. Não acredito em metafísicas. Respeito, acima de tudo, a ciência. Digo: respeito. Não quer dizer que aceite de forma peremptória tudo o que a ciência diz. Significa que todo e qualquer avanço científico deve ser comemorado, mas não significa que esse avanço seja verdadeiro. Porque a ciência não trabalha com verdades, trabalha com fatos. Que se provam e comprovam. O que é considerado verdade, hoje, pode ser comprovadamente falso amanhã. Porque ciência é assim.
Dito isso, vamos ao tema que me propus: raça.
A genética, ciência do momento, cada vez mais se aproxima da comprovação de que não existe raça. Existem diferenças, claro, entre os humanos, mas uma só raça humana. Teorias racistas são, claramente, absurdas. São criações arrogantes de mentes e grupos sociais que se declaram superiores apenas para explorar e escravizar os outros grupos sociais.
No entanto, temos diferenças. De cor de pele, de costumes, de culturas. E até de níveis mentais, ou de inteligência, como alguns preferem chamar. Porque não estamos todos os grupamentos humanos no mesmo nível de evolução, seja ela social, econômica ou cultural. E desnível não quer, absolutamente, dizer, como alguns cientistas às vezes sugerem, que alguns povos sejam superiores ou inferiores: significa apenas diferença e nada mais. Não há mensuração de qualidade, na quantidade. Nem isso é possível.
Há pouco, o ganhador do prêmio Nobel de medicina de 1962, um dos descobridores da estrutura do DNA, senhor James Watson, declarou-se (abram-se aspas) pessimista (fecham-se aspas) sobre o futuro da África, pois as políticas sociais para o continente eram baseadas no fato de que a inteligência dos negros é igual à dos brancos, (abram-se aspas) apesar de todos os testes dizerem que não (fechem-se aspas), entre outras declarações racistas.
Isso, é claro, provocou inúmeros protestos e, até mesmo, sua aposentadoria, ou seja, seu afastamento dos centros de pesquisa aos quais estava ainda ligado. Agora, leio que outro cientista americano, Charles Murray (autor de um livro polêmico, The Bell Curve, sobre quociente de inteligência, uma preocupação bastante americana, por sinal. Por quê? Não nos esqueçamos de que Lombroso também já teve seus dias de glória!), declara que Watson tem, sim, razão. E diz mais: que as políticas afirmativas raciais (como as quotas para negros) são equivocadas e podem trazer mais estranhamentos e problemas do que soluções.
Temos, aí, duas questões. A primeira, a questão da inteligência, ou melhor, do quociente de inteligência. A segunda, a questão social, de necessidade de proteção de uma etnia.
A questão do quociente de inteligência: admitir, como fator fundamental de sucesso de um ser humano um número baseado em testes, por mais complexos e lógicos que pareçam esses testes, é, no mínimo, acreditar que um modelo matemático possa servir de julgamento estético de qualquer obra, humana ou da natureza. Não posso aceitar que alguém possa ser reduzido a um número. Isso é cientificismo exagerado. É acreditar que a ciência, por ser ciência, seja infalível. E a ciência, como sabemos, não é infalível, senão ainda estaríamos acreditando que a Terra é o centro do sistema solar.
O homem é um ser muito mais complexo que um simples (sim, um simples) teste de QI: há, na estrutura humana, um longo legado de usos, costumes, conhecimentos, certezas e incertezas, sentimentos, medos, esperanças, desejos e tantas e tantas circunstâncias relacionadas à sua luta pela sobrevivência e á sobrevivência de sua espécie, de seu grupo, que ainda não temos instrumentos que meçam toda essa complexidade. E acredito que, possivelmente, nunca teremos. Eu, indivíduo, sou eu e mais todo o meu legado. E mais: toda a minha formação e minha estrutura de pensamento, meus valores, minha experiência e meu código de vida, minha weltanshauung, enfim. E tudo isso forma um ser absolutamente único, diferente de cada um dos bilhões de seres humanos que já existiram, existem ou venham a existir. Cada ser humano, por mais semelhança um com o outro indiquem as aparências ou o código de DNA, é, sim (e é preciso reafirmar), único.
Quando o senhor Murray cita Nelson Mandela como exemplo de inteligência, não há como negar ser realmente o líder negro um dos homens mais interessantes do nosso tempo. Mas tem ele outros elementos vitais e profundos, além da inteligência: experiência de vida única, sensibilidade, capacidade de tolerância, persistência, persuasão e de liderança etc., além, é claro, de carregar em si a longa, longuíssima, história de seus ancestrais. Mas, tudo isso seria inútil, se não tivesse ele sensibilidade e vontade de ajudar seu povo. Não tivesse motivação. E mais: se não fosse o homem certo, naquele momento histórico.
Há, portanto, muito mais do que sonha a nossa vã filosofia envolvendo o sucesso de homens como Mandela ou como Hitler (só para opor a qualidade de pensamento de um à qualidade de pensamento do outro).
Se o continente africano tem produzido homens que, a acreditar nas medições de QI dos ilustres cientistas citados, estão nas curvas inferiores de suas estatísticas, não quer dizer, com isso, que sejam homens de menor qualidade. Podem não ter o mesmo tipo de estrutura de pensamento de um europeu ou estadunidense, cuja carga cultural, histórica e genética é absolutamente diferente da de um homem negro, nascido nas savanas ou nas florestas africanas, com preocupações absolutamente distintas em relação à sua sobrevivência e à de seu grupo social. São seres absolutamente diversos a que se quer dar a mesma medida de quociente de inteligência, como se fosse possível atribuir a todos os seres humanos o mesmo tipo de inteligência, cuja definição nós nem sabemos exatamente o que seja. Como se fosse possível usar uma mesma régua matemática para avaliar e comparar as pinturas de Bruegel e as de Picasso.
Se ainda nem conseguimos explicar a existência de homens como Da Vinci, Ghandi, Einstein ou Hitler, para citar homens de qualidade de pensamento tão diversos, como podemos ter a pretensão de explicar um continente inteiro, a partir de réguas de medição?
Assim, qualquer tentativa, por mais científica que pareça, de medir o homem, sua inteligência ou seja lá o que for, enquadrá-lo em sistemas baseados num só grupamento humano, não é, absolutamente digno de ser chamado de procedimento científico. Está a léguas de distância de um pensamento racional e só pode ser tachado de racista ou de coisa pior.
A tese do ilustre ganhador do prêmio Nobel só comprova que ele traz em suas palavras um outro nível de pensamento, de história de vida, de cultura e de passado, e não tem a mesma sensibilidade que teria outro cientista, provindo de outro meio. Somos, sim, frutos, também, do meio onde vivemos e onde sobrevivemos. Não temos o direito, por isso, de julgar com a mesma régua os outros povos, o que é traço da arrogância própria do colonizador e de quem está num estágio econômico e social acima, não necessariamente melhor em termos humanos e de construção da trajetória de um povo.
Quanto à segunda parte do argumento do autor da Curva do Sino, acho que o senhor Murray está parcialmente correto. As chamadas ações afirmativas são protecionistas e podem, sim, acirrar um debate que, no caso do Brasil, estava adormecido pela falsa impressão da inexistência de preconceito racial. O preconceito sempre existiu e, se estava falseado pela impressão de tolerância, tenderá a se conservar assim ou, até, a ser desestimulado, se não se soprarem as brasas, com as tais ações afirmativas baseadas em cor da pele. Porque, no nosso caso, somente alguns poucos e restritos círculos sociais têm a tendência a tolerar a manifestação de preconceitos raciais. Prefere-se camuflar o preconceito racial com o mais tolerado (embora também perverso) preconceito social, este, sim, mais escancarado, mesmo que não explicitamente admitido.
Contra o preconceito social, pode-se, sim, instituir ações afirmativas, porque essas não levam em conta aspectos visíveis, como um branco achar que um negro foi contratado em seu lugar apenas por ser negro. Por isso, acho que mais interessantes do que a reserva de mercado para indivíduos de cor negra, são as ações que permitam oportunidades iguais a pobres e ricos, como a reserva de metade das vagas em escolas superiores públicas para os egressos do sistema público de ensino. Seriam aprovados metade dos talentos da escola particular e metade dos talentos da escola pública, ou seja, haveria um certo reconhecimento de mérito de ambas as partes, o que não agravaria o discurso racista imanente nesse tipo de ação, quando o que conta é a cor da pele, fazendo com que as duas classes aprendessem a conviver no meio acadêmico e, posteriormente, nos meios profissionais. Como o negro é, estatisticamente pobre, no Brasil, estar-se-ia dando um passo importante para a elevação do nível de vida dessa população. Sem o viés segregacionista da cor da pele.
Enfim, ciência não é o avatar supremo da humanidade. É, sim, um dos instrumentos mais importantes para a evolução do homem, mas precisa ser discutida, debatida, provada e comprovada. Porque nem a ciência é exata, nem nossas opiniões são únicas: há inúmeras verdades. Mesmo sob a aparência de universalidade, certas afirmativas, certas verdades podem, e devem, ser contestadas. Até para se provarem como verdades. Porque ciência e verdade não são questões de fé, de crença, mas de observação do mundo, de conhecimento acumulado e de renovação constante desse mesmo conhecimento.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:52 PM
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