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Quarta-feira, Outubro 31, 2007
A BABA
Baba, está lá no velho Aurélio: saliva que escorre da boca, babugem. E mais: muco segregado por certos animais.
Não sei se serão de animais que estaremos falando. Mas que são irracionais, disto eu não tenho dúvidas.
Há um fato: o Brasil deverá sediar a copa do mundo de futebol, organizada pela FIFA (uma entidade privada), através de sua filiada, CBF (outra entidade privada), em 2014. Motivos para comemoração? Claro, principalmente para o mundo futebolístico. Que, no Brasil, apesar de ser chamado país do futebol, as últimas pesquisas indicam que não é, assim, como a imprensa diz, a pátria de chuteiras, não. Há, sim, um grande público; há, sim, grandes interesses comerciais; há, sim, uma certa mobilização, meio compulsória, em torno da seleção brasileira de futebol. Sem exageros, no entanto, dizem as últimas pesquisas sobre o famoso gosto brasileiro por futebol. Pespegam-nos rótulos, e pronto: um povo complexo, tanto culturalmente quanto etnicamente, vira isso ou aquilo. As generalizações, ah! As generalizações!
Também não se pode negar que o futebol movimenta uma parte significativa da economia mundial. Sediar uma copa é motivo de disputa entre países (não importa se do primeiro ou do último mundo). Haja vista a última competição, na Alemanha, com o envolvimento direto do governo e da sociedade, com investimentos que giraram na casa de bilhões, seja em que moeda for.
Por isso, quando se fala em sediar uma copa do mundo de futebol, há um assanhamento geral, em qualquer ponto do globo, independente de ideologias. Tanto que, para a cerimônia da Fifa, na Suíça, para lá acorrem os governantes dos países em disputa ou ganhadores, como para lá acorreram governadores brasileiros (principalmente governadores) de todos os matizes políticos.
Mas, para a imprensa (paulista, principalmente), só o José Serra teve razão de ir. Os demais, inclusive o Presidente da República, só estiveram lá para fazer política (e, para alguns, pagar mico, a crer nos comentários jocosos de muitos comentaristas metidos a engraçadinhos. Coitados: são eles os idiotas da mediocridade, e não sabem). Como se fazer política que rende promoção para o País fosse o pior de todos os males. E a copa do mundo no Brasil virou a copa do mundo do Lula, do PT. Como se, em 2014, o Lula ainda fosse o presidente.
Então, é preciso desancar as condições do País de sediar uma copa. Então, é preciso ironizar qualquer comemoração das autoridades. Então, é preciso levantar todos os problemas como insolúveis. Então, é preciso agourar até a última baba escura de ódio, de inveja, de desespero e de insulto à nossa inteligência, para criar mais uma grande, imensa e, como sempre, insidiosa e mentirosa opinião popular, para tentar, mais uma vez, criar condições para derrubar o governo democraticamente eleito.
De novo, e sempre, a baba. A baba golpista, a buscar pêlo em ovo, a tentar despertar no povo o que o povo não sente, a tentar dizer-se defensora dos interesses do País, quando apenas defendem, mais uma vez, o ódio a tudo o que representa melhoria para os que nunca tiveram nada, desenvolvimento, crescimento, enfim, um país melhor para os seus habitantes.
A baba, a baba escorre. E o País segue adiante.
Queria parar por aqui. Porque, até agora, escrevi com emoção. Com raiva. Com nojo do que leio e ouço, por aí.
No entanto, meu lado racional, que está léguas de distância dessa baba nojenta que escorre do meu rádio, da minha televisão, de meu jornal diário, precisa se manifestar.
Então, vamos lá.
É claro que uma copa do mundo traz grandes responsabilidades. Mas, é preciso que se diga uma coisa fundamental: a realização desse tipo de evento é, fundamentalmente, uma decisão empresarial, que envolve só e tão somente capital privado. Teoricamente, não entra um centavo dos governos na realização direta de uma copa do mundo. Aos governos dos países a FIFA exige comprometimento político, ou seja, condições legais para a realização de algo que tem o alcance mundial, tais como, liberdade de imprensa, facilidades de entrada de torcedores e sua movimentação no território nacional e milhares de outros detalhes técnicos referentes ao evento. E infra-estrutura, que tem a ver não apenas com a copa do mundo, mas com as condições mínimas de um povo, como segurança, transportes, comunicação etc., que são o patrimônio de um povo. Ou seja, exige-se que se faça o que é preciso fazer, o que qualquer governo tem, mesmo, que fazer. Apenas, neste caso, acelera-se o processo, criam-se condições de alavancagem de setores que, em condições normais, levariam muito mais tempo para se desenvolverem. Foi o que aconteceu com inúmeras cidades (e regiões) cujos países sediaram uma copa do mundo de futebol. E, com o Brasil, não deixará de acontecer o mesmo.
Vai haver dificuldades? Claro que sim. Qualquer imbecil sabe que um evento como esse envolve risco. Que faz parte de qualquer negócio. Mas, politicamente, o País nada tem a perder, só a ganhar. Por isso, tem, sim, o direito de tentar, pelo menos tentar, realizar uma copa do mundo de futebol. Mesmo que não confiemos muito nos dirigentes de nosso futebol. Mesmo que se ausente da solenidade o ídolo máximo desse esporte, por razões que todos conhecemos.
Vão dizer: a função da mídia é ver os dois lados. É alertar. É colocar-se como guardiã da sociedade, procurando trazer a verdade. E ser imparcial.
Concordo em gênero, numero, grau e o que mais houver.
Porém, o que eu estou ouvindo, vendo e lendo nesses dias não são alertas, apenas. Não são os dois lados da questão. Não é a verdade que todos esperam. Não é isenção que todos desejam.
Estou ouvindo, lendo e vendo na mídia é a baba escura da inveja, através da ironia, do aumento exagerado das dificuldades e da desqualificação dos governantes, como se fossem esses os responsáveis pelos investimentos e pela própria organização do evento. Contamina-se tudo com a baba escura que escorre dessa mídia golpista e sem rumo.
Porque o que eles querem é, como dizem nas ruas, colocar pilha nos argumentos da oposição, ou seja, tudo o que falam, tudo o que mostram, tudo o que escrevem, absolutamente tudo está contaminado pela partidarização que tem sido a cortina negra a se abater sobre os olhos da maioria da mídia brasileira nesses tempos de inveja, de disseminação do ódio e do preconceito, contra a opinião da maioria do povo brasileiro, que elegeu soberanamente seus governantes (de vários partidos diferentes, até mesmo contrários ao governo federal. E que apóiam o evento, porque não são loucos, porque não são imbecis!), que está colhendo os dividendos de uma política econômica responsável, que está satisfeita com os rumos do País finalmente governado por gente que, pela primeira vez na história (independente das ironias que possa despertar essa expressão) está tentando tirar o povo da miséria absoluta em que sempre o deixaram o povinho da baba escura e seus patrões.
Contra a babugem dessa gente, o veneno da cobra, muito veneno. Que é a única forma de protesto que eu tenho. E que, eu sei, não vai adiantar quase nada. Não importa: pelo menos, manifesto o meu nojo dessa baba imunda.
E que venha a copa do mundo. Que estaremos, democraticamente (como deve ser), com um olho na sardinha (que é o nosso dinheiro) e outro no gato (que são os ladrões de sempre).
Sem partidarismo, sem baba a escorrer do canto da boca. Sem chicotinho dos patrões.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:34 PM
Sexta-feira, Outubro 26, 2007
ANTES DE LER, DÊ UMA OLHADA NESTE ENDEREÇO:
http://www.sivuca.com/rede-blogo-hugo-chavez
SEREI SÓ EU O IDIOTA?
Às vezes, quando vejo e ouço certas coisas por aí, fico pensando: serei só eu o idiota? Será que o pensamento comum, aquele que comentaristas da mídia brasileira despejam sobre nós diariamente é o que vale, é o verdadeiro?
Por exemplo: Renan Calheiros. Horrível falar sobre esse sujeito, claro. Mas, há uma insistência doentia de certos setores (políticos e jornalísticos) em falar dele. Certo: o cara pode ter aprontado mil falcatruas, mas... será que foi só ele? Há uma perseguição implacável contra ele: o que se gastou e ainda se gasta de tinta na mídia impressa e de tempo na mídia falada com esse indivíduo extrapola o razoável. Por que essa implicância absoluta, total? Lembram o Sérgio Naya? Pois, é: sua obra foi muito mais meritória. No entanto, quem fala dele ainda? Só os coitados que perderam tudo e ainda não foram indenizados, porque a dona Justiça, que promete julgar os políticos que mudaram de partido em seis meses (seis meses!), leva 20 anos ou mais para julgar uma causa mais do que justa, de indenizar quem perdeu seus bens, sua casa, por causa de um safado. E sou eu, apenas, o idiota. Porque não quero ficar chutando cachorro morto.
Outro exemplo: a tal da CPMF. Claro, ninguém gosta de pagar imposto. Mas todo mundo quer mais hospitais, mais emprego, mais estradas etc. etc. etc. Mas, nem é por aí, se você está me entendendo. O que eu quero dizer mesmo é o seguinte: primeiro, inventaram o imposto sobre movimentação financeira para ser o imposto único. Lembram? Imposto único! Por quê? Porque é quase impossível sonegá-lo. E mais: é barato, muito barato, cobrá-lo. Não exige um monte de fiscais, de papelada, de guias etc. E vai direto, todo mês, para a conta do Governo. Para mim, idéia de gênio. Mas... alguém (e todo mundo sabe quem) aproveitou a idéia e criou a CPMF, para ajudar a salvar a saúde! Ótima intenção, por sinal. Porque é barato para gente normal: se você movimentar 100 mil reais num ano (e isso é dinheiro pra burro!), você paga 380 reais de CPMF. Portanto, quem movimenta muito paga mais, claro. Logo, os empresários odeiam a CPMF! Claro. Segundo: o dinheiro da CPMF está indo, sim, para a saúde (a maior parte), mas também cobre os gastos do Governo com o Bolsa Família (ex-Fome Zero), o maior programa de distribuição de renda do mundo; o programa que está tirando da miséria absoluta milhões de brasileiros; o programa que é, claro, um dos motivos da popularidade do Governo. Então, o que fazer? A oposição (que diz estar traduzindo os anseios do povo! Que povo?) quer acabar com a CPMF assim, vapt-vupt! Claro: cortando o financiamento dos programas sociais, o Governo vai para o vinagre. E milhões de brasileiros, também. E a oposicão ganha as eleições... e aumenta os impostos, como sempre aumentou, quando estava no governo. E sou eu, só, o idiota.
Democracia. O que é democracia? Se alguém tiver a resposta precisa, exata, sem aquela de governo do povo, para o povo, pelo povo, por favor, me diga. Porque eu acho o seguinte: cada país tem a democracia que o povo escolhe. Ou melhor, o governo que o povo tolera, ou não. Na China (que cresce vertiginosamente, mas também perigosamente, mas isso é outro assunto) funciona assim: por comitês escolhidos pelo povo que vão se afunilando, até a Assembléia Nacional do Partido (que é único), que escolhe os dirigentes. Para eles, funciona (haja vista que o chinês é pobre, mas não é miserável... e olhe que tem chinês pra burro, na China!). Quando o povo chinês estiver com o saco cheio do Partidão, vai, com certeza reagir. E mudar tudo. Problema deles. Afinal, um bilhão e duzentos milhões de seres humanos devem saber o que é melhor para eles. No entanto, a mídia brasileira tratou as eleições chinesas com o máximo de ironia possível. Como um absurdo. Como uma coisa impensável! Já o Bush, que fraudou as eleições nos Estados Unidos... deixa pra lá! Sou eu, mesmo, o idiota.
E por falar em Bush, vamos falar do Chávez! Viram como ele é tratado lá na terrinha do norte? Como ASS, ou seja, BUNDÃO ou BURRÃO. Está lá a propaganda: não compre gasolina desse idiota, desse bundão. Coisa de americano, claro. Afinal, pergunto, por que o Chávez incomoda tanto o Bush? E, incomodando o Bush (que tem a competência de um carniceiro), incomoda tanto a mídia brasileira? Se os venezuelanos votaram nele, em eleiçoes livres; se os venezuelanos aprovarem a reforma constitucional que ele propõe; se os venezuelanos... bem, já entenderam, não? Chávez é problema dos venezuelanos. Se ele nacionalizou a Petrobrás lá no país dele, eu pergunto: o que foi fazer a Petrobrás na Venezuela? Ganhar dinheiro como qualquer companhia multinacional. Aceitou os riscos do mercado e da ganância. Ou só eu, mesmo, é que sou o idiota de estar tentando pensar diferente?
E pra terminar: estão fazendo um puta esforço para trazerem o Cacciola para o Brasil. Aí, eu pergunto: pra quê? Trazem o ladrão, botam na cadeia e ele fica lá por quanto tempo, quanto? Alguns dias, até que algum ministro do Supremo (será o Marco Aurélio de Mello?) lhe conceda habeas corpus, e ele fuja de novo! Mas, vamos supor que ele seja condenado a, sei lá, oito anos de prisão (que é uma pena pesada pra burro, em termos de Brasil: afinal, assassino confesso e serial, aqui, cumpre, no máximo esses oito anos!): vai cumprir alguns meses e, então, algum grande magistrado, do alto de sua competência, usando todos os rigores de nossas leis complacentes, vai transformar a pena em... duzentas cestas básicas!
É. Sou eu, mesmo, o idiota! Só eu.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:09 PM
Segunda-feira, Outubro 15, 2007
A POLÊMICA DA VIOLÊNCIA
A violência está no ar das grandes cidades. E das pequenas, também. Um surto? Uma epidemia? Uma pandemia? Talvez. E, por isso, rende: reportagens, noticiários de televisão, artigos irados e indignados, depoimentos de vítimas, análises sociológicas, psicológicas, políticas e mais o que o diabo inventa.
Todo mundo fala, fala, e ninguém tem razão. Talvez, nem eu, quando resolvo meter minha colher nesse assunto. Mas, como cidadão, tenho, como todos os demais, direito à opinião.
Semana passada, um mauricinho da televisão, Luciano Huck, foi assaltado na Marginal, corredor mais do que movimentado, da cidade de São Paulo. Levaram-lhe o Rolex, depois de lhe encostarem um trabuco na cara. Motoqueiro.
Como é vip, teve tratamento vip da imprensa (leia-se: Folha de São Paulo), que publicou um artigo do moço, reclamando da falta de segurança, reclamando da violência, reclamando a presença, até, do famigerado comandante Nascimento, do filme Tropa de Elite, o hit do momento do cinema nacional. O tal major do filme é pelo dente por dente, olho por olho. E vingança pouca é bobagem.
Alguns dias depois, a mesma imprensa publicou um artigo de um rapper da periferia, o Ferréz, pseudônimo de Reginaldo Ferreira da Silva, também escritor. Nele, o moço tenta explicar o gesto do motoqueiro, falando da vida dura de um correria, eufemismo para assaltante de moto, vindo da periferia. É mais uma obra de ficção, mas contém uma visão do outro lado da moeda.
Estava armada a polêmica. Grosserias à parte, escreveu-se muita bobagem, atiçaram-se os ânimos e ambas as partes estão jogando muita merda no ventilador, ou melhor, uns na cara dos outros.
É o tipo de polêmica em que todo mundo grita, todo mundo xinga e acaba ninguém tendo razão nenhuma, porque a razão está longe de quem se intitula dono da verdade, ou está imbuído do preconceito mais profundo. E, no caso, há, sim, preconceito de ambas as partes.
Não sei se conseguirei levantar todos os argumentos para defender meu ponto de vista, que é complexo. Não sou dono da verdade, disse e repito. Por isso, tudo o que abaixo se segue tem apenas a finalidade de tentar (somente tentar) lançar uma nova visão, ou, quando muito, raciocinar sobre um tema cabeludo e tentar trazê-lo à razão e não à emoção.
Minha visão de homem vai um pouco além ou fica um pouco aquém de todas visões sociológicas, psicológicas e, principalmente, religiosas. A longa tradição do pensamento ocidental (e, acredito, grande parte do oriental, também) vê o homem como o anjo decaído, o que foi criado à imagem e semelhança de um deus. Esse pensamento contamina, por via da metafísica, todo a filosofia e toda tentativa de explicar o ser humano, seja qual for a ferramenta utilizada para isso.
O homem não é ser criado, nem anjo decaído. Traz em seus genes, em sua memória ancestral, toda a animalidade, toda a ferocidade, toda a luta pela sobrevivência que os milhões de anos da evolução da vida gravaram em sua mente, em seu corpo, em seu pensamento. Somos, sim, fruto dessa luta, árdua, sem tréguas, como caça e caçadores, como vítimas e como predadores. Não temos bondade nem maldade em nossos atos pregressos. Temos apenas a luta.
A evolução nos trouxe o pensamento lógico. O pensamento lógico permitiu-nos a comunicação, a mais complexa e determinante arte que o homem inventou, em todos os tempos. Através dela, nos civilizamos. Ou melhor, construímos pretensas civilizações. Mas não deixamos de ser o predador, porque sofisticamos nossos meios de sobrevivência. Temos um verniz civilizatório. Mas não somos civilizados.
Civilizar-se significa opor-se atrozmente contra nossos instintos vitais, de luta, de violência, de conquista. E não amamos uns aos outros: quando muito, aprendemos a nos respeitar. Porque não há amor na luta pela sobrevivência, nem ódio. Foram categorias que inventamos, quando criamos deuses, religiões e outras alegorias metafísicas, para explicar o que não entendíamos, para justificar o que não se podia justificar.
Se tomarmos a bíblia judaico-cristã, o mesmo deus do não matarás comete atrocidades terríveis ao longo das páginas desse livro. Exemplo? Sodoma e Gomorra. Cidades destruídas pela fúria desse deus. E basta ler poucas páginas, para encontrarmos recomendações de extinção do inimigo, a ferro e fogo, olho por olho, dente por dente.
Nem o Cristo, que pretensamente pregou o amor, escapa à ira, quando chicoteia os vendilhões do templo. Além disso, por mais filosófica e terna que seja considerada por muitos sua mensagem, no frigir dos ovos, é tão excludente, que só os que o seguem obterão o reino dos céus. O que leva a condenar ao inferno todos os demais. E o que é isso senão a suprema violência? (Eu sei que muitos me odiarão por isso. Paciência: dar a outra face é, mesmo, utopia).
Cultivamos a morte. Não a vida. Porque o deus que nós inventamos disse que esse mundo é apenas uma passagem. A verdadeira vida vem depois. E acreditamos nisso, como um truísmo. Nada, nem o fato de que nunca, em lugar algum, em nenhum momento, algum morto tenha voltado, nos faz abandonar essa crença, alimentada por lendas, por invenções mil, que jamais tiveram qualquer comprovação, prática ou científica. Acreditamos porque queremos acreditar. Ponto final.
Assim, a vida vale muito pouco, se não temos um pensamento humanista um pouco mais profundo que o raso das religiões e abstrações metafísicas. Somos criados, formados, deformados e conformados nesse tipo de crença. Fulano morreu, assassinado ou não: foi para o lado de lá, está nos braços de deus. Besteira! Só temos esta vida e mais nada. E temos que dar a ela todo o valor possível.
Não matarás. A proibição do deus passa por vazia, diante das barbaridades que em seu nome o homem já cometeu. E não adianta argumentar: todos acham que o amor é o sentimento que vai unir os homens e evitar que nos matemos. Outra ilusão. Amamos o próximo, quando o próximo está realmente próximo de nós: os parentes, os amigos... Os demais são inimigos, se invadem nosso território. Porque temos o instinto da sobrevivência, da defesa do território. Temos, ainda, dentro de nós, a fera a ser domada.
E aqui entramos na prática: qual a diferença entre o correria da periferia que mata para roubar um Rolex que lhe dará uma pretensa sobrevivência em seu território e um mauricinho dos Jardins que cheira todas e provoca brigas na balada elegante, regada a uísque e outras porcarias, alimentando a mesma cadeia de violência a que ele pensa estar imune? Há tanta violência num mundo quanto no outro. Às vezes, é só questão de oportunidade e motivação. O famoso cantor que atropela e mata inocentes com seu carrão importado, porque bebeu demais, é tão mano quanto o que usa o tresoitão para assustar o nosso apresentador de televisão.
A violência não é fruto da periferia, nem apenas das desigualdades sociais. Ela está em nosso íntimo, quando odiamos o garção que nos trouxe água com gás, quando pedíramos sem gás. Apenas controlamos, com o nível de civilização que alcançamos (e com muito esforço), os nossos instintos. E, se o meio permitisse que chutássemos a bunda desse garção, certamente o faríamos com gosto.
O caldo civilizatório da periferia abandonada, empobrecida, espoliada, sem oportunidades, é o mesmo caldo dos salões elegantes dos clubes dos bacanas. Muda apenas o verniz, o fino verniz que impede que os bacanas tomem de um revólver e saiam assaltando por aí (embora, às vezes, muitos o façam), mas não os impede que, através de seus negócios milionários, prejudiquem e, às vezes, condenem à miséria e à morte, milhões de outros seres humanos, quando estão em jogo os seus interesses econômicos.
Isso justifica a violência do mano contra o capitalista? Não. Claro que não. E talvez nem explique muito bem, mas nos ajuda a pensar que não estamos a salvo da violência, morando nos bairros elegantes ou na periferia, conduzindo carros importados à prova de bala, ou montados numa motocicleta a correr entre os automóveis das grandes avenidas, para entregar uma encomenda ou assaltar um mauricinho da tevê, que tem um relógio Rolex no pulso. Porque ela, a violência, está dentro de nós, nos escaninhos mais escondidos de nossa psique, moldada por pensamentos absurdos, por práticas milenares, por infinitas desculpas ou princípios que julgamos corretos e defendemos até à morte.
Não é violência o ato de um líder religioso respeitado mundialmente repudiar o uso da camisinha em relações sexuais, quando ela pode ser o único meio de evitar a contaminação pelo vírus da AIDS?
Não é violência transformar florestas em carvão ou pastagens para gado, sujar as águas dos rios com merda e produtos químicos, poluir o ar, destruir o planeta em que moramos, simplesmente porque ou é mais fácil fazer tudo isso ou porque visamos ao lucro imediato, apenas, sem pensar no futuro?
Não, não precisamos recordar guerras, chacinas, assassínios em massa, genocídios, torturas por motivos políticos, religiosos ou, simplesmente, porque não suportamos o diferente, o que não segue exatamente a nossa cartilha, o nosso pensamento. Não precisamos olhar dentro dos olhos da mãe que joga pela janela, no esgoto, a filha recém-nascida, para encontrar a violência. Também não precisamos recorrer aos morticínios programados por nazistas, fascistas, comunistas, ditadores ou falsos democratas de plantão nos escaninhos do poder, em todos os momentos da História do homem. Porque há milhares de formas de violência, algumas sutis, sim. Tão sutis que não nos damos conta dela, em nosso dia-a-dia, na esquina, no trânsito ou quando, sem razão ou motivo, respondemos com uma patada a uma pergunta inocente de nosso filho, de nosso cônjuge, só porque algo nos chateia. E tentamos justificá-la, à violência, seja ela explícita ou sutil, com mil formas de pensamento, esquecendo que toda violência gera mais violência.
O que mais me espanta, nesse episódio do assalto ao apresentador de televisão e a repercussão do caso, é que não se usa a razão, para buscar soluções ou, pelo menos, tentar entender o que está acontecendo. Radicalizam-se posições: de um lado, o assaltado a clamar por justiça, por vingança, por mais violência, como se a ele tivesse sido dada a condição de estar acima de tudo e de todos e nunca pudesse ter passado por tal experiência; do outro, o rapper a tentar justificar uma violência com os aspectos sociais de falta de oportunidade dos manos da periferia, como se todos os que se sentem explorados, espoliados e sem perspectivas se tornassem, obrigatoriamente, assaltantes e homicidas, num determinismo rasteiro e ultrapassado.
De um lado e de outro da contenda, politiza-se o debate, como se se pudesse culpabilizar o prefeito, o governador ou o presidente. Erguem-se mais muros e aprofunda-se o fosso da discriminação; criam-se, na mídia, nos debates, nas mentes, dois mundos, duas sociedades, com objetivos diferentes, com princípios diferentes. Não se busca na sociedade o que a sociedade, historicamente, criou. Esquece-se de que estamos todos no mesmo barco, estamos todos tentando a construção do país que desejamos para nós.
Não, não é o discurso babaca do somos todos irmãos: é a constatação de que, se queremos uma Nação, não podemos dividir essa Nação, esse povo, em dois povos, em dois pensamentos contraditórios, absolutamente irreconciliáveis, apenas porque há desavenças políticas e formas diferentes de encarar o mesmo problema. A democracia prescreve o respeito aos opositores, mas não dá aos opositores o direito de usurpar o poder a ferro e fogo, apenas por questiúnculas preconceituosas quanto à origem de quem está no poder. Democracia vive de disputas, de embates, de debates, mas principalmente de respeito. E não respeitar é violência, violência das bravas.
Temos de repensar se o tipo de sociedade que queremos é este, em que se pune exemplarmente o ladrãozinho de galinha e deixa soltos homicidas confessos. Se continuamos complacentes e continuamos a erguer monumentos aos heróis da guerra e da chacina, como se a violência, em determinadas circunstâncias, pudesse, de uma forma ou de outra, ser justificada.
Nada, repito, justifica a violência. Mas, para julgá-la e sobrepujá-la, temos ainda muito que discutir, muito que aprender, muito que mudar em nossos princípios, em nossa maneira de ver o mundo. Temos que aprender a respeitar o outro. Aprender a respeitar a vida. E, sobretudo, aprender a construir uma sociedade mais justa. E isso, definitivamente, como todos sabemos, é muito, muito difícil. Talvez uma utopia.
Mas é o único caminho que temos para suplantar a barbárie e construir uma civilização que tenha um verniz um pouco mais resistente.
Ou, não?
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:14 PM
Sábado, Outubro 06, 2007
ATEÍSMO E CIENTIFICISMO
Sou ateu, graças a todos os deuses. Ateu praticante. Só não tenho carteirinha, porque não acredito em ateus de carteirinha. Aliás, não acredito em ninguém que tenha carteiras de qualquer ordem, porque também repudio todas as ordens que existem por aí, sejam elas de médicos, advogados ou lixeiros. São medievais em seus princípios e corporativistas em suas práticas.
Além das ordens constituídas, há as ordens difusas. Por exemplo, a dos cientistas. Melhor dizendo, a ordem do cientificismo. A que pertencem inúmeros cientistas e pesquisadores, principalmente a partir do século XIX. Nem vou citar nomes, para não despertá-los de seus túmulos, mas vou citar uma de suas obras e suas conseqüências, para que ninguém as olvide.
A eugenia. Teve e ainda tem seguidores por aí. Tratava-se da raça pura. Ou melhor: do aprimoramento da raça humana, ou das raças. Porque partia do pressuposto de que a humanidade está dividida em raças e que essas podem e devem ser melhoradas. Assim, os considerados diferentes, porque geneticamente menos dotados, deviam ser proibidos de se reproduzir ou, até mesmo, eliminados. E diferentes podiam ser considerados desde a criança que nasce com alguma disfunção orgânica ou mental até os negros, os esquimós ou os bosquímanos. Dependia, portanto, de quem se tornava dono da ciência oficial. Todos sabem onde foi parar essa estupidez.
A ciência é a única esperança do homem, eu acredito. Porém, a ciência caminha por tentativa e erro. Como a própria natureza. Não há verdades absolutas. Aquilo que é dogma hoje, torna-se absurdo amanhã. O cientista trabalha com o possível e o provável. Principalmente com o provável, no sentido de que tudo tem de ser provado e comprovado, para se transformar em algum tipo de verdade.
Nunca foram, não são e jamais poderão ser considerados infalíveis qualquer cientista ou qualquer teoria científica. Porque (diz-se e repete-se, mas parece que não se leva a sério) tudo é... relativo!
Aplicar um sistema ou uma teoria à prática exige anos de experiência, de comprovação, de determinação. E usar, a torto e a direito, uma nova descoberta, por mais fantástica que ela pareça ser ou realmente seja, é sinal de arrogância, ignorância ou má intenção.
A bola da vez é a genética. Pode trazer ao homem conhecimentos inimagináveis, com a possibilidade de descobertas fantásticas. Possibilidades, eu repito. Já o seu uso para fins práticos está sujeito a manipulações e a objetivos os mais perigosos possíveis. Principalmente por políticos inescrupulosos e mal intencionados.
É o que está fazendo o senhor Sarkozy, presidente francês, ao defender uma lei que estabelece que só podem entrar no País, como imigrantes, pessoas que comprovarem geneticamente já terem parentes na França. Ou seja, reciclam-se os conceitos da eugenia, agora com o auxílio da genética, que não tem nada a ver com teorias racistas, exatamente ao contrário.
Isso é o que se chama manipulação de uma ciência (no caso, a genética), para construir mentiras e levar as pessoas a acreditarem que, por ser científica, uma metodologia racista possa ganhar foros de verdade ou de aceitabilidade. Ou de justiça.
Por isso, mesmo ateu e acreditando ter a ciência capacidade de fazer o homem superar a barbárie, não me rendo incondicionalmente a qualquer princípio científico, sem que seja provado e comprovado. E, principalmente, condeno o uso da ciência por aproveitadores de momento, sejam eles ditadores ou eleitos democraticamente, como o atual presidente francês, porque esses passam, mas a ciência fica. E evolui. A custas de tentativas e de erros. Porque não é infalível, como muitos homens se julgam.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:45 PM
Quarta-feira, Outubro 03, 2007
Já que ele se lançou candidato, ao sair da prisão, aqui vai o meu apoio.
PUTARIA POR PUTARIA, VAMOS VOTAR NO DONO DO BORDEL.
OSCAR MARONI PARA PREFEITO DE SÃO PAULO!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:29 PM
SE DEUS NÃO EXISTE, ENTÃO TUDO É PERMITIDO, SENHOR DOSTOEIVSKY?
Imagina-se (e ponha imaginação nisto!) que um mundo sem deus ou deuses seja um mundo sem lei, sem ética, sem freios. O próprio caos. E então, cita-se Dostoeivsky que, a despeito de sua genialidade, escreveu uma das frases mais idiotas da história.
É claro que não temos a experiência de um mundo sem deus, porque o deísmo, seja pagão, cristão, judeu, islâmico, budista ou de qualquer outra religião ou seita que a imaginação do homem inventou, continua arraigado à consciência humana, à força de um poderoso lobby, o mais poderoso que já se inventou.
Então, eu pergunto: quantas guerras já houve em nome de deus? Quantas chacinas? Quanto sofrimento? Quanto preconceito? Quanta divisão? Deus é a chave de quase todas as chamadas monstruosidades humanas. E quando pensamos em males, em guerras, em assassínios frios e cruéis, criamos a imagem no monstro.
O que é um monstro?
Tanto quanto deus, o monstro é uma criação humana. Simplesmente, não existe. Porque a natureza não produz monstruosidades. A natureza produz aquilo que é possível produzir e tudo o que é possível produzir apenas existe, e nada mais. Um bebê de duas cabeças, por exemplo, não é um monstro: é apenas um desvio da natureza. Um desvio perfeitamente natural, porque possível de acontecer. No entanto, como os desvios são mais ou menos raros, espantam-se os deístas e atribuem-nos ao diabo, o antagonista de deus. Ou ao próprio deus, como castigo por algo que os humanos fizeram.
E deus ganha, assim, aspectos terríveis de vingança, de crueldade. Um deus que se torna sacana, em seu habitat celestial, a rir-se das desgraças do homem, a vingar cada gesto, cada palavra, cada pecado que se façam contra qualquer uma de suas leis absurdas. Um deus com o jeito e a cara do pior dos mafiosos, a cobrar pedágio pela vida no mundo que ele criou.
Pois é esse deus que toma parte de cada minuto da vida dos homens crentes, como se fosse a erva daninha a infiltrar-se em cada brecha do pensamento, a exigir cada vez mais sacrifício de seus seguidores. Um deus onipresente, que a tudo vê, para cobrar e vingar-se.
Em seu nome, coisas terríveis são cometidas, porque ele o exige. Mas, a coisa mais terrível que a idéia de deus traz ao homem é fazê-lo acreditar-se criatura, ou seja, ser criado à imagem e semelhança desse deus cruel e estúpido. E, por isso, arroga-se o homem qualidades divinas: tem alma imortal e, desde que se arrependa, pode praticar todas as maldades possíveis, pois haverá sempre a recompensa de, ao morrer, participar do festim celestial, ao lado do tal deus transformado em agente do perdão e da bonomia. Esse pensamento, que não resiste à menor análise lógica, quanto mais à realidade da vida humana, insiste e persiste em toda a prática deísta, seja qual for a seita ou religião que o homem invente.
O pensamento da existência de deus torna, portanto, o homem o ser mais arrogante de todos os seres. Em vez de aceitar-se como elo de uma cadeia infinita de vida, elo absolutamente imperfeito e sujeito a mutações e evoluções, ele se coloca como o diferente, aquele que não está sujeito às leis da natureza. Por isso, ele pode tudo. E, podendo tudo, porque todas as suas ações estão sob a guarda e a observação de deus, que o julgará segundo critérios de que a divindade, quando devidamente adulada, a tudo perdoa, ao homem tudo se permite, o que inverte completamente a ilógica e absurda frase de Dostoievsky.
Porque existe deus, é que tudo é permitido.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:51 PM
Terça-feira, Outubro 02, 2007
POR QUE IMPORTAR BESTEIROL AMERICANO?
Não sou, exatamente, um fâ do play-wrighting americano, mas o admiro. Para quem não sabe, o chamado play-wrighting é uma técnica de roteiros, quase uma receita de bolo, em que o escritor (de cinema, de teatro, de sicoms) tem que seguir um esquema pré-determinado de reviravoltas no texto, de modo a manter a atenção do espectador. Quando o escritor tem talento, a coisa até funciona, porque se mantém um certo suspense. E talento eu quero dizer que, em cima da estrutura esquemática, o autor sabe contruir personagens, verticalizá-las e humanizá-las, sabe estruturar um conflito que não fique na superfície, domina, enfim, as técnicas da dramaturgia.
No entanto, não é o que se vê, na maioria dos casos. Exemplifico: assisti, ontem, à leitura de uma peça de Larry Shue (Nerd), americano que se notabilizou por um humor escrachado. Bem, a peça segue direitinho a receita americana do bolo, mas é rasa como um pires. Miguel Falabela não faria pior. É como estar assistindo a esses espetáculos grotescos que a televisão americana exporta aos borbotões, os chamados sitcoms, com suas situações grosseiras, preconceituosas, em que o humor (quando há) se sustenta apenas no texto e no histrionismo dos atores.
Larry Shue e suas pecinhas de humor televisivo não merecem os palcos brasileiros, porque é ver, aplaudir e esquecer. É o tipo de texto que não permanece na mente do espectador. Teatro comercial de baixo nível, que pode ser encontrado às baciadas aqui mesmo, sem precisar pagar royalties.
Fico pensando: por que importar merda, se a temos aqui aos borbotões? Fedor por fedor, fico com o nacional, bem mais barato.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 5:01 PM
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