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Segunda-feira, Agosto 27, 2007
quando se prende um pastor
na manhã sem notícias
que soe a bomba em todos os rádios, em todas as televisões,
sem primícias, sem arrotos premonitórios,
que soe em todas as estações de telemarking
ou estações meteorológicas,
que soem trombetas em bocas pretas de vomitórios,
que – dizer nunca é demais – se encham páginas de todos os jornais
e de todas as revistas,
que se convoquem os reservistas,
que se enfileirem todos os ateus,
mandem que cada um cumpra o que lhe mandou seu deus,
e que esse deus de cada um vá pra sempre embora, agora,
para a puta que o pariu,
que se encham balões de gás, que se case o velho com o rapaz,
a viúva com a saúva, e que se façam abortos como arrotos,
que cantem todas as aves como canta o tiziu,
caguem regras os contra-regras de todos os barcos afundados,
que o rio pare e o mar enegreça,
e que em cada cabeça surja um novo girassol,
que o mundo ria, ria muito, que role de gozo e de prazer,
que se toque fogo no paiol, que se molhem todos os biscoitos,
que todos os que vão nascer renasçam sem nenhuma dor,
que se anuncie em cada outdoor, com luzes de arrebol,
que a polícia enfim prendeu, na igreja da esquina,
como puta fazendo a vida e cafetão explorando puta,
a pastora mentirosa e seu marido corno, da igreja o pastor.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:26 PM
Quarta-feira, Agosto 22, 2007
BANHO DE LUA
Tem gente que leu o Cândido, de Voltaire, e se acha elite, intelectual, pensador. Tem gente que nunca leu porra nenhuma (desculpem o palavrão) e tem mais sabedoria que todos esses babacas reunidos.
E, mais uma vez, desculpem o desabafo. Mas, chamar de babaca a certa gente é elogio, como me chamou à atenção um sobrinho. Tudo bem, é que não quero exagerar. Portanto, fiquemos apenas com o babaca.
As pessoas que leram o Cândido e o utilizam para ironizar quem defende o Presidente Lula deviam ter um pouco mais de sutileza ou, pelo menos, de coerência. Já que da lógica essas pessoas fogem como o vampiro do alho.
Senão, vejamos.
Fomos (e talvez ainda o sejamos, a despeito do Lula) governados há quinhentos anos por essa gente. Capitães hereditários de um poder que não lhes pertence, mas que dele se apropriaram e não o querem largar nem com reza brava, fizeram desse País o que ele é hoje: um continente de desigualdades. Onde os pobres ficam, sempre, cada vez mais pobres e os ricos, bem esses se acham elites e para elas trabalham para aprofundar as diferenças.
Qualquer idiota que alcança a presidência de uma multinacional se arvora elite. E, capachos dos verdadeiros capitães do capitalismo selvagem, rosnam como pit-bulls na coleira, bem controlados, para apenas rosnarem e, de vez em quando, morderem de leve um ou outro desafeto de seus donos. Não percebem, na cegueira do podre poder, do falso poder do dinheiro, que não passam de insetos dentro da verdadeira máquina do poder, que mói e transforma em dólar o sangue, a pele e os ossos de um povo que, aparentemente, age como Cândido, e em tudo acredita.
Ledo engano. O povo não é bobo. Sabe muito bem, a partir de suas cozinhas de fogão a lenha, de suas lidas de cortador de cana durante quatorze ou dezesseis horas por dia, de suas lutas por melhores condições de trabalho e, quem sabe?, por um pouco mais das migalhas de croissants das mesas fartas das verdadeiras elites, que há muitos lobos vestidos de cordeiros. E esses, sim, os enganam às vezes, com o argumento de que têm seus falsos pézinhos delicados nas cozinhas, mas na verdade têm o cérebro a serviço de forças econômicas muito mais poderosas do que sonham seus sonhos de poder.
Pode-se enganar todo o povo uma parte do tempo; pode-se enganar uma parte do povo todo o tempo; mas não se pode enganar todo o povo todo o tempo. E isso não é retórica de presidente estadunidense, não. É verdade verdadeira que, de certa forma, freqüenta o imaginário do povo. Que nunca foi, não é e nunca será bobo.
Podem os poderosos de plantão e seus asseclas muito bem engravatados e remunerados colocar na rua os perdigueiros, os pit-bulls, os pastores alemães, que, um dia, o povo encontra, enfim, o seu caminho. Tortuoso e difícil, sempre, mas sabe que é o único caminho, aquele que não vai resolver, assim de repente, os seus problemas, que vêm de longe, muito longe, porém não pode deixar de ter alguma esperança, mesmo que os cães continuem latindo.
A falsa elite, tapete e capacho da selvageria econômica liberal, banha-se ao luar de falácias, de promessas nunca cumpridas para o povo, mas de benesses sempre bem articuladas para os poderosos, os verdadeiros, de plantão, e contenta-se com um cálice de Porto e com a viagem de férias a Cancún. São tolos, enfunados e vazios os seus argumentos contra um governo que, pela primeira vez, não compactua com sua weltanshauung de vassalos e vendidos. Por isso, latem. E latem alto, pois têm a seu dispor os companheiros engravatados das redações de jornais, revistas, rádios e televisões, que nem precisam do chicotinho dos donos para fazê-los uivar à lua e babar suas diatribes contra o povo e seu, enfim, governo.
Não são cândidas as massas que elegeram e reelegeram Lula, porque se o fossem, estariam ainda sob o jugo de partidos que apoiaram a ditadura e dela ainda são seus saudosos áugures. Também estariam ouvindo o canto de sereia de partidos que, pela tradição de seus principais dirigentes, deveriam estar na rua e não nas ante-salas dos poderosos, a esperar o momento de lamber-lhes as botas, para limpar com suas línguas viperinas qualquer vestígio do sangue do povo pisado e humilhado.
Não são cândidos os milhões que se erguem dos grotões profundos desses brasis, finalmente esperançosos de poderem tirar as algemas, os grilhões, a espada sobre a cabeça, através de programas sociais que lhes dão a sobrevivência de hoje para o trabalho e a luta de amanhã, quando, enfim, houver melhores condições de distribuição de renda e o capital deixar de ser a especulação selvagem das bolsas internacionais e for realmente aplicado para o desenvolvimento de seres humanos e o crescimento do País.
Cândidos são, sim, os que tomam banhos de lua ao som de harpejos de orquestras que tocam no baile onde eles são, apenas, lacaios de libré, babões e chorões, imbecis a fazer a corte a damas que os acolhem em seus leitos à noite, para desprezá-los pela manhã. Não são elites, apesar dos diplomas de honra e dos cursos em língua estrangeira: são apenas palhaços de perdidas ilusões, como na célebre canção, mas palhaços, simples palhaços, apesar de toda a beleza da metáfora.
E, como pallhaços, agora estão aí, mais uma vez a cumprir seu triste papel, a usar narizes de bola vermelha, como se precisassem, apenas porque seus interesses não foram imediatamente satisfeitos, como crianças birrentas a querer o brinquedo do outro, apenas para que o outro não brinque.
Ora, senhores, já brincaram muito. Foram sempre os donos do campo, da bola e do juiz. E nós, que somos agora os cândidos, na sua visão nefelibata, esperneávamos, sem nada obter. Porém, aceitávamos as regras da democracia sem arroubos totalitários, enquanto a arrogância de um presidente que comprou um mandato a mais, às custas da bancarrota da Nação, flanava pelas europas e pelos escalões internacionais do poder, sem nem se preocupar se o povo, o escaldado povo, estava à míngua ou não.
Cândido. Simplório. Estúpido. São esses e muitos outros os adjetivos que poderiam ser arrolados para o preconceito contra um homem de fala tosca, retirante nordestino, simples operário, que não teve a oportunidade de se sentar nos bancos da USP, lustrados por bundas mais do que pretensamente nobres, mas que agora ocupa a Presidência com o aval do povo e com a experiência do pó de mihares de quilômetros rodados a visitar a pobreza envergonhada, o lavrador que sobrevive à seca, o cidadão que anda de ônibus no trânsito engarrafado das grandes cidades, o operário, o motoqueiro, a dona de casa que faz milagre na cozinha esfumaçada pelo fogão a lenha, para dar o de-comer a meia dúzia de barrigudos chorões. Como se ele próprio não tivesse passado por todas essas experiências.
E há mais, senhores: esse homem, como um bom timoneiro, sabe conduzir o barco devagar, porque o nevoeiro tem quinhentos anos e não se dissipará a um simples rompante de sua vontade. E sabe, também, que não se governa apenas para uma parte do povo, como sempre o fizeram os capachos das elites até agora, porque, embora não tenha os lustros da escolaridade, tem a sabedoria dos estadistas. Sim, para seu arrepio, ele é um estadista. Que seu enfunado queridinho não era.
Seu ódio, senhores de nariz empinado, beira, sim, à estupidez do preconceito. Porém, pior do que o ódio, está a sua decepção: esperavam que o homem rude propusesse medidas drásticas, revolucionárias. Que transformasse, de repente, num caos a economia e os negócios. Que ele tentasse, iconoclasta, destruir o sistema, para implantar a golpes de martelo uma nova ordem. O que seria a senha esperada para o golpe, para que tomassem mais uma vez a tutela do povo, como sempre o fizeram.
Ma, não: o Presidente adotou a política da mudança de rumo do grande transatlântico com coordenadas que não o levassem aos abrolhos e o afundassem. Isso, porém, leva tempo e paciência. Mesmo com toda a cautela do governo, sabem muito bem os senhores que os tempos são outros, não exatamente aqueles que desejavam. Por isso, o esperneio. Por isso, o estrebuchar de entranhas. Por isso, o ranger de dentes. Por isso, o ladrar insistente às sombras que são apenas sombras, quando muito sustos e apreensões normais em tempos de democracia.
Democracia que, esta sim, exige respeito. Que os senhores, do alto de suas montanhas, à luz do luar de suas visões esquizofrênicas, nunca respeitaram muito. Porque ela, a Democracia, exige que se desça das nuvens e se pise na terra firme da vontade de vencer as desigualdades sociais, para que não tenhamos de engolir que o homem feliz é aquele que nem camisa possui. Que isso, sim, é pura estupidez.
Porque Cândido, sem dúvida, são os nefelibatas do poder e os que vivem à sua sombra, bebericando uísque made in Paraguai (que o bom e verdadeiro só nas festas exclusivas) e tomando, candidamente, seu banho de lua.
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:07 PM
Quinta-feira, Agosto 16, 2007
DE MÚSICAS E PASSARINHOS
Tem gente que não gosta, mas eu adoro Tetê Espindola. Porque gosto de vozes diferentes, poderosas. Descobri-a através de uma música e de Caetano Veloso. Num show, ela cantava: vai ouvir os passarinhos, que cantam mais do que eu (Sertaneja, de René Bittencourt, uma bela canção), e Caetano, na platéia comentou: que passarinho canta melhor que nada. Ouvi a música e o comentário, lido pelo locutor, que não disse o nome da cantora. Fiquei dias e semanas atrás daquela voz. Até que encontrei. E me apaixonei por Tetê Spindola. Uma passarinha, com certeza. Uma sabiá.
Há cantores que são assim: cantam mais que os passarinhos. Ou, quando cantam, o canto vem de cantos imemoriais, do fundo de florestas, de voçorocas, telúrico, como se a única razão de sua existência fosse cantar.
Lembro, por exemplo, um cantor que nos deixou tão cedo: Jessé. Não importa o repertório, não importa o que cantam cantores como Jessé (outro pássaro, talvez um uirapuru): importa a voz, a emoção, a paixão que colocam no cantar.
Tetê e Jessé são apenas exemplos. Há muitos assim e nomeá-los seria, embora um prazer, um desafio à memória e a consultas no Google. Não é o caso. Além de cantores, quero falar de canções. Canções que eu denomino de poderosas.
A expressão canção poderosa me veio ao baixar da Internet um disco de Nelson Gonçalves e topar com canções como Risque, de Ari Barroso, ou Da Cor do Pecado, de Bororó. Ou ainda a Dora, de Caymi. São marcantes. Ficam em nossa memória. Pela beleza de suas letras, pela melodia, por serem, mesmo, imortais.
Porém, quando os compassos do tango-canção (!) de Cândido das Neves (o Índio), Noite Cheia de Estrelas, encheram os alto-falantes de meu computador, senti, ali, o que é uma canção poderosa: mais do que o gosto pessoal, é música para não sair nunca mais dos ouvidos. Provoca algo mais do que o simples apreciar.
Pode ser uma percepção pessoal o arrepio causado por esse tipo de canção. E cada um pode ter uma lista de suas canções poderosas (e convido, mesmo, a quem por acaso me leia a fazer a sua), mas acredito que muitas delas freqüentarão todas as listas e ganharão a unanimidade dos apreciadores de música.
Porque não cabe em gêneros a classificação de poderosa para uma canção. Pode ser a Ode à Alegria de Beethoven ou a Canção dos Pescadores de Pérolas, de Bizet. Pode ser Ne me quitte pas, de Jacques Brel ou O Ébrio, de Vicente Celestino ou, ainda, Sukiaki, de Sakamoto.
São canções que nos espantam, por sua força dramática. Estejam, ou não, relacionadas a um filme, como Love is a many-splendored thing (no Brasil, Suplício de uma Saudade), canção de Fain e Webster, ou a uma peça teatral, como Mack the knife, de Brecht e Weill, ou apenas à memória emocional, a um acontecimento pessoal: são canções que nos deixam à mercê de seu encanto, de sua melodia, de sua letra.
Não é preciso gostar de uma canção poderosa, porque gosto é algo extremamente pessoal, mas é preciso respeitá-la.
É isso: uma canção poderosa é aquela que exige respeito. Como o canto do uirapuru, no meio da mata, a impor silêncio.
Quando Camões escreveu, nos Lusíadas: Cessa tudo o que antiga musa canta, que outro valor mais alto se alevanta, ele pensava no povo português, simbolizado pelo herói Vasco da Gama. Quando repito esses versos, também penso como Camões, mas, com sua licença, quero pensar também numa canção poderosa: uma canção que cala todas as outras, porque cala fundo no meu coração.
Como Noite Cheia de Estrelas e tantas outras... Não importa se cantada por Tetê Espindola, Jessé, Frank Sinatra ou por um amigo ao violão, no bar da esquina, uma canção poderosa tem, sempre, o meu respeito.
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:09 PM
Segunda-feira, Agosto 06, 2007
O POVO NÃO É BOBO
Ah! os velhos tempos das passeatas contra a ditadura, quando se saía às ruas em grandes e tensas manifestações! Quando, diante dos carros de reportagem da Tevê Globo, caprichava-se no slogan com toda a força da garganta: o povo não é bobo, fora a Rede Globo!
O tempo seguiu. E as ultimas grandes manifestações de protesto foram contra o presidente fujão, aquele que prometia caçar marajás, eleito ainda uma vez com a força da mídia (leia-se: Rede Globo). E o velho slogan assustou muito jornalista daquela emissora. Gritos do povo, gritos dos caras-pintadas, estudantes imberbes a estrear na política.
Seguiram-se os governos. Veio FHC. Mesmo fazendo um governo medíocre, mesmo tendo quebrado o Brasil, quase destruindo o plano de combate à inflação, para reeleger-se, só foi mesmo incomodado com os gritos radicais de fora FHC. Deles não compartilhei, sofrendo em silêncio as conseqüências da insanidade governamental. Tinha ele, FHC, sido eleito, apesar de tudo, com o voto de uma vasta maioria de brasileiros. Tinha o direito de governar, mesmo ouvindo de vez em quando os gritos desesperados da oposição (leia-se: PT).
Agora, Lula. Eleito e reeleito, não por obra e graça da Rede Globo, mas pela vontade de um povo que via, e ainda vê, em seu carisma de líder popular, o único presidente que governa de olho no povo. Seus programas sociais têm tirado da miséria absoluta milhões de brasileiros. Que têm recebido o peixe, sim, mas há também ações governamentais de médio e longo prazo para dar oportunidade a esses milhões de sofredores, com o controle responsável (agora, sim!) da inflação, com a criação de empregos, com o crescimento da economia. Há muito o que fazer para que o Brasil se recupere de quinhentos anos de espoliação: saneamento básico, infra-estrutura, educação, habitação, cultura... Mas os primeiros passos estão sendo dados. Apesar de toda a gritaria da oposição que tem, sim, o jus sperneandi, o direito de espernear e de gritar e de criticar.
Eu disse oposição, não a mídia capitaneada pela Globo, pelo Estadão, pela Folha, pela Veja e tantos outros que andam por aí a falar besteira.
O povo não é bobo.
No episódio do acidente do Airbus da TAM, a velha mídia a serviço dos golpistas de plantão teve um único propósito: debitar a Lula a morte de 199 pessoas. Não usaram o termo assassino apenas porque não houve tempo. Logo, as investigações revelaram outros motivos que não a famosa pista de Congonhas (não cuidada por Lula!?) como causa do acidente. Ficaram eles com cara de palhaço, roupa de palhaço, nariz de palhaço.
Não o povo. Que não é bobo.
Tanto não é bobo, que não compareceu às famosas passeatas organizadas pelo povinho de nariz espetado que quer ver a desgraça de Lula. Na Avenida Paulista, no dia 4, depois da chamada, com certeza com diário escolar e tudo, conseguiram reunir umas duas mil pessoas. Fiquei pensando em quanta bateria de celular foi gasta para convocar os amigos dorminhocos, na tarde fria de sábado.
Aliás, fiquei pensando também em outra coisa. Se se tivesse convocado uma manifestação a favor de Lula, e comparecessem cem mil pessoas, as manchetes do dia seguinte: fracassa manifestação a favor do governo!
É: o povo não é bobo.
Tanto não é bobo que, apesar de todo o esforço, de toda a tinta gasta para jogar nos braços de Lula o peso de 199 cadáveres, as pesquisas de opinião continuaram inabaláveis: o prestígio do Presidente não se alterou um milímetro sequer.
Aí, então, vêm os velhos analistas de sempre: é que somente oito por cento do povo anda de avião e, entre eles, a maioria é contra Lula. Ora, ora, ora, meus senhores, porque não vão lamber sabão, para limpar a língua?
Então, não contam os esforços do Governo para assistir milhões de pessoas, para tirá-las da miséria? O Presidente precisa, sim, governar para todos, mas o famoso caos do sistema aéreo é coisa que vem de longe, de muito longe, de anos e anos de desgoverno, de desperdício, de sacanagem, mesmo. E tem sido, a crise, muito bem mascarada pelos ganhos das companhias aéreas. E só veio à tona porque alguns controladores de vôo se sentiram ameaçados com as bobagens publicadas pela mídia (sempre os mesmos analistas a falar bobagens!), quando do choque entre o avião da Gol e o jatinho Legacy pilotado por dois estadunidenses. Bem articulada, bem orquestrada, bem comandada, a crise ganhou status de caos, pondo a nu uma realidade que vinha sendo empurrada pela barriga: por interesses muito, muito escusos.
Pressionado, Lula não teve outro jeito senão nomear um raposão para dar jeito no galinheiro. E lá vem o intrépido ex-ministro do Supremo, freqüentador mais ou menos assíduo do ninho tucano, para tentar alavancar uma carreira política que parecia destinada ao esquecimento. Mas, como até a campanha presidencial ainda correrá muita água por baixo da ponte, tenho certeza de que, dentro de poucos meses, a crise aérea perderá lugar nas manchetes e Jobim, o raposão, submergirá no dia-a-dia dos problemas da pasta da Defesa, que não são poucos.
Enquanto isso, na paulicéia, o inefável Kassab, em campanha explícita, mas não declarada, pela prefeitura em 2008, dá palpite em tudo e tira o maior proveito eleitoral do acidente da TAM, na maior cara dura.
Primeiro, vem a conversa de aumentar o aeroporto de Congonhas com a construção de um imenso minhocão no bairro do Jabaquara. E alguns engenheiros (de bunda de criança e cabeça de engenheiro...) até projetam a obra sobre milhares de casas, prédios, estabelecimentos comerciais, ruas e avenidas, como se esse mostrengo não pudesse deteriorar ainda mais a já deteriorada cidade de São Paulo. Provavelmente um minhocão mais feio e pernicioso do que aquele construído por outro inefável, o Maluf, sobre a Avenida São João.
Não satisfeito, o inefável conseguiu da TAM a doação do terreno onde caiu o avião, para ali construir uma praça e, com certeza, um memorial em homenagem às vítimas.
Ora, com todo o respeito que merecem as vítimas, os familiares, os amigos, isso é idéia de jerico. É explorar ao limite a dor das pessoas.
Está certo: foram 199 mortos, mas, por exemplo, um único exemplo, por que não se construiu um memorial para as vítimas do incêndio do Joelma, nos idos de 1974, com 179 mortos?
Está certo, foi o maior acidente aéreo do Brasil, mas, sejamos menos hipócritas, nenhuma tragédia coletiva provoca a consternação, a comoção que a mídia interesseira quis fazer crer. E interesseira em quê? Em jogar a culpa, toda a culpa, no governo! E isso é, simplesmente, exploração política e exploração barata.
É usar a dor de centenas de familiares e amigos das vítimas com interesse meramente político. E dessas pessoas, muitas nem perceberam que estavam sendo manipuladas. Vergonhosamente manipuladas. Isso é, simplesmente, nojento!
Sugiro, para o inefável Kassab, que na tal praça, que será construída com o dinheiro do povo, ele coloque, bem no centro, entre flores e arbustos, o seu próprio busto, bem torneado e bem pretinho, bem torradinho, como ficaram as pobres vítimas do acidente, mas feito de madeira, para que possamos nós, os paulistanos mais lúcidos, passar por lá de vez em quando para lustrá-lo com um pouco de óleo de peroba.
O povo não é bobo, como dizia Abraham Lincoln, porque embora se possa enganar todo o povo parte do tempo, ou enganar parte do povo todo o tempo, não se pode enganar todo o povo todo o tempo.
Globo, Veja, Estadão, Folha e todos os comentaristas especializados em bobagens que proliferam por aí: a lição está dada, o povo não foi em sua conversa, mudem o discurso, por favor. Ponham sua viola no saco e vão para o raio que os parta.
O povo não precisa de vocês, para tutelá-lo. Finalmente, está livre, livre para escolher, para votar, até mesmo contra o Lula, se achar que o Presidente não está correspondendo a seus interesses. Leiam, por favor, com isenção, com olho mais sábio do que têm tido até aqui, o que dizem as pesquisas.
E ouçam a voz do povo. Não é a voz de nenhum deus, é apenas a voz dos que nunca tiveram vez... e voz!
P.S.: Para o seu divertimento:
http://www.youtube.com:80/watch?v=Sv55JusfEC8
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:55 PM
Quinta-feira, Agosto 02, 2007
NO VENENO DA COBRA, OBSERVAÇÕES MORDENTES (OU MORDAZES)
SOBRE O ACIDENTE DO AIRBUS
Primeiro, esse avião, o Airbus, é useiro e vezeiro em acidentes de pouso e em outros, também. Basta pesquisar na Internet. Segundo, pista ruim não provoca acidente do tipo que aconteceu em Congonhas. Quando a pista é ruim (e a da Congonhas é quase péssima!), os pilotos passam sustos, derrapam às vezes, mas se viram. Porque já estão prevenidos. Terceiro, acidente de avião tem por causa, na maioria absoluta das vezes, falha humana: do piloto, da manutenção, do projeto e construção da aeronave, dos controladores de vôo... Outros fatores, como pista, condições meteorológicas, colisão com aves etc. contribuem muito pouco para derrubar avião. Não se pode, em nome da verdade e da lógica, querer isentar o piloto de falhas. Ele é humano, e assim como qualquer um de nós, pode cometer erros. Quando um médico erra, morre o paciente. Mas, quando um piloto erra, morrem os passageiros... e ele também! Por isso, não pode defender-se. E atribuir ao piloto, apenas, a causa de um acidente, por um erro, é sempre um fator simplificador. Se ele erra, é porque pode ter sido induzido ao erro, por inúmeros outros erros, de outras pessoas ou por por outros fatores. Enfim, só saberemos, mesmo, com todos os pingos nos is, o que aconteceu no acidente do Airbus da TAM, em Congonhas, ao espatifar-se e matar 199 pessoas, quando sair o último relatório dos profissionais da Aeronáutica. Daqui, talvez, um ano.
SOBRE CENSURA E CENSORES
Não há dúvida de que todo espetáculo público precisa ser cuidadoso quanto à proteção da infância e da juventude. Se não for, é necessário que algum órgão de defesa entre em ação e censure. Mas, aí é que começa um problema insolúvel: na censura. Quando se pensa em proteção da criança e do jovem, a mente suja (cristã, no caso do Ocidente) pensa imediatamente em sexo: é preciso proibir qualquer insinuação ao sexo; é preciso proibir nudez; é preciso proibir o contato físico mais íntimo etc. etc. etc. Ora, ora, ora: desde quando sexo é sujo? Só é sujo o que se comete contra a natureza: pedofilia, por exemplo! Isso deve ser combatido com todas as forças por uma sociedade que se julque ética. Mas sexo não deve ser objeto de preocupação exacerbada. Ok: não vamos defender nudez excessiva, nem sexo explícito na faixa nobre. Há algo chamado bom senso! E, também,algo chamado bom gosto. Querem ver um exemplo? Christiane Tricerri (que alguns até podem não conhecer), excelente atriz de nosso teatro, protagonizou uma espécie de frisson, em Nova Iorque, há alguns anos, ao apresentar-se nua numa peça de Shakespeare (Sonhos de uma noite de verão). Um espetáculo lindíssimo, um trabalho que nada tinha de pornográfico ou sujo. Mas, as mentes sujas dos censores do Orkut deletaram suas fotos, com a desculpa de que eram pornográficas, porque ela aparecia com os seios nus. Isso é a besteira que se comete, quando se lançam campanhas moralistas. É o moralismo mais rasteiro e imbecil que existe. Porque, para o moralista, toda forma de sexo é suja, é pornográfica. E, quase sempre, o moralista sexual esconde indivíduos frustrados ou tarados enrustidos. Desvia-se, assim, o foco para o sexo, enquanto deixam livres a violência, o preconceito, os comportamentos anti-éticos etc. Isso, sem falar dos discursos altamente perniciosos de apresentadores de televisão ou de rádio, que defendem abertamente a pena de morte, o mata-e-esfola, o linchamento, a famosa máxima do olho-por-olho-dente-por-dente, a violência policial etc. etc. etc. Enfim, o assunto é pra lá de cascudo e discutir censura sob a ótica dos interesses comerciais das emissoras só confunde e complica a questão.
TUCANAGENS (OU SACANAGENS) NA CDHU
O ex-quase-presidente eleito José Serra, hoje posando de governador de São Paulo (as patas aqui, mas o olho lá, na presidência!), resolveu reestruturar a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU). Isso seria uma ótima notícia, não fosse por um detalhe: essa reestruturação tem mais por objetivo esconder doze anos de roubalheira tucana nessa empresa estatal. Segundo o Ministério Público, um bilhão e duzentos milhões de reais (valor sem correção) foram desviados nesses anos de tucanato explícito. Isso só na tal CDHU. Enquanto isso, os deputados tucanos, que são maioria na Assembléia, engavetam, obstruem, impedem por todos os meios,qualquer tentativa de abertura de CPI. Uma vergonha que a mídia paulistana, dominada pelos emplumados bicudos, também prefere jogar para pequenas notas em páginas não lidas de suas publicações ou ignorar olimpicamente. O Palácio dos Bandeirantes joga para debaixo dos tapetes caros que forram os seus gabinetes silenciosos, lá no alto do Morumbi, bem distante dos problemas do povo.
ENQUANTO ISSO, NA PREFEITURA PAULISTANA...
O melífluo alcaide de São Paulo, Gilberto Kassab, do famigerado DEM (ou DEMO, de Democratas, ex-PFL, ex-ARENA, o que torna esse partido risível, amarga e ironicamente risível) faz o nome com medidas populistas (que podem até ser bem intencionadas, mas de intenção...), como o projeto Cidade Limpa. Esquece, no entanto, os problemas estruturais de uma cidade como São Paulo. Impedir propaganda nas ruas e deixar a cidade mais bonita é ótimo, mas isso é cosmético, é enganar trouxa. Dá, apenas, manchete de jornal e exposição na mídia. Enquanto isso, saneamento básico, educação, limpeza de córregos, favelas, pavimentação e tantos e tantos outros problemas são deixados para as calendas gregas... ou para depois das próximas eleições. Dar palpite em acidente aéreo ou querer derrubar o prédio recém-construído de um hotel (porque, presumivelmente, atrapalha pousos e decolagens do aeroporto de Congonhas) rendem mais manchetes de jornais e votos do que se precoupar com o povo da periferia... E há mais: sua idéia de jerico, de ampliar a pista de Congonhas, já obteve o aval de meia dúzia de imbecis que não entendem que São Paulo não quer o aumento desse aeroporto, não suporta mais esse porta-aviões, e que ele deve ter sua importância paulatinamente diminuída até que se torne apenas um parque infantil para soltar papagaios (ou pipas, ou pandorgas...). Se aumentarem a pista do aeroporto, como pretendem, por cima das casas e avenidas de Moema e Jabaquara, as companhias aéreas não terão pejo de, imediatemente, forçar as autoridades (como sempre fizeram) e logo, logo, teremos viões Jumbo passando sobre nossas cabeças, para pousar ali. Esse melífluo alcaide tem, mesmo, compromisso com o povo... o povo emplumado que prefere continuar pegando avião no quintal de nossas casas, para comodidade deles e ganho das empresas de aviação!
NÃO VI, NÃO VEREI... E ODIEI!
Parece que a história do filme é algo sobre um rato que se torna chef! Sim, um rato que se torna cozinheiro. Acho que sabem todos do que estou falando. Ora, se já não gosto de desenhos (animados ou não), peças de teatro ou filmes que tenham bichos como personagens (numa antropoformização absurda), porque isso leva a percepções erradas da natureza, pelas crianças, como vou classificar esse filmeco idiota, onde um rato se envolve com alimentação! Lamentável, profundamente lamentável esse tipo de coisa. Rato deve ser combatido, como transmissor de várias doenças. Rato deve ser combatido, como problema (grave!) de saúde pública. E agora vem um filmeco desses a transformar um rato em herói de uma cozinha! Isso, sim, é preocupante, por ser terrivelmente deseducativo. As pessoas crescem pensando que o ratinho doméstico (ou mesmo o de rua ou de esgoto) é inofensivo. Não é à toa que São Paulo (e, acredito, muitas outras cidades) estão infestadas desses roedores! E todos acham o filme lindo, maravilhoso e, pior, inocente! Bah!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:16 PM
Quarta-feira, Agosto 01, 2007
EU TAMBÉM CANSEI!
Sou o primeiro índio que viu branco surgindo na areia quente da Bahia. E, com o branco, a primeira mentira: um deus preso no madeiro que não tinha nada a ver com nossos rituais e nossa cultura.
E desde esse tempo, Pindorama, a Terra Brasilis, tornou-se terreno fértil para todo tipo de escroque, bandido, trambiqueiro e mentiroso. Cristão significava, simplesmente, homem que mente.
E foi esse branco mentiroso que ganhou os morros, as montanhas, os planaltos e as serras, para povoar de gente estranha essa terra de gente que comia gente, mas que era muito mais civilizada que todos esses brancos que não comem gente, apenas ferem, machucam, matam. Matam e não comem!
Pindorama cresceu, tornou-se um país. Mas um país de gente muito mesquinha. De gente que nem sempre sabe direito o que é o direito do outro. De gente que come mortadela e arrota peru. A gente chama essa gente de oligarquia.
Há gente assim em todos os cantos de Pindorama. Mas há um lugar no que os brancos chamam de Sudeste que tem mais, muito mais gente que não sabe que o diz. Gente que tem o nariz mais espetado que espinho de mandacaru.
Essa gente inventou uma taba imensa, a maior de todas. E nela pôs a viver, atraído pelo canto de sereia do apito das fábricas, apertado entre roncos e fumaça, um povo sofrido e dominado por essa gente de nariz espetado.
Porque é essa gente de nariz espetado que tem a maior parte da grana e tem a maior parte daquilo que os brancos chamam de mídia. No tempo do índio, a mídia era a batida no tronco e a pintura no corpo. Hoje é barulho no rádio, na televisão e muita letra pintada em jornal. Pois é a gente de nariz espetado que manda nessa tal de mídia.
E essa gente está cansada. Cansada de quê? – índio pergunta. Se é gente que tem dinheiro, que vive nas Europas, que tem casa em Miami, de que se cansou esse povinho de nariz espetado?
Pois esse povinho de nariz espetado cansou da democracia, né? Cansou de brincar de dar o poder aos que sempre foram cordeiros, que sempre disseram amém, como nas missas dos cristãos, né?
Disse esse povinho de nariz espetado: toma lá o poder, zé-povinho, e vamos ver o que vocês fazem com ele! Mas, cuidado, né? Que vamos ficar de olho!
E não é que o zé-povinho virou Zé-Povão? E provou que podia tomar, sim, conta da terra de Pindorama? Que podia, com paciência, consertar as porcariadas todas que o povinho de nariz espetado deixou de herança? E começou a dar cidadania (palavra que índio aprendeu e não esqueceu) a muito pobre, a muita gente que nem tinha onde cair morta?
E agora, esse povinho diz que cansou, e quer de volta o poder. Ou seja: nem é cerveja, mas o povinho de nariz espetado cansou da brincadeirinha de democracia e quer tomar de novo a bola do jogo! Nem que seja na marra, na intriga, na mentira. Fingem de bonzinhos e só querem o que acham que sempre foi deles: o poder.
E é essa gente de nariz empinado que acha que sou eu, índio e povo, o bobo da corte. O bobo que acredita em promessas, ou numa possível melhoria do nível de vida do povo. E sou bobo, sou bobo porque sou povo. E povo tem que ter um tiquinho de esperança. E é dessa esperança que o outro povo, o povo de nariz espetado, diz que cansou?
Ora, ora, ora! Quem está cansado sou eu, o índio que viu a primeira missa, o zé-povinho que não agüenta mais tanto embuste, tanta mentira, tanto nariz empinado que seja a ser preconceito. Preconceito contra um presidente que foi retirante, que comeu o pão que o diabo (das missas dos cristãos) amassou bem amassado e assou nos fornos das indústrias de automóvel, de geladeira, de televisão... Um presidente que não tem diploma, mas que conhece o zé-povinho que voltou nele.
E preconceito é crime, ó gentinha de nariz espetado!
Há por aí um emplumado ex-presidente, que foi o pior de todos os tempos, a arrotar conselhos de antanho, cheios de ranho, dando um banho de intolerância. E um serra-serra, serrador, a serrar a lógica com tamanha arrogância, que até parece verdade as mentiras que ele diz.
Aliás, mudar em verdade um monte de mentira, é coisa que essa gente de nariz espetado faz melhor. Com a ajuda de montes e montes de tinta pintada em folha de jornal.
Cansei desse povinho, desse povinho graúdo, não do povinho miúdo como os milhões e milhões que deram vivas aos novos tempos, tempos de mais dindim no bolso e menos inflação. Cansei das mentiras que eles inventam, das bobagens que eles falam, da demagogia barata a tirar proveito de desgraças alheias.
Cansei, sim. Há muito tempo. Desde os cabralinos que aqui vieram com seus barquinhos carregados de mentiras, eu estou cansado de ser roubado, espoliado, ferrado, na minha terra, na terra que eles roubaram, usaram, espoliaram, ferraram!
E, agora, eles vêm com essa? Cansaram de quê, santas? Por que, em vez desses gritinhos histéricos de dondocas de cabeleireiros em dias de chuva, não vão catar coquinho? Ou seja: com cerveja ou sem cerveja, vão trabalhar, cambada! Mas trabalhar duro, não ficar com essa de conspiração de palácio, não!
E quer saber mais? Deixem o povo gozar, pela primeira vez, o gostinho de fazer pelo País, ou seja, pelo zé-povinho como o índio que viu a primeira caravela, o que vocês, de nariz espetado, só fizeram por vocês mesmos!
Eu, hem? Haja!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:26 AM
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