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{Terça-feira, Junho 26, 2007}


ZOO STORY



ZOO STORY, de Albee, é uma da peças de teatro mais emblemáticas do século XX. Seu enredo é simples: Parque Central, Nova Iorque. Peter, homem culto, elegante, de classe média alta, lê calmamente um livro, numa tarde de domingo. Aproxima-se um homeless, Jerry. Puxa conversa e enreda o esquivo Peter num longo diálogo sobre a vida de ambos. Um jogo de revelações. Ao final, uma disputa ridícula pelo banco onde estão sentados leva o elegante Peter a assassinar o mendigo.

Não há, como no bom teatro (e esse é dos melhores), uma história. Assiste-se à luta entre o bem nascido e o pobre diabo. Os diálogos de Albee levam ao aprofundamento psicológico e à visão de mundo de ambos, sem maniqueísmo. Não há mocinho, não há bandido. Mas fica, ao final, a lição amarga (conforme me ensinou Chico de Assis): gente como Peter, culto, classe média alta, família constituída etc. mata gente como Jerry, um desajustado da vida, sem perspectivas, sem futuro, ou simplesmente, um marginal, no sentido de quem vive à margem da sociedade, ou sobrevive de suas migalhas.

Corta. Rio de Janeiro. Junho de 2007. Uma simples empregada doméstica num ponto de ônibus. Não chega a ser marginal, como Jerry, mas é gente pobre, que sobrevive das migalhas da sociedade bem nutrida, que mora em apartamentos bem construídos, em bairros nobres. De onde vêm cinco jovens. Estão num Gol preto e acabam de sair de uma rave, festa de gente rica ou quase isso, muito distante do universo da empregada doméstica Sirlei. São muito jovens, na faixa de vinte anos. Estudantes. Gente como Peter, ou da família de Peter.

Dois universos, duas visões de mundo, duas trajetórias de vida que se encontram numa manhã, num ponto de ônibus da Barra da Tijuca, bairro classe alta do Rio de Janeiro.

Muitos encontros assim já ocorreram. Tanto entre civilizações distintas (protestantes europeus e índios nos Estados Unidos; católicos europeus e índios na América do Sul), quanto entre pessoas. São encontros que ainda ocorrem: nas nossas casas, nas nossas ruas, nas escolas... Gente como Peter encontra gente como Jerry a todo instante.

E esses encontros provocam, sim, estranhamentos. Às vezes extremos, com a dizimação de um povo por outro. Ou com a morte do índio Galdino por jovens também classe média alta de Brasília. Como o assassínio do mendigo Jerry, na peça de Albee. Às vezes, apenas um estranhamento que leva, depois, ao encontro e ao entendimento pessoal.

Mas não naquele dia de junho de 2007. Os jovens do Gol preto não queriam encontro. Queriam confronto. Imbuídos não só de estranhamentos, mas também de preconceitos. A jovem doméstica, em suas vestes simples, num bairro elegante, podia ser... uma prostituta! Lixo humano. Que deve ser expulso do lugar onde vive gente como Peter. E gente como Peter pode, sim, assassinar gente como Jerry, o homeless, ou como Sirlei, a jovem doméstica.

E foi o que quase fizeram os cinco rapazes: agrediram, chutaram, bateram e roubaram a bolsa da mulher simples. Porque assim acham que deve agir gente como Peter, que mata, sim, gente como Jerry ou gente como a jovem doméstica, quando pensam estar defendendo o seu banco, o seu território, não importa se num parque em Nova Iorque ou na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

ZOO STORY, História de Zoológico. A peça de Albee fala de gente como eu, como você, como todos nós. De gente que precisa sair do zoológico. De gente que age por instintos muito, muito primitivos, como a defesa estúpida de territórios que não valem a pena ser defendidos.

Ou não será melhor soltar os bichos do zoológico e fecharmo-nos todos?

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:24 PM


{Segunda-feira, Junho 25, 2007}


POR QUE NÃO SE INDIGNAR!




Vou tentar ser curto e grosso. Não que o assunto não seja vasto: poderia escrever páginas e páginas. Mas, não vale a pena.



Primeiro, não estou indignado com o presidente do Senado. E não vou ficar por aí a estrebuchar contra ele. Tampouco a favor. Porque, simplesmente, não vai acontecer absolutamente nada.



Segundo, porque o julgamento no Senado, como aliás, também na Câmara, é um julgamento político, que não tem nada a ver com Justiça, como hoje mesmo ouvi de um senador do DEM, oposição, portanto. As cartas são mais do que marcadas. Político não vota contra político!



O único partido moralista e esperneador é o PSOL. São moscas, meras moscas, em torno da... você sabe do quê! E, também, não são tão confiáveis assim, não!... Talvez lhes falte oportunidade, sei lá. Esqueça o PSOL.



Todos os demais políticos que vêm à mídia falar contra o Presidente do Senado estão jogando para a arquibancada. No frigir dos ovos, o julgamento será por voto secreto e ele será absolvido por maioria absoluta de votos.



Talvez perca a presidência, numa troca que todos acharão justa. Para não desgastar demais a instituição. E dar alguma satisfação à sociedade... e aos eleitores, claro. E daqui a algum tempo ninguém se lembrará mais disso, pois a fila de denúncias contra políticos anda e já há gente esperando para ser a bola da vez.



Então, não vou ficar indignado. Não vou xingar os políticos, por isso. Porque a pequena bala que eu, cidadão, tenho na minha agulha é para espernear, sim, mas contra o estatuto da reeleição.



Enquanto houver reeleição, seja para que cargo for, haverá uma casta: a casta de políticos no poder, os que não largam a rapadura nem com reza brava. Os que são mais iguais do que os outros.



Por isso, em vez de estarem todos a espernear contra o Senador pulador de cerca e criador de gado virtual, que gastem os esperneios, a indignação, os xingamentos contra essa casta.



Como? Pressionando, lutando, gritando... pelo fim da reeleição de vereadores, prefeitos, deputados estaduais, governadores, deputados federais, senadores e presidente da república!



Acabar com a reeleição cairia como uma bomba de nêutrons: seria o fim dos políticos profissionais. Seria o fim da casta de políticos que se eternizam nos escaninhos do poder.



Isso não vai acabar com os ladrões, claro. Mas, pelo menos, não serão sempre os mesmos, os mesmos, os mesmos...

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 5:09 PM


{Quarta-feira, Junho 13, 2007}


ABRE AS ASAS SOBRE NÓS


Liberdade! Liberdade!

Pela liberdade, Guantánamo está lotada. Pela liberdade, fere-se, aleija-se e mata-se, na faixa de Gaza ou em Bagdá. Pela liberdade, destroem-se civilizações, detonam-se os sonhos de milhões de pessoas. Porque sempre foi assim: desde as primitivas civilizações até o império americano, há um cheiro de podre em todos os reinos.

Livres são os pássaros? Os peixes? Os bichos, enfim?

Não. Não há liberdade para nenhum ser vivo: são todos presos ao ecossistema em que vivem. Do qual sobrevivem. Ao qual dão a vida.

Assim também o homem: livre só o pensamento? Duvido. Fruto da genética, do meio, da educação recebida, das influências de milhões e milhões de outros seres, o pensamento humano forma-se em condicionamentos improváveis e impossíveis de se detectar.

Penso: para que eu exista, quantos bilhões de seres nasceram e morreram? Para que eu existisse, apenas. E quantos bilhões virão após mim?

Não. Não há liberdade. O que há é o desejo e o desespero de inventarmos conceitos metafísicos inexistentes, para atormentar ainda mais a já tão atormentada trajetória do homem sobre o planeta Terra.

Por que, então, continuamos a nos enganar? Por que, então, matamos e morremos por ilusões?

Não há respostas, ainda, para o desespero humano. Não há respostas, ainda, para as invenções metafísicas. Apenas continuamos a alimentá-las. Exemplo? Nunca, em tempo algum, provou-se a existência de alma, de vida além da vida. E, no entanto, atormenta-nos a idéia de que não sobreviveremos a nós mesmos. Não percebemos que somos um elo, um minúsculo mas fundamental elo de uma cadeia incomensurável de eventos que se chama vida.

Apenas isto: vida!

E só vivemos e continuaremos a viver enquanto houver, ainda vivo, um único exemplar de nossa espécie: que a eternidade pretendida está condicionada, portanto, a esse simples ato de existir.

E como, então, pretender ser livre? Se não temos o domínio de nossas próprias vidas, de nosso próprio pensamento, de nossas próprias ações?

Ah! Liberdade, liberdade!

Podes, sim, bater tuas asas sobre nós. Inúteis asas, impossível liberdade.

Porque, enquanto bates tuas asas, atochamos as prisões e amontoamos cadáveres pelos caminhos. Caminhos que os deuses nos prepararam por acreditar neles.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:20 PM


{Segunda-feira, Junho 04, 2007}


O HISTERISMO DE SEMPRE


O que é imprensa livre?

Essa é uma pergunta que me atormenta, a mim e a milhões de pessoas mundo afora.

O que é, afinal, liberdade de imprensa?

Uma das maiores conquistas de nossa incipiente civilização deve-se, é claro, à tecnologia desenvolvida por Gutenberg, no século XV: a capacidade de reprodução rápida de textos, que desembocou na possibilidade do livro, do jornal e... Bem, tudo o mais é história, e não é de história que pretendemos falar.

O que o genial alemão não podia nunca imaginar é que ele estaria propiciando, com sua invenção, um dos maiores dilemas do homem do terceiro milênio: a tal liberdade de imprensa. Que, afinal, significa liberdade de pensamento, um conceito moderno, muito moderno que, no entanto, está-se perdendo no tal mundo globalizado.

Moldada através de séculos de lutas, a imprensa mundial está hoje nas mãos de poderosos grupos e exerce, de forma explícita, cada vez mais, esse poder. Que não lhe foi outorgado.

Se um poder não é outorgado pelo povo, democraticamente, não pode ser considerado um poder democrático. Isso é de uma raciocínio primário e claríssimo. Mas, não é bem assim que funcionam as coisas nesse nosso mundo complicado.

Acontece que se criou em torno da mídia (hoje representada não só pela imprensa mas também por seus filhotes, como o rádio, a televisão, a Internet e sabe-se lá o que virá depois) a idéia de ser ela o avatar moderno, a incorruptível, a que está acima de todos os poderes, tendo, por isso, total e absoluta liberdade.

O problema é que a liberdade absoluta não é democrática. Nenhum cidadão, nenhuma instituição, numa real democracia, estão acima de todas as leis. Porque democracia pressupõe relações complexas de direito e deveres, entre os cidadãos, entre as instituições e entre cidadãos e instituições. Tudo o que é absoluto é contra a democracia.

A democracia é, ao mesmo tempo, um conceito em si mesmo e um conceito relativo. Por mais paradoxal que possa parecer. Sendo um conceito em mesmo, a democracia é uma utopia. Sendo relativa, ela se realiza, pelo menos parcialmente. Porque é o sistema democrático a mais complicada forma de se organizar uma sociedade.

Viver numa democracia é a coisa mais difícil que existe.

Num regime totalitário, as regras são claras. Não há nuances, não há discussões, não há opiniões. Prevalece uma só cor, uma só ordem, uma só lei. Na democracia, não: há nuances, há divisões, há oposições e muitas, muitas opiniões. Que divergem, que lutam para se sobrepor.

Na ditadura, prevalece o consenso dos poderosos. Na democracia, prevalece a voz da maioria, nem sempre consensual. No totalitarismo, só se respeita a voz do poder. Na democracia, deve-se respeitar a voz do poder e a voz das minorias.

Na ditadura, às vezes, discute-se como e nunca o quê nem o porquê. Na democracia, tudo se discute, tudo pode ser contraditado. E não há verdades absolutas. Na ditadura, os limites entre os cidadãos e entre as instituições são claros. Na democracia, são tênues e podem ser sempre negociados.

Por isso, viver na democracia é muito difícil. E nem todos estão preparados para isso.

E a imprensa, a mídia? Está preparada para exercer democraticamente o seu poder? Em teoria, podíamos até afirmar que sim: possui quadros preparados, mesclados os novos com os mais experientes; tem a seu dispor a informação, ou seja, pode reunir o máximo de dados possíveis sobre qualquer fato; tem os meios de coleta dessas informações, principalmente hoje, com os recursos da tecnologia, e dispõe dos meios de divulgá-las; tem, portanto, agilidade e competência técnica e cultural para prestar ao povo aquilo que é sua razão de ser: informar.

No entanto, como veículo de formação social, a mídia moderna, presa nas armadilhas do poder econômico, tornou-se apenas um circo colorido de diversão e diversidade, mas não de informação séria e confiável. Todo o arsenal de conhecimento e tecnologia serve apenas a um senhor: o dono do jornal, da rede de televisão, da revista, da emissora de rádio, do site na Internet.

O poder não se contenta nunca com o poder que tem. O poder quer sempre obter mais poder. E é o que move os grandes conglomerados midiáticos do século XXI.

Longe vão os dias em se tinha a pretensão de que a mídia fosse uma concessão do povo, a serviço do povo. Hoje, é concessão de governos a favor da busca ou da manutenção de interesses que consistem sempre em mais poder para os poderosos de plantão.

A comunicação social é que se tornou uma utopia, dentro da utópica democracia de que falamos acima. Aponte-me um jornalista isento e eu lhe mostrarei um desempregado. Ou um desiludido. E vendido. Ou comprado. Pela migalha de um salário de sobrevivência no fim do mês.

Trágico? Seria trágico, se não fosse verdade. E seria cômico, se não tivéssemos de ouvir e ler todos os dias as mesmas mentiras envoltas em verdades que nos contam os noticiários de televisão, os textos de jornais e revistas, as diatribes de locutores. Tudo tem seu preço e o preço da liberdade de imprensa tem sido o favor aos poderosos donos das grandes empresas de comunicação.

Uma falsa liberdade, que se diga com todas as letras.

Exemplo? Basta ler e ouvir tudo o que se publicou e tudo o que se falou sobre o episódio Governo Chávez x a Rede Caracas de Televisão, a RCTV.

E a situação é simples: a RCTV exerceu a liberdade de imprensa para ajudar a derrubar um presidente constitucionalmente eleito pela maioria. Portanto, goste-se ou não se goste de Chávez, ele foi eleito democraticamente. Ponto. Não podia, portanto, ser derrubado para se colocar no seu lugar quem quer que seja, principalmente um títere dos interesses da burguesia e da tal rede de televisão.

Ora, legalmente, na Venezuela, a tal rede de televisão é uma concessão pública. Como no Brasil: todos os meios de comunicação são concessões públicas. E deviam prestar contas ao público, ou seja, à sociedade. Mas, não nos iludamos. Porque lá como cá, essa história de comunicação social, ou seja, a serviço da comunidade, como um bem público, foi sempre letra morta. Até o que Chávez, cinco anos depois, novamente eleito presidente, resolveu, dentro da lei, não renovar a tal concessão. Por quê? Porque a tal RCTV continuou a pregar seu ideário golpista. Justo? Pelas leis, sim. Ético? Discutível, mas com boas possibilidades de que, diante do comportamento anti-ético da emissora, a razão possa estar com Chávez.

Tudo, portanto, dentro da lei. Podia-se resolver de outra maneira? Talvez. Com o perdão aos canalhas de sempre, como sempre se fez. E esperar, mais adiante, que a cobra, mais gorda e mais venenosa, desse o seu bote.

E aí, o que faz a grande mídia mundial, com raras exceções, e a brasileira, também com raras exceções? Execra o governo venezuelano, mentindo, distorcendo fatos, exercendo, enfim, a sua liberdade de, mais uma vez, servir à voz do dono, não aos interesses do povo, que precisava, sim, ser informado, mas com todas as versões possíveis do fato.

E se é assim agora, é porque foi sempre assim desde há muito tempo. Mentir, distorcer, dar apenas a versão conveniente dos fatos, tem sido o exercício cotidiano da tal liberdade de imprensa com que os nossos comentaristas, jornalistas, editorialistas e quejandos têm enchido nossos olhos e nossos ouvidos e, mais, nossas mentes, entorpecendo-nos com suas torpezas e vilanias.

Podia ficar aqui, por páginas e páginas, contando a história negra da liberdade de imprensa no Brasil, sem nem precisar ir muito longe na história, mas relatando fatos mais recentes, como a eleição do Collor, a cassação do deputado Ibsen Pinheiro, como... Mas, acho que todos sabem, mesmo que finjam não saber. Mesmo que olhem para o lado e finjam que esqueceram. Voltemo ao mote:

E então, o que é, mesmo, liberdade de imprensa?

Nâo, não tenho resposta a essa pergunta. Porque, diante de um fato tão cristalino como esse da rede de televisão venezuelana, quando o histerismo de nossa imprensa reflete mais uma vez a voz monocórdica dos donos das empresas de comunicação, posso dizer apenas que sei o que não é liberdade de imprensa.

E isso, confesso, é muito pouco, diante do fantástico legado que se transformou a invenção de Gutenberg. Enfim, se ainda prezamos a liberdade de pensar, que fique aqui registrado, pelo menos, o meu protesto, não a indignação, porque a indignação leva a atos impensados e de histerismos já está repleta até à boca a nossa paciência.



P.S.:

Leitura sugerida: o artigo de Gilson Caroni Filho, em Carta Maior ¿

http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id=3608






posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:00 PM


{Sexta-feira, Junho 01, 2007}


MAIS E MELHORES LIVROS E UMAS POUCAS DECEPÇÕES



Ler é a mais fantástica experiência do ser humano. Mesmo que se tenha ido à Lua ou alcançado as estrelas, somente a leitura pode transportar-nos ao infinito e fazer-nos viver incontáveis vidas e suas aventuras. Se a natureza dotou o cérebro humano para algo essencial, esse algo é a imaginação. E ler é levar a imaginação a potências inimagináveis.

Com uma arma na mão, o homem é uma besta. Com um livro, torna-se verdadeiramente humano.

O primeiro livro que li espontâneamente (não contam os livros de alfabetização ou lidos na escola) foi uma biografia de Dom Bosco. Nunca mais o esqueci. Despertou em mim a paixão pela verdade, através de tantas mentiras que contaram sobre a vida desse padre. Seus poderes extra-sensoriais me levaram a estudar religiões. E a Biblia foi lida do Gênese ao Apocalipse, ainda muito jovem. E o estudo das religiões me levou ao caminho lógico de quem busca a verdade: o ateísmo.

Aos catorze, na formatura do antigo ginásio, ganhei de meu padrinho uma obra-prima e a primeira decepção com a censura: Os Lusíadas. A princípío estranhei a numeração das estrofes: havia uma lacuna. Mais tarde, já na Faculdade de Letras, descobri: os padres da editora católica haviam suprimido, simplesmente, todo o canto IX, o banquete das ninfas, o encontro com as deusas nuas do paraíso imaginado por Camões como recompensa aos navegadores pela grande aventura.

A partir dos estudos de literatura, o melhor livro quase sempre era o que havia acabado de ler. Assim, mergulhei nos poetas, nos contistas, nos romancistas. E quando a poesia parecia esgotar-se, Portugal abria o baú de Pessoa. E quando o romance parecia ter chegado ao ápice, surgia um Rosa. E quando o conto parecia estrebuchar-se, caía-me nas mãos um J. J. Veiga.

Ainda hoje é um pouco assim. Com o tempo, a diversificação trouxe-me os robôs de Asimov e os pesadelos marcianos de Bradbury. Durrel me fez mergulhar na Alexandria de uma Quarteto que podia virar novela e não ter fim. Lawrence compensou as ninfas de Camões e a decepção da cena de entrega de Júlio Ribeiro. Miller desvendou o mistério e tornou normal o que era absurdo. Garcia Márquez abriu a cartola para os mágicos da América. E Galeano detonou o paraíso, para abrir veias que sangraram. E vieram tantos e tantos: Balzac le roi, Joyce the king, Cervantes el rey... Tantas eras, tantos momentos, tantas letras. Ah! os malditos, aqules que poucos leram e muitos comentaram! Também eles povoaram meus sonhos, minhas caminhadas, meus deslumbramentos.

Decepções? Poucas, na verdade. As maiores foram, sem dúvida, os chamados livros sagrados: a Bíblia e o Corão. Porque, mesmo os que tinham uma visão soturna da sociedade, mesmo os que se infiltravam na minha mente para tentar impor conservadorismos e quejandos, mesmos esses tiveram seu momento, abriram meus olhos. Para exemplificar uma decepção menor, o grande Saramago: fiquei pensando por que um ateu, como ele, se prestou a escrever uma bobagem como o Evangelho segundo Jesus Cristo? Queria o quê? Convencer-nos de que o Cristo é humano? Isso é dar lenha para a fogueira papista. Consegui, a duras penas, chegar à página cem. E aí empaquei. Joguei para o lado. Mas não dispenso outras tentativas com o português, não.

Enfim, ler de tudo, sempre. Porque ler é representar para nós mesmos todos os papéis que o imenso teatro da vida nos propõe. Não há, efetivamente, melhor função para nosso cérebro que viajar através dos mundos que povoam as páginas dos livros.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:20 PM

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