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{Terça-feira, Maio 29, 2007}


COISAS ESTRANHAS



1. Chávez e a RC TV:


A imprensa da direita está fazendo o seu trabalho com a competência de sempre: descendo o cacete no Hugo Chávez, porque ele não renovou a concessão pública à Rede Caracas de Televisão.

Não tenho muito simpatia pelo Chávez, não. Acho-o fanfarrão demais. E confuso. Seu projeto soa mais pessoal, de poder, do que realmente de defesa do povo venezuelano. Enfim, o problema é lá deles, de nuestros hermanos de Venezuela.

O que eu acho estranho é: a tal rede de televisão podia, sim, meter o bedelho na política, ter opiniões e ser contra o Chávez. Estava no direito dela. Mas, entrar em conluio com golpistas, para tentar derrubá-lo? Que eu saiba, Chávez pode ter jeito de ditador, falar e fazer coisas que parecem autoritárias, mas ele foi eleito democraticamente, em eleições livres e diretas. E tem apoio da maioria de seu povo, mesmo que essa maioria seja apertada, mas maioria apertada faz parte da tradição democrática.

E então: o que é mais anti-democrático? Tentar derrubar um governo legítimo ou não renovar uma concessão pública de direito de um estado democrático? E de acordo com a lei desse estado democrático?

E há mais uma coisinha: argumentam que Chávez devia ter retaliado a tal televisão na época do golpe. Ou seja: uma paulada podia, mas agir dentro da lei, não pode!


1. Veja, de novo:

Os meios justificam os fins. Pelo menos, para os idiotas da revistinha semanal do PSDB, a tal Veja. Em princípio, tudo o que ela publica ou é distorção dos fatos ou é mentira mesmo. Ou seja: a Veja não é cerveja, mas é sempre a mesma coisa. Sua função é azucrinar, mentir, delatar e denunciar sem provas.

Não acho que o senador Renan Calheiros, presidente do Senado, seja lá uma figura impoluta, acima de qualquer suspeita. Pode, até mesmo, ser um grande corrupto. Isso não importa. Porque não quero nem pretendo defendê-lo. Aliás, defender político no Brasil, quase sempre é passar atestado de burrice.

Mas há limites para a cara de pau, para a sacanagem. E o que estão fazendo com o senador é apenas isso: uma grande sacanagem. Usar aspectos íntimos, em que se envolve até mesmo uma criança e uma relação amorosa com a qual ninguém, absolutamente ninguém, a não ser as pessoas envolvidas, tem nada a ver com isso, para atacá-lo! Isso, sim, é sacanagem.

Podiam usar das calúnias de sempre, podiam publicar os indícios que quisessem sobre a vida pública do senador, mas nunca aspectos assim tão pessoais de sua vida. Em briga de marido e mulher, já diziam os antigos, ninguém mete a colher. Em encrenca de filhos e amantes, então, só mesmo a cara de pau dos idiotas da Veja, que não têm limites para suas safadezas.

Mesmo que tenham razão, esses idiotas, fico com uma pulga atrás da orelha: lembram o caso do Ibsen Pinheiro? Fizeram, os mesmos cretinos, um grande estardalhaço em torno de um cheque e, no final, no frigir dos ovos, foi provado que o então deputado não tinha absolutamente nada a ver com aquilo. Era inocente. Dez anos de exílio político amargou Ibsen Pinheiro, por conta da tal revistinha.

E então? Não é hora de a imprensa, a mídia, os comentaristas políticos porem as barbas de molho contra as denúncias da tal revistinha? Afinal, cautela nunca faz mal a ninguém. Se o senador tiver culpa, a Justiça saberá condená-lo, não a imprensa, não a mídia, não os comentaristas políticos, que não têm procuração nem direito de condenar a quem quer que seja. Principalmente sob a influência da tradição de mentiras deslavadas da tal revistinha semanal.

Presunção de inocência é um dispositivo legal. E, parece, esquecido.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:43 PM


{Domingo, Maio 27, 2007}


SOBRE ELITES E ZELITES


Aproprio-me do termo irônico com que muitos jornalistas, comentaristas, articulistas e outros que se acreditam pertencer às elites usam para denegrir uma certa esquerda meio burrinha que vive gritando contra as elites do País, como se isso fosse le dernier cri du monde, para tecer alguns comentários sobre o que eu acho que são, verdadeiramente, as elites.


Para essa esquerda, as elites são constituídas de todos aqueles que não têm as mesmas posses que eles, ou seja, aqueles que são um pouco mais ricos. Os que freqüentam faculdades (especialmente públicas!), compram em lojas de shopping, têm carro ou carros, viajam de vez em quando (para lugares turísticos do Brasil ou para o exterior), têm casa própria e bom emprego. E, claro, acesso a todos os bens básicos de saneamento e de condições de higiene, saúde e bem-estar.

O engraçado é que muita gente que se acha nessa situação também se considera elite. Como se possuir alguns bens (muitas vezes ganhos com muito trabalho e/ou talento) credenciasse a quem quer que seja a auto-intular-se elite.

Ora, meus amigos, é tanto fruto da nossas iníquas desigualdades o indivíduo não ter condições básicas de sobrevivência, como casa com esgoto e água encanada, acesso a bens como escola, saúde pública, transporte e, principalmente, um emprego decente, razoavelmente bem remunerado, o suficiente para ter umas férias decentes com sua família, quanto uma porcentagem da população alcançar a condição descrita no segundo parágrafo desse texto.

Vou um pouco adiante: essa desigualdade fez que se criassem cidadãos de várias classes. Isso, até certo ponto, não é ainda o pior dos mundos. Porque desigualdades sempre haverá. O que é tenebroso, em nossa sociedade, é o fosso entre essas classes. Enquanto uns têm ou podem ter de tudo, outros não têm absolutamente nada. O estreitamento das diferenças, ou seja, o célebre nem tanto ao mar, nem tanto à terra, constitui uma utopia, para a maioria das pessoas. Então, os que nada possuem acham que os têm muito (na sua concepção) formam as elites. E esses, coitados, a classe um pouco mais privilegiada, mas também trabalhadora, constituída em sua maioria por profissionais liberais, também assim se intitulam.


Ledo engano. São, quando muito, elites intelectuais (termo um tanto cabotino, aliás), formadores de opinião e quejandos. Ou, apenas, as classes mais favorecidas.

Porque há que se definir exatamente o que são exatamente elites. Para que brademos e exorcizemos a classe certa e não incorramos no erro de achar que, só por morar numa casa enorme, com cachorro e carros na garagem, o nosso vizinho pertence às famosas zelites. Erramos o alvo e deixamos, assim, as verdadeiras elites a salvo das críticas. E mais: aprofundamos o fosso da desigualdade, perdendo aliados preciosos, que são exatamente essas pessoas mais ricas, mais razoavelmente poderosas, que se voltam contra todos os que as ameaçam, porque, por uma questão até mesmo de vaidade se consideram elites. E tornam-se nossos inimigos, esses formadores de opinião. Por miopia perdemos aliados que têm acesso aos meios de comunicação, jogando-os nos braços dos conservadores, bois-de-piranha das verdadeiras elites que, a bordo de seus iates de luxo, do alto de suas mansões em cidades perdidas nos Alpes ou nos mares do sul, zombam de todos nós, pobre idiotas a bradar inutilmente.

Sim, porque constituem as verdadeiras elites não o jornalista, o médico ou o executivo bem sucedidos, mas os capitães-de-indústria, os banqueiros, os donos de metades de cidades, latifundiários e agro-negociantes que só se deslocam a bordo de helicópteros e jatinhos poderosos. São os que freqüentam as altas rodas internacionais e as periferias (como devem odiar esse nome!) do poder, não como personagens principais (porque odeiam publicidade: seus nomes nem em colunas sociais costumam aparecer!), mas como os verdadeiros donos ocultos do poder. São os que têm acesso direto a presidentes, ministros e mandatários de países que interessam a seus negócios. São, enfim, os donos de oitenta ou mais por cento dos PIBs de nações emergentes e de uma grande, imensa, porcentagem da riqueza de nações ricas. E constituem apenas dois ou três, quando muito cinco, por cento da população de um País como o Brasil. Esses são e constituem a verdadeira elite.

Não têm ideologia, essas oligarquias. Cooptam e usam o poder do momento, sabedores que são de que todo poder é temporário, ao contrário de suas fortunas, seus negócios e interesses. O seu trabalho consiste apenas em tomar decisões, que custam, na maioria das vezes, o destino de milhões de pessoas. Mas, não são frios ou maldosos, como costumamos pensar que são, ou furibundos e mal humorados, como os retratam os clichês cinematográficos e televisivos ou a literatura barata: ao contrário, são gentis e generosos com funcionários e agregados. Escondem muito bem suas emoções, porque sabem que suas decisões são estratégicas e não têm (nem podem ter) nenhum controle sobre suas conseqüências: fazem o que precisa ser feito. Apenas isso, nada mais.

Têm famílias bem constituídas, com prole numerosa e numerosos irmãos, primos etc., para poderem escolher criteriosamente os seus sucessores. O escolhido é, normalmente, o nerd da família, aquele que aprende desde cedo o caminho das pedras. Os demais vivem no ócio. Alguns até trabalham. No mais, têm a oportunidade de estudar nas melhores escolas, viajar pelo mundo, visitar museus, assistir a concertos e participar de eventos exclusivos em todos os terrenos das atividades humanas. No Brasil, no entanto, esses filhos das verdadeiras elites vivem o dolce far niente, nada produzindo de útil. Podiam, por exemplo, dedicar-se às artes (como muitos escritores, poetas, pintores etc dos países ricos) e produzir obras que contribuíssem para a cultura do País. Ou às ciências. Mas, nada. Tornam-se, quando muito, mecenas ou divulgadores. O que é pouco, muito pouco pelo tanto de experiência, conhecimento e estudo que podem adquirir. Por isso, dizemos que são muito burras as nossas elites, embora sejamos nós os estúpidos, porque a eles só interessa mesmo o poder.

Assim, para um cidadão declarar-se elite, ou, até mesmo, imaginar num sonho de uma noite de verão que pertence às elites, precisa, esse cidadão, além de tudo o que dissemos acima, possuir um nome que seja o carimbo para a abertura de portas, sejam elas do poder ou da sociedade; de um nome que, ao simples enunciado, faz que lacaios de libré estendam tapetes persas de veludo e mãos enluvadas os conduzam acima das multidões e dos dissabores do dia-a-dia.

E são essas as elites verdadeiras, as que erguem e destroem coisas belas, no dizer de Caetano; são essas as que deveriam constituir o alvo de nossas críticas, porque comem a nossa carne e roem nosso osso sem nenhum escrúpulo moral, sendo, no entanto, alvo de admiração e temor por parte de todos. São essas as elites que comandam nossas mentes, nosso destino, nossa vida. E são elas que, a seu bel prazer, vendem e compram tudo isso e mais a nossa cidade, o nosso estado, o nosso país.

Não, não pertence às elites o cidadão que conseguiu suas posses (o carro, a casa ou o barco) e o acesso aos bens de consumo mais elaborados, à escolas mais sofisticadas e, até mesmo, à mídia, a quem impõem suas opiniões, com o trabalho ou o talento. Esses, quando muito, pertencem a uma classe social denominada A ou qualquer coisa assim, perfeitamente aferida por pesquisadores do IBGE e alcançadas por fiscais do Imposto de Renda. Ou os chamados mais favorecidos pela sorte, pelo talento, por mil e um motivos, como a fortuna razoável dos pais e até mesmo um velho nome de família, decadente mas ainda digno de fascínio. Apenas falsas elites, orgulhosos e loucos pela mídia, pavões de gosto e opiniões, mas apenas isso, zelites e nada mais.

Porque a verdadeira elite está muito, muito acima disso tudo e a seus cidadãos, não os alcançam nem o Imposto de Renda, nem os tais pesquisadores. Muito menos nós, com nossas críticas, nossos gritos, nossa revolta que, quando muito, irritam as zelites, não as elites.


posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 7:12 PM


{Quarta-feira, Maio 23, 2007}



VALSA DE UMA CIDADE

Vento do mar e o meu rosto no sol a queimar, queimar
Calçada cheia de gente a passar e a me ver passar
Rio de Janeiro, gosto de você
Gosto de quem gosta
Deste céu, deste mar, desta gente feliz


(Ismael Netto e Antônio Maria)


Rio de Janeiro, cidade do samba. Mas, para iniciar esse texto, escolhi uma valsa. Acho que representa melhor o que sentíamos em relação à mais bela cidade do mundo, há muitos anos. Uma gente feliz. Um povo moreno que recebia de braços abertos o turista, o imigrante, o visitante apressado. As praias lotadas. O morro, ali perto, a cantar sambas que celebravam a vida, o amor, o sorriso e a flor.

Uma cidade que deu ao País poetas, escritores, pintores, atores, atrizes, dramaturgos e... sambistas. Esses, os seres talvez mais dóceis e belos da extensa galeria de famosos cariocas. Como não se encantar com Pixinguinha, Donga, Cartola... Ah, são tantos, que uma lista seria quase impossível. Essa negritude alegre e talentosa, verdadeiros ícones de nossa cultura.

Como não amar uma cidade como o Rio de Janeiro? Estavam lá as mais belas praias, as mais belas paisagens, os contornos sensuais de morros, pedras, areias, águas. E um povo feliz. A batida do samba embalada na valsa do movimento das ondas de Copacabana. Como não amar uma cidade como o Rio de Janeiro?!

Mas... o tempo passou, o mundo mudou, a gente feliz entristeceu. Em vez da valsa das ondas, os arrastões de moleques sujos descidos dos morros para atacar o turista desavisado. Em vez do samba de Cartola, o matraquear de metralhadoras e fuzis, as balas perdidas, o desespero. Violência.

O sentimento de paixão pela cidade mais bela do mundo transformou-se em medo, em rejeição. E o Rio de Janeiro se tornou a cidade-símbolo da violência que ela tem em si, sem dúvida, mas que não é apenas de seus morros, de sua gente outrora feliz e agora em guerra permanente entre morro e cidade, entre os lá de cima e os cá de baixo. Há um estado de violência no País. Há um estado de violência no mundo.

Os catastrofistas radicais pedem medidas fortes. Cadeia. Pena de morte. E preludiam um mundo ainda mais miserável com o domínio dos miseráveis. E fazem sociologia de botequim pé-sujo e filosofia de porta de banheiro. Buscam bodes expiatórios. Praguejam contra as instituições e apregoam a luta de classes.

Complicado, muito complicado, buscar as causas da violência do Rio de Janeiro e, por extensão, da violência que grassa pelo País, pelo mundo, em busca de soluções que não passem, necessariamente, por gritos histéricos e análises imediatistas.

Há fatores históricos muito profundos, que não se resolverão por decreto ou por vontade de quem quer que seja, por mais poderosa que fosse essa vontade. Por mais que apontemos as causas, que são muitas, estaremos sempre arranhando a raiz do problema. Teríamos que recontar a história do homem e, impossibilidade das impossibilidades, mudar sua trajetória histórica. Criar uma nova civilização. Com paradigmas diferentes daqueles herdados dos gregos, dos romanos, dos cristãos. Um novo homem, enfim. Ou seja, a maior de todas as utopias.

Olhamos o belo, o magnífico esplendor de luzes, cores e sons à nossa volta e não nos damos conta do histórico de violência que enaltecemos há milhares de anos. Vemos os resultados e não atentamos para os meios usados para alcançar esses resultados.

A democracia grega, enaltecida e modelar, não mostra a face de terror, medo e selvageria de uma sociedade escravista e classista. O império romano foi obtido por combates e conquistas as mais sangrentas da história da humanidade. E exaltamos seus heróis como ídolos pop de uma pretensa beleza da violência.

Romanos mataram cristãos a rodo, mas a imposição da crença do deus do madeiro custou à humanidade desse lado do mundo o sangue de milhões de seres humanos, em batalhas de conquistas ou em fogueiras inquisitoriais. No entanto, perdoamos aos cristãos sua barbárie. E cultuamos seus mandatários como representantes de um deus que se diz dono de todos os açougues que o homens já inventaram para matar uns aos outros.

E erguemos monumentos aos guerreiros assassinos como personagens exemplares. E enaltecemos as obras literárias que descrevem com minúcias de autópsia cada ato selvagem em campos de incontáveis batalhas. Baixamos nossas cabeças para a passagem de mísseis criminosos a preparar a invasão e destruição de nações e povos, sem que qualquer lágrima, de protesto ou de pena, nos corra pelo rosto.

E, no entanto, praguejamos contra a violência, com suposições e engodos que só acirram o medo e incrementam sua indústria; com sofismas de lutas de classes, como se o homem precisasse de mais lenha na sua fogueira de sangue; com condenações histéricas, como se não tivéssemos nada com isso e só quiséssemos fumar nosso fuminho em paz ou injetar sem qualquer incômodo a cocaína nossa de cada dia, como cidadãos que pagam seus impostos e nada mais.

Então, praguejamos, inventamos soluções, desesperamo-nos.

Enquanto isso, o Rio de Janeiro continua lindo, com suas praias, suas montanhas de recortes sensuais. E seu povo infeliz, e desesperado.

Ah! Rio de Janeiro! Como gosto de você! Como gosto dessa gente a passar, a ver o mar, a cantar uma valsa ou batucar um samba! E como gostaria que tudo isso que cantam os seus poetas fosse verdade: uma cidade inteira a cantar, a dançar, a sonhar...

E, claro, um País com menos cretinos.

E, talvez, quem sabe, também uma humanidade menos violenta?

Hélas!

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:08 PM


{Sexta-feira, Maio 18, 2007}


COLECIONADOR



A raça humana sobreviveu graças à catança. Aprendeu a coletar na natureza o que precisava para comer, vestir-se, divertir-se, talvez, e até fazer sexo. Quem não tem na memória a cena clássica (e idiota) do homem das cavernas puxando pelos cabelos a mulher das cavernas? De tanto coletar, passou o ser humano a colecionar.

Primeiro (quem sabe?), um dente de tigre, para coisa nenhuma (era só bonito e nasceu a arte); depois, uma semente (que estava viva, brotou e nasceu a agricultura); até que, um dia, de tanto colecionar coisas, construiu a civilização.

Nós, os seres ditos civilizados do século vinte e um, somos colecionadores por excelência. Inventamos até mesmo um sistema econômico para justificar essa ânsia. Atulhamos nossas casas e nossas vidas de tudo o que há por aí. E usamos, para isso, desde as velhas astúcias do furto, passando pela violência do saque, até o civilizado ato de simplesmente comprar, mesmo que esse ato implique a miséria de milhares de outros seres humanos. Mas, aí já é sociologia de botequim. E não é disso que eu quero falar.

Colecionador. O ser humano colecionador, o objetivo dessas linhas. E esse ser humano que junta coisas por aí também junta e ajunta lembranças e sentimentos e amizades e tantas e tantas outras imponderabilidades, que se torna, com o passar do tempo, um imenso campo de experiências sensoriais.

Nosso cérebro, poderoso processador, mais vivaz que qualquer Pentium que se invente, coleciona e armazena cuidadosamente a vida que vamos vivendo sem perceber. E então, quando chegamos à idade da percepção, quando só nos restam as lembranças, pois o ator está prestes a receber os aplausos e fechar as cortinas, acordamos para o fato de que nos transformamos numa vasta, vastíssima, usina colecionadora de sensações.

Lembramos o perfume de uma flor e associamos essa lembrança à mulher amada. Ou o cheiro do café, coado em fogão de lenha, traz de volta a infância, os avós e pais que já não fazem mais parte de nossa platéia, mas, vivos ainda em nossa mente, espionam-nos das coxias. E há tanta gente nas coxias!

Lembramos o sabor de um prato de feijão com torresmo, para ressuscitar aquele momento especial das férias em uma cidade longínqua, quando sentimos falta exatamente desse prosaico feijão com torresmo, ao experimentar as iguarias exóticas (e caras) com que premiamos uma promoção, um sucesso, um ponto alto do espetáculo de nossas vidas. E haja, ainda, muitos aplausos!

Lembramos aquela canção de lirismo esparramado, para associá-la aos folguedos de um baile, às paqueras inconseqüentes, ao viver despreocupado de uma juventude que só sabia de si, para aproveitar o descuido da platéia e realizar peripécias pirotécnicas de que muito riremos um dia. E desdenhamos os aplausos!

Lembramos o primeiro alumbramento de uns olhos ardentes, de um rosto risonho, a sombra numa janela, a marca de sapato na calçada, a luz, enfim, de instantes de poesia e encanto, quando descobrimos o outro ser humano que nos pode complementar, no sonho e na ilusão de que o teatro da vida é infinito. E nem nos preocupamos se há um ou outro holofote apagado, em nosso palco!

Lembramos, enfim, os espinhos, as ranhuras, os estragos em nossa pele, ao contato com as primeiras negativas e decepções no trabalho, no amor, nas amizades, quando pensávamos que podíamos impunemente rasgar as cortinas e continuar o espetáculo à revelia dos espectadores. Porque somos, afinal, os protagonistas!

Tudo isso são coleções que, enfim, nos últimos anos da comédia da vida (que muitos vivem como tragédia), compreendem todo o cabedal que realmente importa, neste momento: tudo o mais, roupas, carros, casas, aviões ou seja lá o que colecionamos com zelo, antes, torna-se nada diante de toda a capacidade de lembrar, de sentir de novo aqueles momentos tão vitais e exponenciais, que ninguém, absolutamente ninguém, sentiu, sonhou, percebeu ou viveu por nós.

E aí, sim, sentimo-nos plenamente colecionadores. Colecionadores de nós mesmos. E não nos importam mais nem os aplausos nem as vaias. Porque, no palco da vida, somos, ao fim e ao cabo, a imensa coleção de nossas lembranças.


Isaias Edson Sidney: isasidney@uol.com.br




posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:08 PM


{Segunda-feira, Maio 14, 2007}


PORQUE NÃO RESPEITO AS RELIGIÕES


De vez em quando, a gente ouve pessoas bem informadas, céticas, livre-pensadoras ou atéias dizerem assim: olha, eu não tenho religião alguma, mas respeito todas elas...

Então, eu fiquei pensando aqui com meus botões ateus: respeito, respeito, mas por quê? Se eu não vejo a recíproca, isto é, nunca soube de nenhuma religião que respeitasse a opinião, a crença, o território de quem quer que seja, por que devo respeitá-las, às religiões?

Veja, por exemplo, as populações indígenas. Alguma vez, os católicos, os crentes ou protestantes respeitaram os deuses indígenas? Pediram permissão a esses deuses ou aos índios para mudarem a sua fé? Nunca! Sempre caíram (e ainda o fazem) em cima das populações indígenas com toda a força de seu marketing, impondo sua fé, seu modo torto de ver a vida.

Eles estão aí, os religiosos, com seus alto-falantes, com seus templos, com seus propagandistas à toda. Sem nenhum respeito pelo espaço das outras pessoas, sem perguntar se você quer ou não ouvir as baboseiras que eles despejam na mídia; eles não dão sossego a ninguém, querem sempre impor o seu deus, a sua salvação, as suas idéias. Basta você dizer a um idiota deísta que você não acredita em deus ou em qualquer de suas crenças absurdas, que ele vai persegui-lo pela vida toda, ou vai olhar você como o coitadinho que vai, quando morrer, direto para o inferno, para o fogo eterno. E, então, o idiota deísta vai fazer tudo para convencê-lo à sua fé.

E isso não está apenas na vida privada, no cara a cara, mas em todos os lugares. Por que precisam de procissões públicas, de passeatas imensas, de alto-falantes a todo o volume, de todo um aparato para aparecer o máximo possível e encher seus ouvidos, sua paciência, com seus cantos horríveis, com suas pregações estúpidas, com suas rezas a plenos pulmões, como se o deus deles fosse surdo e precisasse de toda a gritaria do mundo para fazer-se ouvir?

E aí vem um velho decrépito, um ex-nazista de carteirinha, que se diz representante de deus na terra, para tumultuar a vida de todo mundo com suas andanças, com suas opiniões estapafúrdias, com suas idéias retrogradas e ilógicas, para atazanar a vida de todo mundo. E vêm os crentes com suas televisões, com suas passeatas, com seus templos imensos, para gritar para o mundo uma salvação que tem por objetivo arrancar dinheiro dos mais estúpidos.
Religião, para essa gente, é uma questão puramente econômica: ganha mais quem grita mais, quem faz o melhor marketing de um deus (procuro o adjetivo mais ofensivo e desisto: não adianta ofender esse deus, porque eles, os crentes, os deístas é que devem ser ofendidos).

E mais: as religiões querem privilégios. Querem que todos, absolutamente todos, se curvem a seus mandamentos estúpidos. Porque, quanto mais gente, mais dinheiro. E se insultam, as religiões, umas às outras, condenando nas adversárias tudo o que elas mesmas fazem para se manterem hegemônicas.

E nós, os ateus, os descrentes dessas bobagens todas, temos que respeitá-las! Por quê? Se elas mesmas não se respeitam!

Ah! mas isso, um dia, há de terminar. Não sei quando. Não é possível apagar tanta estupidez de uma só vez, mas, um dia, quando o homem for menos idiota, os conceitos ilógicos de salvação, de pecados, de deuses e tantos outros que inventaram durante os últimos milhares de anos, esses conceitos vão desaparecer da mente dos homens.

Porque o problema não é a filosofia que está sob a estrutura arrecadadora de cada religião.

Se tomarmos o cristianismo, por exemplo, pode-se até mesmo encontrar alguns princípios humanísticos e interessantes para a vida prática, embora eu acredite que o homem prescinda deles. O problema é quando esses princípios se transformam em estrutura, em hierarquias, em sociedades arrecadadoras, com sacerdotes e ritos, ou seja, os princípios se instrumentalizam em sociedades de exclusão (ou está comigo ou contra mim) e, então, todas as boas intenções possíveis desaparecem e dão lugar a formas de exploração do homem pelo homem, em nome de uma divindade. Com o máximo de hipocrisia possível.

Mais um exemplo, para não parecer demasiado sectário: o budismo. Tem uma filosofia de vida bastante ética e higiênica. Mas, quando se vêem monges budistas no alto de um morro qualquer, dentro de templos, vestidos com aquela túnicas ridículas, fazendo pregações e se considerando iluminados pelo Buda, tudo o que se prega dentro do budismo cai por terra, transformando-se em mais uma forma de arregimentar pessoas e transformá-las em gado, em pensamento único.

Porque é isso o que almejam todas as religiões: idiotizar o homem, aos fazê-lo ter uma única fé, um único pensamento, uma única direção, sob as ordens de aproveitadores estúpidos, sejam eles aiatolás, papas, bispos, pastores, rabinos, monges ou tantas denominações que se queiram dar a esses auto-intitulados donos de uma única verdade.

Não respeitam, portanto, que se pense diferente. Se não têm poder físico para enquadrar a todos, atribuem-se o poder de excomungar, de condenar ao inferno, de excluir e não conviver com aqueles que consideram perdidos para o seu deus. Porque há vários deuses, sim, apesar de dizem que são monoteístas. Há um falso monoteísmo no ar: um deus não convive, não conversa com outro. São deuses inimigos.

E não têm, repito, nenhum respeito pelas outras pessoas, pelas outras crenças ou por quem quer que seja. São predadores. São guerreiros, no sentido mais literal possível, de sua fé e, em pleno século vinte e um, ainda perseguem, esfolam e matam, sempre que se lhes apresenta uma oportunidade, todo aquele que os contradiz.

Fazem terrorismo, no sentido real ou metafórico.

E querem respeito!

E querem privilégios, como o representante caquético da igreja católica apostólica romana que vem ao Brasil para pressionar o governo brasileiro a assinar acordos que violam a vontade do povo, a Constituição do País e a condição de laicidade do Estado, a exigir que escolas públicas ensinem religião ou que seus templos tenham privilégios e seus sacerdote, acesso às pobres populações indígenas, para descaracterizar ainda mais uma cultura quase destruída.

Ora, vão plantar batatas todos os deístas estúpidos. Não respeito, não, suas crenças absurdas. Não sou obrigado a respeitá-los, se eles não me respeitam!

Pergunto: existe um ex-assassino?

Alguém pode imaginar que encontremos nas páginas dos jornais algo como: o ex-assassino fulano de tal foi recebido com pompa pela sociedade? Isso é uma noção ilógica. Pela mesma razão, não posso dizer que essa instituição denominada igreja católica apostólica romana possa ser considerada uma ex-assassina. Se perseguiu, esfolou, queimou, assassinou milhões de pessoas ao longo de sua história, por que devo achar que ela é uma ex-perseguidora, uma ex-assassina? Uma vez feito, não se apaga o passado. E sua condição de predadora, de perseguidora está aí, à vista de todos, nas opiniões dignas do século XIII de seu dirigente-mor. Basta ter ouvidos para ouvir, e inteligência para entender.

Se o Bento XVI não acende as fogueiras, é porque há outras formas mais sutis de queimar os hereges, seja pela ameaça, seja pela pregação de idéias contra o uso da camisinha, seja pela condenação ao sexo, seja pelo culto à virgindade e ao celibato, como se a família, uma instituição meramente social e condição para a própria sobrevivência do homem, fosse uma invenção dessa instituição e não pudesse sofrer transformações. Jogam para debaixo do tapete todas as sujeiras históricas, desde a inquisição até a pedofilia, para aparecer diante de todos com falácias, com promessas e ameaças a quem não seguir sua cartilha de proibições estúpidas.

E querem respeito!

Respeito, sim, as pessoas, os crentes, os católicos, os espíritas, os umbandistas, os seguidores de toda e qualquer crença, respeito as pessoas, mas não suas instituições, suas pregações e imposições.

Não posso me calar diante de tanta hipocrisia, de tanta falsidade, tanto conceito errado.

Não. Não respeito nenhuma religião. Pelo simples motivo de que toda religião é falsa, toda religião tem por único objetivo a submissão da maior quantidade possível de pessoas, para delas tirar o dinheiro com que a casta de dirigentes viva no fausto ou adquira o maior poder que possa arregimentar.

Religião é jogo: econômico ou de poder. Mas, sempre jogo. E dos mais sujos. Não merece respeito, não!


Isaias Edson Sidney

iesidney@uol.com.br

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:04 PM


{Sábado, Maio 12, 2007}


UM CONTO EM HOMENAGEM AO MASCATE DO VATICANO, NA VELHA CIDADEZINHA DA SANTA DE COR NEGRA (que ele, o velho nazista pedófilo, também afunde na merda que prega e propaga pelo mundo):


O ROMEIRO


Sentiu-se dançando num inefável tapete de musgos. Mas era apenas merda. Muita merda acumulada em anos e anos de cagança festiva e dourada. Foram os anos das cerimônias mais pomposas, dos milagres mais etéreos. Multidões chegavam de todas as partes. E devoravam dezenas de milhares de cachorros-quentes, de espigas de milho e bebiam a beberagem escura que os camelôs de comidas, em centenas de carrocinhas, ofereciam como brinde, um caldo grosso e doce, diziam ser de cana. Assim, cagava-se muito. Cagava-se em todos os lugares. E agora, na noite de breu da cidade da santa, sozinho e cansado, ele queria apenas uma enxerga dura para jogar o esqueleto bambo da longa travessia. De longe viera, como tantos vinham todos os anos. Mas dessa vez, não teve reza que evitasse o tempo perdido. No tranco da estrada, o carro quebrado, justo o eixo novo, novinho em folha. Estrago feito, não adiantava espernear. Mas achar a cabriúva, cortar a árvore, aplainar a madeira, acertar com capricho a espiga, arredondar a emborgueira, alisar, azeitar e encaixar bem direitinho a cantadeira nas duas rodas que giram, e em harmonia girando, fazem chiar o chiado do carro além da curva da estrada, tudo isso levou tempo. Nesse entretanto, os dois bois engordaram, tornaram-se preguiçosos e a viagem, ainda mais lenta naquela lentidão de caminhos. E ele viu a estrada se esvaziar e depois se encher e de novo se esvaziar de peregrinos. Quando, enfim, chegou à cidade da santa, só encontrou despojos de festas acabadas, caminhos entulhados de ex-votos e lixo, muito lixo. E pior, chegou de noite, já sem óleo de mamona na azeiteira, o carro sem canto, sem alma, e ele cansado da longa jornada. Turvos do pó de tantas estradas, os olhos não mais reconheciam as velhas pegadas que levavam à vetusta capela onde todos se ajoelhavam em extremado ato de fé e de humilhação. Lavavam, ali, para sempre, velhos pecados. Deixavam, ali, aos pés da santa, a alma limpinha, imaculada mesmo, pelo menos até a próxima romaria. Trêfego e sujo, que os bois preguiçosos guiassem seus passos. Confiava, mais por necessidade que por fé de romeiro, no seu instinto de velhos conhecedores das encruzilhadas. E agora estava ali, pisando aquele musgo gosmento que cheirava pior que o sovaco do capeta. A sensação inefável virou logo desespero. Ajoelhar para pedir um milagre à santinha, nem pensar. Era tudo merda, merda até o meio da canela. Chapinhou um pouco para lá e para cá, sem saber direito o que fazer. O breu da noite sem estrela e a vista turvada do pó não o deixavam enxergar nada além da silhueta sossegada dos dois bois e do carro atolado, inerme, sem canto, sem alma. Num gesto desesperado, soltou Malhado e Cheiroso, atrelou os arreios e tentou montar num deles, sem saber direito em qual dos dois lombos tentava se equilibrar, o que só alcançou depois de muito esforço, as pernas escorregadias do limo sujo. Lá de cima, atiçou a espora no flanco do bicho, e gritou: Eia, Malhado! O bicho resfolegou, chapinhou as patas no lodo fedorento, fez que ia e corcoveou. Mal sentiu o baque das costas na lama macia e mal-cheirosa, percebeu a cagada que fizera. Errara o nome do bicho. E Cheiroso era boi sistemático e sorumbático. Não ia aceitar nunca um novo apelido, assim, depois de velho. E mais furioso ficou ao ouvir o nome dele, Cheiroso, trocado assim pelo do outro, com quem convivia há tantos anos entre turras e chifradas. Mas esse pensamento na sua cabeça não teve continuidade, porque agora ele se sentia flutuando, quase a bailar, naquele inefável mar de anos e anos de cagança festiva e dourada. E afundar para sempre, ali, como um carro sem canto e sem alma, era só a menor de suas preocupações.


Isaias Edson Sidney, conto escrito em 3.3.2005


posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:16 PM


{Terça-feira, Maio 08, 2007}



quando se enforca um papa...



O que é um papa, senão a mitra que apunhala?
O que é um papa, senão a mancha vermelha da história?
O que é um papa, senão a palavra torpe de velhos assassinatos?
O que é, afinal, um papa? Um papa torna-se infalível pela lei dos falíveis!
Um papa torna-se onipotente pela força de todos os fracos.
Um papa é apenas um pretenso símbolo de um deus morto há muito tempo.
Um papa é apenas um trono bichado em meio às ameaças de morte
Que sopram do Vaticano.
Um papa não é a besta apocalíptica, porque a besta apocalíptica não existe.
Um papa não é um cristo idiota fincado no coração de quem o teme,
Porque o cristo idiota do madeiro não deixou dores que não fossem humanas.
Por isso, quando se enforca um papa,
Devia-se ver que há anjos de cuecas zorba tocando punhetas magistrais.
Por isso, quando se enforca um papa,
Devia-se poder brandir aos ventos os rosários de contas de velhas bêbadas e carolas.
Por isso, quando se enforca um papa,
Devia-se poder celebrar missas de cunilínguas e penetrações anais em todas as igrejas
De todas as vilas.
Por isso, quando se enforca um papa,
Devia-se poder cantar hosanas a todos os deuses gregos e romanos e egípcios,
A todos os deuses etíopes e a todos os deuses dos povos indígenas do mundo
Que tiveram seus deuses massacrados por uma fé de guerreiros e torturadores.
Que se enforque, pois, cada papa que a fumaça branca denuncie.
E mais: que se enforque cada antepapa na ante-sala da antevéspera da mesma fumaça!


segunda-feira, 2 de julho de 2001

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:31 PM


{Domingo, Maio 06, 2007}


UMA BOA IDÉIA, MAS...



Não me canso de fazer críticas à imprensa do mas. Sabe aquelas boas notícias que os jornais publicam com um mas? Juros caíram, mas... A inflação está sob controle, mas... O salário médio dos trabalhadores melhorou, mas...

Bem, dessa vez, vou eu usar o tal recurso. Meio a contra gosto, mas...

E sabem contra quem? Contra o Kassab, prefeito de São Paulo.

Gilberto Kassab, do DEM (aquele partidinho do faz-me rir, que me dá vontade de cantar cara de palhaço, roupa de palhaço, o antigo samba do Miltinho), teve uma excelente idéia. O que prova que vida inteligente pode ser encontrada em qualquer lugar, até no DEM! Pois é, voltando ao Kassab: ele determinou a troca dos pisos dos passeios (palavra mineira, essa, pra agradar os conterrâneos, uai!) ou calçadas de São Paulo pelo que os técnicos chamam de piso intertravado.

Esse piso consiste em blocos sólidos de concreto, do tamanho aproximado de um tijolo, com peso (acho) entre quatrocentos ou quinhentos gramas. A novidade é que esses blocos são colocados sobre uma base de areia, e não de cimento, que não é utilizado nem para ligar uns aos outros, por isso o nome intertravado, ou seja, eles travam-se uns aos outros, de modo que a calçada fica ecologicamente correta, com alguma permeabilidade às chuvas e não escorregadias. Além de terem cores de bom gosto. Que, em matéria de bom gosto, o nosso Prefeito não é nada bobo, muito pelo contrário. Haja vista o programa Cidade Limpa, que está realmente mudando a cara da cidade. Pena que, em outros quesitos, como enchentes, escolas, saúde pública... bem, deixa pra lá, voltemos às calçadas.

Isso é bom, muito bom, mesmo. Numa cidade mais civilizada que São Paulo. Numa cidade sem os conflitos (e os problemas) de São Paulo. Porque, senão vejamos. E é aqui que começa a aparecer o famigerado mas.

Sempre que há conflitos de rua, em São Paulo, principalmente entre manifestantes (de inúmeras categorias, com milhares de demandas, de procedências as mais diversas) e a famigerada polícia, chovem pedras e paus e tudo o que estiver à mão sobre os coitados dos policiais (que só têm, como reação, o cassetete, as balas de borracha e as bombas de efeito moral). De onde vem a munição dos outros, dos manifestantes? Paus e outros instrumentos, muitas vezes do lixo, ou das casas próximas, de restos de móveis etc. As pedras? Das calçadas, ora.

Acontece que o piso intertravado do senhor Kassab tem uma característica: se você tirar um bloco (o que não é difícil, aliás, é bastante fácil), você tira todos! Então, nas tais confusões de rua, o ilustre prefeito está colocando nas mãos da turba ululante e reivindicante uma arsenal fantástico: blocos razoavelmente pesados, mas fáceis de arrancar e atirar, para quebrar com presteza a cabeça dura de nossos valentes PMs.

E mais: como são regulares, na terceira vez que você lançar um desses blocos, sua mão terá a noção exata de peso, densidade, força necessária e velocidade, para lançamentos cada vez mais precisos. Coitadinhos dos policiais!

E só mais uma coisinha: em lugares mais ermos, ou mais afastados, ou sei lá, já há gente roubando os tais pisos intertravados, para, às custas da Prefeitura (ou melhor, às nossas custas!) pavimentar casas e quintais.

Que tal? Não é uma boa idéia, o tal piso intertravado? Uma pena que a conjunçãozinha mas exista, não é, mesmo? Enfim, isso é São Paulo, isso são os homens...

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:39 PM

ESTÚPIDO É O POVO QUE PRECISA DE SANTOS




Tio Bento vem aí. Ou será o Benedito, como preferem os portugueses?

E o que o tio Bento, esse poço medieval de estupidez, vem fazer no Brasil? O que ele traz debaixo daquela mitra? Ou debaixo de suas saias esfuziantes?

Bem, o que é certo é que o tio Bento traz nas suas malas (ou debaixo das saias) o diploma de santo para um padre brasileiro, o tal frei Galvão. Com milagres e tudo o mais a que tem direito esse tipo de ação. E não interessa, absolutamente, saber quem foi esse frei. O que importa é notar a jogada político-religiosa do tio Bento. O tal santo é apenas o pretexto para enganar a população crédula, para tentar recuperar o prestígio de uma igreja combalida pela pregação agressiva de igrejas não convencionais. Ambas, a católica e as demais, ávidas por encher suas burras com o pobre dinheiro dos adoradores de um deus estúpido e canalha.

Em busca de dinheiro, poder e prestígio, portanto, vem o tio Bento ao Brasil. Sua pregação para os jovens, por exemplo, promete ser um espetáculo grotesco de falsidade e enganação. O discurso piedoso para acobertar as mazelas de uma igreja que não pune os padres pedófilos, no presente, assim como não puniu os padres inquisidores do passado. Uma igreja medieval a escancarar sua bocarra, para comer as mentes de milhões de pessoas e lançá-las, de novo, na estupidez das crenças abjetas do salvacionismo rasteiro.

E a mídia monocórdica de sempre terá, durante o passeio do Bento, uma nota só: milhões de palavras para impor o embuste, para exaltar a figura patética de um quasímodo do século XXI, felizmente não mais dono do poder de acender fogueiras reais. Mas as fogueiras metafóricas estão aí, só não as vê quem não quer, por estupidez ou más intenções, ou por medo dessa instituição maléfica, chamada igreja católica apostólica romana.

Uma das fogueiras que vai acender o Bento é, mais uma vez, pregar a ojeriza da igreja a tudo que seja natural, como o sexo, para condenar o uso de camisinha contra Aids, jogando, assim, à morte lenta da fogueira do HIV milhões de idiotas que acreditam na pregação dessa figura patética, que resiste a tudo e a todos, através da história, atropelando a lógica mais rasteira e a paciência de quem não acredita mais nas bobagens ditas por essa instituição.

Vamos ter overdose de tio Bento. Vamos almoçar, jantar, dormir, respirar tio Bento. Porque não basta enganar, iludir, desafiar a história, mentir, prometer o paraíso, cagar, literalmente, em qualquer possibilidade de reação; é preciso repetir até à exaustão, amolecer os miolos, apoderar-se das mentes, destruir nossos neurônios, com todo o arsenal midiático do século XXI para que voltemos ao século XIII, para que nos mantenhamos absortos e absorvidos pelo teatro da estupidez humana, que são os cultos, as pregações, as canonizações e as aparições publicas do tio Bento e seu séqüito de imbecis, a reimplantar nas mentes das pessoas os mesmos conceitos idiotas de um cristianismo que nega, em sua essência, a humanidade ao homem.

Estúpido, muito estúpido, é o povo que precisa de santos. E iludido, muito iludido, também.

Mas, será, mesmo, o Benedito? Haja saco!

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:19 PM


{Quinta-feira, Maio 03, 2007}


A OAB E A EMENDA 3: SACANAGEM OU MANGUINHAS DE FORA?



A famosa Emenda 3. Todo mundo fala, discute, mas ninguém diz a verdade. E agora, a senhora OAB, sim, a vetusta Ordem dos Advogados do Brasil, resolveu se associar à Febraban (a mais do que poderosa!) e à FIESP (também pilhada!) para apoiar o Congresso na derrubada do veto do Presidente Lula a essa famigerada emenda.

Uma encrenca das bravas. E como o assunto é um terror só, vamos por partes, como diria Jack, o estripador (melhor o inglês do que os nossos estripadores, muito mais cruéis, mas deixa pra lá).

Primeiro, a Emenda 3 foi uma safadeza de alguns deputados do DEM (aquele partidinho fascista, que já foi ARENA, que já foi PDS e já foi PFL e agora se autodenomina Democratas... faz-me rir... cara de palhaço, pinta de palhaço... não sei por que me lembro dessas músicas quando ouço falar nessa corja), então, como ia dizendo, os caras desse partidinho aí enfiaram na aprovação da Super-Receita. É um texto pequeno, miúdo, um textículo (desculpe! não resisti ao trocadilho infame), para ferrar os trabalhadores.

Segundo, do que trata a Emenda 3? Bem, o texto, em si, é rebuscado. Puro jargão jurídico. Mas, nos miúdos, quer dizer o seguinte: os fiscais da Receita ficam proibidos de fiscalizar e multar relações de trabalho. Isso só pode acontecer com uma sentença judicial, dada pela nossa Fórmula 1 da Justiça, a rápida, eficiente... Justiça do Trabalho (quando me lembro de que fiquei 17 anos esperando uma sentença... mas, deixa pra lá!)

Terceiro, qual a conseqüência disso? Ora, se um fiscal encontrar, por exemplo, um funcionário que tem chefe, hora marcada de trabalho e que trabalha na empresa, mas como autônomo, sem direito trabalhista nenhum, isto é, como Pessoa Jurídica (empresa de um funcionário só), esse fiscal tem de olhar pro lado, fazer vista grossa. Ou alguém acha, em sã consciência, que o fiscal vai entrar com um processo na Justiça do Trabalho, para multar o patrão, daqui, quem sabe, uns vinte anos?

E há mais, muito mais: o mesmo acontecerá, se o tal fiscal encontrar trabalho escravo! Trabalhadores em condições insalubres (termo bonito para campo de concentração), sem registro, sem pagamento ou recebendo miséria, e mais uma série de irregulares. Porque, se multar, o patrão mal intencionado entra na Justiça e todo mundo sabe como se conseguem as liminares! (Nem preciso citar os donos de bingos). Ou seja, estará inaugurada a era do salve-se quem puder, nas relações trabalhistas. E todos os direitos que os trabalhadores conquistaram (mesmo que eles continuem dizendo que são entraves, são direitos, sim!) irão para o brejo, para a cucuia, para a p.q.p.!

E então, eu pergunto: o que a senhora OAB, essa vetusta filha das corporações medievais, tem a ver com isso? Será que está colocando as manguinhas de fora? Ou seja, está mostrando a verdadeira cara, de filhinha protetora das famosas zelites? Que não está nem aí para o povo? Que tudo o que alguns de seus presidentes mais ilustres já fizeram até aqui era só para enganar trouxa? Ou estão dizendo, como aquele ex-presidente, não leiam o que eu escrevi, ou melhor, não olhem o que eu já fiz? Ou tudo o que estão fazendo agora, essa associação espúria com as zelites financeiras e empresariais, é só uma sacanagenzinha? Que dói e que passa?

Eu, hem?



iesidney@uol.com.br





posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:41 PM

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