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Segunda-feira, Abril 30, 2007
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES (MAIS OU MENOS VENENOSAS) SOBRE DRAMATURGIA
(PARTE III)
Sao muitas as causas do afastamento do público dos teatros. Ou a sua preferência por espetáculos espetaculosos (com a devida desculpa da redundância, mais uma vez), com atores conhecidos ou textos importados e já, portanto, devidamente testados. Não vou apontar, aqui, quais são essas causas, senão teria de escrever um tratado, muito além dessas já alongadas linhas sobre dramaturgia.
Mas um dos motivos, segundo muito mais minha percepção, é a falta da fixação na mente e na memória do publico de uma boa e conseqüente escola dramatúrgica. Já citei três autores exemplares, nos artigos anteriores. Não vou repetir, aqui, o motivo por que reduzi uma longa lista de dramaturgos a apenas três. Ou cinco, se contarmos a citação de Nélson Rodrigues e Plínio Marcos, por acaso os únicos que, pelo menos nos grandes centros e para muitos grupos teatrais, possuem uma dramaturgia consistente e coerente. O espectador de ambos vai ao teatro já sabendo o que esperar. A dose fica por conta da encenação.
O que eu queria dizer, e acho que já deixei claro, é que se torna imprescindível a formação de uma dramaturgia consistente, coerente, de apuro técnico e baseada em pesquisa, leitura, filosofia e conhecimento dos mitos, das lendas, do homem brasileiro, enfim, para que o teatro comece a ganhar a mente e a memória do povo e para que esse povo volte ao teatro.
A dramaturgia televisa, representada pela novela, tem construído, nesses últimos anos, uma obra impressionante de carpintaria, de modelo, a que o publico desse meio acabou se acostumando. Todas as novelas, independente da qualidade de seu enredo, têm um escopo mais um menos rígido de construção. Isso foi trabalho de uma plêiade mais ou menos ilustres de escritores que passaram a criar para a televisão. Mesmo o mais distraído espectador percebe que, apesar do estilo de cada um, há uma carpintaria, um modelo, uma fórmula que deu certo e se repete. Quando as fórmulas se renovam abruptamente, o público se assusta e se afasta.
O mesmo devia acontecer com a dramaturgia para teatro.
E temos o exemplo disso no playwriting estadunidense. Ou seja, há uma escola de teatro tipicamente estadunidense. E de boa qualidade, quando deparamos com bons autores e não apenas bons dramaturgos. Isso se reflete não só no teatro, mas até no chamado cinemão hollywoodiano: o filme, às vezes, é ruim, mas a fórmula funciona e nos prende. Muitas vezes, levantamo-nos da poltrona do filme que nos divertiu e, após meia dúzia de passos, já nem nos lembramos dele. São obras descartáveis, mas solidamente fincadas num modelo a que o público se acostumou. Quando, finalmente, há o encontro dessa técnica dramatúrgica com um bom autor, um bom diretor, um bom elenco etc, quase sempre nos deparamos ou com uma grande obra ou com uma obra-prima.
O mesmo acontece com os textos teatrais. Importamos vários, alguns muito bons, outros sofríveis, mas todos tecnicamente bem construídos. Tão bem cosntruídos que têm o condão de nos capturar, de nos enganar, fazendo-nos crer que assistimos a um grande espetáculo, quando, na verdade, vimos um texto medíocre muito bem enfeitado por truques de escrita e de montagem.
Não advogo, absolutamente, a construção de fórmulas de bolo, de modelos prontos, como os que nasceram do playwriting americano. Mas, sim, que os dramaturgos nacionais desçam de seus saltos altos e estudem. Estudem muito. Desde Aristóteles até Nietzsche e Brecht, para aprenderem que dramaturgia tem, sim, uma tecnologia, uma arquitetura, uma carpintaria, por baixo das palavras bonitas e dos personagens emplumados que possam colocar no palco. Aprendam que é preciso, para haver teatro, não importa quão de vanguarda seja, uma idéia central que gere uma ação central. Que haja um protagonista que encarne essa idéia central e esse protagonista tenha uma vontade que encontre um obstáculo, para haver conflito, para haver conhecimento aprofundado dessa personagem, para gerar empatia com público. E ação, ação presente de cena, que é aquilo que está acontecendo naquele momento em cima do palco. Ação que é, talvez, a alma do bom teatro. Pode-se mudar mil coisas na dramaturgia, mas ela tem que continuar sendo dramaturgia, para formar público e ganhar o seu respeito.
Há muitos grupos teatrais por aí, por esses brasis afora. Em muitas pequenas cidades, o desenvolvimento agrário tem trazido tempos de bonança, de enriquecimento para as populações. E muitos prefeitos, para angariar prestígio, têm construído salas de teatro, de funções múltiplas, muitas vezes, mas salas que começam a abrigar grupos voltados às artes cênicas e, também, ao teatro. Não podem esses grupos cair na esparrela de diretores que acham que esses grupos podem construir a sua própria dramaturgia e levá-los ao engodo de um texto pobre e mal articulado, como forma de arte para enganar familiares e políticos não preparados para uma visão mais crítica de teatro. Esse tipo de pensamento não leva a nada. Não agrega consumidores de teatro, porque isso não é teatro. É enganação. Nas periferias das grandes cidades, predomina também esse tipo de construção de falsos imaginários. É preciso separar o joio do trigo: há o uso legítimo das técnicas teatrais para fins, por exemplo, terapêutico, como no psicodrama; ou para fins de cidadania ou de educação, como certas correntes do teatro do oprimido. Mas, não são teatro na legítima acepção do termo. Esse, sim, tem por objetivo a discussão dos grandes temas da sociedade; visa ao espelhamento de um povo em suas lutas e conquistas, através da recriação de mitos e mitologias. Não tem, nem pode ter, nada com visões distorcidas e minimalizadas por pretensos dramaturgos ou grupos de atores que não dominam a construção do texto.
E que os grupos teatrais brasileiros, em sua maioria, abandonem essa bobagem de construção coletiva do texto. Deixem isso para os (poucos) grupos realmente experimentais. E que os seus componentes, atores, diretores e pretensos dramaturgos abandonem a arrogância de pensar que não há textos que exprimam o que eles querem dizer, e pesquisem, e leiam, leiam muito, que vão, sim, encontrar bons textos (de preferência) brasileiros com qualidade, prontos para serem levados ao palco, contruibuindo, assim, para a nossa dramaturgia.
Enfim, é preciso que textos de autores brasileiros tenham oportunidade nos palcos de todas as cidades, de todos os espaços, para que se depurem, através da crítica construtiva, e desenvolvam uma massa crítica de criadores, a partir da qual (quem sabe?) possam surgir os nossos grandes dramaturgos e algum que finalmente ocupe a primazia de todos.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:36 PM
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES (MAIS OU MENOS VENENOSAS) SOBRE DRAMATURGIA
(PARTE II)
Dramaturgia brasileira. Assunto pra lá de cascudo. Para ferir algumas suscetibilidades, despertar algumas iras santas e cutucar o debate, nessa segunda parte de minhas considerações sobre dramaturgia, vou analisar alguns mitos e apontar alguns equívocos.
Ninguém nunca me perguntou, ainda, qual é o maior dramaturgo brasileiro. Porque todos acham que sabem. Pelo menos, no meio teatral. Porque, se me perguntassem, eu diria com todas as letras: o posto de maior dramaturgo brasileiro está vago. Não existe o maior dramaturgo brasileiro. Talvez nem o segundo. Mas, há, sim, alguns bons dramaturgos e alguns bons textos, ao longo da história da dramaturgia brasileira.
Está, então, formada a primeira polêmica: e Nelson Rodrigues?
O considerado maior dramaturgo brasileiro é um pouco mais autor que dramaturgo. Embora tenha domínio técnico, adquirido a partir da aula de teatro que ele recebeu de Ziembinsky, quando montou o Vestido de Noiva (que revolucionou, para alguns, a cena brasileira), Nelson Rodrigues é autor de duas ou três grandes peças, o que já é muito, para a nossa dramaturgia. Merece, pois, um lugar de destaque na história. No entanto, fora essas grandes obras, o que ele fez foi reescrever sempre a mesma peça, usando sempre os mesmos recursos e a mesma temática. Seu conservadorismo exacerbado levou-o para o caminho de um teatro de personagens que repetem suas taras e a visão de mundo do autor até o infinito, o que os torna cansativos e estereotipados. O povo pensa estar se vendo em Rodrigues, mas o que ele está, na verdade, assistindo são as idiossincrasias do autor, a sua ânsia de expurgar os pecados do mundo, através de seres atormentados por taras sexuais e desvios de comportamento. Nelson Rodrigues não é, definitivamente, o maior dos nossos dramaturgos. Infelizmente.
Bem, então, quais são nossos grandes dramaturgos? Fazer uma lista é absurdo, porque precisaríamos conhecer todos os dramaturgos do País, para não cometer injustiças. E isso é impossível. Então, vamos citar apenas três, como exemplos de dramaturgia que precisa ser vista, revista, encenada e discutida. São exemplos do tipo de pessoas que estão por aí, perdidas na poeira dos tempos, não importa se nascidos no século XVI ou contemporâneas.
O meu primeiro autor-exemplo é Jorge Andrade. Tem uma dramaturgia consistente, com uma visão de mundo bastante interessante. Representa todos os dramaturgos já falecidos (cuja história é necessário resgatar, mesmo que, às vezes, eles não tenham, ainda, uma vasto conhecimento técnico), fez uma dramaturgia consistente, de boa qualidade técnica e reflexão.
O segundo é Chico de Assis. Representa o autor e dramaturgo que está aí, vivo e produtivo, mas esquecido pela mídia, pelos encenadores. Seu conhecimento de dramaturgia torna-o uma espécie de mestre dessa arte. Sua obra tem a consistência de uma pesquisa das mais sérias, nesse País, em busca de um verdadeiro teatro popular brasileiro.
O terceiro é Bosco Brasil. Representa o autor e dramaturgo que também está aí, vivo e produtivo, que, ao contrário do representante do grupo anterior, é bastante citado pela mídia, tem um ou outro texto incensado pelos críticos, mas é só. É muito menos encenado do que deveria, dada uma certa popularidade que o cerca.
Os três dramaturgos citados são exemplos, apenas exemplos, do que poderíamos chamar de grupo dos mais ou menos esquecidos. Dentro dessas três categorias, caberiam centenas, talvez milhares de outros, por esses brasis afora. E outras poderiam ser criadas, para abrigar outros tantos que não se enquadram nessas categorias. Nelson Rodrigues e Plínio Marcos são, talvez, os únicos cuja obra é incensada e bastante encenada, principalmente por um tipo de grupo de teatro que busca ou desafio ou bilheteria. E que, na minha percepção, pende muito mais para o segundo.
E a palavra grupo teatral abre, aqui, mais um tema, mais um tipo de visão deturpada de nossa dramaturgia. Como se não bastasse a praga dos encenadores, que dominou a cena nos últimos anos, impondo-se acima de qualquer dramaturgia, como deuses onipotentes e oniscientes do teatro, dispostos a mutilar o texto, a modificar as idéias do autor e impor as suas próprias, surgiu mais recentemente a dramaturgia de grupo.
Todo grupo de teatro que surge quer escrever o seu próprio texto, coletivamente. Isso poderia parecer, à primeira vista, muito interessante. E é, realmente, interessante. Como exceção. Não como regra. Porque uma dramaturgia coletiva pode, sim, funcionar num espetáculo ou outro, mas nunca como regra. Aquilo que é visão de todos não é visão de ninguém. Ou seja, constroem-se verdadeiros franksteins de texto, em que o objetivo não é passar uma visão de mundo de um autor, mas escrever de acordo com a capacidade histriônica dos atores presentes, de acordo com os recursos disponíveis da companhia, de acordo com o momento do grupo. Às vezes, dá certo e temos um bom espetáculo. Até mesmo espetáculos que preservam a essência do teatro, mas isso é raro. Na maioria, são espetáculos espetaculosos (desculpe a redundância), feitos para entreter e, na maioria dos casos, enganar o espectador, apresentando uma série de sketches ou de quadros mais ou menos bem articulados como teatro, mas é tudo só espetáculo, e nada mais.
Alguns grupos recorrem à figura de dramaturgo, mas esse tem apenas o objetivo de dar algum tipo de unicidade às sugestões e criações dos componentes da companhia e buscar soluções dramatúrgicas para idéias que podem ser boas ou ruins, mas constituem apenas visões fragmentadas. Pode, também, dar certo. Não como regra. Como exceção. Porque a recorrência a esse tipo de teatro, para mim, é sinal de preguiça, para não ter que ler muitos autores, para não ter que pesquisar o melhor, para não precisar, enfim, recorrer àquilo que é fundamental para qualquer pessoa que queira fazer teatro: estudar, estudar muito.
Enfim, compramos gato por lebre, cada vez que um desses grupos se apresenta. Não são ruins, nem devem ser desprestigiados. Mas, repito, devem constituir a velha e boa exceção, que, por ser exceção, faz pesquisa, abre caminhos, busca novas soluções para velhos problemas e, até mesmo, traz boas idéias teatrais. Mas não pode ser esse o único caminho a trilhar: os grupos teatrais devem, sim, dar oportunidade ao bom texto, aos autores brasileiros, principalmente, para que o teatro nacional ganhe força e produza espetáculos da grandeza de sua história e tradição.
Por isso, insisto, é preciso investir na boa dramaturgia, na pesquisa do texto, na busca solitária e inglória dos autores-dramaturgos, no respeito ao conhecimento da carpintaria do texto teatral, mesmo que seja para renegar alguns ou muitos pontos dessa carpintaria, para renovar o teatro e colocá-lo mais uma vez, e definitivamente, na boca do povo, concorrendo em igualdade de condições com o cinema e a televisão.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:13 PM
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES (MAIS OU MENOS VENENOSAS) SOBRE DRAMATURGIA
(PARTE I)
Tenho, às vezes, participado de leituras de peças e dos conseqüentes debates sobre essas peças. E tenho notado os equívocos de análise, tanto do público como de gente que se diz de teatro, atores, diretores, críticos.
Por isso, e também para resguardar minhas opiniões, pretendo, neste breve apanhado sobre dramaturgia, estabelecer meu pensamento a respeito de dramaturgia, dramaturgos, autores, grupos teatrais.
Teatro se faz a partir de uma série de elementos: do texto, dos atores, dos diretores, dos produtores, dos iluminadores, dos cenografistas, dos figurinistas e, dependendo do espetáculo, de uma série de outros profissionais que interferem na qualidade desse espetáculo. Portanto, teatro é uma arte coletiva.
Já a dramaturgia, não. Dramaturgia, como as outras artes da palavra, é uma ofício mais ou menos solitário. Que depende da intenção de um autor e do domínio que esse autor detém da carpintaria do texto teatral.
E é aí que o bicho começa a pegar. Então, é preciso começar a distinguir, na dramaturgia, dois conceitos diferentes, embora, às vezes, complementares: dramaturgo e autor.
Dramaturgo é o indivíduo que possui pleno domínio da técnica dramatúrgica, isto é, conhece os princípios e as regras que norteiam o escrever para teatro, seja comédia ou drama. Já o autor é o indivíduo que possui uma visão de mundo e deseja expressá-la através da dramaturgia.
Pode-se perguntar: não são a mesma coisa? Não. São coisas diferentes. O autor nem sempre domina perfeitamente a arte dramatúrgica, assim como nem todo dramaturgo tem uma visão de mundo consistente, para criar uma obra autoral. O ideal, no entanto, é que ambos convivam num mesmo indivíduo, como em Shakespeare, por exemplo. E nem é preciso tecer loas ao bardo inglês, para que todos concordem com sua genialidade como dramaturgo e autor.
No entanto, diante de um texto de impacto, por sua temática ou pela excelente atuação e direção do espetáculo, muitos acham que é bobagem esse negócio de carpintaria dramatúrgica, que o importante é comunicação com o público. Tudo bem: é importante, sim, que um texto tenha impacto e se comunique o melhor possível com o público. E muitas vezes, saímos do teatro com a mente fervilhando e os olhos brilhando, diante de um texto dramaturgicamente medíocre, mas impactante em suas idéias ou visão de mundo. E isso é péssimo para o teatro.
Por quê?
Porque criamos a ilusão do teatro, do bom teatro. Porque esse tipo de espetáculo é enganador, não forma público de teatro, porque o ilude, porque faz que as pessoas pensem que aquilo é teatro, quando, na verdade, apesar de todos os demais elementos do teatro estarem presentes, faltou um de seus elementos essenciais: o bom texto. E a crítica, que devia estar preparada para alertar o espectador, também é iludida ou se ilude, por motivos vários, em não revelar a real qualidade desse espetáculo. Que pode ser bom, enquanto espetáculo, mas pobre em dramaturgia.
E espetáculo pobre em dramaturgia não é bom negócio para o negócio teatro!
Porque, para o negócio teatro funcionar, manter a magia, atrair público, vender-se como espetáculo, todos os seus princípios devem estar funcionando no palco, e não apenas alguns.
É claro que há autores intuitivos, que escrevem textos que não podem ser jogados no lixo, simplesmente porque há, aqui e ali, falhas de estrutura. Por exemplo: Plínio Marcos. Sei que o que vou dizer poderá atrair a ira de muitos, mas é preciso que se diga que o nosso Plínio tem uma dramaturgia medíocre, seus textos são descuidados e mal escritos, em termos de conhecimento da carpintaria teatral. Se tivesse estudado dramaturgia, se dominasse a técnica, poderia ter-se tornado um dos nossos principais dramaturgos. No entanto, que impacto notável têm na mente do espectador alguns de seus textos mais seminais. Porque Plínio é gênio como autor, mas medíocre como dramaturgo. Seus textos devem, sim, continuar sendo apresentados e vistos por todos, mas não como exemplo de dramaturgia.
Há, ainda, um argumento meio safado, dos que não querem, por preguiça ou desleixo, estudar técnica dramatúrgica: o querer fazer diferente, o estar acima dessas regras todas, o dizer que é moderno ou de vanguarda, que não segue regras rançosas de um teatro passadista, ou coisa que o valha..
Tudo bem: algumas regras são, realmente, rançosas. E podem e devem, mesmo, ser ultrapassadas ou renegadas. É o que fazem os gênios.
Para se entender melhor o que eu quero dizer, vamos exemplificar com a literatura. O romance é a narrativa moderna. Tem, no entanto, a sua origem lá nas brumas do passado. Para variar, na Grécia e, talvez, até mesmo antes: Homero, a epopéia de Gilgamesh, as lendas e narrativas de povos que se perderam na história. Há, portanto, uma longuíssima tradição de narrar, um modelo que se construiu através de dois, três mil anos, ou mais, que vem atravessando o tempo, renovando-se e recriando-se. Encontra a arte de narrar uma forma que parecia definitiva no grande romance do século XIX, o chamado romance moderno. E então, surge Joyce, e coloca o romance em xeque, virando-o do avesso, mudando tudo. Mas, mesmo no genial autor inglês, está lá a essência do narrado, a arte de contar uma história, que vem dos tempos imemoriais. Essa essência, essa arte milenar, nem Joyce consegue detonar, com seu Ulisses. Porque há uma coisa chamada melhor forma.
O mesmo com o teatro. Há uma essência do teatro que não pode ser modificada, sob pena de não termos mais teatro. Mesmo que deixemos de lado alguns princípios aristotélicos, como fez o genial Brecht, ainda assim temos de respeitar alguns princípios fundamentais no teatro: a idéia central, que gera a ação central; a ação presente de cena; o enredo (não a história que, como diz o mestre Chico de Assis, teatro não conta história); as personagens que agem e encontram obstáculos em sua ação, enfim, a essência do teatro tem que estar presentes. Porque essa é a melhor forma. E quando esses elementos faltam ou falham, o teatro fica medíocre, mesmo que o texto tenha a melhor das boas intenções possível.
A arte moderna, pensam alguns, veio para destruir o passado, destronar os cânones, revirar tudo de ponta cabeça. E está aí o Picasso, na pintura. E está aí o Drummond, na poesia. E está aí o Brecht, no teatro.
Não percebem, no entanto, os que levantam tais argumentos, que nem Picasso, nem Drummond, nem Brecht deixaram de fazer o que eles melhor sabiam: pintar, poetar e escrever peças de teatro. Porque renovaram. Não destruíram. Porque sabiam o que estavam fazendo, ao estabelecer novos padrões artísticos. Dentro da pintura de Picasso, da poesia de Drummond e do teatro de Brecht, pode-se encontrar, não apenas o novo, mas a tradição renovada, às vezes ao extremo, mas sem deixar que a arte em que foram gênios se desfigure e se torne outra coisa. Respeitaram, apesar de tudo, a melhor forma de sua arte.
Então, meus caros e preguiçosos amigos que acham que basta colocar um bando de atores fantásticos a dizer qualquer texto no palco, que temos teatro: teatro precisa, sim, de boa dramaturgia, feita de acordo com os princípios básicos da arte teatral, que é tão antiga quanto o homem, talvez, e não pode ser deixada de lado com o argumento tosco de que esse negócio de carpintaria dramatúrgica é bobagem, que eu faço assim ou assado porque o que importa é a emoção do público que, coitado, sem saber de nada, engole pato por ganso, ou vice-versa.
iesidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:05 AM
Sábado, Abril 21, 2007
MASSACRES SEM MOTIVO APARENTE: UMA INVENÇÃO ESTADUNIDENSE
De vez em quando, os Estados Unidos da América e o mundo vêem-se assombrados diante de massacres sem motivo aparente. Um cidadão qualquer, pretensamente surtado, fortemente armado, investe contra crianças ou pessoas comuns, atirando e matando, sem dó nem piedade. E suicidando-se, em seguida.
Por quê?
Não há uma resposta para isso. Só o que podemos fazer é conjeturar. Levantar hipóteses. Não vou, portanto, tentar explicar o que se passa na cabeça dessas pessoas: vou, apenas, levantar algumas razões de ordem histórica e sociológica, para tentar colocar um pouco de racionalidade nessa loucura. Se isso é possível.
Nos Estados Unidos da América, constitucionalmente, todo cidadão pode andar armado. As condições que o impedem de comprar uma arma são mínimas. Há um culto às armas, nos Estados Unidos da América.
Na Suíça, quase todo cidadão possui uma arma. Muitas vezes, vendida (ou quase doada) a ele pelo próprio governo, através do Exército. É uma das poucas nações do mundo que tem taxa per capita de armas mais alta que os Estados Unidos. Mas, a Suíça praticamente não ostenta crimes com armas de fogo.
Por quê?
Achei esta anedota na Internet. Ela nos fornece uma pista, ou uma das pistas:
O príncipe alemão Wilhem Hohenzollern, depois kaiser da Alemanha, há muito tempo, em visita à Suíça, assistia aos treinamentos militares a que os cidadãos desse país são submetidos periodicamente. Então, perguntou ao comandante do exercício: Quantos homens em armas você possui? Um milhão, respondeu-lhe o comandante. O príncipe insistiu: O que você faria, se cinco milhões de meus soldados cruzassem sua fronteira amanhã? O comandante suíço não pestanejou: Cada um de meus homens daria cinco tiros e voltaria para casa.
Os cidadãos estadunidenses têm uma longa tradição de uso de armas de fogo. Os suíços, também. Há, porém, uma grande, imensa diferença: enquanto os cowboys e conquistadores estadunidenses usavam suas armas para desbravar o bravio oeste, conquistando e matando índios e quem mais se lhes aparecesse pela frente, os cidadãos suíços sempre treinaram exaustivamente para a defesa, e somente defesa, de seu território.
Arma de fogo significa ataque, para o estadunidense.
Arma de fogo significa defesa, para o suíço.
O estadunidense atacado em seu território vai à forra: o Paquistão e o Iraque estão aí como exemplos mais recentes.
O suíço dá cinco tiros e volta para casa, nas palavras da velha anedota.
A Suíça, embora localizada no centro de inúmeros conflitos, muitas vezes em posição estratégica entre nações beligerantes, manteve uma longa tradição de neutralidade. Os Estados Unidos, com seu vasto território, um verdadeiro continente a que nenhuma outra nação ousaria tentar invadir, tem, no entanto, uma longa tradição de interferência em todos os conflitos que explodiram no mundo nos últimos duzentos anos.
Mas isso não explica por que, nos Estados Unidos, de vez em quando, cidadãos em fúria matam outros cidadãos indefesos, numa série de massacres que traumatizam a sociedade e horrorizam o mundo. Há, ainda, muitos outros fatores históricos e sociológicos.
Os pioneiros na conquista do imenso território norte-americano, desde o estabelecimento das Treze Colônias, tinham origens e etnias diversas. Mas, a preponderância de ingleses fugidos de perseguição religiosa na Inglaterra levou a que prevalecessem os valores rígidos do cristianismo protestante, muito diferentes dos valores católicos. Enquanto, em termos de moral, os preceitos são extremamente conservadores, o luteranismo e o calvinismo desses pioneiros tinham conotações bastante pragmáticas de lucro e de conquista material, como resultante do trabalho duro. Um nação de fortes, ou seja, de gente que não teme o clima, a geografia e os antigos habitantes dos territórios conquistados a ferro e fogo. Disso resultou uma nação poderosa, mas tradicionalista e conservadora, principalmente no universo profundo de seus interiores. Enquanto as cidades se tornam cosmopolitas, o interior mantém-se fechado e conserva costumes e ódios antigos: aos forasteiros, aos que são diferentes, aos que podem representar qualquer ameaça a seus pequenos feudos e mundos. E esse é o estadunidense típico, não o que mora em Nova Iorque ou São Francisco.
Nas pequenas e médias comunidades, prósperas como toda a Nação, não há espaço para o novo, em termos de moral, bons costumes e tradições. Formam-se pequenos blocos de conservadorismo dentro de blocos maiores de conservadorismo, onde os cidadãos encontram seus semelhantes e sua proteção. Nas igrejas, nas escolas, na sociedade, há grupos e grupelhos que se formam em torno de interesses comuns, sejam um simples clube de pesca ou partidos políticos. Tenho a impressão de que todo cidadão precisa pertencer a alguma tribo, a algum grupo, como forma de marcar seu lugar na sociedade. E esses grupos e grupelhos podem até mesmo guerrear entre si, às vezes de forma simbólica, às vezes de forma efetiva. São clubes de luta, de luta por um lugar no complexo sistema capitalista em que, a cada dia, se torna mais difícil se sobressair. Paradoxalmente, o indivíduo se anula dentro do grupo, para se destacar na sociedade. Ou vice-versa: destaca-se no grupo, mas se anula frente à sociedade, perdido entre milhares de outros nas mesmas condições de competição.
Competição. Essa uma das palavras-chave para entender a sociedade estadunidense. O progresso em praticamente todas as áreas do conhecimento humano e o capitalismo selvagem que, ao mesmo tempo incentiva o indivíduo a destacar-se, a tornar-se uma celebridade, esmaga-o contra um muro de dificuldades para alcançar a tão sonhada notoriedade. Lutar e sobreviver não são mais as palavras de ordem, advindas dos pioneiros. Agora, a ordem é lutar e vencer, a qualquer custo, numa sociedade em que não há lugar para perdedores, considerados inferiores.
E inferiores não são somente os derrotados, são também os negros, os índios, os imigrantes que não tenham pelo menos os mesmos traços e costumes do estadunidense médio, branco, olhos e cabelos claros e um certo grau de escolaridade. Mas profundamente ignorante em relação ao resto do mundo. O preconceito de cor, o preconceito social, o preconceito religioso imperam nas blocos de grupos e grupelhos. Ser diferente é motivo de mofa, de discriminação, como se o diferente fosse sempre o inimigo a ser destruído, um paradigma que os meios de comunicação, principalmente o cinema de Hollywood, costumam repetir à exaustão, de forma às vezes sutil, mas implacável. King Kong, o macacão, precisa ser capturado, amarrado, trazido para a civilização. Como não se conformou, foi destruído, porque era ameaça. Os alienígenas de quase todos os filmes são seres monstruosos e ameaçadores, como são todos os imigrantes, considerados monstruosos por serem morenos, por terem cabelos negros, por terem olhos puxados ou por se vestirem de forma diferente. E até por rezarem a um deus diferente.
E há mais: na sociedade capitalista, competitiva, instalam-se o consumismo desenfreado, a gastança sem poupança, o imediatismo, a sobreposição do bem material aos valores mais sutis do respeito a si mesmo, ao outro, à vida e ao mundo que nos cerca. O conservadorismo cristão, que leva a que milhões de pessoas acreditem no significado literal da Bíblia, convive com a pregação hedonista do culto a carrões bebedores de gasolina, de mansões em cidades pitorescas, de iates, de brilhos de uma vida material de riqueza e ostentação. E consumo, claro, de tudo o signifique prazer, desde o ar que se respira até a cocaína produzida no terceiro mundo. São os novos cowboys a desbravar novas fronteiras, sem nenhum princípio de respeito ao mundo que os rodeia.
E, numa sociedade assim, a lei do mais forte leva ao culto da violência, também ela um dos ícones dos Estados Unidos, cantada em prosa e verso, em filmes e livros, em programas de televisão, em revistas de quadrinhos, em histórias da Disney. A violência não está apenas nos assassinatos, nas armas, na longa tradição de massacres e conquistas e guerras, mas está presente no detalhe do bullying nas escolas ou no olhar de desprezo ao imigrante latino. Há tanta violência na invasão do Iraque, quanto no corte de verbas sociais do governo para atendimento das populações mais pobres.
Claro, não existe só isso nos Estados Unidos. Há uma civilização brilhante em muitos aspectos. Que todos conhecem e admiram.
Mas são esses os componentes trágicos que levam ao nascimento de ódios individuais, de desejos súbitos de vingança contra o sistema que discrimina, não importa se o indivíduo é branco, de olhos azuis e nerd, ou de olhos puxados como o sul-coreano que perpetrou a mais recente chacina num campo universitário de uma cidade do interior. O que importa é que há componentes de uma grave doença social, se assim podemos chamar o conjunto de elementos de tradição e de constituição do conservadorismo e da intolerância, do consumismo desenfreado ao culto da violência, por um povo que tem tudo para dar certo, mas que não sabe olhar o mundo e os demais povos do mundo com olhos de compreensão e, principalmente, de respeito.
E, numa sociedade assim, doente, não é incomum que indivíduos alucinados, porque não se integraram, ou melhor, que se desintegraram em sua personalidade em conflito com valores que eles não conseguem assimilar, porque são diferentes ou não encontraram possibilidade de inserção, se revoltem e saiam atirando como única forma de serem reconhecidos como indivíduos, mesmo que depois de mortos.
E há, ainda, os doentes mentais, indivíduos não apenas não integrados socialmente, mas psicopatas claros ou enrustidos, prontos para repercutir em suas personalidades doentias toda uma gama de condições propícias para a perseguição de fantasmas interiores na forma de gente comum, alvo de seus ódios ou de suas frustrações.
Este o cadinho de condições: uso indiscriminado de armas de fogo e facilidades mil para sua aquisição por qualquer imbecil; propensão à guerra, à conquista, como forma de marcar sua posição como povo; visão conservadora e moralista da vida, com tendências a um cristianismo fundamentalista, mas pragmático quanto à utilização do outro e do ambiente para acumular poder e fortuna; consumismo exacerbado; culto à violência como forma de afirmação diante do mundo; visão deformada do outro que, por ser diferente, é sempre tido como inimigo a ser destruído; tribalização dos grupos sociais, como forma de proteção individual, propiciando o desenvolvimento de desconfianças e preconceitos em relação aos demais.
E quando tudo isso e talvez muitas outras características mais encontram uma personalidade psicótica, temos as condições ideais para a transformação de um indivíduo aparentemente conformado num assassino em potencial, a perpetrar massacres sem motivo aparente.
Essa a grande invenção americana. Que não se esgota no útlimo caso, repercutido pela mídia do mundo todo. Porque não há como impedir que os fatores históricos e sociais ajam. Porque não há como modificar traços culturais profundamente arraigados.
Então, os cidadãos estunidenses estão expostos, sim, a que a qualquer momento um outro louco saia atirando em suas crianças, em seus jovens, em seus pares, sem que nada se possa fazer para evitar que isso aconteça.
Ainda mais porque é mais fácil comprar uma arma numa loja ou supermercado, do que uma aspirina numa farmácia. Ou uma coca-cola no McDonalds.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:06 PM
Terça-feira, Abril 17, 2007
TEMPOS DE ESTREMECER
Sãos estes os tempos, os nossos tempos. Tempos de estremecer.
Liga-se a tevê. E lá está. O estremeção. Ou o soco no estômago, que também nos estremece.
Basta ligar a tevê: trinta mortos em atentado. Onde? Só podia ser lá, em Bagdá, nunca pra lá de Bagdá. Normal um certo estremecimento.
Ouve-se no rádio: bala perdida mata criança. Onde? Sorrio, antes de estremecer. Não o sorriso de confiança, mas o sorriso de escárnio e de dor. Morta uma criança, vai-se uma esperança. No rio, digo, no Rio. Só pode.
Abro o jornal: vai fazer a bomba. Não a de chocolate, que não estou na seção de culinária, mas na internacional. A bomba é mesmo aquela, que brilha e fode. Logo pela manhã! Suspiro. E estremeço. Pelo Irã.
Insista, me diz o último estremeção antes da rua, abra a revista. Lá está: mais corruptos na prisão. Menos um juiz (que antes era só o de futebol) ladrão. Por esse, não estremeço, não: vomito. E não sei o que digo. - Fica muito tempo? - Onde? - Na prisão, oras! - Bobo! (Quase não estremeço).
Saio à rua. E logo o papo que encontro reforça: - Você viu? - O quê? - Mataram mais de trinta! ¿ Ora, de tanto estremecer por isso, já nem ligo... em Bagdá é assim (ai de mim!). - Mas foi pra lá de Bagdá, foi na Virgínia... - Na vaca??? - Que vaca! Está louco! Estados Unidos, Virgínia, o estado dos Estados Unidos! (Estremeci). - Como! De novo o Bin Laden? - Que nada, um estudante... atirou nos colegas e matou... matou mais de trinta. - Ah! Bom, que susto! Pensei que era o Bin Laden...
Tempos de estremecer. E de tanto estremecer... já não estemecemos.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:35 PM
Quinta-feira, Abril 12, 2007
CLIMA, CPI E GRAVATAS, COM MUITO VENENO E ALGUM MAU HUMOR
Cobra não morre do próprio veneno. Portanto, estou tranqüilo quanto a meu mau humor. Sim, ando meio puto, não com a vida, mas com pequenos e grandes acontecimentos que andam rolando por aí.
Como não ficar mal humorado, se vejo na tevê um comercial do Green Peace mais ou menso assim:
Lembra de quando sua geração queria mudar o mundo? Pois é: vocês conseguiram. E mostra a Terra em agonia, por causa do aquecimento global.
Ora, individualmente, eu não tenho nada com isso. Não sujei a atmosfera, não defequei nos rios, não envenenei os campos com agrotóxicos, não... enfim, não fiz nada disso. E aí acende aquela luzinha maldita da culpa judaico-cristã: mas sua geração!... Que bando de canalhas, hem? Quintuplicou a população mundial, aqueceu a guerra fria, destruiu vários países com guerras absurdas, despejou milhões de máquinas poluidoras por todo o globo, destruiu as florestas, fez desaparecer não sei quantos cursos d¿água e cagou, sim, cagou, literalmente, nem todo e qualquer líquido que corre sobre a Terra... Que droga!
E então, abro os jornais. E lá estão, de novo, as mesmas caras de políticos caras de pau, a pedir CPI do apagão! Claro, querem um novo Circo de Palhaços Imbecis (CPI) para atacar o governo que tem alcançado, apesar de toda a herança maldita (e não é só do FHC, não, que é muita pretensão dizer que só ele ferrou o Brasil) de dezenas de caras que estiveram no poder e só defenderam o seu rabo. E as manchetes de jornais se abrem para um fato estarrecedor para esses cretinos: o Brasil tem melhorado! Não para os ratos de sempre, que perderam o queijo e agora se esgoelam pelos corredores do Congresso, presos aos restos de um navio fantasma que eles quase levaram a pique. E tem mais uma coisa: o povão, que só anda mesmo é de busão, não está nem aí para os engravatados (epa!) que lotaram os aeroportos. O povo quer saber, mesmo, é de arroz e fejão no prato, uma carninha de vez em quando... e emprego. Mas isso não tem importância para os que se denominam tucanos (de bico grande e feito de pau) e democratas! (Democratas! ah! ah! ah! isso, sim, é muito engraçado!). Casta maldita, essa de políticos!
Aquecimento global e esses políticos me deixam, sim, de mau humor. Mas, não é só eles, não. Há também o Henry Sobel, tonto como um zumbi, com certeza, por conta de remédios que esses psiquiatras de araque receitam para tudo, a roubar gravatas de grife em lojas dos States. Para esses caras que receitam drogas da felicidade para as tristezas da vida, para crises existenciais, para casamentos desfeitos ou até mesmo para unha encravada, eu devia estar tomando altas doses de Prozac, como se isso resolvesse todos os meus problemas de humor. Droga não cura tristeza. Nem mau humor.Mas faz muita gente pagar mico. E mico a gente se livra dele assim: tirando sarro! Mas, não: os humoristas de plantão (que devem estar, também, com o humor também atravessado) só levam chumbo, quando resolvem tirar uma casquinha do apagão do ilustre rabino. Essa gente leva gozação a sério, e me tira do sério. Haja mau humor!
Bem, ainda há dezenas de fatos por aí, a atiçar o meu veneno. Nem vou falar do trem da alegria dos ilustres vereadores (?) de São Paulo. Também não vou citar a briga surda no ninho tucano paulista entre o atual e o ex-governador. Só digo que tenho pena, sim, pena, do Serra (apesar de tucano ser ele, não eu), porque não pode botar a boca no trombone (como fez, por exemplo, o Lula) e acusar seu antecessor de ter deixado o Estado quase quebrado por incúria administrativa, roubalheiras mil e outras cositas más (entre elas o buracão do metrô). Bem, pelo menos nos Estados em que se reelegeu o Governador (como Minas, por exemplo), foi só continuar com as mesmas maracutaias. Que ninguém parece reclamar, não! Eta povinho bovino!
Ah! E a violência? E as obras do Pan? E a indigência de nosso futebol? E a novela das nove que anda uma droga? E a dengue? E o Bush, que continua matando gente? E a Al-Quaeda, que continua disputando com Bush quem mata mais? E aquele cara chato do Irã, querendo a todo custo fazer bomba atômica? Pra quê? Se o governo dele já é uma bomba! De efeito retardado, como ele! Bem, a lista não teria fim... E eu fico me lembrando de um antigo samba cantado pelo Miltinho: cara de palhaço, roupa de palhaço, foi o que eu arranjei pra mim!.
Aliás, pensando bem, disso tudo só há um fato digno de boas piadas: o Henry Sobel, o ilustre rabino de cabelos chanel, a malufar quatro (eu disse: quatro!) gravatas de grife em lojas dos States. E os mal humorados (eu, hem?) querem nos tirar isso, a única coisa engraçada que aconteceu nos últimos tempos! Dizem: respeito, o passado do rabino, sua vida, politicamente incorreto etc. etc. etc. Ora, ora, ora, eu me pergunto: e daí? Perde-se o amigo, não a piada. Mas, cale-se boca, antes que engula o próprio veneno!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:17 PM
Segunda-feira, Abril 02, 2007
VENENOS DE HOJE
Um sol de rachar coquinho. Alguém, por favor, avise ao Sol que já estamos no outono. Esse tal de aquecimento global deixou louco o verão: como o carnaval baiano, não tem mais data para terminar!
Faz-me rir: o nome que o ARENÃO (Aliança Renovadora Nacional, a ARENA, lembram?) dos milicos escolheu para substituir a sigla PFL: DEMOCRATAS! Pois, é: vamos dizer, e a imprensa já o faz: o DEMOCRATAS!!! Com um bando de fascistas dentro, o erro de português será o menor problema.
Cidade limpa. Kassab, o inefável prefeito do inefável Democratas (sic), deixará, sem dúvida, uma obra meritória na cidade de São Paulo, aliás, a única: a limpeza da propaganda ilegal e da montanha de outdoors que deixam a cidade um caos visual. Até os estabelecimentos comerciais serão obrigados a usar placas menores e mais clean. Sem dúvida, uma boa idéia, apesar de tudo.
Milico é assim: reclamou, detenção. Já pensou se a Aeronáutica mandasse prender todos os controladores de vôo que estão insatisfeitos? Aí, sim, a nossa elite viajante (e não me venham falar de reuniões e negócios perdidos, poque no país do jeitinho e do carnaval, tudo se adia!) iria chorar as pitangas por muito tempo ainda. Afinal, o que os caras estão dizendo é o que todo mundo sempre soube, mas fingia não saber: deixar na mão de milico um setor importante do País (como o controle do tráfego aéreo) só podia mesmo dar merda.
Haja saco para agüentar, todo dia, notícia sobre a vinda do tio Bento ao Brasil. Não vamos ter descanso até muitos dias depois de sua partida. Até santo brasileiro, o alemão (não o do BBB7, que este, pelo menos, é só um moleque inofensivo) inventou, para atrair de novo a clientela brasileira, que andava arisca. Vai ser, pelo menos por algum tempo, um estrago danado nas hostes dos tiradores de demônio: o que será que a cambada de crentes vai aprontar pra neutralizar o marketing do Vaticano? Vão convocar o próprio capeta em pessoa, para humilhá-lo em praça pública? Haja saco! Para agüentar o tio Bento e suas pregações medivais e a gritaria dos crentes!
Quem pode mais chora menos. Querem uma CPI do apagão (eta palavrinha idiota!) aéreo? Então, que se abram as quase setenta CPIs que estão engavetadas na Assembléia Paulista, inclusive a do buraco do metrô, que matou sete pessoas e ameaça pôr em risco uma obra cara e fundamental para a cidade, cujo contrato com as empreiteiras ninguém explica. O governo tucano de São Paulo, continuo afirmando, é uma caixa preta com muita roubalheira e sacanagem dentro. CPIs JÁ!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:55 PM
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