|
|
Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007
DE BLOGS E BLOGUEIROS
Confesso que sou blogueiro de carteirinha. Tenho três blogs. Publico textos quase diariamente. Visito outros blogs. Divulgo os meus blogs e os blogs dos amigos.
O mundo dos blogs é o big brother da Internet. Não há limites para a imaginação humana, para o expor-se publicamente ou para o voyeurismo. Por mais recatada ou mentirosa que seja uma página pessoal na rede, há ali revelações, mistérios, desejos, frustrações, alegrias, pensamentos.
Impossível categorizar os tipos de blogs. Há-os confessionais, impessoais, brincalhões, loucos, musicais, intensos, fúteis, religiosos, ateus, simples, complicados, ilustrados, tensos, trágicos, cidadãos, informativos e uma infinidade de tipos e categorias quantos são os sonhos e pensamentos de homens, mulheres, jovens e até crianças, de todas as cores, de todas as posições políticas e sociais. De todo o mundo.
O mundo dos blogs é um mundo democrático. Quase sem censura. Digo quase, porque há os que exageram e, exagerando, provocam iras. Porque, no mundo dos blogs, tudo é possível. Até a falta de decoro, de ética ou de cidadania.
Como disse, gosto de visitar outros blogs. E sempre que tenho tempo, oportunidade ou disposição, faço uma viagem rápida por esse mundo. Encontro coisas belas e coisas escabrosas. Porque assim são as pessoas.
Mas, o que eu acho mais interessante é o número de blogs de jovens, meninas e meninos em tenra idade. Os dos garotos quase sempre são mais discretos em suas cores e tratam de temas variados. Nos das garotas prevalece o rosa e o tom confessional.
Quando topo com esse tipo de blog adolescente, nunca me detenho para ler ou ver as imagens. Porque me sentiria (eu, um quase velho ou mais provavelmente um velho recente), um fauno a invadir um jardim proibido. Sei que os jovens de hoje não são inocentes. E mesmo as crianças já têm um pouco mais de malícia do que as de gerações anteriores. Mas a falta de inocência ou a malícia de jovens e crianças pertencem ao seu mundo, são coisas por que nós também já passamos, são momentos de vida que devem ser respeitados. Por isso, quando topo com um blog todo rosinha, por exemplo, sei que é de de menininha, e passo batido.
Porém, não é possível, às vezes, deixar de ver uma ou outra coisa engraçada, ou o registro da preferência por uma banda do momento (tanto de meninos quanto de meninas) ou ainda o jeito de começarem seus posts (odeio essa palavra!). Assim, quase sempre começam a mensagem do dia com um singelo oi, gente, ou e aí, galera e com frases como não tenho tido tempo... , faz tempo que... , enfim, fórmulas simples da linguagem fática, na clara tentativa de buscar comunicação com o receptor. Porque o que eles querem é comunicar-se: com seu grupo, seus amigos, seus colegas, sua tribo. Querem contar suas vidas, suas frustrações, seus sonhos e desejos ou, simplesmente, falar deles mesmos.
Bem, já fui longe demais nessa minha lengalenga sobre blogs. Afinal, só mesmo nós, os blogueiros de carteirinha, gostamos desse imenso cipoal de textos, imagens e fotos pessoais que invadiu a rede, nos últimos tempos. Então, para encerrar, uma nota engraçada. Na minha viagem, hoje, por esse mundo louco de escritores e pretensos escritores, encontrei a pérola abaixo. Não vou citar o endereço, nem o autor da façanha. Tampouco o publico com o interesse de mofa, por seus erros de português. Vejo o pequeno texto introdutório de um blog a ser escrito apenas como ele é: um pequeno exemplo da necessidade de comunicação. Que o julgue o leitor:
Para vcs me conhecerem melhor eu vou contar um pedaso da minha vida.
Tudo começou no dia 18/09/1995, no hospital Beneficiência Portuguesa às 12:45 foi quando eu nasci, agora que creci estou escrevendo um diario na internet.
Bom agora tudo vai começar!
Pois é, no mundo dos blogs, há sempre alguém (não importa a idade) a começar alguma coisa. Isso, apenas isso, já nos dá um pouco de esperança.
Ecce homo!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:14 PM
Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:54 PM
DESTUCANIZAÇÃO DO GOVERNO DE SÃO PAULO: QUEM SE HABILITA?
Nunca entendi e acho que nunca entenderei a paixão do paulista e do paulistano pelo PSDB. E a transferência dessa paixão para o ex-governador Geraldo Alckmin, um político medíocre, que só alcançou o governo do Estado pela morte do Mário Covas, este, sim, um político polêmico, mas competente.
Pois, é: Alckmin fez um governo medíocre. Péssimo, mesmo. Escudado por um batalhão de marionetes bem treinadas na Assembléia Legislativa, deitou e rolou. Nem se deitou mais ou rolou menos. Mas, o certo é que seu governo foi um desastre. A única obra de repercussão que ele começou foi a Linha Verde do metrô paulistano. E todo mundo viu o buraco em que essa obra parou. Um contrato mal feito, com claras intenções de privilegiar empresas que, com certeza, indiretamente financiaram sua desastrada campanha presidencial, já que são poderosas o suficiente para influenciar a decisão de centenas de outras empregas, sem precisar pôr o seu próprio dinheiro (proibido, por estar em concessão pública) na campanha do ex-governador.
E mesmo assim, o povo paulista e paulistano votou em peso no senhor Geraldo, cujas propostas de governo tinham a profundidade de um pires de leite que se dá ao gato faminto. E o Geraldo, responsável pelo contrato de construção do metrô, feito na pressa da apresentar algo de concreto para enganar a população, até agora não veio a público para prestar contas de seus atos ao povo que o ama tanto. Está de malas prontas para os Estados Unidos, bem longe dos problemas paulistas e paulistanos.
Nunca entendi e acho que nunca entenderei essa paixão dos paulistas e paulistanos pelo tucanato. Até encontro uma explicação: a mídia, a famosa mídia paulistana, está nas mãos de seus aficcionados. Jornalistas e, principalmente, donos de jornais, revistas, rádios, televisões etc. a-do-ram o PSDB!
Isso até explica por que, até agora, não saiu na imprensa ou no rádio ou na televisão uma nota sequer ligando o nome do senhor Geraldo ao desastre do metrô de São Paulo. Pode procurar: nadica de nada. O foco está todo nas empresas. E, assim mesmo, diante de toda a trapalhada, de todo o prejuízo, as notas iradas são apenas do povo que se estrepou com a famigerada obra que já há muito vinha ocasionando problemas. Problemas que a mídia ignorou, olimpicamente. Mesmo quando caíram, há quase um ano, algumas casas do bairro de Pinheiros, por obra e graça da construção do metrô.
Posso cometer injustiça, mas não vou deixar barato, não: mesmo as vítimas, que são, com certeza absoluta, eleitores do senhor Geraldo, porque foi ali, naquele reduto, que ele obteve a maioria de seus votos, não chiaram com a mesma intensidade que teriam chiado, se fosse outro o partido no governo do Estado. Têm medo de cuspir para cima, essas pessoas, esses jornalistas, esses repórteres que cobriram o escândalo do buraco de Pinheiros. E também as vítimas, as famigeradas vítimas. Porque sabem muito bem o que fizeram...
Agora, no governo também tucano do senhor Serra, outro queridinho da mídia e dos paulistas e paulistanos, outros desastres se anunciam. Não quero ser cassandra, nem sou adepto do quanto pior melhor, mas um governo que começa errado, tem tudo para não dar certo.
E o que começou errado? O orçamento, senhores, o orçamento do estado. Que, apesar de ainda contar com as mesmas marionetes na Assembléia, não teve vontade política para votar. Ou seja, o senhor Serra está governando o Estado mais poderoso do País sem orçamento. Para quê? Para contingenciar (leia-se: congelar) todas as verbas sociais do Governo: cortes de 37% na Saúde; de 61% em Transportes Metropolitanos; de 86% em Juventude, Esportes e Lazer; e assim por diante. Além de propor corte nos gastos de praticamente todos os programas sociais nas áreas de saúde, educação, segurança pública e outras.
E começou errado, também, pelo discurso de posse. Quem se lembra? Aquilo não foi discurso de posse de um governador, mas de início de campanha de um candidato à Presidência. Em vez de focar suas palavras nos problemas do Estado e nas propostas e programas para resolvê-los, preferiu criticar a política econômica, os juros altos e não sei mais o quê, para júbilo de uma platéia tucana de alta plumagem e enormes bicos de cobiça, de inveja, de ganância pelo poder. Porque tucano que se preza só pensa nisto: no poder.
Serra vai fazer com o Estado o mesmo que fez com a Prefeitura: vai deixar no meio um mandato para se candidatar, de novo, à Presidência. E perder. Porque não tem projeção nacional, porque o povo já está ficando cheio com essas palhaçadas.
Portanto, o desastre que se anuncia no Governo do Estado de São Paulo tem um nome: essa paixão estúpida que paulistas e paulistanos nutrem pelo tucanato de falsas cores quatrocentonas que tomou de assalto os cofres públicos do Estado mais rico do País.
Enquanto não destucanizarmos São Paulo, não saberemos o que realmente se passa dentro da caixa-preta do Governo do Estado. Porque há muita pena suja nesse ninho, há muita maracutaia que vem há anos se constituindo, há muita quadrilha aí dentro, já que, nesses anos todos de tucanato, nenhuma das sessenta e tantas CPIs que foram pedidas na Assembléia de marionetes foi instalada, nenhuma!
Democrata que se diz democrata não pode temer investigação! A não ser que qualquer investiagaçãozinha provoque revoada de aves de bico grande, que voam pouco de tão gordas... e que têm língua comprida, muito comprida, para fazer discurso e enganar um bando de paulistas e paulistanos.
Por isso, não entendo e não vou entender nunca essa paixão de paulistas e paulistanos por essa avis rara, chamada tucano...
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:34 AM
Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007
CULTURA EM DEBATE
Confesso que o assunto é complexo demais para minha capacidade de entendimento. Quando leio, por exemplo, a Lei Rouanet (ou outras) de incentivo à Cultura, vejo apenas um monte de artigos muito mais ligados à burocracia (minha velha inimiga) e à economia (minha velha diferença), do que algo com que eu, um simples ex-professor e dublê de escritor, possa conviver ou compactuar para fazer qualquer coisa.
Ou seja, confesso, meu nefelibatismo, quando se trata dos aspectos mais simplórios desse tipo de assunto. Coisa para gente mais esperta que eu, os produtores de espetáculos, os especialistas, que conseguem decifrar os meandros da lei e conversar com os governos, os empresários e os economistas.
Mas, não é por isso que não possa meter a minha colher de pau nesse história de incentivar a Cultura, porque dela dependemos todos para criar um povo melhor, um País mais habitável e um mundo menos violento.
Então, vamos lá.
Primeiro ponto: aspectos políticos gerais.
Se vivemos numa Democracia, há um governo escolhido pela maioria, para governar, de acordo com suas idéias, com seus conceitos. Sejam eles os melhores ou não. Eu acredito, como democrata que sou, que um governo eleito pelo povo tem o direito de aplicar (ia dizer impor, mas achei um pouco forte) as suas idéias. Portanto, o governo atual não erra ou acerta, ao tentar governar de acordo com seus princípios, que são totalmente diferentes dos princípios do governo anterior. Erro ou acerto são conseqüência de nossas escolhas e, muitas vezes, devemos pagar por eles, para achar o melhor caminho. Assim, mesmo que os mesmos de sempre venham a público para latir contra tudo e contra todos, como sempre fazem, deixemo-los a latir, que é direito deles. O que não é direito deles é tentar impedir, como também muitas vezes tentam fazer, que o atual governo aplique suas políticas. Foi eleito para isso. Democraticamente eleito. Ou não?
Segundo ponto: ainda alguns aspectos gerais, mas ligados à cultura.
Cultura é algo abrangente. Compreende muitos aspectos. Todos sabem disso. E sabem, também, que é um conceito complexo. Por exemplo: carnaval. Muita gente odeia. Mas a maioria do povo adora. É cultura? Claro que sim. E importante. E mais: cultura não é algo desligado das demais manifestações e necessidades da sociedade. Aliás, tudo tem ligação com tudo. Cultura movimenta a economia, sim. E deve, não apenas pode, trazer dividendos, empregos etc. Porrque o artista não vive de sua arte, mas vive do que a sua arte lhe proporciona. Há artistas que ficam ricos (e quem pode julgá-los? quem?); há artistas que são pobres (e como melhorar sua vida? como? não têm, também, direito a uma vida decente?). Então, ficamos assim: se tudo está interligado, se não há dinheiro suficiente para incentivar tudo (o cobertor curto... o cobertor curto...), então há que se estabelecer prioridades. E é aí que entra o aspecto número um, lá de cima: cada governo estabelece as suas prioridades. Se são as melhores, só o tempo é que pode dizer.
Terceiro ponto: mais específico, da Cultura.
Se há democracia, se o cobertor é curto, se tudo está interligado, e mais: se as prioridades estabelecidas (não importa por quem: sempre agradarão a uns e desagradarão a outros) o foram por esse governo democraticamente eleito, de acordo com as leis, sem as ferir, mas apenas direcionando os recuros para aquilo que ele, o governo, acha certo, então por que a chiadeira? Chiam os que não foram contemplados, porque é direito deles. Mas, dizer que o Governo não pode isso ou aquilo, porque tudo tem de ser feito como sempre foi feito, é, no mínimo passar um atestado de burrice ou de viés autoritário. Que, aliás, esse País sempre sofreu. E todos sabem no que deu (não era para rimar!).
Quarto ponto: o que eu penso que deve ser uma lei de incentivo à Cultura.
Em vez da choradeira (e de ficar dando muita corda aos chorões de sempre), acho que o debate deve ser voltado para mecanismos de aperfeiçoamento das leis de incentivo e do controle social que a grana aplicada à Cultura deve ter. Acho, por exemplo, que uma parte do dinheiro que o Governo abre mão (e que volta através de outros impostos gerados por aumento do emprego etc) devia incentivar não apenas o produtor de Cultura, mas o consumidor final. Assim, uma porcentagem do dinheiro que uma empresa aplicaria na produção do bem cultural pudesse ser aplicado para subsidiar seus funcionários a comprar esse bem. Esse subsídio podia total (ingressos grátis, por exemplo,de uma peça, um concerto ou uma exposição de pintura e, até mesmo, uma espécie de ticket para a compra de um determinado livro) ou parcial (com desconto, o que podia atingir um número maior de pessoas e estabeleceria o compromisso de aquisição do bem cultural, por parte de quem compra). E até as prefeituras e os estados podiam fazer isso, através de suas secretarias de educação: comprar, por exemplo, uma parte da bilheteria de um espetáculo e repassar a seus estudantes com desconto ou gratuitamente. Isso, mais do que qualquer campanha, estaria criando uma massa crítica de consumidores de bens culturais.Porque, afinal, artista deseja mesmo é publico, mais até do que subsídio pura e simples.
Enfim, acima de todo e qualquer debate ideológico, o importante é fazer que o maior número possível de pessoas tenha acesso aos bens culturais. Porque, muito além dos aspectos econômicos, a Cultura pode ajudar, e muito, a fazer desse nosso povo um povo melhor, mais sociável, mais sintonizado com os problemas que nos afligem. Cultura e Educação são os pilares principais de qualquer povo que se queira dizer civilizado. E, mais do que nunca, é de civilização e de civilidade o que mais precisamos.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:27 PM
Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007
OS QUE MATAM JOÕES E LIANAS TAMBÉM MORREM
A barbárie está solta.
Nas ruas do Rio de Janeiro e de Bagdá.
A barbárie está solta.
Na Palestina e nas areias da África, que agoniza na miséria e na AIDS.
A barbárie está solta. Só não estão soltos os dólares, os reais, os euros que podiam evitar as guerras, melhorar a condição de vida das favelas do Rio e das cidades da África. Que podiam ser empregados para salvar vidas em Gaza ou em milhares de outros lugares do mundo onde se mata, se esfola, se destrói em nome de quê? De nada... Porque a vida humana não vale absolutamente nada.
Não vou falar da dor dos pais do menino pintassilgo (conforme a crônica da Urda Alice Krueger, de Blumenau), porque não deve haver dor maior que perder um filho, principalmente de forma bárbara.
Não vou falar do clamor nacional para diminuir a idade penal de 18 para 16 anos, porque isso é uma estupidez (daqui a pouco vamos diminuir para 14, para 12... e onde iremos parar?).
Não vou falar da necessidade de se buscarem novos valores para uma sociedade que parece ter batido no fundo do poço da estupidez, da ganância e da falta de respeito por si mesma, pelos outros e pelo meio ambiente em que vivemos.
Não vou falar da hipocrisia de uma classe média que fuma, cheira, se pica e come drogas proibidas, alimentando com seu vício traficantes que matam, esfolam e destroem por uma parcela dos dólares de magnatas do tráfico internacional que deitam e rolam de rir de todos nós em suas mansões na Califórnia.
Não vou falar do que os governos e governantes precisam ou não fazer para conter a tal onda de violência que nós alimentamos, com nossos valores, com nossos costumes e com nossa letargia.
Queria falar de uma coisa só: do tanto de dinheiro que anda por aí, arrecadado por centenas, talvez milhares de organizações voltadas para menores abandonados, para menores carentes, para menores de todo tipo, até mesmo aqueles que matam, esfolam e destroem.
Outro dia, num programa de entrevistas na televisão, desses que passam já depois que quase todo mundo está dormindo; desses programas que privilegiam as chamadas elites, senhores empresários e madames empertigadas em vestidos caríssimos e penteados que custam vários salários mínimos a cada escovadela em salões de luxo; pois é, num desses programas de entrevistas de gente de bem, ou ouvi de uma dessas madames que ia passar o carnaval em Punta Del Leste, com os amigos... Até aí, tudo bem, podem as madames e seus lulus passarem o carnaval ou qualquer outra data onde lhes aprouver. Mas o que me espantou foi a cara de pau da tal madame em pedir doações para sua organização de amparo ao menor abandonado, ao menor carente que tenha câncer ou sei o que fosse.
E eu pensei: quanto real, quanto dólar, quanto euro arrecadados em nome das criancinhas carentes a passear em Punta Del Leste ou em cruzeiros de luxo e riqueza ou a desfilar pelas passarelas da moda, Roma, Nova Iorque, Paris, Londres!
E eu pensei: se todo o dinheiro arrecadado para as crianças carentes desse nosso País fosse realmente empregado para as crianças carentes desse nosso País, não haveria mais crianças carentes nesse nosso pobre País! É dinheiro que sai do nosso bolso, por via direta, quando fazemos doações ou por via indireta dos impostos que os governos arrecadam e distribuem entre dezenas, centenas, talvez milhares de organizações voltadas para o amparo de crianças carentes...
E há dezenas, centenas, milhares de crianças carentes a desfilar sua falta de perspectiva, de educação, de comida, de amparo não por passarelas da moda como Roma, Paris e Nova Iorque, mas pelas praças, pélas ruas, pelas vielas imundas de nossas cidades cercadas por favelas dominadas pelo tráfico, pela bandidagem que, esperta, usa essas crianças para cometer seus crimes e ficarem impunes.
Enquanto isso, há um clamor para que haja leis que punam as crianças carentes desse País, Crianças que matam, que esfolam, que destroem, sem perceberem todos os que gritam contras eles que eles fazem isso, sim, porque acuadas por bandidos, pela miséria, pela falta de valores morais, por milhões de motivos, mas que esses menores que matam, esfolam e destroem também são mortos, aos milhares, esfolados pela polícia, por outros menores, pelos traficantes e morrem como pintassilgos que nunca cantaram, presos, destruídos, nos becos, nas favelas, nas ruas... Ou nas guerras sujas que bilhões de dólares financiam em todo o mundo.
Os que matam joões, lianas e marias, nossos filhos e filhas, também morrem. Pela mesma barbárie.
Que, sim, está solta.
Aqui, na sua rua, no seu bairro, na sua cidade. Ou melhor, na nossa rua, no nosso bairro, na nossa cidade, no nosso mundo.
Ecce homo!
P.S.: se quiserem ler a crônica citada, acessem:
http://macunaim.sites.uol.com.br/urda.htm
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 5:19 PM
Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007
A SOCIEDADE COMPLACENTE
Há muito tenho pensado no tema da complacência e do perdão. Resolvi escrever para pensar melhor. E pode ser que não cheque a nenhuma conclusão. Como o que se segue é só teoria, não vou citar exemplos. Deixo-os para o possível leitor dessas linhas, já que a imprensa e nosso imaginário estão cheios de casos exemplares..
Somos uma sociedade complacente. Acreditamos que o homem é um ser criado por um deus para servi-lo. Sempre. E todos devem ter uma segunda oportunidade. Mesmo que o inferno cristão esteja cheio de bem ou mal intencionados. No entanto, entre o céu e o inferno, temos preferido o purgatório.
Explico-me. Nossa Justiça baseia-se em leis complacentes. Se, por um lado, não temos pena de morte (o que é humano, muito humano), também não temos prisão perpétua (o que, em muitos casos, é justo, muito justo). E não permitimos que um criminoso cumpra mais de trinta anos de reclusão. Ou seja, se alguém comete um assassinato, por mais cruel que seja, aos dezoito anos, e cumprir toda a pena (o que é muito raro), estará de volta à sociedade antes dos cinqüenta. Muitas vezes, para matar de novo.
Mas, isso não é tudo. Repito: raramente um criminoso cumpre toda a pena. Há sempre um jeitinho de soltá-lo antes. Antes, não: muito antes. E é aí que está a razão de minha bronca para com o nosso Código Penal, para com nossas leis. Disse bronca, não indignação. Porque há muitos cidadãos indignados, nesse País. E eu não quero ser mais um. A indignação leva à injustiça, ao juízo raso do valor real daquilo que nos causa ódio. O cidadão indignado quer fazer justiça com bengaladas ou com impropérios. Ou seja, ele se transfigura em justiceiro: julga, condena e aplica a pena. Isso é estupidez. Basta dar uma olhada nos atos estúpidos dos cidadãos indignados.
Não. Não é com indignação que vamos mudar as nossas leis penais. Só o podemos fazer através do raciocínio lógico, do convencimento daquilo que é melhor para a sociedade.
Sejamos objetivos. A sociedade produz gente. De todos os tipos, de todos os temperamentos. Há indivíduos úteis e inúteis. Há pessoas de boa índole e pessoas de má índole. Há os que sofrem e os que fazem sofrer. Há os cumpridores da lei e os marginais ou marginalizados. Assim como há pretos e brancos. Ou de olhos negros ou olhos azuis. Também há inteligentes e estúpidos. As variações vão ao infinito. E isso é um fato, não um julgamento moral. Para possibilitar a convivência entre todos, estabelecem-se leis. Que devem ser razoáveis e justas. Ou seja, numa democracia, as leis existem para que se obtenha um mínimo de ordenamento, de respeito entre as pessoas. Quando esse princípio é rompido, a sociedade tem o direito de julgar o fora da lei (e julgar significa ponderar entre argumentos opostos, o que significa o amplo direito de defesa) e puni-lo. Não de se vingar. Mas de lhe dar a punição justa, na justa proporção do crime cometido.
Punição significa, diante da sociedade, algo a que o indivíduo deve renunciar ou é obrigado a fazer, para desculpar-se: um pagamento pecuniário, a realização de tarefas ou a perda da liberdade, conforme, repito, a gravidade do delito.
Estabelecido o princípio de que a sociedade tem o direito de punir quem transgride suas leis e estabelecidas punições justas para cada delito, não há por que os criminosos não cumpram as penas a eles designadas. Ou seja, não há razão nenhuma para que se interrompa o processo do apenamento por medidas de progressividade ou de liberdade condicional ou outros abrandamentos que chegam ao ridículo de um indivíduo ser condenado a trinta anos de reclusão e cumprir apenas cinco!
Porque a punição tem dois objetivos: o educacional, cujo princípio é levar o indivíduo que cometeu delitos leves a compreender que não deve mais delinqüir; e a punição pura e simples, para os casos graves, quando se cometeu crime contra a vida. No primeiro caso, justifica-se o investimento, pois acredita-se na recuperação do transgressor. Mas, quando o crime é contra a vida humana, o objetivo da pena é tão somente o da punição pura e simples.
Assim como eu acho que a sociedade tem o direito de punir e não de se vingar, também acredito que ela não deve adotar o princípio do perdão.
Perdoar é um ato individual. Eu perdôo porque eu quero fazê-lo, por questão de foro íntimo. Não pode ser uma prerrogativa de um juiz (ou até mesmo de vários juízes) em nome da sociedade, porque nenhum juiz e nenhuma pessoa podem interpretar o sentimento de toda uma sociedade, mas somente podem interpretar as leis que essa sociedade estabeleceu. Nem mesmo o legislador pode aprovar leis de perdão, sem que toda a sociedade seja ouvida e participe de sua elaboração e concorde com o seu conteúdo.
Eu pergunto: quantas pessoas foram ouvidas sobre a tal lei de progressão de pena? A quem interessou a sua aprovação? Por que ela tem sido usada de forma tão abrangente? Quando se trata com igualdade a coisas tão desiguais quanto um roubo de galinha e um latrocínio, está-se cometendo injustiça! Será que a sociedade, como um todo, concorda com isso?
Além disso, parece-me total incoerência impor a um criminoso uma pena e ao mesmo tempo o direito de não cumpri-la. Isso não educa e não pune. Isso dá a ele o sentimento de impunidade e incentiva-o a permanecer no crime, que passa a ser compensador. E mais: incentiva a própria criminalidade, até entre cidadãos pacatos e não propensos ao crime. Já que o fulano fez e não foi punido, eu posso fazer também. O direito ao crime passa a ser a regra. Desde o simples ultrapassar de um farol vermelho no trânsito, até o assassinato do cônjuge, por motivo fútil, como ciúme.
Mas, ainda há mais coisa a dizer. Quando aceitamos que o criminoso é fruto da sociedade, não importando se o crime é exceção ou algo corriqueiro (como o estágio em nos encontramos atualmente, por causa da sensação de impunidade), a punição pelo afastamento da sociedade deve ter regras bem claras.
Primeiro, há que se tratar o prisioneiro com humanidade. Isso significa dar-lhe condições carcerárias higiênicas. Mas significa, também, que não pode ter nenhum contato com o exterior: nada de rádio, televisão, telefone celular, absolutamente nada. E trabalho ou estudo. Ou ambos. Visitas, somente agendadas, ao longo do mês, sem dia determinado que transforme as portas dos presídios em feira e exploração dos familiares. E sem contato físico com o visitante.
Segundo, presídios separados: para os que cumprem penas por crimes contra a vida e para os demais, cujos delitos não tenham tal gravidade. Ou seja, não se misturam assassinos e ladrões de galinha, para usar termos mais prosaicos. O preço pode ser alto? Pode. Mas é obrigação da sociedade, que gerou tanto o bom quanto o mau cidadão, pagar por isso. Sem qualquer sentimento ou de comiseração ou de vingança. Apenas de justiça.
Enfim, não pode a sociedade continuar sendo complacente com o crime e com os criminosos, como tem sido a sociedade brasileira, imbuída do falso conceito de recuperação de criminosos irrecuperáveis, como se bastasse uma breve passagem pelo purgatório, para que o criminoso se arrependesse e nunca mais matasse, estuprasse ou seqüestrasse. E mais: imbuída do conceito absurdo do perdão e não do conceito da justiça pura e simples.
Abdicamos do direito de punir. Qualquer crime: contra nós mesmos ou contra o mundo em que vivemos. E, se não há punição, vulgariza-se o crime. E acabamos todos criminosos, por ação ou por omissão.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:24 PM
|
 |