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{Terça-feira, Janeiro 30, 2007}


O HOMEM HIGIÊNICO



O ser humano é um animal em processo. Desde o surgimento da primeira molécula viva, o homem evolui e se modifica através dos tempos. E ainda não terminou essa trajetória: estamos indo, caminhando, sem saber para onde, mas o processo continua. Se não for interrompido. Pela mão do próprio homem, ao destruir o seu habitat (e ele, ou melhor, nós, nós podemos fazê-lo), pela guerra ou pela poluição.

O surgimento do homo sapiens sapiens, ou seja, o homem moderno, foi o maior, o mais belo e o mais traumático acontecimento desse processo chamado evolução. É claro que não foi um salto, nem ocorreu de repente: foi algo que apareceu aos poucos e foi tomando forma até que a civilização começasse a surgir pelas mãos desse ser complexo e dominasse o mundo.

Mas o homo sapiens sapiens não é fim de uma escala. Ainda vai evoluir para um outro tipo de ser humano, que começa a surgir e que irá, pouco a pouco, tomar as rédeas da civilização e conduzi-la para um patamar diferente do que estamos agora. Dentro do homo sapiens sapiens ainda convivem eras distintas de civilização e civilidade. Somos um cadinho de contradições não resolvidas entre a fera que mata para sobreviver e um ser que tem consciência da vida e da morte.

O novo homem superará a violência, a ânsia de guerra e de matança e compreenderá melhor sua relação com os demais, aceitando todas as diferenças e respeitando-as; estabelecerá com meio ambiente uma relação de convívio pacífico e de não destruição; terá seus olhos voltados não para deuses beligerantes, mas para a construção de um mundo em que a justiça prevalecerá, onde a pobreza se tornará cada vez mais uma exceção, até ser completamente extinta; saberá controlar o crescimento populacional; preparará o caminho para a conquista de outros mundos, mantendo a Terra como o celeiro das civilizações planetárias; será, enfim, um homem preocupado com sua higiene, seja ela mental, física ou psíquica, convivendo harmonicamente consigo mesmo e com os demais, com o meio ambiente daqui e de outros planetas.

Por isso, eu o chamo HOMEM HIGIÊNICO: o sucessor do homo sapiens sapiens
.


posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:34 PM


{Segunda-feira, Janeiro 22, 2007}


SCHADENFREUDE: PARTE II

Está no Estadão de hoje, 22 de janeiro de 2007:


FILHA DE HERNANDES ACUSA PERSEGUIÇÃO DA TV:


A filha dos fundadores da Igreja Renascer em Cristo, Fernanda Hernandes , utilizou a televisão mantida pela denominação para acusar os promotores de Justiça que denunciaram seus pais pelos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e estelionato de agir com o espírito do anti-Cristo,ter sede da vida do apóstolo Estevam, perseguir o povo evangélico e querer instaurar uma nova inquisição no Brasil.


Ao recurso pobre de se defender atacando com o velho jargão da perseguição religiosa, a ilustre primeira filha do casal de estelionatários adiciona o perigoso argumento da inquisição. Ora, o que sabe a moçoila Fernanda Hernandez, a ¿pastora Fê¿, que compra água mineral de helicóptero, sobre inquisições e perseguições religiosas, ao falar de sua mansão no condomínio Boca Raton, na Florida, obtido com dinheiro de golpes contra os fiéis da Renascer?

Sobre seus pais, o famigerado casal perseguido, tenho aqui na minha frente a revista Época, de 29 de maio de 2002 (isso mesmo: 2002!), cuja reportagem de capa traz em letras garrafais: OS CALOTEIROS DA FÉ.

Subtítulo da matéria (ainda na capa):

FIÉIS ACUSAM LÍDERES DA IGREJA RENASCER DE ESTELIONATO. O APÓSTOLO E A BISPA RESPONDEM A 51 PROCESSOS NA JUSTIÇA, QUE SOMAM R$12 MILHÕES.

A reportagem arrola uma série de golpes do casal e de reclamações de credores da Renascer. E ainda traz algumas páginas sobre o estilo de vida dos Herandes, suas festas, os carrões, as jóias e roupas de grife.

ISSO EM 2002, ou seja, HÁ CINCO ANOS, OS GOLPISTAS JÁ ESTAVAM COM O PÉ BEM SUJO DE LAMA.

E agora, essa sujeitinha ordinária, chamada pastora Fê, vem falar em perseguição, em inquisição? E ainda acusa os promotores de justiça de quererem se promover? Ora, dona Fê, vai ser cara de pau assim no raio que a parta!

Por isso, Shadenfreude ainda é, e será por muito tempo, o meu sentimento, ao ver o ilustre casal usar os famosos braceletes do programa de supervisão intensiva dos Estados Unidos, usados para imigrantes ilegais, no lugar das jóias caras que costumam usar.



Isaias Edson Sidney




ACESSE MEUS BLOGS:

http://blogdomacaco.blog.uol.com.br/

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http://www.venenodecobra2003.blogger.com.br


ALGUNS SITES QUE JÁ PUBLICARAM MEUS TEXTOS:

1. Garganta da Serpente:


http://www.gargantadaserpente.com/

- poesia/450 anos, 450 poemas/poema 125: São Paulo descontruída

2. Anjos de Prata:


http://www.anjosdeprata.com.br/

tema: meia luz; conto: tarde vermelha
tema: vampiro, conto: lua negra

3. SESC



http://www.sescsp.org.br/sesc/convivencia/oficina/frabalaio.htm

clicar em ler o texto da semana; conto: nona sinfonia

4. MINEIROS:


http://www.mineiros-uai.com.br/

em pesquisa, digitar meu nome


5. Projeto cultural Cármen Rocha:

http://www.carmenrocha.pro.br/site/index.asp

(em autores e em vários outros itens; em prosa/teatro, há o texto integral de uma pequena peça minha)


6. A ESCREVINHADORA:

http://www.escrevinhadora.com.br/site/index.html

(autor convidado)


Isaias Edson Sidney


6. LEIA LIVROS:


http://www.leialivro.sp.gov.br/texto.php?uid=4460

7. AUTORES E LEITORES:

http://www.autoreseleitores.com/

8. Dicionário de rimas

http://rimas.mmacedo.net/index.php?Escolha=0



posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:08 PM


{Sexta-feira, Janeiro 19, 2007}


SCHADENFREUDE



Está lá, na Wikpedia, a enciclopédia virtual:



Schadenfreude é uma palavra de origem alemã usada também em outras línguas para designar o sentimento de alegria pelo sofrimento ou infelicidade dos outros.



O articulista do Estadão, Gustavo Augusto, já no ano 2000, escreveu, depois de citar várias palavras alemãs de uso quase universal, para expressar idéias precisas:



Se ditames protecionistas nos obrigassem a incorporar apenas uma palavra do alemão, eu abriria mão de todas as citadas para ficar com Schadenfreude. Esta é tão significativa e única que americanos e ingleses a utilizam com freqüência há muito tempo (oficialmente desde 1852, que foi quando o arcebispo R.C. Trench a empregou pela primeira vez na Inglaterra), inclusive em textos jornalísticos, sem ter de explicar entre parêntese o seu significado, pois boa parte dos povos de línguas inglesas sabe que Schadenfreude (pronuncia-se chadenfroid) é aquela sensação de prazer que a desgraça alheia nos provoca.

Pois é: Schadenfreude é sentimento que tenho, quando leio as notícias sobre o malfadado casal fundador da igrejola renascer em cristo, uma paródia bem sucedida da mãe de todas as igrejinhas de esquina de bairro que se julgam no direito de serem as representantes comerciais de deus na Terra, a famigerada universal, daquele bispo que tem rede de televisão e que recolhe sacos de dinheiro no Maracanã.



Não há ódio maior do que o que eu sinto por todas essas teologias de fundo de quintal, fundamentalistas na estupidez e na cupidez, verdadeiras quadrilhas a explorar a ignorância do povo.

Seus dirigentes, todos eles, sem exceção, deviam ser presos, em prisão perpétua, tratados para o resto da vida a pão e água, por saquearem a economia popular, com promessas abusivas e absurdas como o reino de deus a troco de dízimos escorchantes de quem quase nada tem e doa tudo, para que esses dirigentes se entreguem a orgias de desperdício, de luxo e luxúria, comprando cassinos, haras, fazendas, apartamentos de milhões de dólares em Miami, enquanto seus fiéis amargam a vida dura de salário mínimo, para financiar tudo isso.



Schadenfreude. Satisfação de ver o excelso casal pagar (com dinheiro dos fiéis, é claro) uma fiança de dez mil dólares, para mudar de cadeia. Sei que ainda é cedo para comemorar, porque essa gente o que tem de podre tem de poder, e eles podem ser soltos a qualquer momento, para continuar sua vida de estelionatários de deus. Mas, só pelo fato de passarem alguns dias na cadeia, já sinto um prazer muito grande.



Essa renascer em cristo (ou reborn in christ, seu nome nos states) é um centro de corrupção de jovens, disfarçado de igreja. Se praticam atos ditos caridosos, o fazem com uma porcentagem mínima do que conseguem extorquir de seus fiéis, como forma de manter a fachada de suas orgias camufladas de bailes e festas, realizados aos sábados à noite, e regados a muita droga e bebida, como testemunhei durante os meses em que tive o desprazer de contar com um templo deles na frente de minha casa.



Desculpem os que ainda crêem, os que talvez achem exageradas as minhas palavras, mas não pode haver respeito por esse tipo de gente: são a escória da humanidade e merecem, sim, todo o meu Schadenfreude, quando os vejo começar (só começar) a pagar pelos crimes que eles cometem contra o povo.



São estelionatários, sim. Chefes de quadrilha. Enganadores do povo. Não posso contemporizar nem um pouco, ao aplicar-lhes todos os piores adjetivos que conheço, para qualificar o que fazem, porque o fazem em nome de crenças profundas do povo, em nome de um deus que o povo pensa que possa lhe trazer algum benefício, mas que é um deus de fachada, usado e abusado para roubar, expoliar, enganar.



E essa minha diatribe não tem nada a ver com liberdade religiosa, ou perseguição religiosa. Exerço o direito e a liberdade que tenho de criticar, sim, qualquer religião, qualquer crença que ache necessário criticar. Nada, absolutamente, nada é mais sagrado do que a liberdade de pensamento.



E mais: essas igrejinhas de fundo de quintal que se tornam verdadeiras potências financeiras não pagam impostos, não cumprem as leis de silêncio ou de respeito ao outro, seus dirigentes (bispos ou seja lá o que autodenominam) são prestidigitadores e arrogantes e merecem, sim, ser combatidos de todas as formas possíveis.



Por isso, Schadenfreude! Porque é esse o meu mais profundo sentimento, ao ver que continuam presos os tais bispos dessa igrejola safada, chamada renascer em cristo. Que vão, ambos, para o diabo que os carregue! De preferência, que mofem para sempre numa prisão estadunidense, já que o Carandiru foi demolido.


posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:47 PM


{Terça-feira, Janeiro 16, 2007}


TEM MUITO GATO NESSA TUBA, OU MELHOR, NESSE BURACO NEGRO DO METRÔ DE SÃO PAULO





Ainda é muito cedo, é claro, para se conhecerem as razões técnicas para o desastre de Pinheiros. O buraco aberto pelas empreiteiras que constroem a ligação Centro ¿ Oeste do metrô paulistano não podia engolir, assim, sem mais nem menos, pessoas, veículos, casas, sem deixar uma pulga (e que pulga!) atrás da orelha de quem acompanha as obras do metrô há mais de trinta anos.

A Companhia do Metropolitano de São Paulo construiu, durante esse tempo, obras complexas, como a imensa estação Sé, a estação República (um buraco profundo cercado de prédios altos, em baixo de uma praça), a linha Paulista (sob uma avenida de trânsito intenso, cercada de edifícios ainda mais altos), a estação Pedro II (em terreno de várzea, por isso a linha é de superfície) e muitas e muitas outras. Sem dúvida, houve problemas; sem dúvida, houve acidentes e dizem ter morrido muitos operários nas aberturas de túneis. Mas, nenhum acidente de tamanha proporção, como esse da Estação Pinheiros.

Por quê?

Primeiro, é preciso que se diga que o Governo do Estado de São Paulo delegou a um consórcio de empreiteiras toda a responsabilidade pela construção da linha Centro ¿ Oeste, sem nenhuma ingerência, fiscalização ou palpite sequer da Companhia do Metropolitano. Aliás, nem mesmo o Estado fiscaliza tal obra. É contrato fechado: às empreiteiras cabe todo o trabalho e, repito, toda a responsabilidade.

Responsabilidade?

Pois é: agora se fala em responsabilidade. Das empreiteiras. Mas, é preciso que se questione também a irresponsabilidade de um Governo (e de um governante) por abrir os cofres públicos para dar tamanho poder a um grupo de empreiteiras, cuja existência (e permanência) no mercado está ligada exclusivamente a lucro, a ganhos. E quanto maior o lucro, melhor para seus donos e seus acionistas.

Fazer uma obra gigantesca significa lucros gigantescos. Economizar numa obra gigantesca, um por cento que seja, significa aumentar esses lucros gigantescos a quantias que nem sonhamos. E a economia em obras é como loteria: arrisca-se. Um buraco imenso, aberto num terreno privado, que serve apenas como serviço, e que será tapado, urbanizado e devolvido depois a seus donos presta-se bem a esse tipo de economia. Em cimento, em concreto, em vigas de aço e em trabalho humano. Um muro de contenção da grandeza de um edifício de dez andares, com centenas de metros de diâmetro, com alguns centímetros a menos... quanto não economizará para os bolsos dos donos das empreiteiras?

Então, arrisca-se tudo. Afinal, de riscos vive a iniciativa privada, mesmo que se jogue na privada de um buraco negro o dinheiro do contribuinte. Por obra e graça de um Governo (e de um governante) que abriu mão de um princípio simples e básico: o de fiscalizar a obra que contrata.

O buraco negro da obra do metrô em Pinheiros, bairro nobre da cidade de São Paulo, abre a perspectiva de que o Ministério Público, a polícia, a imprensa, enfim, todos os órgãos verdadeiramente interessados na apuração de (ir)responsabilidades comecem a abrir a caixa preta de doze anos de governo tucano do Estado de São Paulo, principalmente os últimos seis anos.

É preciso uma devassa vinda de fora, do Ministério Público principalmente, já que tenho dúvidas se o atual ocupante do Palácio dos Bandeirantes terá coragem fazê-la, sem que abra feridas muito profundas em seu partido, e já que duvido que uma certa imprensa que anda por aí tenha ousadia suficiente para denunciar seus queridinhos.

Pelo menos para isto deve servir o buraco negro de Pinheiros: abrir a caixa preta do Governo de São Paulo. Muito gato há de sair dessa tuba, digo, dessa encrenca.




posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:37 PM


{Quinta-feira, Janeiro 11, 2007}


PENSAMENTOS REVOLTOS OU DE REVOLTA?



Hugo Chávez tomou posse pela terceira vez como Presidente da Venezuela. E, pelo andar da carruagem, ainda vai ser reeleito muitas vezes. Ninguém merece. Mesmo que fosse deus a tomar posse, ninguém merece. Por isso, odeio reeleição. Começa com uma vez, pula para duas e, então, alguém resolve se perpetuar no poder. Como em alguns países do Oriente, onde o cargo de Presidente é perpétuo. Pode? Que horrível! Positivamente, ninguém merece. Isso não é democracia.

Mas, não é exatamente sobre isso que quero tecer comentários. Voltando ao Chávez: não morro de amores por ele. Acho que é importante o seu aparecimento na América Latina, uma espécie assim de chicote que acorda uns babacas que estão por aí, dormindo em berço esplêndido. Mas, é só.

O fato, porém, é que promete, o Chávez, implantar no seu País o que ele chama de socialismo do século vinte e um. Bem, não sei se colocar um número no socialismo vai mudar alguma coisa. Apenas sei que sua intenção de estatizar a economia venezuelana mexeu com o mundo dito capitalista. Houve protestos em Washington, claro. E em Wall Street, muitos patricinhos que ganham dinheiro com o sangue, digo, com o petróleo dos venezuelanos, devem ter ficado sem dormir, os pobrezinhos! Enfim, causou comentários e análises dos especialistas de sempre, chamados à mídia para interpretar, falando besteiras, os fatos que ninguém ainda sabe muito bem como vão se desenrolar.

Disse desenrolar? Pois é, a palavra certa: porque o rolo está feito. Afora o velho conceito de autodeterminação dos povos (alguém ainda se lembra?), o povo venezuelano (através de seu Presidente) tem o direito de fazer o que quiser com sua economia. Nós, os sapos de fora, não podemos roncar (ainda que muitas barrigas cheias ameacem ficar vazias). Então, fico pensando e sonhando um pouco, ou, talvez, delirando.

O capitalismo. Não é exatamente um sistema filosófico ou econômico, criado por alguém, por uma escola. Nasceu aos poucos. Foi crescendo. Ganhou força, defensores, teóricos e status de sistema. Enfim, virou o que está aí: economia de mercado, e mercado globalizado. Em seu bojo, sempre, um princípio básico: quem pode pode, quem não pode sifu. Ou seja: a lei do mais forte, ou do mais rico. Em alguns poucos países, realmente civilizados, foi amaciado e amansou: virou um pouco de socialismo (esse, sim, um sistema pensado e criado por algumas mentes privilegiadas). Mas esses países (nórdicos, principalmente) são a exceção que confirma a regra: o capitalismo é um sistema perverso para os pobres, para o povo em geral. Só é bom para quem amealhou o capital, lá no passado, da forma que melhor lhe aprouve. Ou seja, com a exploração do fraco pelo que gritou mais alto ou por aquele que teve (ou ainda tem) mais armas.

No Brasil, as leis trabalhistas (mesmo com um viés fascista) conseguiram dar ao trabalhador alguns direitos. Mas foi só. A pobreza continuou a mesma, a exploração não amainou, o país empacou. Então, veio a tal globalização: em vez do rico explorar o pobre, o extremamente forte e extremamente rico (as grandes corporações) passou a dar as cartas. E inventaram um monte de normas para ganhar um pouco (pouco?) mais de dinheiro: estado mínimo (privatizações a custo de banana, para diminuir ou eliminar a competição do Estado), terceirização (para despejar nas costas do trabalhador os ônus sociais, como INSS, fundo de garantia, décimo terceiro etc), downsizing (pé na bunda, para fazer quem fica trabalhar dobrado), leis do mercado (ou: sai de baixo, que lá vem chumbo, e do grosso), enfim, uma série de sacanagens contra o povo, contra o trabalhador. E a economia do País se abriu. E o povo ficou sem emprego. E o País parou de crescer. Mesmo produzindo mais, mesmo tendo mais de cem milhões de telefones celulares, mesmo tendo fábricas imensas implantadas por aí, mesmo com exportações recordes de grãos, mesmo com auto-suficiência de petróleo, mesmo tendo uma matriz energética baseada em hidrelétricas, mesmo... Bem, a lista pode ir longe...

Nada dá certo, para o povo (claro), nessa merda de economia de mercado: quanto mais se produz, mais se fica pobre. Quanto mais se trabalha, menos se ganha. Ou seja: quanto mais se levanta o rabo, mais se mostra a bunda.

Então, fico delirando: e se tivéssemos aqui um Chávez? Quem sabe não daria um susto nessa cambada toda que se assusta à toa, porque teme perder um pouco, só um pouco, do imensamente muito que tem para fazer, com esse pouco, muito pouco, um País decente?

E fico pensando: não precisamos crescer a taxas de dez por cento ao ano, como a China (que queima suas reservas, suas matas, seu território; que paga salários de trinta dólares por mês a seus operários; que poluiu tudo o que pode poluir, para crescer, crescer...); não precisamos destruir a Mata Atlântica e a Amazônia, para entregar tudo à boca faminta das grandes organizações internacionais; não precisamos poluir nossas águas, para permitir que as fábricas lancem seus restos não tratados em nossos rios; não precisamos transformar nossos campos em imensos canaviais para saciar a sede cada vez mais voraz da indústria automobilística; enfim, não precisamos de choque de gestão, de desenvolvimento a qualquer custo...

De que precisamos mesmo é de um tapa na cara, para perceber que, se não fizermos, urgentemente, uma revolução nos meios de produção e relacionamento entre quem tem o capital e quem tem a força de trabalho, não iremos a lugar algum. De que precisamos, mesmo, mesmo, é de um sistema capitalista menos selvagem, de uma melhor distribuição de renda, de melhores oportunidades para todos, sem a exploração deslavada e selvagem que nos impuseram ao longo desses últimos trinta, tinta e poucos anos, de globalização, de um capitalismo cínico e explorador, desse neoliberalismo sem caráter que aceitamos sem chiar.

Ou isso, ou, quem sabe? um Hugo Chávez, para dar um pé na bunda de toda essa cambada que vai aos meios de comunicação dizer que socialismo é utopia, que pobre tem mais é que continuar pobre, e cada vez mais pobre, como na Venezuela, onde um Presidente toma posse pela terceira vez, ameaçando perpetuar-se. E pior (ou será o melhor?): fazer o que todos temem, um grande, um imenso pé no rabo do capitalismo de mercado, neoliberal e globalizante que insistem nos enfiar goela abaixo...

Ninguém merece, claro, o Hugo Chávez, mesmo que seja só para dar um susto, um susto apenas. Mas que dá uma vontade, isso dá!

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:19 PM


{Terça-feira, Janeiro 02, 2007}


EM QUE SÉCULO ESTAMOS, MESMO?

Não vi, nem vou ver. Não tenho estômago para isso. Já me bastaram as fotos, nos jornais, na televisão. A invadir, despudoradamente, minha visão. No cinema, em revistas de quadrinhos, enfim, na ficção, já vimos muitas vezes o enforcamento de uma pessoa. Mas ficção é ficção: tem uma carga emocional voltada para um nível mais elaborado de percepção da realidade. Mas, ver mesmo, na fria e dura verdade do dia-a-dia, um ser humano ser enforcado, é um pouco forte demais para algo que eu prezo muito em mim mesmo: um certo verniz civilizacional.

Eu sei que ainda sou bárbaro: meus genes e minhas memórias atávicas não mentem. E até justificam algumas atitudes que, racionalmente, não podia tomar, como a raiva que sinto, por exemplo, quando sou fechado estupidamente no trânsito. E esse ódio, muitas vezes desproporcional à ação que ele desencadeou, eu, humildemente, reputo à fina camada de meu verniz civilizacional. Porque sou, sim, um bárbaro, mesmo que me envergonhe confessar.

Mas, repito, comprazer-se com a morte por enforcamento de um ser humano, mesmo que esse ser humano não mereça lá muito bem tal denominação, pelas monstruosidades cometidas durante toda a sua vida, isso, positivamente só me faz perguntar em que século estamos.

Os espetáculos de morte pública, por fogueira, enforcamento, garrote vil, gulhotina e tantas outras formas cruéis que a imaginação do ser humano consegue inventar para matar, assassinar, mutilar e fazer sofrer outro ser humano, eram comuns... até há muito pouco tempo. Oficialmente banidos na maioria dos países ditos civilizados, esses espetáculos ainda povoam o imaginário popular em brincadeiras estúpidas, como a malhação do Judas, que se transformam em revolta sanguinária, quando o populacho tenta (e às vezes consegue) invadir delegacias para linchar assassinos cruéis ou estupradores. E a mutilação de ladrões ainda é comum em muitos lugares do mundo.

Bem, não vou ficar desfiando um rosário de crueldades humanas, que me embrulham o estômago tanto quanto as fotos do enforcamento do Saddam Hussein. Já foi difícil ler o diálogo grotesco entre ele e seus algozes, minutos antes do ato, quando, em nome de profetas e de deuses vingativos, tanto o ex-ditador quanto o carrasco se mandaram para seus respectivos infernos. Como se, diante de tanta barbárie, não soubéssemos que o inferno continua aqui, e mais quente do que nunca.

Não vou solidarizar com o ditador cruel, genocida de carteirinha, mas também não posso deixar de registrar que meu verniz civilizacional, por mais tênue que seja, não suporta mais ver o desprestígio a que se chegou esse grotesco teatro de absurdos que se chama julgamento. Temos nós, homens ditos modernos, como conquista a noção de Justiça. Só a noção, só o conceito, porque a prática, através de tribunais inquisitoriais, em que homens e mulheres imbuídos de uma sanha justiceira totalmente distorcida por influências vingancistas de uma sociedade que ainda preza o espetáculo público do linchamento, essa prática só tem trazido resultados nada edificantes para o homem.

Temos nós, homens ditos modernos, o viés de julgar. A tudo julgamos e a tudo condenamos, de acordo com nossas crenças pessoais, muitas vezes distorcidas pelo meio, pela educação ou falta dela, e por nossos desejos pessoais de vingança. Por isso, permitimos e apoiamos a qualquer um que tenha acesso aos meios de comunicação vir a público empunhando bordunas e porretes reais ou virtuais para condenar e massacrar desafetos ou criminosos, jogados todos na mesma vala de acusados. E achamos bonito, quando um apresentador de televisão termina suas diatribes com um bordão qualquer de condenação moralista. Acusa-se, apenas acusa-se, sem que se dê ao outro o direito de defesa. Dedos em riste intimidam, ganham ipobe e dão prestígio. Mesmo às custas da verdade.

Também os tribunais, tão prezados pelos juristas, estão repletos de emocionalismo: condenam ou absolvem não pelas provas contra ou a favor do réu, mas pela capacidade de manipulação verbal dos advogados. E as penas, por não serem baseadas em dados técnicos ou na realidade pura e simples, são sempre injustas.

Enfim, grotesco, muito grotesco o enforcamento do ex-ditador. Não um ato de justiça, mas de vingança. Não vou invocar motivos humanitários para condenar a morte de Saddam Hussein. É um mico que não vou pagar, embora me considere humanista. Ele não merece perdão. Mas condeno, veementemente, a pena de morte. A morte pública e oficializada de um ser humano, como espetáculo, não merece ser vista, não apenas por ser grotesca, mas principalmente por ser um ato de barbárie, tão cruel e perniciosa para nosso verniz civilizacional quanto todos os atos cruéis que ele, o ex-ditador, cometeu durante toda a sua vida.

Por isso, não vi, nem quero ver. Não tenho estômago, meus companheiros de século vinte e um. Ou dezenove? Ou quinze? Sei, lá: em que século estamos, mesmo?

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:35 PM

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