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{Domingo, Dezembro 31, 2006}


PARA O EXCELENTÍSSIMO SENHOR DEPUTADO JOVINO CÂNDIDO (PV/SP)


Foi com surpresa que encontrei nos anais da Câmara, na Internet, um pronunciamento do senhor Deputado Jovino Cândido (PV/SP), em 15/4/2005, em que ele cita o meu nome, encontrado num texto publicado no CMI (Centro de Mídia Independente). O assunto: reforma política. O ilustríssimo deputado diz o seguinte:


Há cerca de um mês, no site do Centro de Mídia Independente, li um e-mail enviado por um cidadão, o Sr. Isaías Edson Sidney, ao articulista Roberto Macedo, do Estado de S. Paulo, a propósito de um artigo intitulado: "Legislativo não merece votos". Ao mesmo tempo em que me alegrou ver a clareza do Sr. Edson sobre a importância de uma reforma política em nosso País, entristeceu-me a sua descrença de que nós, Parlamentares, sejamos competentes para promovê-la.

Diz o Sr. Edson:

Já há muitos anos (nem me lembro quantos), só voto na legenda para cargos proporcionais, porque acho que o mandato legislativo pertence ao partido e não ao eleito. E comigo assim o faz toda a minha família. Foi sempre um protesto inútil, sei-o bem. Mas pelo menos deixava minha consciência mais tranqüila, pois sabia que o Deputado que mudou de partido ou traiu o povo não teve o meu voto. Pelo menos não diretamente. Mas talvez seja chegado o momento de atitudes mais radicais. Talvez mesmo anular o voto e fazer campanha para isso, como o senhor sugeriu. Ele falava para o senhor Roberto Macedo. Até que uma reforma política tenha curso. Mas... reforma política feita por quem? Por esses mesmos políticos que estão aí?



Além do espanto pela repercussão de minhas palavras, fiquei, claro, lisonjeado pela citação do nobre deputado. Já se passaram quase dois anos, desde o ocorrido, não sei (ainda vou descobrir) se deputado foi reeleito. Mas gostaria, independente disso, de aprofundar meu pensamento com ele, pois, afinal, sou ¿um cidadão perfeitamente consciente dos seus direitos e necessidades¿, ainda de acordo com as palavras do parlamentar, mais adiante em seu discurso. Porque meu pensamento e minhas opiniões sobre políticos e reforma políticas só radicalizaram durante esse tempo.

Não me lembro quem disse, a respeito dos militares, que guerra é um assunto tão importante, que não devia ser deixado nas mãos deles, os militares. Também penso que reforma política é importante demais para ser deixada nas mãos dos políticos. Mesmo que isso entristeça o coração do senhor Jovino Cândido.

E ainda mais: acho que não pode haver uma classe política, porque políticos (de polis, cidade, em grego, lembra-se?) somos todos. Classe política é casta, no seu sentido mais pejorativo, e casta de privilegiados que só sabe manter e, se possível, aumentar seus privilégios. Implica o conceito de casta a reserva de mercado pela mão divina (e eu sou convictamente ateu, para aceitar uma bobagem dessas). Assim, não vejo razão nenhuma para que exista uma elite política que se elege e se perpetua no poder ou nos poderes. Quer coisa mais estranha e fora de propósito que um vereador com trinta anos de vereança? Ou um senador que passa a vida inteira no Senado e ainda elege e reelege filhos e netos para os (quase) mesmos cargos? Isso, para mim, não é democracia. É reserva de mercado. Não concordo, por isso, como parece claro, com reeleição para o mesmo cargo em nenhum nível. Para não dizer que sou extremamente radical (e sou mesmo, neste assunto), até concordaria em que houvesse uma, e apenas uma, reeleição para um mesmo cargo.

Também não concordo com a existência de inúmeros partidos políticos. Porque, para mim, partido político refere-se a ideologias políticas, ou seja, a idéias e visões de mundo relativas aos destinos de uma nação: de como governá-la e de como aplicar o dinheiro público através de programas e projetos de governo; de estabelecer prioridades e metas; de como conduzir a política externa etc. E isso se divide, com clareza, em poucas agremiações partidárias, talvez umas quatro ou cinco (deixando de lado, é claro, a atualmente inútil discussão entre esquerda e direita). Acho, por exemplo (e agora o senhor Jovino Cândido ficará ainda mais triste) que seu partido, o Partido Verde, a despeito das imensas boas intenções, é um equívoco. Para ser defensor do meio-ambiente e lutar por sua conservação e preservação, não é necessário fundar um partido, pois isso não é, na minha modesta opinião, ideologia política, mas pode e deve estar inserido no programa de qualquer partido, independente de sua ideologia. Ou seja, um cidadão pode ser nazista e ambientalista; pode ser chavista e ambientalista; pode odiar ou amar o Lula e ser ambientalista. Não depende de cor partidária, não é um guarda-chuva que defina os destinos políticos de uma nação, mas um conceito (importantíssimo) de políticas públicas que todos deviam abraçar, independentemente de pertencer ao partido x ou y.

Enfim, há muito, sim, o que discutir sobre reforma política, neste País. E ela, a desejada e ansiada por todos, infelizmente não é um tema que tenha empolgado tanto o cidadão comum, que fica preso a detalhes como o salário do deputado, que é o que menos importante. Podem os senhores deputados ganhar vinte, trinta ou cinqüenta mil reais por mês: o que importa é o que ele faz por seus eleitores, se é coerente com seus princípios ou com os princípios de seu partido, se realmente legisla em prol do povo e não conforme interesses próprios ou de grupelhos suspeitos. E isso só será possível com uma reforma política que acabe com a onerosa, inútil e anti-democrática casta de políticos. Política não deve e não pode ser uma profissão. Tem que ser um dever e um direito de cada cidadão. Defender reserva de mercado para qualquer grupo social é pratica anti-democrática, na minha opinião.

Portanto, nobre deputado Jovino Cândido, do episódio (para mim, estranho e, por que não dizer?, deleitoso) de sua preocupação com a opinião de um cidadão comum como eu, fica uma lição bastante interessante: que, apesar de tudo, os senhores ainda têm ouvidos para ouvir a voz do povo. Mesmo que descreia de muitas de suas intenções e opiniões, ainda há esperança para a tal classe política brasileira, a cujo fim eu anseio tanto por assistir.

Atenciosamente.



Isaias Edson Sidney


P.S:link para o pronunciamento do deputado Jovino Cândido.








posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:49 PM


{Quinta-feira, Dezembro 28, 2006}


FIM DE ANO? O QUE É ISSO, MESMO?

O tempo: amigo e inimigo. Nada sabemos dele. Cura nossas tristezas e envia-nos, inapelavelmente, para o desaparecimento. Pensamos controlá-lo, mas é ele que nos engana. Sempre. Quando nos damos conta, marcou nosso rosto, levou nossos sonhos, tirou-nos a escada da vida. E não há nada a que nos agarrarmos.

Apesar disso, comemoramos sua passagem.

Porque não há outro jeito de nos iludirmos a seu respeito. Porque não sabemos, ao certo, se é ele que passa ou somos nós os efêmeros no rio da vida.

De todo modo, pensamos iludi-lo, dividindo-o em semanas, meses ou anos. Em que ano estamos, na verdade? Pode ser qualquer um: 5315 ou 1966. Não importa. Por convenção, viramos mais um e seguimos em frente.

No tempo, como na vida, tudo muda, tudo se transforma. Só não podemos deixar mudar a esperança (inócua? quero, e quero muito, crer que não) de que podemos sonhar.

Só o sonho (possibilidade de futuro) nos impede de sermos pessimistas e niilistas. Assim, mesmo que a contagem do tempo seja apenas mais uma convenção, um motivo de festa ou de esperança, quero desejar a todos que o tempo que aí vem, marcado em calendários de dias, semanas e meses, seja o tempo que nós construímos e não o tempo que nos destrói.

Feliz 2007 (?) a todos.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 5:35 PM


{Terça-feira, Dezembro 26, 2006}


O HOMEM NÃO É O ANJO DECAÍDO, MAS UM ANIMAL EM ASCENSÃO



Se banirmos, nem que seja por um breve instante, a idéia metafísica do pecado, teremos a certeza desse alumbramento.

Como anjo decaído do deísmo, o homem está condenado a priori, pois pecados podem, ou não, ser perdoados por um deus ora misericordioso, ora furibundo e vingativo. Não há outras opções: ou o céu ou o inferno. O bem ou o mal.

Para obter o perdão, precisa bajular esse deus através de uma série de rituais: missas, orações, danças, cultos, doação de bens e dinheiro, construção de templos, sinagogas, mesquitas, intermediação de sacerdotes, santos, pastores, rabinos, gurus, aiatolás, enfim, toda uma parafernália de recursos à disposição da salvação da alma, do espírito ou da possibilidade de se juntar ao deus num outro mundo, quando terá a felicidade eterna. Vive, então, o homem, para a morte e não para a vida.

E como é absurda a idéia de que todo homem tem o direito à absolvição de seus pecados, criou-se o conceito do livre arbítrio dado por esse deus, como forma de driblar a idéia, embutida no mito da queda e da recuperação de sua condição de anjo, de que há um destino previamente traçado para a humanidade. A partir disso, inúmeras outras superstições precisaram ser inventadas, de acordo com cada religião ou seita, para que o deísmo, através das castas sacerdotais, pudesse manter o controle da mente do homem. E o inferno é apenas o seu expoente mais amedrontador.

Portanto, como anjo decaído, o homem não passa de um brinquedo nas mãos de deus, dito onipotente, onipresente e misericordioso, mas na verdade um ser perverso que permitiu que ele se desviasse de suas recomendações e trilhasse o caminho do pecado, do qual só pode sair se esse mesmo deus quiser e se for devidamente bajulado e adorado, mas com uma restrição: só aceita o arrependimento dos pecados, se o fizer através da religião, ou seja, de uma determinada casta que veio ao mundo com a missão de religar o homem ao seu criador. Triste destino: escravo de deus e de seus semelhantes. Obrigado a acreditar que, não importa o que faça na terra, lugar de provação e não de vida, só será salvo se esse deus aceitar a bajulação dos que se arvoram intermediários.

Por isso, se deus existe, tudo se justifica.

Por outro lado, se consideramos o homem como animal que evolui e se humaniza com o passar de gerações, embora lento e penoso esse processo, quase invisível a nossos olhos, compreenderemos com muito mais clareza os ódios, as guerras, os assassínios e todas as demais mazelas que o ser humano carrega em seus genes e em seu inconsciente.

E essa compreensão implica ajustar um conceito fundamental para a convivência entre os humanos, o conceito de justiça. Não precisaremos nos iludir com a idéia de bem e mal absolutos para condenar ou absolver os atos humanos. Não nos esconderemos atrás de metafísicas absurdas, para deixar impunes os que cometem atos de barbárie contra si mesmos, contra a humanidade ou contra o mundo em que vivemos. Teremos a idéia precisa de que o homem, bicho da terra tão pequeno, precisa não de bajulações a um deus, mas de inserção em sua própria humanidade, de respeito a si mesmo e à vida, pois não há outra oportunidade para si.

E então, despido da arrogância que o deísmo impregna em seu inconsciente, compreenderá que é um elo de uma imensa corrente de vida e, mesmo sendo um ser frágil diante desse universo, sua contribuição para a vida é de fundamental importância, pois cada um traz em si o passado e o futuro da própria humanidade.

E então, compreendida a sua relação com as forças da vida e da natureza, compreenderá o real sentido dessa vida, passando a respeitá-la e não a destruí-la. E se, mesmo com essa compreensão vital, atentar contra a vida, será julgado com justiça e não com a mão vingativa de um deus furibundo.

Por que, se deus não existe, não se justifica a barbárie. Não se justifica o crime. Não se justiça a destruição do homem pelo homem, ou da natureza pelo homem, pois todo ato de barbárie compromete a continuidade do rio da vida.

Por isso, repito: o homem não é o anjo decaído, mas um animal em ascensão. E precisa ter orgulho e consciência disso, para criar a civilização do respeito. Respeito a si, ao outro e à natureza.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:48 PM


{Segunda-feira, Dezembro 18, 2006}


SOBRE MACONHAS, COCAÍNAS E ILHAS

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.
John Donne


Não sou moralista. Odeio essa distinção entre bem e mal, que as metafísicas inventaram. Mas, como acredito ser o homem um ser social, não ilhas isoladas, há ações humanas que atentam contra o funcionamento razoável das sociedades. Admito, sim, os outsiders, os marginais, os que não se adaptam. São frutos da grande diversidade humana. E temos que conviver com essa diversidade da melhor forma possível. Sem romantismos e sem vingancismos. A sociedade dita civilizada, sem barbárie, tem o direito de se defender, punindo com justiça aqueles que causam ofensa a seus valores. E justiça quer dizer que a pena deve ser proporcional ao crime cometido. Como instrumento de defesa e não de vingança.

Esse assunto é complicado e temo cair no moralismo que odeio. No entanto, é preciso encará-lo. Vamos em frente: também odeio a idéia do perdão. Esse conceito deísta calca-se na presunção de que há uma nova oportunidade, numa outra dimensão, numa outra vida. Não há. A vida é só uma. Esta que estamos vivendo. Morreu, acabou. Sem pretensões. Sem choradeiras. É, por isso, o bem mais precioso que temos. Matar, para mim, é o crime mais hediondo, para o qual não pode haver perdão. Não pode haver pena mais ou menos para crime de morte. O indivíduo que mata tem que ser punido. Sempre. Mesmo que haja circunstâncias atenuantes, como legítima defesa. Neste caso, a proporcionalidade da pena deverá ser levada em consideração, claro. Mas assassinatos por motivos torpes ou comezinhos, às vezes com requintes de barbárie, devem ser punidos severamente. Até com prisão perpétua, se for o caso. Nunca com pena de morte. Porque, repito, a sociedade tem o direito de punir, sim, não de se vingar. E pena de morte não é pena: é vingança.

Mas a sociedade, ela mesma, é permissiva com determinadas contravenções. Droga, por exemplo. Estende-se uma ampla cortina de fumaça sobre o assunto. Que não se resolve.

Por que o ser humano precisa de drogas para viver, para conviver? Ou será para morrer?

Sem moralismo: drogas há que destroem, que matam. Todas. Mas permitimos o álcool e não permitimos a maconha, por exemplo. Tudo bem: se acordamos, convencionalmente, que tal droga pode e tal droga não pode, temos que ficar atentos. Mas, não: criminalizamos uma série de drogas (que são, mesmo, destrutivas) e, ao mesmo tempo, somos coniventes com seu uso por uma vasta camada da população que tem dinheiro para comprá-las e consumi-las. E depois nos queixamos do tráfico e de todas as demais tragédias que o comércio ilegal de drogas ocasiona às mesmas pessoas que, nefelibatas de última hora, compram a cocaína, a maconha, o ecstasy e outras porcarias com seu traficante de confiança, para embalar suas inocentes festinhas e comemorações. Esquecidos de que alimentam uma cadeia maldita de miséria, de crimes, de traições, de corrupção. Muitas vezes, são as mesmas pessoas que saem em passeatas pelas ruas das nossas grandes cidades protestando contra o assassinato de seus filhos, parentes e amigos, por assaltantes e traficantes que dominam os morros, as favelas e os bairros mais pobres, impondo a suas leis de violência de tal forma, que essas populações se tornam reféns de suas armas e da cara de pau de quem compra e consome seus produtos.

Violência gera violência. Droga consumida mantém o círculo vicioso, alimenta-o e incrementa-o.

Não há saída. Ou nos conscientizamos de que é preciso uma solução, qualquer solução, ou continuaremos a alimentar essa violência. Precisamos chegar a uma acordo: qual o mal maior, a droga ou o tráfico? A consumição dos mais fracos pelo vício ou a violência exacerbada dos bandidos que alimentam uma cadeia de escravos do crime e de criminosos sem qualquer escrúpulo?

Qual é a ética que queremos? A da conivência com as drogas ou a da conivência com a bandidagem?

Enquanto não resolvermos esse dilema, não fiquemos imunes a notícias como a que li, hoje, no jornal. É muito mais estarrecedora que a crise da aviação, mais perniciosa que qualquer escândalo de corrupção, mais trágica que qualquer assassinato que se torna manchete de jornal e gasta horas e horas da mídia.

Vamos à notícia. Traficantes tornam reféns os familiares de menores apreendidos que lhes prestam serviços. Assim: enquanto o menor está na Febem, os bandidos mantêm as famílias, com dinheiro e cestas básicas. Quando o garoto sai, a conta é cobrada: ou volta para o crime ou é morto. Se ele foge, os bandidos assassinam familiares. Diz a notícia, que ocupou um quarto de página do Estadão (quando deveria ser manchete de primeira página, pela sua gravidade) que, só no distrito do Jabaquara, na cidade de São Paulo, foram executados pelo menos dez meninos, desde 2002. Isso, o que os Conselhos Tutelares levantaram, porque, com certeza absoluta, há um manto de silêncio por parte das famílias, tomadas pelo medo, caladas pelas armas e pela violência. E esse número dever ser, com certeza absoluta, muito maior.

Isso é extremamente grave.

Ministério Público vai apurar. Mas, não basta: há que se mobilizar toda a sociedade. Há que se botar a boca no trombone. A sociedade toda tem que entrar nesse debate. As políticas públicas de erradicação da pobreza não conseguem competir com a violência desses bandidos. Não conseguem competir com a atração que os criminosos oferecem a essas crianças, que ganham cerca de setenta reais por dia, no crime. E sobrevivem por poucos anos, porque se matam em lutas entre gangues ou são mortos pela polícia. Para alimentar com drogas de embalo a uma parcela da sociedade de salões acarpetados, que não se dá conta de que cada carreirinha branca de cocaína que enche seus narizes tem o gosto e a cor do sangue dessas crianças, desses jovens e de seus familiares.

Na realidade, quem fuma, aspira, injeta ou engole está fumando, aspirando, injetando ou engolindo sangue

Eu sei que o assunto é mais complexo do que expus até agora. Eu sei que não adiantam as atitudes moralistas (que tanto odeio e de que não consigo escapar totalmente. Me perdoem, por favor). Eu sei que é preciso erradicar a pobreza, para diminuir o sofrimento de milhões de pessoas que se tornam possíveis reféns de bandidos e traficantes. Eu sei que é preciso combater o tráfico e punir exemplarmente os que assim procedem. E todos sabemos tudo isso. Mas, soluções, mesmo, eu sei que não são fáceis de serem encontradas. Não, enquanto mantivermos a olímpica atitude de que, se fumo minha maconha de vez em quando, isso é só um inocente hábito e ninguém tem nada com isso. Tenho, sim. Eu tenho a ver com isso. E todos temos a ver com isso.

Não fiquemos surdos ao dobrar dos sinos, porque, como disse John Donne, eles podem estar dobrando por nós, sem que o saibamos. Não somos, definitivamente, ilhas isoladas.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:30 PM


{Quinta-feira, Dezembro 14, 2006}


MODISMOS LEXICAIS



O título pode parecer metido à besta. E é. Também, esperar o quê, de um professor de português. Uma vez gramático, sempre gramático. Mas, explico aos que não têm obrigação de saber termos técnicos: o léxico é o conjunto de palavras de uma língua. Varia tremendamente de um idioma para outro. Diz-se, por exemplo, que o inglês tenha mais de quinhentos mil vocábulos. O português, mais ou menos trezentos mil. Mas, no dia-a-dia, usamos apenas uns dois mil. Isso quer dizer que, com esse número de palavras, dá para se comunicar em qualquer idioma. Os mais cultos chegam ao capricho de usar dez mil. Isso são apenas números de que gostam os teóricos, os estudiosos. Cultura de almanaque.

Almanaque. Uma palavra que já esteve na moda. Lembro, da minha infância (essas lembranças fazem a gente parecer dinossauro!), que havia o Almanaque Biotônico. Com mil informações úteis e inúteis. Tudo numa linguagem bem pop, diríamos. E está aí outra palavrinha que teve sua época: pop. Até o papa era pop. Um barato. Ih! Mais uma! Só falta lembrar a famosa brasa do Roberto Carlos, mora? Então, pegou o espírito da coisa? Palavras entram na moda, passam a ser usadas por todo mundo e depois, coitadas, desaparecem. Ficam só em estado de dicionário, como diria o Drummond.

Quando o Ministério da Educação começou com essa mania de avaliar os estudantes para comprovar que o ensino brasileiro era uma droga, inventaram o provão. Aliás, o nome oficial não era esse, era algo muito mais sofisticado, de que nem me lembro mais. Porém, ficou na memória o provão. Por quê? Porque é uma palavra forte, terminada em ão, a sílaba nasal que é um tormento para os estrangeiros que se aventuram na última flor do Lácio (e aí foi mais um poeta: Bilac). Palavras terminada em ão, principalmente quando são aumentativas, caem na boca do povo com muita facilidade. E são repetidas à exaustão. Por qualquer bobão, em qualquer situação.

Quando aquele deputado do PTB, o tal do... como é mesmo o nome? Aquele que inventou o mensalão... Pronto. Todo mundo lembra a história, lembra o cara, mesmo que tenha esquecido o nome da figura. Mensalão pegou mais do que resfriado no inverno. Todo mundo usou e abusou da coitada da palavra. Não havia um dia em que não se encontrasse essa palavra dezenas de vezes repetida em jornais, em revistas, nos comentários da tevê, do rádio, nas rodinhas de café nas empresas, entre os camelôs nas ruas e entre os taxistas (esses são mais espalhadores de palavras novas do que macaco espalha sementes de frutos na floresta: podemos dizer que são reflorestadores de palavras. Levam-nas para todos os cantos). Globalização anda por aí, há muito tempo já. E veio para ficar por um bom período. Será, um dia, esquecida? Não sabemos, mas o mensalão, que já dever ter tido até mesmo marchinha de carnaval (era, e acho que ainda é, uma glória, quando uma palavra da moda ganhava marchinha de carnal. Gente, que coisa antiga, marchinha de carnaval! Preciso renovar meu repertório, com urgência!), como eu ia dizendo, o mensalão já começa a dar sinais de senilidade, está mesmo prestes a ir para o cemitério das palavras da moda que um dia cansaram. De tanto ser repetidas.

Uma palavra que havia quase ido para o limbo e retornou (às vezes, elas voltam!) é apagão. Quando surgiu, teve um grande impacto, porque estava calcada numa realidade sentida por todos: a crise da energia elétrica. Lembram? Aquela lambança em mandaram a gente economizar e depois cobraram a economia para ressarcir as companhias de energia elétrica, que tiveram prejuízo com a nossa economia... Mas, deixa pra lá: já pagamos e já esquecemos. Só ficou, mesmo, a palavra: apagão. Que voltou com a crise da aviação que, ao contrário da crise elétrica, que afetou praticamente a todos os brasileiros, levou os quase um por cento do povo que viaja de avião (mais ou menos dois milhões de passageiros disputados avidamente pelas companhias aéreas) a botar a boca no trombone (outra expressão antiga: não tenho jeito, mesmo!), ou melhor, a botar a boca na mídia e inundar os jornais, as rádios, as televisões, as revistas com seus piripaques em vários aeroportos (enquanto isso, o zé-povinho andava de ônibus caindo aos pedaços, a preços abusivos, ou andava a pé, e não entendia nada).

Pois é, nesse encrenca toda, começaram a falar em apagão aéreo, apagão da aviação (dois ãos fortes!) e, com isso, a palavra ganhou novo fôlego: se houver crise no ensino, tasca-se apagão da educação; se houver crise na agricultura, tome-se apagão! E eu fico pensando: como são criativos os nossos redatores ou comentaristas ou sei lá o quê! Adoram repetir, repetir, repetir... ad nauseam. Até à náusea, ao vômito, literalmente.

Ah: aparece, também, no meio da confusão dos controladores de vôo (uma profissão exercida aí por umas duas ou três mil pessoas, se tanto, mas que notoriedade ganharam!), uma outra velha palavra que começa a ser usada para tudo: caos! O país continua trabalhando (e os trabalhadores, claro, ganhando pouco), enquanto os patrões (ou os seus apaniguados) tentam andar de avião, mas gostam de falar em caos. Como se fosse uma coisa que a gente encontra ali, na esquina: um caos no bar da esquina, um caos na lanchonete, enfim, a coitada da palavra caos pode ter virado carne de vaca (droga! mais uma expressão velha que nem... deixa pra lá, ante que cometa mais alguma indiscrição por conta de um apagão mental... taí: apagão mental, talvez seja disso que sofrem todos os que repetem, repetem, repetem sempre as mesmas palavras).

Bom, vou ficando por aqui com os tais modismos lexicais. Reduzir tudo a uma só palavra é como dizer que... Espere. Antes de terminar, para entender o que eu quero dizer, deixe-me contar uma historinha rápida (paciência, leitor, paciência!): um amigo, o Nabil, me mandou um dia desses um e-mail engraçado. Com o resumo dos clássicos. Assim: dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro, as duas turmas saem na porrada, muita gente se machuca. Então, um padre tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de beber veneno, pensando que era sonífero. Fim. Sabe qual é a história? Pois, é: Romeu e Julieta, de Shakespeare. Quer outra? Um rapaz não quer ir à guerra por estar apaixonado e por isso Napoleão invade Moscou. A mocinha casa-se com outro. Fim. Aí está a redução em poucas palavras do monumental Guerra e Paz, de Tolstoi. Horrível, não? Assim a gente faz, quando quer desmoralizar um feito, uma obra, uma idéia: reduz a poucas palavras ou a uma única palavra, e pronto! Aquilo vira uma droga, e ficamos satisfeitos. O mesmo acontece com a redução de acontecimentos complexos a um simples apagão, ou mensalão, ou... Bem, acho que é isso, chega por hoje, que vou queimar a minha coleção de almanaques do Biotônico, cantar uma marchinha de carnaval e repetir que tudo isso é uma brasa, mora!

Culpa da globalização... culpa da globalização...

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:20 PM


{Segunda-feira, Dezembro 11, 2006}


REFORMA POLÍTICA (3)



Políticos. O nó górdio de qualquer reforma que se pretenda decente, que refunde as estruturas da democracia. Por quê? Porque formaram uma casta, a classe política.

Não gosto de castas, não gosto de pensar que precisamos ser governados ou dirigidos por um grupo de pessoas que se autodenomina políticos, ou classe dirigente.

Toda casta quer privilégios. E a casta dos políticos, por ocuparem o poder, obtêm mais privilégios do que os outros.

Há outras castas encasteladas no poder, tão ou mais poderosas e perniciosas do que a dos políticos. Um pé na bunda de todas elas seria o mais aconselhável. Ou, pelo menos, devemos, os cidadãos que pensam e pagam impostos para mantê-las, ter algum controle sobre elas.

Mas voltemos aos políticos.

Por formarem uma casta de privilegiados, revestidos de uma aura de donos da verdade; por se perpetuarem em feudos eleitorais e se reelegerem ad aeternum; por se constituírem na única via de poder, numa reserva de mercado absolutamente injusta para com todos os demais cidadãos; por se aproveitarem do poder para adquirirem status social e econômico, mesmo que sejam honestos (e muitos o são!); por manterem privilégios que se ampliam e os tornam intocáveis a qualquer possibilidade de julgamento e justiça; por, enfim, se julgarem acima do bem e do mal, tornam-se um mal absolutamente desnecessário a qualquer processo democrático.

Uma verdadeira democracia não precisa de políticos profissionais, porque numa verdadeira democracia todo cidadão é um político e pode, a partir da escolha através do voto secreto e livre de seus concidadãos, ser escolhido para representá-los ou para governá-los.

A existência de uma casta de políticos representa o que de pior se criou, quando o homem inventou a democracia. Sua existência e permanência contraria os princípios básicos de igualdade perante a lei e perante as oportunidades dadas pelo Estado constituído a todo cidadão.

São, os políticos profissionais, a excrescência do processo democrático, porque são mais iguais do que todos os outros cidadãos, ou, pelo menos, assim se constituem e assim se apresentam. A perpetuação no poder enche-os de empáfia e arrogância. São as excelências que nada têm de excelentes.

Por isso, numa visão, sim, radical, mas necessária à discussão de qualquer reforma política, há que se pensar em abolir definitivamente essa casta e acionar mecanismos que transformem todo cidadão em possível candidato viável aos cargos de direção da República.

Como?

Através de leis que:

proíbam a reeleição seguida para um mesmo cargo;

limitem os privilégios dos eleitos;

estendam os mandatos a um tempo condizente com a possibilidade de aplicação de um programa de governo;

efetivamente deixem transparentes as decisões dos parlamentos e dos executivos;

fortaleçam ideologicamente as agremiações partidárias de tal forma que o cidadão saiba com certeza o que esperar de seus componentes, ao chegarem ao poder;

garantam a posse do mandato ao partido e não ao indivíduo;

dêem condições de governabilidade e aplicação do programa de governo ao partido vencedor e condições de fiscalização aos demais partidos e cidadãos, quanto à lisura dos atos praticados e à obediência à Constituição.

Mas isso ou parte disso ou, ainda, isso e mais outras idéias e concepções que aprimorem realmente o processo democrático só podem ser obtidos através da pressão total da sociedade por uma reforma que não fique nas mãos da casta, porque aos políticos, absolutamente, não vão interessar tais princípios e idéias.

Assim, uma reforma realmente profunda dos processos políticos só poderá ser feita por um grupo de cidadãos que não tenham nenhum compromisso com o ideário político tradicional, cidadãos eleitos e fiscalizados pelo povo, constituídos numa assembléia reformista que discuta democraticamente com todos os cidadãos e, ao final do trabalho, apresente propostas à sociedade que deverá aprová-las ou não, no seu todo ou em parte, através de um plebiscito.

Um plebiscito que acabe de vez com a existência de uma casta que se julga mais igual perante a lei do que todos os demais.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:32 AM


{Domingo, Dezembro 10, 2006}


Ex-ditador chileno Augusto Pinochet morre aos 91 anos.

Em sua homenagem, republico:



quando morre um ditador...


quando morre um ditador
o camponês devia poder assar
do trigo que ele colhe
o melhor pão que ele já fez em sua vida
e reparti-lo com sua família
juntamente com a garrafa do vinho mais nobre
da adega do patrão...

quando morre um ditador
o pescador devia poder devolver
ao mar o mais belo pescado
e voltar ao sabor da maré
para enrolar sua rede na praia
e dançar durante toda a noite a churrasquear um filé
com o dinheiro do patrão...

quando morre um ditador
o estudante devia poder colar
na prova todos os conhecimentos
que o mestre lhe ensinou
e jurar para o professor
que para sempre na vida se tornará de repente
o mais sábio de todos os homens
e nunca será um patrão...

quando morre um ditador
o caixa do banco devia poder esquecer
a diferença entre todos os homens
e levar para casa a féria do dia com todos os juros
que seriam do banqueiro
para pagar de uma só vez a prestação da casa
que ele deve ao patrão...

quando morre um ditador
a moça que trabalha na loja de calçados
devia poder escolher o mais belo par
com saltos bem altos e caminhar
pelas ruas como princesa
para esquecer todos os vexames com que ela calça
todo dia o pé de cada madame
e o pé roxo da mulher do patrão...

quando morre um ditador
a sambista da escola da favela devia
sair a requebrar no salão mais nobre
do palácio do governador
não como a sambista do morro de ruas tortas
mas como primeira dama de um governo novo
que se lembre do povo da favela
e não dance nunca na mesa do patrão...

quando morre um ditador
devia a dona-de-casa poder deixar no fogo
a panela de feijão até queimar
e sair para as ruas a ver vitrines
e comprar todos os sonhos
que guardou no peito durante tantos anos
que ela nem sabe mais quais são
tantos dados ao patrão...

quando morre um ditador
o jardineiro devia poder plantar
os mais belos ipês de todas as cores
e quaresmeiras e tipuanas para todos os bem-te-vis
e mangueiras e jabuticabeiras para todos os micos
e todos os pássaros da cidade que já esqueceram o que é
uma boa fruta no pé
no jardim do patrão...

quando morre um ditador...
ah! quando morre um ditador
em cada canto do mundo onde existe um sonhador
devia-se poder fazer
a festa mais encantada
o baile mais bem balançado
o churrasco mais bem passado
o bumba-meu-boi mais bem dançado
o samba mais bem requebrado
o jogo mais bem jogado
a missa mais bem rezada
o canto mais bem entoado
o riso mais bem fotografado
e o viva mais do fundo do coração
como um suspiro que afinal revele
haver ainda no mundo muito mais que uma esperança.



(segunda-feira, 30 de outubro de 2000)



Isaias Edson Sidney


posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 5:49 PM


{Quarta-feira, Dezembro 06, 2006}


ÁGUAS QUE CORREM


Sempre fui fascinando pelas águas que correm. Menino ainda, na velha cidade mineira de Lavras, encantava-me a enxurrada que levava o barquinho de papel. Para onde? Ficava o mistério. Depois, a descoberta do córrego bem lá no fundo do quintal, onde havia um barranco com areias coloridas, moldado pelas cheias, pelas águas. Mais tarde, o riacho longe, aonde íamos em bando tomar banho de cachoeira, no poço redondo, de pedras e areia. E havia, ainda, muito mais longe, o Rio Grande, que passava perto da minha cidade e inundava a pequena Ribeirão Vermelho, de tempos em tempos. E depois, já adolescente, o Rio Verde de Três Corações, onde minha irmã morava. Rio bravo, cortando a cidade e lambendo a Escola de Sargentos das Armas, a ESA. Rio que comia gente. Não era raro juntar povo na ponte, para ver o resgate de um corpo que descia a correnteza, depois de três dias sumido o jovem recruta que se aventurara em suas águas.

Memórias. Memórias de águas que correm, de rios de minha infância.

Se tivesse que escolher a mais bela frase de todos os tempos, acho que escolheria a do historiador grego, Heródoto: o Egito é um presente do Nilo. Não conheço o Rio Nilo, a não ser de fotos ou filmes, mas deve ser um rio fantástico, como tantos outros no mundo. Das velhas lições de geografia: a Mesopotâmia, região entre rios, o Tigre e o Eufrates. O Tamisa, na Inglaterra. E o Danúbio? Para inspirar uma valsa tão famosa, só pode ser um rio de encantos mil!

A imaginação sempre correu frouxa, quando penso em rios, riachos, córregos, águas que correm. Águas que produzem cachoeiras, corredeiras, margens de bosques ou apenas limam as pedras até torná-las redondas. Águas que correm, que sobem com as chuvas e se estreitam com a seca. Acho que são, todas as terras, presentes das águas que correm. Sem elas, o mundo seria estéril, não existiriam animais, florestas, frutos: não existiria o homem. Só a bíblia vê as águas como ameaça: o dilúvio, o mar que Moisés abre com seu bastão. Mesmo quando usa as águas para batismo, elas são não a ligação do homem com a vida, com a terra, mas a religação com um deus furibundo e mal humorado. Mas isso já é implicância minha...

Águas que correm. Que provocam enchentes. Que levam os bens que os homens, teimosamente, amontoam em suas margens.

Águas que correm. Águas que deviam ser limpas, cristalinas, livres, soltas, com imensas margens a serem fertilizadas (como no Egito de Heródoto). Que deviam, em todos os pontos do mundo, trazer vida, saúde, prazer. E penso: será que ainda estão azuis as águas do Danúbio? Não estão ensangüentadas as águas do Tigre e do Eufrates? Não estão barrentas as águas do Velho Chico? Ah: e o nosso Tietê, o rio que corre para dentro, para o coração do estado, quando nasce tão perto do mar! São Paulo, a cidade e o estado, são, em grande parte, um presente do Tietê, com seus inúmeros afluentes a inundar, cada vez que chove, a metrópole que o matou...

Tietê, Tietê, o rio assassinado, que só ressurge impávido colosso só muitos quilômetros abaixo: orgulhoso, na sua resistência, que, nós, os paulistanos, não sabemos admirar, só reclamar, como se fosse possível haver obras contra enchentes, contra as cheias que são a natureza dos rios, dos riachos, dos córregos, das águas que correm.

E as águas que correm pela cidade de São Paulo levam o meu barquinho de sonho para o mistério das profundezas da terra, porque foram elas todas aprisionadas, enterradas, afundadas, emporcalhadas e desprezadas. Só aparecem, a cada ano, durante o verão. Às vezes, um pouco antes.




posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 5:24 PM


{Sexta-feira, Dezembro 01, 2006}


TURISTAS: CUIDADO COM O BRASIL!



Lembra o King Kong? O de 1933? Não sei se foi o primeiro, mas sem dúvida foi um dos filmes de monstro de maior sucesso de Hollywood, do cinemão de Hollywood. Um filme que ficou no imaginário de metade do mundo. Refilmado outras vezes, manteve sempre o mesmo roteiro preconceituoso e estúpido do primeiro: uma ilha distante, onde um povo primitivo oferece mulheres em sacrifício a um macacão improvável e... bem, todos conhecem a história.
Hollywood, seus roteiristas, diretores, produtores, atores e técnicos sempre tiveram um único objetivo: o entretenimento a qualquer custo. Para isso, ousaram tudo: mascarar a realidade (edulcorando-a ou exagerando-a sem qualquer limite ético ou histórico), inventar novas realidades e divulgar a sua própria ideologia.

E a ideologia do cinemão estadunidense serviu, muitas vezes, à própria ideologia de Estado: na exorcização dos temores do povo em relação ao resto do mundo (e emprego aí a palavra resto com toda a conotação negativa que ela possa ter), a indiferença e ignorância em relação a qualquer cultura que não fosse de origem cristã e protestante e o conseqüente desconhecimento e xenofobia em relação a qualquer outro povo.

Há criadores geniais, em Hollywood, mas mesmo entre eles, a maioria absoluta segue essa cartilha e perpetua os padrões há muito estabelecidos. Aliás, enraigados na cultura deles. Por exemplo:Walt Disney. Não há dúvida de que sua capacidade de criação nos fez sonhar e admirar sua obra. Mas, não se iluda: sua visão de mundo era exatamente a mesma que descrevi acima. E quando se aventurou a homenagear o Brasil, com o seu Zé Carioca, trouxe para a tela (e para os gibis), de forma amenizada e caricatural, todos os preconceitos e equívocos que eles cometem contra nós. Basta ver com um pouco mais de atenção suas histórias aparentemente inocentes.

E quando falo em cultura hollywoodiana, não posso esquecer de citar a visão que eles passaram para o mundo em seus épicos do faroeste: que índio bom é índio morto. Os massacres tão bem coreografados em preto-e-branco ou em cinemascope colorido enchiam nossa infância do veneno do preconceito contra tudo o que nos fosse diferente. Hollywood odeia o diferente. E glamuriza tudo o que pode levar ao entretenimento e à alienação. Mesmo nos filmes em que, aparentemente, criticam suas políticas intervencionistas, está presente uma visão equivocada e preconceituosa do outro. Assistam com olhos críticos os filmes sobre o Vietnã, por exemplo.

Nós vendemos nossa consciência ao cinemão de Hollywood: qualquer porcaria que eles fazem consideramos genial ou aceitamos como verdade. Somos platéias passivas diante de todas as bobagens que eles nos impingem. Nunca soubemos ver esse cinemão com olhos críticos em termos ideológicos, mas apenas em termos de técnica e capacidade de realização. Eles não gastam milhões e milhões de dólares à toa: sabem muito bem o que estão fazendo, com o veneno que cada frame, que cada cena, que cada filme contém. Destilam o seu preconceito, a sua visão torta de mundo, as suas idéias de como são os outros. Enfim, sempre foram e sempre serão assim.

Portanto, não há motivo para que nos estressemos diante de mais um filmeco que nos retrata como selvagens que falam espanhol, assaltam, matam, estupram e roubam as tripas de turistas em praias paradisíacas povoadas de macacos e de gente nua. Essa bobagem (estou falando do filme Turistas, lançado essa semana nos Estados Unidos) deve ser vista como apenas isso mesmo que ele é: mais uma bobagem. E, se vier a ser lançado por aqui, que as platéias que tiverem a coragem de vê-lo (é bem capaz até de fazer sucesso) devem rir muito, como se assistissem a mais uma comédia idiota de tantas outras que Hollywood faz para nos impingir uma realidade absurda como verdade.

Porque não adianta reclamar, espernear, xingar: nós alimentamos o King Kong, demos banana demais ao macacão. Agora não há mais nada a fazer.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:42 PM

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