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Terça-feira, Novembro 28, 2006
QUANDO O DIA É DE TRISTEZA...
Houve um tempo em que se falava de fossa. Estar na fossa era estar por dentro, estar in. Então, tome samba-canção, uísque e barzinho. Esse tempo passou. O mundo mudou. Mas não a velha fossa. Agora com o nome de depressão. Palavra feia, parece acidente geográfico. Estar com depressão é estar no fundo do poço. De um poço sem fundo. Portanto, não vou falar de depressão, não. Nem de fossa. Que também um dia foi chamada de banzo e spleen. Banzo era do escravo saudoso da pátria. Spleen era dos poetas frescos da velha Europa, nos seus delírios de drogas e bebedeiras. Que terminavam, quase sempre, em suicídio. Era elegante suicidar-se no século XIX.
Vou falar apenas da velha e boa tristeza. Aquela que nos acomete de vez em quando, sem que saibamos por quê. Acho que é apenas a tristeza de estar vivo, quando tantos já morreram ou estão morrendo, amigos, conhecidos, parentes, ídolos... Ou, sei lá, a tristeza que nos faz escrever versos dos quais nos arrependemos depois. Ou, ainda, aquela tristeza que, se o dia é de chuva, nos faz desejar ficar na cama o dia todo ouvindo a chuva cair.
Pois bem, quando o dia for de tristeza, há um remédio tiro-e-queda, como diziam os antigos. E, agora, eu também quer ser dos antigos. Não para aconselhar ou recomendar. Mas para dar uma dica.
O remédio tiro-e-queda é a música. Ora, dirão, que bobagem, isso todo mundo sabe ou mais ou menos já experimentou. Eu sei, eu sei. Mas, calma: talvez haja um jeito novo de usar a música num dia de tristeza. Esqueça aquela música da juventude, aquela que está relacionada ao primeiro namorado ou primeira namorada, ao primeiro beijo ou ao beijo mais quente. Ou ainda, aquela da noite de formatura. Esqueça toda e qualquer música que embalou um sonho, um acontecimento ou, de algum modo ou de outro, esteja associada à sua vida. Essas são maravilhosas, fantásticas, mesmo, mas só servem para tornar um dia de tristeza ainda mais triste, mais fossento, mais depressivo...
Então, que diabos de música? Bem, eu uso o computador, mas você pode usar o recurso que quiser. Eu uso o computador para buscar músicas na Internet, músicas antigas ou não, mas músicas desconhecidas ou esquecidas. Que eu sei que existem, mas nunca ouvi. Ou ouvi sem prestar atenção. Por exemplo, só um exemplo, Dalida. Uma cantora francesa que teve uma vida muito estranha, ligada a vários suicídios, inclusive o dela. Mas... como era bela! E como cantava! Um rouxinol de sotaque egípcio na grande música francesa de algumas décadas atrás. Dalida e sua música são um tiro certeiro na tristeza. Pelo menos, na minha.Ou então, orquestras americanas da década de trinta e quarenta. Como a manjadíssima orquestra de Glenn Miller. Se achar Moonlight Serenade, pode estar certo de que a tristeza vai para a Lua.
Enfim, cada um pesquisa o que gosta, ou nem sabe que gosta, mas que era muito bom, no passado. Músicas com melodias, com letras e arranjos, assim escritas para emocionar, para dançar, para enlevar. Enlevo. Essa a palavra para viajar por canções de que nossos ouvidos guardam ecos distantes, sem que nunca nos déssemos conta de que elas estão lá, num limbo, prontas para nos dar um pouco mais de alento num dia de fossa, de depressão... Não! Num dia de tristeza, para que a tristeza se transforme em melancolia, depois em saudade, depois em gosto e, finalmente, em prazer...
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:21 PM
Segunda-feira, Novembro 27, 2006
REFORMA POLÍTICA (2)
OS PARTIDOS POLÍTICOS. Numa democracia republicana, eles são fundamentais. Devem refletir os anseios políticos da sociedade: sua visão de mundo a respeito de como deve a Nação ser conduzida. Se para a direita, num liberalismo econômico e social à Milton Friedman ou, ao contrário, se vamos de Maynard Keynes. Se se deve apostar num mercado interno fortalecido ou na exportação para gerar empregos. Se o País deve apoiar tal ou qual nação, em termos de geopolítica ou de possíveis conflitos. Enfim, se vamos para a direita, para a esquerda ou ficamos no centro. E dentro dessas e outras possíveis perspectivas, que modelo de sociedade devemos criar, adotar ou rejeitar?
Por isso, os partidos políticos devem ter uma ideologia, isto é, um conjunto de idéias e princípios que norteiam uma visão de mundo; devem, ainda, apresentar a seus eleitores programas ou projetos que desejam ver implantados e a forma como isso se dará. Porque não basta dizer o que fazer, mas também é importante como vai ser feito. No modus operandi, muitas vezes, é que um partido se distingue do outro, para a população. A forma de gestão, o jeito como lida com os recursos públicos, isso mexe com a vida das pessoas, interfere em suas relações econômicas e sociais.
Dentro desse prisma, não há muitas variações. Não são muitas as visões de mundo. Tampouco são incontáveis os caminhos administrativos a serem adotados. Por isso, não cabe, num país como o Brasil, senão uma meia dúzia, no máximo, de partidos políticos, sendo que apenas uns três com amplas possibilidades de chegar ao poder. Haja vista o exemplo dos Estados Unidos: há dezenas de pequenos partidos, dos quais nem se ouve falar, mas apenas dois se revezam no poder. Embora sejam ideologicamente parecidos, democratas e republicanos têm, no entanto, programas e projetos diametralmente opostos.
No Brasil, pensa-se que toda corrente de pensamento ou todo segmento social deva ser representado por um partido político. Por exemplo: o Partido Verde.. Qual é a ideologia política de um partido ecologista? Porque uma pessoa é de direita, ela não pode defender o meio ambiente? Além disso, só o fato de ser ecologista não lhe dá nenhuma outra credencial ideológica. Quer outro exemplo absurdo? Um partido que se diz dos Aposentados. Ora, aposentado é ideologia política?
Mas, ainda há um problema sério nos atuais modelos presidencialistas: a governabilidade. Raríssima é a vez em que um partido político assume o poder com maioria nas casas legislativas. O voto popular, caprichosamente, quase sempre se divide entre os vários partidos, provavelmente porque o voto é personalizado e não partidarizado. Ao presidente só resta a situação de fazer concessões ou coalizões, para obter aprovação de seus projetos, o que acaba por descaracterizar seu programa de governo ou, em casos extremos, até mesmo impede que ele governe. Além disso, o equilíbrio político é sempre instável. Estou pensando, neste momento, no exemplo da Alemanha, onde o partido vencedor se viu obrigado a fazer acordo até mesmo com o partido derrotado nas urnas, que devia ser oposição. Mesmo nos sistemas parlamentaristas, há uma crise constante no ar, porque as forças políticas dos parlamentos estão, quase sempre, divididas e dispersas. E, no parlamento, a luta política se amplifica, por motivos ideológicos ou por comezinhas disputas de poder regional.
Por isso, repito, uma Reforma Política deve procurar dar condições a que existam partidos ideologicamente definidos, com visões de mundo, conteúdos e projetos pragmáticos claros e precisos. Quando isso acontecer, não serão necessários mais do que algumas poucas agremiações partidárias, para cobrirem todo o espectro ideológico da sociedade brasileira. Mas isso não é suficiente. É preciso que o partido que ganhar as eleições para os cargos executivos (governos municipais, estaduais e a presidência da república) tenha condições de governar. Aliás, mais do que condições, o partido vencedor tem o direito, dado pelas urnas, de aplicar o seu projeto de governo. Porque para isso foi escolhido. E deve assumir, claramente, a responsabilidade por suas práticas de governo. Sem alianças, sem conluios, sem coalizões. Para isso, é preciso que haja mecanismos que assegurem sua maioria nas casas legislativas. Na prática, se o partido A elege o presidente da república, ele deve ter direito a 50% mais um dos representantes na Câmara dos Deputados, onde deverão ser discutidos e aprovados os seus projetos (o Senado deve ter suas funções redefinidas e sobre isso escreverei mais adiante, em outro artigo, sobre os poderes legislativos). Aos partidos de oposição cabe a responsabilidade de fiscalizar, de alertar, mas não o de impedir que o partido vitorioso governe e aplique os seus projetos e programas.
Dentro desse cenário, já se pode pensar que mecanismos como proibição de coligações e de reeleição, fidelidade partidária, voto distrital misto, voto em listas de candidatos, etc. são medidas a serem discutidas para que se encontre a melhor maneira de serem aplicadas. Além, é claro, da possibilidade de financiamento público das campanhas políticas.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:23 PM
Quinta-feira, Novembro 23, 2006
REFORMA POLÍTICA (1)
Passadas, e bem passadas, as eleições, pode-se começar de novo a falar de Política, assim mesmo, com P maiúsculo. Porque a poeira baixou, a racionalidade voltou, o partidarismo pode ficar para trás.
Um assunto importante, mas que não empolga o povo: reforma política. Espinhoso, complexo, apaixonante, mas que não traz para as massas nenhum efeito imediato, não promete empregos, não enche panelas, não constrói estradas... Por isso, fica sua discussão num limbo, que se pode chamar a elite pensante do País. Mesmo assim, cai, quase sempre, só na chamada classe política. Aos políticos interessa, afinal, a reforma política. Mas aí é que a coisa pega: político quer, sim, uma reforma, mas que atenda a seus interesses, que facilite a sua vida, que, afinal, deixe mais livre e mais suave o seu caminho para o poder. E isso acaba transformando a reforma política em medidas paliativas ou de controle, controle dos adversários, de preferência, que levam a coisa nenhuma. É mudar para ficar como está.
Alguns segmentos sociais também dão seus pitacos na reforma política. Sociedades organizadas como, por exemplo, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Mas, que me desculpem os causídicos, sua visão também é estreita, ou seja, é a visão jurídica, válida, claro, importante, claro, mas é política vista sob o viés de um grupo (mais uma vez me desculpem) extremamente corporativista. Se forem os advogados a fazerem a reforma política, ela terá os mesmos defeitos (em outros níveis, claro) que a feita por políticos.
Citei a OAB como exemplo, mas há outras entidades que também se interessam, que também jogam na mídia idéias e discussões. Isso é saudável, mas não é tudo. Porque, nesse assunto, não pode prevalecer a opinião de grupos, de entidades, de organizações ou sindicatos. A verdadeira Reforma Política, com letras maiúsculas, só pode ser feita com discussão a mais ampla possível, discussão que envolva, democraticamente, todos os cidadãos interessados. Porque os há, em todos os setores. Apenas não têm voz, ou porque não têm acesso aos meios de comunicação, ou porque não têm acesso a entidades representativas como OAB, ONGs , sindicatos e demais grupos organizados.
Aliás, grupos representativos constituem lobby. E puxam a brasa para suas respectivas sardinhas. Não são, portanto, organismos tão democráticos que possam se transformar em porta-vozes do povo. São porta-vozes de seus associados. Fechados em si mesmos, olhando para seus próprios umbigos. Como disse, importantes, mas não únicos.
Porque mesmo entre advogados, médicos, professores, jornalistas, sindicalistas etc. há pessoas que pensam diferente, que discordam da direção de suas entidades ou que não se associam a elas. Mas são pessoas que podem dar contribuições importantes. Porque também pensam, porque também se interessam pelo País e por seu futuro.
Como resolver isso?
Não sei. O que sei é que Reforma Política é assunto importante demais para ficar nas mãos de políticos. Também não pode ser discutido apenas a portas fechadas por entidades de classe. Ou então, que essas entidades, por terem maior acesso à mídia, abram suas portas, democraticamente, para todas as pessoas que se interessem em dar sua contribuição, que divulguem idéias e visões diferentes da política e não fiquem apenas nos aspectos operacionais de uma reforma que discute, ao fim e ao cabo, somente os temas de interesse imediato dos políticos.
Se cairmos no imediatismo de uma reforma paliativa, sem discutir que tipo de democracia queremos ter e deixar para as gerações futuras (que é o que interessa, realmente, discutir), teremos mais uma vez uma reforma cosmética, que não levará a avanços significativos na conquista de valores republicanos e democráticos. Porque, uma coisa, é discutir política em época de eleições, quando falam mais alto as emoções, outra é discutir Política, ou seja, os destinos da Polis, do Estado, do País, com fervor, sim, mas principalmente com a razão e com idéias acima de partidos e ideologias.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:30 AM
Sexta-feira, Novembro 17, 2006
UM POEMA
POUR TOI MON AMOUR
JACQUES PREVERT
Je suis allé aux marché aux oiseaux
Et j'ai acheté des oiseaux
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché aux fleurs
Et j'ai acheté des fleurs
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché à la ferraille
Et j'ai acheté des chaînes
Des lourdes chaînes
Pour toi
Mon amour
Et puis je suis allé au marché aux esclaves
Et je t'ai cherchée
Mais je ne t¿ai pas trouvée
Mon amour
UMA TRADUÇÃO:
PARA TI, MEU AMOR
Trad.livre: Isaias Edson Sidney
De um velho passarinheiro
Comprei para ti,
Meu amor,
Um lindo bem-te-vi.
Da florista mais vaidosa,
A mais bela rosa
Comprei para ti,
Meu amor.
A um robusto ferreiro,
Do aço mais duradouro,
Banhadas em ouro,
Algemas pedi,
Só para ti,
Meu amor.
Por fim, louco de amor,
Em meio às escravas
Por ti procurei.
Mas tu não estavas,
Meu amor.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:10 PM
Sábado, Novembro 04, 2006
ATOS INSANOS. OU: AS BOBAGENS QUE OS HOMENS FAZEM (2)
Lembra a caverna do Platão? Aquela em que os homens vêem a sombra e não a realidade? E pensam que a sombra do que vêm é a própria realidade? Pois é: às vezes acho que vivemos todos nas cavernas, em cavernas muito mais profundas do que sonhou ou imaginou um dia o nosso filósofo de antanho.
E tenho dúvidas de que o homem das cavernas seja menos bárbaro que o homem de hoje. Aliás, fico pensando que o homem aperfeiçoou sua capacidade de ser bárbaro. É: estou falando, sim, da barbárie, um tema recorrente. Porque, nesse quesito, a imaginação humana é, realmente, infinita. Não nos cansa de surpreender sua capacidade de fazer coisas estúpidas. Estúpidas e bárbaras.
Leio, vejo, escuto, e não acredito. Soldados judeus atiram em mulheres que se puseram como escudos humanos de guerrilheiros palestinos, escondidos numa mesquita. E a televisão repete ad nauseam: um grupo de mulheres palestinas, com suas vestes negras e largas, um bando delas, correndo em meio a fuzilaria. E duas caem feridas. Mortas.
E penso: tão repetidas as imagens, tão gastos os protestos, tão inúteis nossos sentimentos de horror. Porque, como círculo vicioso de espanto e dor, são imagens que se repetem e se repetem, até que nossos sentidos se embotam e não mais sentimos nada.
E nosso olhar de tédio é a pior barbárie a que nos condenam os estúpidos que convocaram suas mulheres para os proteger e os estúpidos que atiraram como caçadores de outrora atiravam em pombos recém-libertados de suas gaiolas.
Queremos chorar, mas por quem? Não há mais lágrimas, tampouco, para se chorar senão por nós mesmos, que nos condenamos a ver a dor, o sangue, o desespero através das imagens coloridas de um tubo de televisão. E nos condenamos à caverna, à eterna caverna de Platão. Estúpidos e estupidificados.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:35 PM
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