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{Segunda-feira, Outubro 30, 2006}


SEGUNDO MANDATO: A TRAVESSIA (conclusão)


Dramática, trágica a descrição? Então, retomem-se livros esquecidos, como As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. Ou A História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman. Ou, ainda, o mais sutil A Descoberta da América, de Tzvetan Todorov. Sim, são obras da esquerda, da aparentemente ultrapassada visão da esquerda, mas ainda dizem aquelas verdades que parecem se eternizar, pois não respeitam quandos nem ondes: cumprem-se, sem que nos demos conta. Porque, massas anônimas, sem voz e sem vez, explorados fomos e explorados somos pelas mesmas forças de sempre, moscas mutantes em volta de nós, também nós os cocôs de sempre. Que o digam os presidentes Chávez e Evo Morales. Queriam os nossos teóricos do caos que o nosso Lula tivesse os mesmos rompantes de seus colegas latino-americanos? Que não fosse tão, aparentemente, dócil com a canalha da direita, como tem sido? Aí, sim, essa canalha espernearia, com razão. E o caminho para o golpe estaria devidamente asfaltado e sinalizado. Para eles, é claro, que buscam qualquer motivo para desestabilizar um governo que não atenda a seus interesses.

No entanto, o que se propõe, diante do segundo mandato de Lula, não é a luta classista que pode levar a caminhos sangrentos que ninguém, em sã consciência, advoga, mas um governo de compreensão de que o momento exige união para que o País possa dar o salto decisivo rumo ao crescimento econômico e, conseqüentemente, à geração de empregos, à distribuição da riqueza, à melhoria das condições de vida do povo. Que a direita hidrófoba recolha a baba da inveja, do golpismo, do ódio a tudo que seja diferente, e sente-se à mesa da reconciliação. Não para deixar cair, como sempre, as migalhas do banquete para a gentalha faminta, mas, lado a lado com um governo legítimo e legitimado pelas urnas, verdadeiro representante das classes populares (que não são estúpidas, mas sábias, muito sábias, ao escolher seus caminhos), poder discutir em igualdade de condições com essa mesma classe o melhor destino para o País.

Nada de nacionalismos, esses, sim, ultrapassados, nem extremismos de esquerda, ainda que as utopias estejam vivas. Um governo de reconciliação do povo consigo mesmo. A bandeira da paz, já acenada no discurso de extrema lucidez do Presidente, não deve ser um símbolo nem de covardia nem de abjuração de princípios políticos. Mas, acima de tudo, de visão estratégica, de possibilidade de construção de um País viável, com diferenças de posições, de idéias, mas unido na busca do único caminho possível como solução dos imensos problemas estruturais que nos afligem: o caminho do crescimento econômico. Diante do imenso desafio de reconstruir a Nação, esquerda e direita deixam de ser categorias excludentes, para se tornarem, num mundo que não respeita mais fronteiras ou ideologias, adversárias de corrida de obstáculos, cujo vencedor é sempre aquele que apresenta o melhor desempenho, numa competição não mais pelos despojos resultantes de lutas fratricidas, mas pelo direito de dar o melhor de si pelo povo, esse, afinal, o único objetivo de qualquer política.

Pode-se perguntar: por que um ato de conciliação agora? Não pode a esquerda governar sozinha, como a direita sempre o fez?

Não, não pode. Por um motivo muito simples: os meios de produção estão nas mãos da direita, desde o agronegócio até as indústrias. E também os meios de comunicação. A direita sempre deu as cartas, sempre fez o que quis, governando totalitariamente, conduzindo o País para a situação a que chegamos hoje. À direita não interessa, enquanto no poder, qualquer aliança com as forças progressistas. Já a esquerda tem apenas o povo, e assim mesmo em curtos períodos durante os quais se tenha rompido o monopólio dos meios de comunicação social que manipulam esse povo e preservam os interesses da direita. Por isso, um governo de tendências esquerdistas, por menores que sejam, é sempre um governo instável. A governabilidade só é discutida, como processo, quando há instabilidade.
No entanto, mesmo instável, se fortemente apoiado pelas massas, como agora, tem a esquerda um certo poder de barganha. E não pode se furtar a que, em prol de conquistas para o povo, alie-se de alguma maneira a forças mais conservadoras. Pelo menos, a forças conservadoras que tenham algum tutano, que pensem um pouco que seja com o cérebro e não com o bolso, que tenham, portanto, um mínimo de inteligência política e ( por que não dizer?) intelectual. Porque, primeiro, essas forças conservadoras menos broncas existem, sim; e, segundo, na verdade, são elas as estúpidas, embora espertas, da história, e não o povo tachado de burro por votar no Lula.

E mais: todas as tentativas de enfrentamento da direita por governos radicais, nessa nossa América do Sul, levaram a processos dolorosos de ditaduras raivosas. Isso aconteceu no Chile, na Argentina, aqui mesmo no Brasil e em outros países. E, mais uma vez, que o diga o Presidente Hugo Chávez. Portanto, a mão estendida do Presidente Lula, nesse seu segundo mandato, não deve ser encarada nem como traição pelas forças mais à esquerda, nem como rendição, pelas oligarquias. Será o gesto natural de quem conhece a encrenca em que se pode transformar qualquer bravata a favor de mudanças radicais, sejam elas econômicas, políticas ou sociais. Essas mudanças virão, sim, mas deverão ser feitas como se faz a alteração de rota de um transatlântico dentro do nevoeiro, quando conduzido pela visão sábia de um comandante realmente preparado para a travessia: com calma e maestria.

Comecei esse longo artigo com a fome. E com a fome devo fechá-lo. É ela não apenas a necessidade urgente que deve ser saciada, mas também a metáfora de um povo que não tem apenas o estômago vazio, mas também esvaziada pelos anos de miséria a sua capacidade de auto-realização como País civilizado. É preciso, muito além do bem-estar físico, prover esse povo sofrido de condições mentais de pensar sobre o seu destino, através de uma verdadeira revolução da cultura, da educação, da democratização dos meios de comunicação, da possibilidade de obter bens culturais e educacionais sem o sacrifício de orçamentos familiares mirrados, o que só se pode alcançar com a distribuição concomitante da renda com o crescimento econômico: o bolo tem de ser comido enquanto cresce, não depois de cozido e subtraído pelas oligarquias, como sempre foi.

O povo tem fome, sim, não uma só, mas várias.

A primeira delas, a fome do corpo, é urgente e está sendo saciada. Mas as demais fomes, a de escolas, a de cultura, a de melhoria do pensamento e da criatividade, essas têm de ser alcançadas através de políticas sérias e constantes, de programas de curto, médio e longo prazos, que envolvam todas as forças produtivas e realmente interessadas em tirar o atraso de quinhentos, de cinqüenta anos que sejam, sem ódios, sem rancores, numa postura de equilíbrio e sensatez que deve prevalecer em todas as lutas políticas. As reformas, imensas, estão aí para serem discutidas, aprovadas e implementadas. A rabugice rasteira das forças conservadoras e o estrelismo às vezes inconseqüente das forças progressistas têm, agora, uma oportunidade única de se unirem, não para a rapinagem nem para a auto-anulação de suas idéias e princípios, mas para o pragmatismo das necessidades urgentes, de ultrapassarmos a fronteira do terceiromundismo e deixarmos de ser os vira-latas de um mundo a tal ponto internacionalizado, que não tem contemplação nem dó para com os fracos e remediados. Para encarar esse mundo, precisamos ser fortes o bastante para encarar o desafio da integração global sem baixar a cabeça e sem entregar nossa dignidade e nossas riquezas.

Tenho certeza absoluta de que a vitória de Lula não é a vitória do vae victis, do ai dos vencidos, nem dos vendidos, mas a verdadeira possibilidade de vitória do povo brasileiro, esse, sim, sabiamente desperto para suas verdadeiras necessidades e destinos. Sem nacionalismos estúpidos, sem patriotadas inúteis, sem falsos moralismos. E, principalmente, sem o preconceito de vira-latas. Porque a fome que mata estará sendo pouco a pouco debelada, para dar lugar a políticas realistas de desenvolvimento e crescimento sustentado.

29.9.2006

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:23 AM

SEGUNDO MANDATO: A TRAVESSIA

(CARTA AOS BRASILEIROS)



A fome mata.

Infelizmente, mata menos lentamente do que gostariam alguns economistas ligados a certos partidos de centro-direita e de direita que, vez ou outra, embalados pela repercussão que suas palavras têm na mídia, grasnam e rosnam contra os programas sociais do governo Lula. Acham perda de tempo gastar dinheiro com os pobres, aqueles mesmos pobres que eles fabricaram em série, da forma competente com que eles se aplicam a fazer esse tipo de coisa, há cinqüenta anos.

Sim, fiquemos nos últimos cinqüenta anos, muito embora gostemos de dizer que os problemas brasileiros têm seu nascedouro com a carta de Caminha. Coloquemos na conta desses famigerados partidários do grande capital espoliativo somente os últimos cinqüenta anos de desvarios, desde que Juscelino colocou no peito de Jânio a faixa presidencial. E não nos esqueçamos de que eles conseguiram, sim, enganar o povo, esse mesmo povo que eles almejam ver aniquilado pela fome. Que, por isso, fez escolhas equivocadas. Pelo menos na minha conta, aconteceram, sim, duas vezes: a primeira, ao votar maciçamente na incompetência, na mentira e no golpismo disfarçado de Jânio e a segunda, na incompetência, na mentira e na roubalheira de Collor, ainda que Collor não seja menos golpista que Jânio nem Jânio menos ladrão que Collor. Ah, sim, ouve FHC, mas esse o povo escolheu com boa intenção. Que ele tinha e perdeu. Na vergonhosa história da compra do segundo mandato.

Mas foi, mesmo, com as extravagâncias janistas que começou nosso martírio rumo à estagnação. Jango, que sucedeu ao golpismo janista, coitado, era só um bom moço embalado em papel de bombom sonho de valsa dos delírios esquerdistas. Não tinha carisma, não tinha projeto de governo, não tinha nada. Ou melhor, tinha o suficiente para provocar vendavais de cólera vindos da parte norte do planeta, devidamente engarrafados no verde-oliva da estupidez de generais formados em academias aqui e acolá, inflamados pelo discurso vazio de um paradoxal stalinismo de direita que abriu de vez a pernas da mãe-pátria, transformando-a na grande meretriz do capital e das empresas que a emprenharam de dívidas, que a incharam de impostos, que se apoderaram, depois, de suas tetas, para exaurir o máximo que pudessem de incentivos, numa roubalheira não só do dinheiro público, mas da própria dignidade do cidadão brasileiro, amordaçado e impedido de denunciar qualquer falcatrua.

Agora, esses mesmos defensores daquele tipo de Estado que providenciava a bem-aventurança a todos quantos se abraçavam à sua gorda cintura de mãe-meretriz vêm reclamar que uma grande empresa de aviação, durante dezenas de anos mal gerida por seus gestores incompetentes, virou traque e o governo não fez nada. Da mesma maneira, uma multinacional da indústria automobilística vê sua fábrica se tornar ultrapassada, também por incompetência e falta de visão, e ameaça fechar as portas, e novamente o governo é acusado de não fazer nada. Como se das tetas outrora fartas da grande meretriz ainda jorrasse o leite das maracutaias para esse tipo de gente.

Não, não há dinheiro do povo para essa cambada que mamou, mamou e se saciou durante tanto tempo de delfins, de fernandos e quejandos. Agora, o dinheiro que há é para aliviar um pouco a fome do povo que essa matilha espoliou, para que, enquanto não se resolvem os grandes problemas estruturais que tragam emprego e crescimento econômico, desarmando as bombas de efeito retardado de políticas protecionistas do grande capital e da concentração de renda, essa gente não morra de fome mais depressa, como eles gostariam.

Porque a fome mata.

E, muitas vezes, não espera o dia seguinte, ainda que esses mesmos cães que ganem na mídia e defendem os que nos espoliaram durante... quanto tempo, mesmo? cinqüenta ou quinhentos?, não importa, durante todos esses anos, esses mesmos que tiveram na boca o filé, a carne de primeira do poder e cuspiram para o povo o osso da pobreza, da desigualdade, do desemprego, pensem que o preço a pagar por um crescimento que volte a privilegiar o grande capital seja a morte, de preferência imediata, de milhões dos habitantes dos grotões, dos fundões esquecidos da Nação, daqueles que só são importantes para eles quando contribuem com seus votos para encher ainda mais suas já tão nutridas burras, mas quando se revoltam, numa revolta silenciosa e desvalida, e votam no governo que, pelo menos, lhes oferece um pouco de pão para agüentar até o dia seguinte, eles se transformam em burros e estúpidos que só votam no Lula por isso mesmo, por serem burros e estúpidos.

Ignoram esses trombeteadores da burrice popular que esse povo não teve a oportunidade de freqüentar nem o roto banco escolar das primeiras letras, quanto mais os prédios envidraçados da USP, onde a burguesia bem nutrida dos jardins, esses bairros da alta classe média paulistana tão bem ouvidos pela mídia em qualquer de seus achaques contra governos populares, lustra suas bundas ilustres, devidamente agraciadas com o dinheiro público, depois de freqüentarem os mais caros colégios da capital, o que lhes dá estofo para o vestibular de uma das mais afamadas universidade do Brasil. Sem nunca saber o que é fome, a mesma fome que mata, sem dó nem piedade os milhares ou milhões de brasileiros dos grotões ditos mais atrasados, os mesmos que são acusados de votar no Lula, porque são estúpidos e ignorantes.

Não, não pode haver contemplação para esse tipo de gente que, diante da derrota de seus queridinhos, pondo por terra os seus projetos de poder pelo poder, para manter o status quo, ladram e ganem e se esfalfam em falatórios e intrigas contra o barbudo metalúrgico que teve a ousadia de, como Presidente da República, não fazer todas as besteiras que eles achavam que ele faria, o que o tornaria presa fácil de sua sanha golpista. Não, Lula sabe muito bem onde aperta o sapato da Nação. Ele sabe que não adianta cometer, em economia, golpes de ippon ou projetos megalomaníacos da mais pura heterodoxia: como um velho marinheiro, toca o barco devagar, porque o nevoeiro se dissipará assim que todas as minas e armadilhas explosivas que entravam o desenvolvimento forem desarmadas. Desenvolvimento que deve, sim, subir uma lenta ladeira para que não vendamos o almoço para pagar a janta, coisa que vem sendo feita por muitos países que crescem a taxas de oito ou dez por cento ao ano às custas da queima de reservas ambientais, da destruição sem retorno do solo, das águas, do ar que se respira, numa gastança sem freio e sem propósito.

Não adianta as cassandras do desenvolvimentismo a qualquer custo baterem no peito e lamentarem os passos lentos e cuidadosos, porque um salto no escuro, agora, pode ser fatal e comprometer, sim, num vôo de galinha, todo um trabalho de base. O País não tem, ainda, infra-estrutura para crescer a altas taxas: modernizar portos e aeroportos, construir e manter estradas, recuperar a malha ferroviária, prever usinas e outras formas de energia, melhorar o ensino e, conseqüentemente, a qualidade da mão de obra, desarmar os subsídios e equacionar o problema da carga tributária, com um sistema ágil e competente de arrecadação, para se chegar a um grau aceitável e justo de distribuição dos impostos, enfim, há um longo caminho a percorrer para que se chegue à larga estrada das altas taxas de desenvolvimento sustentado.

E há, ainda, duas bomba a ser desarmadas, a despeito de toda e qualquer gritaria moralista ou religiosa: a superpopulação e a questão ambiental. Em algum momento, a sociedade precisará discutir seriamente, sem interferências de qualquer espécie, principalmente religiosas, o controle populacional. Não adiantam altas taxas de crescimento, se a população continuar aumentando descontroladamente. Quanto ao meio-ambiente, um plano sério, sem preconceitos, sem moralismos, sem emocionalismos, precisará ser posto em prática, sem dúvida nenhuma, para que não queimemos nossos recursos inutilmente. E também se deverá optar por políticas que tragam desenvolvimento sem destruição. Amazônia, Mata Atlântica, rios, aqüíferos, o ar que respiramos, nada disso pode ser moeda de troca pelo progresso dasatinado, nada disso pode ser transformado em massa podre e falida de uma nação de doentes por falta de esgoto, de água, de ar.

Gostaria de terminar aqui esse já longo artigo, mas ainda tenho muito a falar. Paciência. Um pouco de paciência ao leitor que até aqui seguiu essas atormentadas linhas. Há ainda que se dizer que, a despeito de tudo e de todos, Lula foi reeleito, numa dura batalha em segundo turno contra as forças oligárquicas do atraso e do entreguismo. Lula sucede a si mesmo, num processo que se repete pela segunda vez na história de nossa claudicante República. Sou contra o estatuto da reeleição. Contra qualquer tipo de reeleição. Lula também é contra. Mas aceitou, como não poderia deixar de aceitar, as regras do jogo. Jogo cujas regras se constituíram, ao se efetivarem, num golpe, o golpe da reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Sim, meus amigos do PSDBFL, vocês já deram o seu golpe. Compraram a peso de ouro, ouro de tolo, claro, o nosso ouro, a reeleição de FHC, certos de que se livrariam para sempre de Lula, porque teriam tempo de preparar, num golpe (outro!) de marketing, um anti-Lula (sabe o velho joguinho de come-come?), para, mais uma vez, iludir o povo e levar alguém de confiança das oligarquias a suceder FHC. Não contavam, no entanto, com a teimosia e a esperteza de Lula (sim, esperteza, e podem dar a esse termo o sentido que quiserem, já não há a mínima importância a essa altura do jogo).

Há que se lembrar a satisfação de FHC, na posse de Lula: aquele sorriso que parecia, claramente, dizer: vamos lá, barbudo, nós o pegamos depois, pode brincar à vontade de ser presidente, nós o pegamos depois, como pegamos o Collor. Mas, repito, Lula não caiu nessa esparrela de dar soluções heterodoxas a problemas ortodoxos como inflação, câmbio e demais variáveis econômicas. Fez o que devia ter feito o professor emérito da Sorbonne que, sentado na cadeira da Presidência, passou oito anos inflando o próprio ego: Lula endireitou o barco Brasil que ameaçava adernar para a direita e fazer água.

E há mais ainda a se dizer: na história dos engodos que impingiram ao povo e o levaram a enganar-se em suas escolhas (Jânio e Collor, principalmente, só para ficar nos últimos cinqüenta anos), o cerne do discurso vitorioso foi sempre o discurso moral e pobre da corrupção. Moral, porque se demoniza uma abstração, concretizando-a num símbolo de fácil identificação: a vassoura do Jânio e os marajás do Collor são símbolos diferentes da mesmíssima idéia, a idéia de que há um dragão da maldade a ser combatido pelo santo guerreiro protetor do povo. Pobre, porque combate à corrupção não é projeto de governo: é função permanente dos órgãos constituídos (Ministério Público, Polícia Federal, CPIs etc), quando as regras democráticas estão em funcionamento. Ninguém ignora que há, sim, corrupção, endêmica, em todos os governos, de todos os países, talvez com raríssimas exceções, aquelas exceções tão raras que confirmam a regra. E ninguém com um mínimo de bestunto ignora que a corrupção mais se torna visível quanto mais é combatida. Só percebemos que há corruptos, quando os corruptos são surpreendidos com a boca na botija.

E mais: discurso e projetos e programas de combate à corrupção só aparecem quando não há outra causa a ser defendida, é a bandeira do desesperados, dos falsos moralistas ou dos aproveitadores. E todos eles acabam, sempre, sendo os que mais sujam as mãos, quando erguem da lama a bandeira do combate à corrupção. Serviu para Jânio, serviu para Collor, está servindo agora aos interesses mais do que excusos da direita inconformada e saudosa do poder e do governo mãe-prostituta que se abre a todas as maracutaias dos que se acostumaram a mamar em suas gordas tetas. Não há, portanto, discurso mais profundamente enganador e estúpido e conservador, do que esse do combate aos corruptos. Acho, e as urnas o confirmaram, que o povo já se cansou dele e já entendeu o que há por trás de toda a gritaria moralista que os estúpidos (esses, sim, estúpidos) usam para chamar a atenção e obter espaço na mídia.

Porque, há ainda a acrescentar-se, não há anjos nem demônios em política. Há os que têm projeto para o povo e os que têm projeto para as classes dominantes. E em ambos os lados há bons e maus indivíduos. O PT que se fez de vestal era justamente a banda mais podre. Que está caindo pelas tabelas, como toda banda podre cai. E já cai tarde. Não se coloca no poder um partido esperando que haja somente anjos (ou demônios): isso é maniqueísmo barato, fruto de metafísicas enganadoras. O que se espera da maioria dos dirigentes de um partido no poder é que tenham decência de punir, sejam inimigos, sejam amigos. E é o que se tem feito. Ao contrário de governos passados, em que a corrupção, a bandalheira e a podridão eram varridas para debaixo dos tapetes luxuosos que forravam o piso de seus palácios de mentiras. Acusar a torto e a direita é, sim, golpismo. E mais e pior: é moralismo da espécie que todos conhecemos, o falso, aquele que levanta a mão direita para acusar e esconde a esquerda que rouba e furta. Não podemos e não devemos ser complacentes com roubalheiras, sejam de esquerda ou de direita, mas não nos acumpliciemos com esse discurso hipócrita de aproveitadores que, não tendo outra bandeira, erguem o estandarte da moralidade para esconder suas próprias mazelas. E sua estupidez e falta de idéias e programas.

Mas ainda não acabei: é preciso voltar à idéia do golpe. Lula reeleito precisa governar. Pergunto: governará em paz ou sobre ele permanecerá o discurso moralista da corrupção, como uma espada de dâmocles, erguida com os objetivos de esconder as verdadeiras intenções golpistas? E mais: será que o ódio que sentem do povo (chamando-o de estúpido e ignorante, por votar no Lula) continuará permeando o tecido político e se constituirá num entrave ao direito que tem o eleito de governar? Não terão aprendido os rancorosos seguidores do encantador de serpentes FHC a lição das urnas? Ou será que manterão, ainda, o mesmo ódio que sentem do povo contra o Presidente eleito, contra o seu programa de governo?

Acredito que esse ódio provém de um núcleo duro da oposição: duro nas idéias retrógradas, duro na estupidez e duro na incapacidade de compreender que não prestam nenhum serviço ao país com o cultivo de ódios antidemocráticos. Esse núcleo duro, preconceituoso e cheio de rancores está localizado em setores sobejamente conhecidos do PSDB paulistano e do PFL baiano. O primeiro, o núcleo paulistano, ainda se alimenta da baba rancorosa de uma certa mídia que imagina ter o direito de interferir na vontade do povo. Desmascarada em suas intenções golpistas, fez o seu candidato perder dois milhões e quatrocentos mil votos entre o primeiro e o segundo turno. O segundo, o núcleo ACM, foi devidamente defenestrado do poder pelo voto que libertou os baianos do jugo de um clã vergonhoso e estúpido.

Só posso atribuir o ódio desses dois núcleos políticos à frustração, à inveja e ao preconceito. Frustração, por verem o poder ficar distante de suas mãos tão indignamente apontadas para as benesses de um poder perdido; inveja, por assistirem de camarote à vitória de teses que tacharam de populistas, mas que vêm dando novo ânimo ao povo e propiciando terreno para o verdadeiro desenvolvimento e distribuição de riqueza; preconceito, porque o semi-analfabeto metalúrgico entende muito mais de Brasil do que seus compendiadores de enciclopédias trancados em gabinetes perfumados, bem distante do povo, ousaram sonhar.

Espera-se que esses dois núcleos, devidamente reconhecidos e renegados pelas urnas, sejam isolados em nome de uma oposição democrática e de direito, mas honesta e não bafejada pelo hálito podre dos golpistas de plantão.

Assim, em nome da governabilidade e da própria manutenção dos princípios democráticos tão duramente alcançados, mas ainda tão incipientes, é necessário que deixem em paz o governo eleito, que aceitem as regras do jogo, que não venham mais com intenções golpistas disfarçadas no discurso moralista e pobre da corrupção. Que combatam, sim, como todo cidadão deve fazê-lo, a roubalheira ou o descaso para com o bem público, mas com as mentes desarmadas do preconceito e do ódio, sem mentiras e falsos testemunhos que só objetivam derrubar o governo e implantar, de novo, a ditadura das elites mal amadas que por tanto tempo tiveram nas mãos as rédeas do poder, com a finalidade apenas de manter os seus privilégios que, estes sim, são corruptos e corruptores de qualquer possibilidade de busca de uma Nação mais justa.

Porque há dois tipos de corrupção: a dos costumes, a da roubalheira do dinheiro público, a das negociatas, a corrupção palpável, que acaba deixando rastros, e que pode, e deve, ser combatida com polícia; e a corrupção etérea das políticas públicas entreguistas, de venda do patrimônio público sem outros motivos que não a de sua entrega a grupos oligárquicos a preço de banana, de concentração de renda, de manutenção do status quo, a corrupção que impede a ascensão do povo a direitos fundamentais, como emprego, casa, saúde, saneamento básico, comida e educação. Essa a corrupção que as oligarquias mantêm há tanto tempo, com seus governos voltados para os interesses apenas das elites, e não há nesse termo nenhuma demonização, apenas a constatação de uma realidade de cinqüenta, quinhentos anos, embora não descartem nem tenham descartado nunca a primeira, com a competência que nunca lhes negamos de conseguir enganar e varrer para debaixo do tapete toda e qualquer sujeira que suas mentes podres sempre conseguem arquitetar.

O que se fez para resolver o problema crônico da pobreza do Nordeste? Absolutamente nada. As políticas contra a seca até agora só serviram para enriquecer ainda mais os latifundiários que mantêm o povo escravizado a uma situação surrealista, porque não se combate a seca, não há como combater a seca, essa é uma situação climática irreversível do sertão nordestino. O que se deve fazer é combater a pobreza, a miséria, com medidas que ajudem o sertanejo a tirar proveito da seca, porque há, sim, como transformar a seca em vantagem competitiva.

O que se fez para resolver o problema das favelas das grandes cidades? Absolutamente nada. Ao contrário: o processo de empobrecimento do povo só fez aumentar o número de favelados. E a alta classe média grita contra o tráfico, a violência, os assaltos, como se tudo isso não tivesse origem nas suas festinhas de embalo regadas a maconha e cocaína adquiridas em troca de vidas humanas dos morros e favelas, com o dinheiro fácil de suas negociatas, e reforçam a segurança de suas casas como se não tivessem nada com isso. E as elites intelectuais, falsos e estúpidos, em seus galardões universitários, a bebericar uísque importado nos bares da moda, absolutamente incapazes de visualizar um palmo adiante do nariz na tarefa de produzir o que quer que seja de inteligente e conseqüente, a não ser bajular como cães sabugueiros as gordas sinecuras que lhes abastecem as goelas as mesmas elites que os transformam em palhaços de suas festas em mansões do poder, eternos palhaços da festa inequívoca de sua sanha de poder.

E poderíamos ir por aí, nesse diapasão de feitos memoráveis dos governantes dessa nossa carcomida República. Nesses últimos cinqüenta ou (por que não?) quinhentos anos.

A corrupção das instituições, repito, é a corrupção das políticas do pão e do circo, para enganar o povo. Vive e sobrevive da submissão ao grande capital das oligarquias daqui em conluio com todas as oligarquias internacionais, para arrancar cada milhão de dólares da exploração predatória não apenas das riquezas do solo, das águas e dos ares, mas dos corações e mentes de milhões e milhões de bóias-frias ou de operários das imensas multinacionais que se instalam como gafanhotos onde haja suficiente alimento para suas bocarras sempre prontas a devorar tudo quanto podem, sem dar nada em troca, a não ser a miséria daqueles que as alimentam com seu sangue e seu suor.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:17 AM


{Quarta-feira, Outubro 25, 2006}


O JORNAL NACIONAL



O Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, à custa de um longo (mais de trinta anos) trabalho de construção diária, tornou-se uma espécie de instituição nacional.

Na época da ditadura, era praticamente o órgão oficial dos generais de plantão. E mesmo depois da democratização, muitos presidentes faziam questão de lançar seus grandes projetos ou planos em horários que pudessem contar com sua cobertura.

Faz parte, hoje, sem dúvida nenhuma, do imaginário popular. Creio não haver mais nenhuma cidade, vilarejo ou povoado que não se ligue no Jornal Nacional ou não obtenha algum eco do que ele veicula.

Com tal força, é lógico que se torne polêmico. E tenha uma grande responsabilidade diante do povo desse País imenso.

Não vamos julgar aspectos éticos, morais, políticos do Jornal Nacional. Nem contestar sua força, sua capacidade de mobilização e a influência que ele exerce. Ele existe e ponto. E pôde, por existir durante tanto temp, fazer grandes besteiras, veicular reportagens de repercussão, mexer com os brios do povo ou cometer gafes. E mais: não vamos nem discutir o fato de que pendeu sempre para os poderosos ou, mais explícito ainda, que é um órgão conservador, de tendências direitistas, refletindo os princípios dos donos da Rede Globo.

É um direito que todo órgão de divulgação e imprensa tem: o de defender seus princípios, sejam eles quais forem. Só não têm o direito de omitir isso de seus ouvintes, leitores, espectadores. E a Rede Globo deixou sempre claras as suas posições: só não as percebe quem não quer.

Mas não é isso o que me preocupa. Em sua nova (nem tão nova assim) fase, com o casal William Bonner e Fátima Bernardes, o Jornal Nacional ganhou leveza, simpatia, um ar de cumplicidade com o telespectador, um ar família, ou seja, de forma discreta, mas muito clara, optou de vez para um tipo de jornalismo médio, sem polêmicas, levemente emotivo e voltado para as preocupações comezinhas do cidadão comum. Com isso, ganhou uma linguagem mais direta, mais olho no olho com o espectador, um jornalismo límpido, em que até as tragédias trazem, quando veiculadas, a indignação emocionada, mas contida, sem grandes arroubos, sem grandes análises, sem grandes preocupações que não sejam a de passar a mensagem: gente, o mundo é assim; apesar disso, a vida é bela. Veio à minha mente o filme idiota do Begnini, sim. Talvez seja exagero, mas acho que é por aí o que sinto quando assisto ao Jornal Nacional, desde que o simpático casal o assumiu.

Mas tudo isso eram impressões. Como não sou especialista em televisão, apenas um espectador um pouco mais atento, mas só um pouco, pensava ser implicância minha. Afinal, é tão simpático aquele casal, com aquela cumplicidade contagiante, aquele ar tão família, tão angelical...

Aparências! Com nos enganam essas danadinhas!

E então, leio a crônica do professor Laurindo Leal Filho, na Carta Capital: no texto, ele descreve uma reunião comandada pelo editor-chefe do Jornal Nacional, William Bonner. E revela que Bonner compara o espectador-padrão do JN a Homer, o simpático mas obtuso pai de família da série Simpsons.

Puxa! Então, eu e milhões de telespectadores somos todos meros Simpsons! Só podemos compreender o mundo através das notícias, se elas vierem bem mastigadinhas, bem explicadinhas pelos repórteres da Globo! E nem tudo temos condição de entender: é preciso alguém filtrar, escolher, separar notícias boas das desagradáveis, evitar aquelas que não perturbem nossa digestão, ao jantar, e não provoquem qualquer comoção no seio de nossas famílias!

Confesso que isso me perturbou muito. Sempre desconfio das pessoas que desconfiam da inteligência do povo. Porque o povo, as platéias, os espectadores de qualquer arte, de qualquer emissão coletiva podem ser incultos, podem às vezes nem saber ler, podem não compreender palavras difíceis ou mensagens complexas, mas não podem nunca ter desdenhada a sua percepção da vida e das coisas. Capacidade de ler e escrever, articulação de idéias e todos os demais marcadores de cultura fartamente utilizados para excluir e ditar preconceitos nunca foram, não são e nunca serão índices de inteligência. E o povo sempre tem aquele seu jeito de ver, de interpretar, de duvidar ou aceitar, mas com a sua sabedoria, aquela sabedoria provinda não de bancos escolares, mas do sofrimento, das agruras do dia a dia, da experiência vivida e acumulada por muitos, muitos anos.

E duvidar da inteligência da platéia (sabe-o bem qualquer ator, qualquer artista), isso sim, é um índice de estupidez de qualquer comunicador social.

Portanto, a única conclusão a que posso chegar é: o editor-chefe do Jornal Nacional, ao nivelar por baixo as matérias desse noticioso e nos taxar a todos de Homer Simpson, está na verdade refletindo o que ele mesmo deve ser. Não somos nós os ignorantes sem capacidade de compreender o mundo através das notícias, de refletir sobre nós mesmos através daquilo que nos chega pelos meios de comunicação, mas ele é quem não tem o tirocínio de um verdadeiro comunicador, ele, o senhor William Bonner.

Ou melhor, o senhor William Homer, sob cuja responsabilidade, infelizmente, está uma instituição como o Jornal Nacional.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:06 PM


{Quinta-feira, Outubro 19, 2006}


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA


A notícia abaixo saiu no O ESTADO DE SÃO PAULO de hoje.

Vejamos o que chama a atenção, numa notícia perdida no caderno Metrópole, do dito jornal, na página policial (C8):

Primeiro: SE ESTIVESSE ENVOLVIDO ALGUÉM DO PT, SERIA MANCHETE DE PRIMEIRA PÁGINA.

Aliás, a manchete do Estadão de hoje é: Para Alckmim, novo governo Lula acaba antes de começar.

Isto é apenas uma opinião de alguém que se sente acuado por estar perdendo feio nas pesquisas. Se ele tivesse latido ou se vier a latir (o que não é de todo improvável, diante do nada que representam atualmente suas opiniões), daria manchete do mesmo jeito. Para dar um ar de equilíbrio na cobertura (e evitar problemas), abaixo da manchete está uma foto do Lula, rindo largamente, e uma foto do Chuchu vestido com boné e blusão com as logomarcas dos Correios, da Caixa e da Petrobrás. O que será que eles querem dizer com isso? Que o Chuchu morre de amores por essas empresas e que não vai privatizá-las?

Segundo: Na matéria em questão, não há em nenhum momento, menção aos governos que começaram e estão construindo o Rodoanel. Embora todos saibam, em São Paulo, que o Chuchu bloqueou na Assembléia Legislativa, cerca de 60 (SESSENTA) CPIs, dentre elas algumas que se propõem a investigar o desvio de dinheiro e o superfaturamento nas obras do Rodoanel Mário Covas (bem escolhido o nome, não? Afinal, a tucano morto não se pode imputar nada).

Terceiro: Diz a reportagem que o MPE do Paraná (e não esclarece por que o MP desse Estado está metido na encrenca) encontrou uma conta chamada Tucano (está escrito lá: TUCANO) do Morgan Chase de N.Y., de onde saíram recursos para a Suíça.

Quarto: Em nenhum momento, há referência, na reportagem ao Secretário de Obras ou a qualquer outra autoridade responsável pela obra que, orçada em 339 milhões de reais, acabou custando 576 milhões a mais, ou seja, teve um aumento de 70%. É mais ou menos normal que obras públicas fiquem mais caras do que o orçado, mas SETENTA POR CENTO?

Quinto: Se o Chuchu quer saber a origem do dinheiro do dossiê (e repete isso à exaustão), o povo de São Paulo também tem o direito de saber para onde foram os QUINHNTOS E SETENTA E SEIS MILHÕES DO RODOANEL MÁRIO COVAS!!!

Sexto: Ladrões há em toda parte, mas há tipos de ladrões diferentes. Há os que são punidos e há os que posam de moralistas, de guardiões do bem público, sempre com o dedo em riste para falar do rabo dos outros, quando, na verdade, têm o rabo muito maior e muito mais sujo e muito mais preso. Esses, no entanto, não têm o mesmo tratamento da nossa imprensa tão ciosa de sua isenção. Pura palhaçada! Se querem defender o Chuchu, têm todo o direito, mas sejam honestos: DIGAM ISSO CLARAMENTE! NÃO FIQUEM USANDO DE SUBTERFÚGIOS E DE EXPDIENTES SUJOS.

Bem, dêem uma lida na reportagem. É bem interessante.


O ESTADO DE SÃO PAULO

Quinta-feira, 19 outubro de 2006

METRÓPOLE




MP apura conta de Suzane na Suíça e chama Barni para depor
Promotor desconfia de desvio de recursos na construção do Rodoanel

Eduardo Reina

Depois de ser condenada pelo assassinato dos pais, Manfred e Marísia, Suzane von Richthofen começa a ser investigada pelo Ministério Público Federal (MPF) e Ministério Público Estadual (MPE). O objetivo é apurar se ela e o pai são os titulares de duas contas correntes no Discount Bank and Trust Company (DBTC), hoje Union Bancaire Privée, em Lugano, Suíça, para onde pode ter sido remetido dinheiro supostamente desviado de obras do Trecho Oeste do Rodoanel Mário Covas. Não se sabe se as contas número 15.616 e 15.6161, abertas em 1998 no DBTC, pertencem respectivamente a Manfred e a Suzane.

No dia 27, o promotor do MPE Eduardo Rheingantz deverá ouvir o advogado Denivaldo Barni Júnior, procurador da Companhia de Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa), responsável pelo Rodoanel. Amigo de Manfred e seu colega na Dersa, Barni não foi encontrado ontem para comentar o assunto.

As contas já haviam sido descobertas pela CPI do Banestado em 2003, mas a titularidade ainda não foi comprovada. O MPE do Paraná possui registro de ordem de pagamento de março de 1999 de conta no JP Morgan Chase, de Nova York, a 310035, chamada Tucano, de onde saíram duas remessas de US$ 500 mil para o DBTC.

O MPF tem duas frentes de investigação para apurar responsabilidades e desvio de recursos nas obras de construção do Trecho Oeste, além de evasão de divisas. A ação na área civil, já em adiantada fase de apuração, aponta desvios de recursos, com base em relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU), e deve gerar uma ação civil pública de improbidade administrativa contra as empresas executoras da obra e provavelmente contra os diretores executivos da Dersa, órgão ligado à Secretaria Estadual de Transportes. Já a área ligada à lavagem de dinheiro e crime contra o sistema financeiro do MPF tem ação que apura envio de dinheiro desviado do pagamento da estrada para contas em bancos no exterior.

Procedimento idêntico foi aberto pela Promotoria de Justiça e Cidadania do MPE, que investiga suspeitas de enriquecimento ilícito e improbidade administrativa de Manfred, ex-diretor de Engenharia da Dersa. Ele a mulher Marísia foram assassinados em 30 de outubro de 2002 pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos, a mando da filha, Suzane.

A Promotoria paulista quer saber se Barni tem alguma informação sobre as contas na Suíça. O processo no MPE foi reaberto no dia 21 de julho, a pedido da promotora Ana Maria Aiello. Há dados sobre movimentação financeira da empresa M.A.V.R. Consultoria e Engenharia, registrada em nome de Manfred. A ação havia sido arquivada pelo próprio MPE no final de 2004.

A construção do Trecho Oeste do Rodoanel estava orçada em R$ 339 milhões, mas consumiu mais de R$ 1 bilhão entre obras e indenizações por desapropriações. Aditamentos elevaram os custos para cerca de R$ 575,8 milhões, 70% a mais do que o valor inicial.






posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:28 PM


{Sexta-feira, Outubro 13, 2006}


CHAMPINHA, O MENINO ASSASSINO



Dia 12 de outubro comemora-se o Dia da Criança.

Mas, quem comemora? Os pais, o comércio, o Governo, as crianças?

Embora tenha havido por aí inúmeras festas, farta distribuição de presentes, atividades culturais e artísticas, acho que, na verdade mais verdadeira, quem comemora sempre essa data é o comércio. Que vende tanto ou mais do que no período natalino. Mas, que importa? Toda data comemorativa, no fundo, é uma data comercial e, mais no fundo ainda, toda data comercial faz mover a economia. E é isso o que importa, nesse mundo movido a grana, não é?

Então, não choremos as datas comerciais. Relaxemos e aproveitemos.

Não. Não dá para relaxar e aproveitar apenas. Principalmente no Dia das Crianças. É preciso um pouco de tino, de consciência.

Recebi no boletim do Café Brasil (*), uma crônica do Luciano Pires falando do Champinha. Há assuntos que nos aterrorizam durante algum tempo na mídia e depois desaparecem. Voltam, às vezes, assim, de repente, para nos aterrorizar mais ainda.

Champinha tinha 16 anos quando matou um casal de jovens que acampava numa cidade próxima a São Paulo. Matou por... ia dizer prazer, mas foi um pouco mais. Matou porque é cruel, gosta de matar. Não tem freios morais ou éticos. Tem alguns problemas mentais, mas não foi só isso o que o levou a matar. Pode ter sido o meio, pode ter sido a educação ou a falta dela? Talvez sim, talvez não. Ou tudo isso e mais uma série de fatores. Acho que nunca saberemos.

O certo é que Champinha, conforme um discutido e estranho laudo psicológico, é camaleônico, isto é, porta-se como extremamente cruel, se o meio em que está o incentiva a isso; mas poderia ser um monge, se viver entre pessoas de boa índole. Pode ser, mas não explica nem justifica seus atos. Nem apaga os que ele já cometeu. Tem o gosto de sangue na boca e isso não há laudo psicológico que apague.

Por curiosidade, releio o Estatuto da Criança e do Adolescente. Uma peça fantástica. Quase uma ficção, de tão bela. Tem por objetivo proteger nossas crianças. E o faz com uma maestria, que poucos legisladores terão conseguido. Aí, eu fiquei pensando que esse Estatuto precisava ser posto em prática. Que a ficção se tornasse realidade. Talvez não tivéssemos tido o tal Champinha, que mata e gosta de matar.

O Estatuto prevê tudo de bem e de bom para nossas crianças e adolescentes. E eu concordo plenamente com isso. Não admito nem que se baixe a idade prisional de 18 para 16 anos. Acho que está perfeito assim. Ou quase. Porque há um porém: o Estatuto protege da sociedade o adolescente criminoso, mas não protege a sociedade do adolescente champinha.

O adolescente champinha é aquele que tem na boca o gosto do sangue. Aquele que já matou. E matar um ser humano não pode, em circunstância nenhuma, ser considerado um crime comum. Deve, sempre, ser visto como o mais terrível de todos os crimes. Não admissível nem pela própria sociedade, em nome da lei: pena de morte é crime como qualquer outro. Sociedades que a conservam são, na minha opinião, tão bárbaras quanto o criminoso que ela quer punir.

Mas, voltando ao adolescente champinha. As crianças e os jovens que cometerem atos infracionais, nos belos dizeres do Estatuto, devem merecer das autoridades, dos pais, da sociedade, enfim, todo o apoio e todas as condições necessárias para ultrapassarem esse estado de marginalização e se tornarem cidadãos.

No entanto, não importa a idade, não importam as circunstâncias, o adolescente champinha não pode ter o mesmo tratamento, ou seja, a mesma proteção.

Um velho princípio jurídico, nem sei se ultrapassado, diz que tratar com igualdade a desiguais não é justiça. Eu acredito que é meio por aí. Como vamos educar nossos jovens na cultura do não assassinato, como vamos fazer que o adulto entenda que matar é o maior de todos os crimes, se não punimos aquele que mata friamente? Se mesmo as Leis mais severas, as que são aplicadas aos adultos, ainda deixam muito a desejar nesse quesito? Quantos assassinos confessos ou comprovados a Lei solta, sem mais nem menos, em nome de filigranas jurídicas?

Como poderemos dar o exemplo, se adolescentes champinhas matam todos os dias em nossas cidades, em nossas ruas e não são punidos? Que sociedade queremos, afinal?

Assim, o que se deveria propor não é a diminuição da idade penal, que é medida polêmica, capaz de dividir opiniões, provocar longas, longuíssimas discussões, para não se chegar a nenhum resultado. O que se deveria propor é o abrandamento do artigo Art. 104. (são penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às medidas previstas nesta Lei) e a flexibilização do parágrafo 3º do artigo 121 (em nenhuma hipótese o período máximo de internação excederá a três anos) da Lei 8069.

Como? Possibilitando que, em caso de participação em crime de morte, de assassínio, o menor possa ter penas mais severas, de acordo com um colegiado de juízes, de especialistas, sei lá, que pudessem avaliar a situação, discutir, julgar e manter esses adolescentes champinhas afastados da sociedade por um tempo necessário à sua completa reeducação ou o tempo necessário para proteção dessa sociedade.

O que não podemos continuar tolerando é a completa inércia de nossos legisladores, de nossos juízes, de nossos especialistas em educação, dos pais e professores, da sociedade em geral, diante de crimes bárbaros cometidos por menores. Temos, sim, que buscar soluções. Soluções que passem pelo bom senso, pelo crivo de pessoas sensatas e pela dor de quem perde vidas amadas por ação absurda de champinhas que podem, ao completar 21 anos, ser soltos para voltar a delinqüir.

Que é o vai fazer o menino assassino, o tal Champinha, que confessou friamente o assassínio dos dois jovens, com requintes de crueldade.

Com a discussão e a busca de medidas sensatas, podemos, sim, pôr em prática o Estatuto da Criança e do Adolescente, não como medida de ficção, mas com todas as proteções que esse documento jurídico oferece. E podemos comemorar, sem nos queixar do comércio, um Dia da Criança com verdadeira esperança, que é o que todos merecemos.



(*) http://www.lucianopires.com.br/capa.asp






posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:09 PM


{Quarta-feira, Outubro 11, 2006}


ÉPOCA DE CUCURBITÁCEAS


As cucurbitáceas são legumes muito apreciados pelos brasileiros. Fazem parte dessa família o pepino, as abóboras, o melão, a melancia e o chuchu.

Vamos falar, especialmente, sobre o chuchu. Já era conhecido, e apreciado, pelos antigos astecas, e hoje está entre as dez hortaliças mais consumidas pelos brasileiros. Um refogado de chuchu, bem temperado, com carne moída, dizem os entendidos, é prato para lamber os beiços. Também os nutricionistas o recomendam, já que é rico em fibras e vitaminas A e C, não engorda e é de fácil digestão.

Embora todos reconheçam, à primeira vista, um chuchu, ele é bastante variável quanto à forma, ao tamanho e à cor. Existem chuchus em forma de amêndoa ou em forma de pêra, lisos ou com espinhos, da cor branca até o verde bem escuro. Uma cucurbitácea bem democrática: tem para todos os gostos.

Há alguns problemas, no entanto: o chuchu é muito sensível, machuca-se facilmente e a casca escurece rapidamente quando danificado. Em condições naturais, estraga-se rapidamente. Outra dificuldade, apontada por muitos, e que o torna vítima de alguns preconceitos em casas mais abastadas, é o sabor: suave demais, ou seja, quase sem gosto. O que é, convenhamos, é uma injustiça..

Outro preconceito, do qual não compartilho e até condeno, é dizer que o chuchu, embora esteja a ganhar um certo status, por nascer em qualquer lugar, em qualquer canto, seja desqualificado em expressões grosseiras como o dito popular, quando se quer definir sem nenhuma contemplação alguma senhora ou moça de nossa melhor sociedade como tendo uma vida, digamos, menos convencional: dá mais do que chuchu na cerca. Chuchu dá, sim, na cerca, mas com a maior dignidade, sendo injusta qualquer outra interpretação.

Mas, como disse acima, se bem temperado e com os ingredientes corretos, pode tornar-se uma iguaria. Aceita, inclusive, entre as classes mais favorecidas que muito raramente têm oportunidade de ter à mesa tal cucurbitácea. Por disso, é preciso advertir a esses consumidores menos habituais: ninguém consome o chuchu pelo chuchu, pois a falta de sabor pode comprometer seriamente a sua devida degustação. E preciso colocá-lo na panela com outros ingredientes, com carne, com molho, com camarão, com outros legumes, em forma de suflês, sopas etc. Ou seja: a democracia do chuchu consiste em se misturar bem com quem lhe dê sabor. Cabe ao mestre-cuca buscar a melhor forma de torná-lo palatável.

Estamos em plena safra do chuchu, outubro. Também ocorre nos meses de março a junho. Mas, este mês, especialmente, é a melhor época de colhê-lo. E, já que é uma hortaliça que não se deve conservar por muito tempo, aconselho a todos os apreciadores da curcubitácea, tanto os mais modestos, que já estão mais acostumados a ela, quanto os novos apreciadores, de mesas em geral mais fartas, a consumir logo o seu prato de chuchu, ainda esse mês, aproveitando bem o seu melhor momento, que ninguém sabe quando se repetirá, porque, com esse clima meio louco, pode haver quebra da safra para o próximo ano.

Para encerrar essas despretensiosas linhas sobre tão nobre alimento de nossa cozinha, quero desejar a todos que, no dia da criança, doze de outubro, pensem bem em seus filhos pequenos, no futuro deles, e sirva uma boa receita de chuchu, para que eles cresçam saudáveis, inteligentes, sem precisar engolir para sempre receitas nem sempre saudáveis de chuchus fora do tempo, mal preparados, sem gosto e sem nutrientes. Para isso, deixo a todos uma deliciosa receita de chuchu refogado, muito bem refogado, espero.

P.S.: Entre as misturas que se colocam na panela para melhorar o sabor do chuchu, eu citei o camarão, mas não se entusiasme muito, porque essa leguminosa não costuma dar-se muito bem com outros frutos do mar, especialmente polvo e lula.


Chuchu Refogado

Ingredientes

3 chuchus médios com casca, lavados e cortados tipo batidinho
1 dente de alho amassado
sal, pimenta a gosto
1/2 cebola média cortada em cubinhos
1/2 xícara de cheiro verde picado
6 colheres de sopa de farinha de trigo
3 colheres (sopa) de óleo

Modo de fazer

Aqueça o óleo e doure a cebola e o alho;
Junte o chuchu, o sal e a pimenta e refogue bem, tampe a panela e deixe o chuchu cozinhar até ficar macio (al dente);
Quando o chuchu estiver macio, acrescente o cheiro verde, misture bem e deixe no fogo por mais 1 minuto.
Rendimento: 6 porções.
Tempo de preparo e cozimento: 20 minutos.
Sugestão: sirva com arroz branco, feijão, carne moída e salada de tomate e alface.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:22 PM


{Segunda-feira, Outubro 09, 2006}



PARA NÃO ESQUECER


Hiroshima, Nagasaki... O mundo esquece. O mundo continua esquecendo. Então, enquanto insanos detonam bombas nucleares, eu me lembro, eu me lembro. E quero:


PAZ

- Amigos? - Não!
- Brigamos? - Sim.
- Por quê?
- Não o sabes? - Assim?
- Não o sei eu, também. Então, que
queres? - As pazes... - Sim, sim, as pazes...
- Amigo? - Sim. - Para sempre?
- Sim... até as próximas pazes... amigos.

Assim no coração da criança
a paz se implanta. Já adulto,
não se encanta, no entanto, de esperança
e o homem perde, inculto,
o foguete para a história.

Não mais amigos,
religiosos!
Não mais amigos,
políticos!
Não mais amigos,
cidadãos!
E como religiosos, políticos ou cidadãos,
mil detalhes a acertar,
mil palavras a atrapalhar,
mil fronteiras a separar.

Paz?
Ah! A minha paz, sim: assim,
sob o punho, a minha idéia melhor que a sua!
Paz?
Ah! Sim, fique sob o meu peso
o peso da sua inexistência.
Paz?
Sim, claro, não mais que minha
a sua ideologia vá pentear macacos.

E assim, de mão em mão,
de pedra em pedra,
um muro, uma vala, um livro de deus,
tudo a todos distancia.
E a paz, coitada, esconde o rosto
ao passear entre os homens,
como a perseguida de todas as gentes.

O gesto inútil de conquistá-la
morre, enfim, no pano verde
de todos os jogos do homem:
história apenas para boi dormir,
enquanto, no entanto, cada criança
sonha e morre em campos de batalha.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:31 PM


{Quinta-feira, Outubro 05, 2006}


SAUDADES

(Para minha tia Ceci...)



Quando minha mãe morreu, quase não chorei.

Não sei bem nem o dia em que minha mãe morreu. Provavelmente, em janeiro, num dia qualquer de janeiro. Ano? Não sei. Não me lembro.

Sim, não chorei quando minha mãe morreu, nem guardei a data de sua morte.

Para que iria chorar no dia da morte de minha mãe? Para que vou guardar o dia de sua morte? Para levar flores a seu túmulo e chorar um pouco? Para quê. Sim, para quê?

Não chorei no dia em que minha mãe morreu, porque sabia que iria ter todos os dias do resto da minha vida para chorar por ela. E faço isso, sim, um pouco, só um pouco, à noite, no silêncio da madrugada, ou no meio do trânsito, quando fecha um farol ou vejo alguém que, por uma dessas armadilhas da visão, pode se parecer com ela. Quando frito na gordura bem quente um torresminho, que ela fazia tão bem.

Por isso, não chorei quando minha mãe morreu. Ou chorei muito pouco.

Porque há lágrimas que nos acompanham pela vida toda, mesmo que nossos olhos estejam secos, mesmo que nosso sentimento pareça arrefecido. Porque há lágrimas que somente nós podemos sentir, ao rolar, enxutas, de nossos olhos: não molham o rosto, mas molham nosso pensamento e nossa memória. Que não nos deixam esquecer jamais.

Não sei o dia em que minha mãe morreu.

Por que devo lembrar uma data, apenas, se me lembro dela todos os dias de minha vida? Se todos os dias minha mãe morre e renasce em meu pensamento? Não preciso de uma data para lembrar que ela me deixou. Apenas preciso saber, todos os dias de minha vida, que ela me deixou. Assim como vou deixar os meus filhos um dia. Assim como todas as pessoas que amamos nos deixam um dia.

Não há fatalismo na morte.

Não há tristeza na morte.

Não há desdouro em morrer. Há apenas, na morte de um ente querido, o vazio que nos acompanhará até o dia em que também seremos o vazio na mente e na vida dos que nos sobreviverem.

Por isso, não se deve chorar, quando morre alguém que amamos. Deve-se, apenas, deixar que o silêncio acompanhe o ato, porque teremos todos os dias do resto de nossas vidas para chorar a lágrima mais cruel: a saudade.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 5:23 PM


{Quarta-feira, Outubro 04, 2006}


ATOS INSANOS. OU: AS BOBAGENS QUE OS HOMENS FAZEM


Uma questão sempre me preocupou: o que é ser civilizado?

Há pessoas que vêm civilização na etiqueta: saber usar os talheres, não beber a lavanda. Outros, que a civilização está nos altares dedicados a seus deuses. Outros, ainda, vêem civilização no cumprimento estrito das leis ou na total rebeldia contra elas.

Antropólogos e sociólogos, que se dedicam com mais afinco a essas questões, elaboram extensas teorias e complicados tratados para tentarem entender os homens. E filósofos, desde os mais antigos até os atuais, se debruçam em complexas elucubrações para interpretar o homem. No fundo, todos querem uma definição de civilização ou, ao menos, de civilidade. Que o esse ser complicado, o ser humano, se conheça e se entenda. Já que é um ser gregário, que convive uns com os outros, em famílias, em grupos, em sociedades mínimas ou máximas. Ou em mega-sociedades, como a que temos hoje.

E, para viver em sociedade, o homem inventa leis, inventa regras, inventa códigos. Às vezes, simples; às vezes, complexos. Andar a pé exige o conhecimento de códigos simples, quando estamos num campo, por exemplo; exige o conhecimento de um código um pouco mais complexo, quando estamos numa cidade grande. Qualquer que seja, no entanto, o grau de complexidade exigida pelo ato de caminhar, é infinitamente mais simples do que o ato de dirigir uma bicicleta, um automóvel ou um avião.

Avião. Eis a máquina mais fantástica que o homem já inventou. A que contraria todas as possibilidades de manter o homem preso ao chão onde nasceu. A que lhe dá o sonho das aves, a liberdade e a rapidez das águias. A que lhe dá condição de, um dia, libertar-se até mesmo do planeta que ele povoa e pretensamente civiliza tão vorazmente com seus genes. O avião, a máquina libertadora. Enquanto o automóvel apenas lhe dá conforto, o avião lhe dá o infinito.

Patins, carroças, bicicletas, automóveis, motocicletas, aviões, navios, não importa: são todas máquinas que o homem usou, usa e delas abusa para a superação das duas pernas que a natureza lhe deu para o lento caminhar ou correr. Mas, são máquinas, desprovidas de qualquer intenção, seja benéfica ou maléfica. Não há bem ou mal em suas entranhas simples ou complexas. Assim como o homem não é bom nem mau, apenas imperfeito, apenas aquilo que ele é, definido por genes, pelo meio em que vive, pela relação com outros homens.

Viver em sociedade exige um certo grau de civilização, ou de civilidade. Não há agrupamento humano, por mais primitivo que seja, sem regras de convivência. E podemos estender essa idéia aos animais, dos quais fazemos, muitas vezes, questão de nos diferenciar, esquecidos de que somos, também, um tipo de animal. Mais evoluído em muitos aspectos, sem dúvida, mas animais. E, como animais nos comportamos, tantas vezes. Sem que haja, nessa frase, qualquer sentido pejorativo, como pode parecer à primeira vista.

Mas, o que é, mesmo, ser civilizado? É pegar um avião novinho em folha e sair por aí a fazer estripulias, para testar seus recursos? É imaginar que, no meio do nada, no meio da Amazônia, na transição entre dois sistemas de vigilância aérea, podemos brincar um pouco de ser totalmente livres das regras, rígidas, a que me obrigam os códigos de aviação? E, de repente, poder apagar das telas dos radares o meu rastro e subir, subir, para as estrelas, e voar, voar, livre, sem leis e sem peias? Mesmo que, de repente, sinta um leve estrondo, um estremecimento, nesse meu sonho de liberdade? E pensar: como, aqui, no meio do nada, como pode haver uma outra aeronave? Como?

E, então, ao pousar heroicamente, salvando a meia dúzia de pessoas dentro do meu avião, imaginar, sonhar, inventar: eu posso! Eu fiz! Eu voei mais alto que os pássaros! Eu enganei os idiotas que me queiram preso a um plano estúpido de vôo, os idiotas que inventaram regras estúpidas que me prendiam, que me sufocavam! Eu posso, eu pude, porque eu era livre, naquele breve instante! Eu era livre e poderoso! Por isso, mesmo avariado, eu aterrissei! O outro, que cumpria as regras, adestrado como um animal, nunca foi livre como eu! E que se fodam as 155 vidas que se destroçaram bem no meio daquele nada, bem no meio da floresta Amazônica!

E a questão que me preocupa: o que é ser civilizado? continuará martelando meu cérebro, queimando meus neurônios. Até quando?

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:08 AM


{Terça-feira, Outubro 03, 2006}


É PRECISO ESTAR ATENTO E FORTE...



Não vou escrever nada, apenas recortar e colar o e-mail abaixo, recebido hoje:


Para que não esqueçamos dos anos tucanos (ainda recentes e precocemente esquecidos)

Um estudioso de São Paulo, Altamiro Borges, recuperou brevemente a nossa memória política da década recente e a colocou na internet. Para refrescar a memória, um resumo.

SIVAM: Logo no início da gestão de FHC, denúncias de corrupção e tráfico de influências no contrato de US$ 1,4 bilhão para a criação do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) derrubaram um ministro e dois assessores presidenciais. Mas a CPI instalada no Congresso, após intensa pressão, foi esvaziada pelos aliados do governo e resultou apenas num relatório com informações requentadas ao Ministério Público.

PASTA ROSA: Pouco depois, em agosto de 1995, eclodiu a crise dos bancos Econômico (BA), Mercantil (PE) e Comercial (SP). Através do Programa de Estímulo à Reestruturação do Sistema Financeiro (Proer), FHC beneficiou com R$ 9,6 bilhões o Banco Econômico numa jogada política para favorecer o seu aliado ACM. A CPI instalada não durou cinco meses, justificou o socorro aos bancos quebrados e nem sequer averiguou o conteúdo de uma pasta rosa, que trazia o nome de 25 deputados subornados pelo Econômico.

PRECATÓRIOS: Em novembro de 1996 veio à tona a falcatrua no pagamento de títulos no Departamento de Estradas de Rodagem (DNER). Os beneficiados ela fraude pagavam 25% do valor destes precatórios para a quadrilha que comandava o esquema, resultando num prejuízo à União de quase R$ 3 bilhões.

A sujeira resultou na extinção do órgão, mas os aliados de FHC impediram a criação da CPI para investigar o caso.

COMPRA DE VOTOS: Em 1997, gravações telefônicas colocaram sob forte suspeita a aprovação da emenda constitucional que permitiria a reeleição e FHC. Os deputados Ronivon Santiago e João Maia, ambos do PFL do Acre, teriam recebido R$ 200 mil para votar a favor do projeto do governo.. Eles renunciaram ao mandato e foram expulsos do partido, mas o pedido de uma CPI foi bombardeado pelos governistas.

DESVALORIZAÇÃO DO REAl: Num nítido estelionato eleitoral, o governo promoveu a desvalorização do Real logo após a reeleição de FHC, no início e 1999. Para piorar, socorreu com R$ 1,6 bilhão os bancos Marka e FonteCidam - ambos com vínculos com tucanos de alta plumagem. A proposta de criação de uma CPI tramitou durante dois anos na Câmara Federal e foi arquivada por pressão da bancada governista.

PRIVATARIA: Durante a privatização do sistema Telebrás, grampos no BNDES flagraram conversas entre Luis Carlos Mendonça de Barros, ministro das Comunicações, e André Lara Resende, dirigente do banco. Eles articulavam o apoio da Previ, caixa de previdência do Banco do Brasil, para beneficiar o consórcio do banco Opportunity, que tinha como um dos donos o tucano érsio Árida. A negociata teve valor estimado de R$ 24 bilhões. Apesar do escândalo, FHC conseguiu evitar a instalação da CPI.

CPI DA CORRUPÇÃO: Em 2001, chafurdando na lama, o governo ainda bloqueou a abertura de uma CPI para apurar todas as denúncias contra a sua triste gestão. Foram arrolados 28 casos de corrupção na esfera federal, que depois se concentraram nas falcatruas da Sudam, da privatização do sistema Telebrás e no envolvimento do ex-ministro Eduardo Jorge. A imundice no ninho tucano novamente ficou impune...FHC após liberar verbas para os deputados (cerca de 32 ao todo) retirarem seu voto a favor da CPI, o que realmente veio a acontecer.

EDUARDO JORGE: Secretário-geral do presidente, Eduardo Jorge foi alvo de várias denúncias no reinado tucano: esquema de liberação de verbas no valor de R$ 169 milhões para o TRT-SP; montagem do caixa-dois para a reeleição e FHC; lobby para favorecer empresas de informática com contratos no valor e R$ 21,1 milhões só para a Montreal; e uso de recursos dos fundos de pensão no processo das privatizações. Nada foi apurado e hoje o sinistro aparece na mídia para criticar a "falta de ética" do governo Lula. E apesar disto, FHC impediu qualquer apuração e sabotou todas as CPIs. Ele contou ainda com a ajuda do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, que por isso foi batizado de "engavetador-geral da República".

Dos 626 inquéritos instalados até maio de 2001, 242 foram engavetados e outros 217 foram arquivados. Estes envolviam 194 deputados, 33 senadores, 11 ministros e ex-ministros e em quatro o próprio FHC. Nada foi apurado, a mídia evitou o alarde e os tucanos ficaram intactos.

Diferente do reinado tucano, o que é uma importante marca distintiva do atual governo, hoje existe maior seriedade na apuração das denúncias de corrupção. Tanto que o Ministério da Justiça e sua Polícia Federal surgem nas pesquisas de opinião com alta credibilidade.

Nesse curto período foram presas 1.234 pessoas, sendo 819 políticos, empresários, juízes, policiais e servidores acusados de vários esquemas de fraude, desde o superfaturamento na compra de derivados de sangue até a adulteração de leite em pó para escolas e creches. Ações de desvio do dinheiro público foram atacadas em 45 operações especiais da PF.

Já a Controladoria Geral da União, encabeçada pelo ministro Waldir Pires, fiscalizou até agora 681 áreas municipais e promoveu 6 mil auditorias em órgãos federais, que resultaram em 2.461 pedidos de apuração ao Tribunal e Contas da União. A Controladoria só passou a funcionar de fato no atual governo que, inclusive já efetivou 450 concursados para o trabalho de investigação.

A ação do governo do presidente Lula na luta decidida contra a corrupção marca uma nova fase na história da administração pública no país, porque ela é uma luta aberta contra a impunidade, garante Waldir Pires.

Diante de fatos irrefutáveis, fica patente que a atual investida do PSDB-PFL não tem nada de ética.

EU ACRESCENTO: NÃO É PRECISO CONCORDAR COM AS OPINIÕES DO ARTICULISTA, MAS O FATOS RELATADOS SÓ NÃO ESTÃO NA MEMÓRIA DOS MUITO ESQUECIDOS, DOS INCAUTOS, DOS QUE CONCORDAM COM ELES OU NÃO SE IMPORTAM COM ELES E DOS QUE SÃO MAL INTENCIONADOS MESMO.

E DIGO MAIS: BASTA PEQUISAR OS JORNAIS DA ÉPOCA (PARA ISSO EXISTE A INTERNET) PARA CONFIRMAR A VERACIDADE DE TUDO O QUE ESTÁ RELATADO ACIMA. [

POR ISSO, QUE O CAETANO VELOSO ME DESCULPE (E O USO DE SEU VERSO É, SIM, PROVOCAÇÃO, POR SUAS OPINIÕES EQUIVOCADAS), MAS É PRECISO ESTAR ATENTO E FORTE... QUE CHUMBO GROSSO AINDA VEM POR AÍ.


OBS.: Altamiro Borges (http://www.espacoacademico.com.br/arquivo/borges.htm)
Jornalista, editor da revista Debate Sindical e autor, com Marcio Pochmann, do livro ¿Era FHC: A regressão do trabalho¿ (Editora Anita Garibaldi)

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:11 PM

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