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Quinta-feira, Agosto 31, 2006
POEMAS PARA AMALDIÇOAR
QUINTO POEMA
QUANDO SE FUZILA UM GENERAL
No uniforme de um general se prendem
estrelas e divisas e condecorações
de guerra...
Do peito nu de um general se desprendem
pedaços podres de carne que chamam
coração...
Dos colhões de um general se apreendem
botins de batalhas e balas
de canhão...
No cu de um general não há pregas:
apenas a boca de uma metralhadora
ligando o cu sem pregas ao cérebro
sem neurônios...
De uniforme estilizado, ou de peito nu,
na frente de um pelotão de fuzilamento,
um general não deve mostrar medo de morrer:
ele deve pôr pra fora os colhões de canhão ou
mostrar o cu sem pregas para as balas dos fuzis.
Por isso, quando se fuzila um general,
todo cuidado é pouco ¿ escolhem-se armas
de grosso calibre ou balas de prata
(como se fosse matar um vampiro)
porque na guerra (para um general,
não há tempo de paz) o campo verde
onde ele pisa vira a cada passada
um poço de sangue coberto de pus.
quarta-feira, 23 de abril de 2003
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:48 AM
Quarta-feira, Agosto 30, 2006
POEMAS PARA AMALDIÇOAR
QUARTO POEMA
quando se enforca um papa...
O que é um papa, senão a mitra que apunhala?
O que é um papa, senão a mancha vermelha da história?
O que é um papa, senão a palavra torpe de velhos assassinatos?
O que é, afinal, um papa? Um papa torna-se infalível pela lei dos falíveis!
Um papa torna-se onipotente pela força de todos os fracos.
Um papa é apenas um pretenso símbolo de um deus morto há muito tempo.
Um papa é apenas um trono bichado em meio às ameaças de morte
Que sopram do Vaticano.
Um papa não é a besta apocalíptica, porque a besta apocalíptica não existe.
Um papa não é um cristo idiota fincado no coração de quem o teme,
Porque o cristo idiota do madeiro não deixou dores que não fossem humanas.
Por isso, quando se enforca um papa,
Devia-se ver que há anjos de cuecas zorba tocando punhetas magistrais.
Por isso, quando se enforca um papa,
Devia-se poder brandir aos ventos os rosários de contas de velhas bêbadas e carolas.
Por isso, quando se enforca um papa,
Devia-se poder celebrar missas de cunilínguas e penetrações anais em todas as igrejas
De todas as vilas.
Por isso, quando se enforca um papa,
Devia-se poder cantar hosanas a todos os deuses gregos e romanos e egípcios,
A todos os deuses etíopes e a todos os deuses dos povos indígenas do mundo
Que tiveram seus deuses massacrados por uma fé de guerreiros e torturadores.
Que se enforque, pois, cada papa que a fumaça branca denuncie.
E mais: que se enforque cada antepapa na ante-sala da antevéspera da mesma fumaça!
segunda-feira, 2 de julho de 2001
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:13 PM
Segunda-feira, Agosto 28, 2006
POEMAS PARA AMALDIÇOAR
TERCEIRO POEMA
QUANDO SE EMPALA UM PRÍNCIPE
Na estaca em que se empala um príncipe
devia-se poder escrever
que por todos os séculos os sinos bimbalhem
que por todos os tempos
os pianos dobrem canções de amor
canções de eternos amores
à impossibilidade de que aquele príncipe
ali empalado em carne e osso
fique para sempre ali empalado
e não espalhe mais o seu nauseabundo cheiro
pelo mundo de flores que se descortina, afinal.
Que se empalem, pois, todos os príncipes.
Que se glorifiquem sempre, afinal, todos
os príncipes empalados e empalhados
como eternas múmias e eternos espelhos
de tempos que não virão jamais
sob a batuta enferrujada de velhos reis
que não se cumprirão.
E assim seja!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:24 PM
Sábado, Agosto 26, 2006
POEMAS PARA AMALDIÇOAR
SEGUNDO POEMA
QUANDO SE CRUCIFICA UM PROFETA
Há deuses mortos no panteão da história.
Há deuses podres nos portões da glória.
Há deuses inúteis nos altares da memória.
E há profetas presos à solidão das palavras.
O profeta não vê o futuro: vê a si mesmo vendo o futuro.
Como um deus morto, tenta recriar a vida.
Como um deus podre, tenta afastar as moscas.
Como um deus inútil, afaga o tédio com olhar aflito.
Não se deve olhar o profeta com consternação.
Não se deve ver o profeta com gritos de horror.
Não se deve enxergar no profeta o louco que ele imagina ser.
Um profeta é o enxergão podre do lixo do futuro
E nada mais.
Assim, nem é preciso que se crucifique um profeta:
Basta que se lhe dêem as próprias palavras
Com que ele um dia sujou o panteão da história.
quarta-feira, 7 de maio de 2003
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:25 PM
Sexta-feira, Agosto 25, 2006
POEMAS PARA AMALDIÇOAR
A partir de hoje, o Veneno de Cobra vira um blog poético, para publicar uma série de poemas que tenho escrito para amaldiçoar ainda mais alguns malditos do mundo.
PRIMEIRO POEMA:
quando morre um ditador...
quando morre um ditador
o camponês devia poder assar
do trigo que ele colhe
o melhor pão que ele já fez em sua vida
e reparti-lo com sua família
juntamente com a garrafa do vinho mais nobre
da adega do patrão...
quando morre um ditador
o pescador devia poder devolver
ao mar o mais belo pescado
e voltar ao sabor da maré
para enrolar sua rede na praia
e dançar durante toda a noite a churrasquear um filé
com o dinheiro do patrão...
quando morre um ditador
o estudante devia poder colar
na prova todos os conhecimentos
que o mestre lhe ensinou
e jurar para o professor
que para sempre na vida se tornará de repente
o mais sábio de todos os homens
e nunca será um patrão...
quando morre um ditador
o caixa do banco devia poder esquecer
a diferença entre todos os homens
e levar para casa a féria do dia com todos os juros
que seriam do banqueiro
para pagar de uma só vez a prestação da casa
que ele deve ao patrão...
quando morre um ditador
a moça que trabalha na loja de calçados
devia poder escolher o mais belo par
com saltos bem altos e caminhar
pelas ruas como princesa
para esquecer todos os vexames com que ela calça
todo dia o pé de cada madame
e o pé roxo da mulher do patrão...
quando morre um ditador
a sambista da escola da favela devia
sair a requebrar no salão mais nobre
do palácio do governador
não como a sambista do morro de ruas tortas
mas como primeira dama de um governo novo
que se lembre do povo da favela
e não dance nunca na mesa do patrão...
quando morre um ditador
devia a dona-de-casa poder deixar no fogo
a panela de feijão até queimar
e sair para as ruas a ver vitrines
e comprar todos os sonhos
que guardou no peito durante tantos anos
que ela nem sabe mais quais são
tantos dados ao patrão...
quando morre um ditador
o jardineiro devia poder plantar
os mais belos ipês de todas as cores
e quaresmeiras e tipuanas para todos os bem-te-vis
e mangueiras e jabuticabeiras para todos os micos
e todos os pássaros da cidade que já esqueceram o que é
uma boa fruta no pé
no jardim do patrão...
quando morre um ditador...
ah! quando morre um ditador
em cada canto do mundo onde existe um sonhador
devia-se poder fazer
a festa mais encantada
o baile mais bem balançado
o churrasco mais bem passado
o bumba-meu-boi mais bem dançado
o samba mais bem requebrado
o jogo mais bem jogado
a missa mais bem rezada
o canto mais bem entoado
o riso mais bem fotografado
e o viva mais do fundo do coração
como um suspiro que afinal revele
haver ainda no mundo muito mais que uma esperança.
segunda-feira, 30 de outubro de 2000
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:40 PM
Quinta-feira, Agosto 24, 2006
até que enfim
até que enfim voltei
voltei para a poesia
voltei
houvesse não
a poesia
não mais corria o córrego
no fundo do vale
(não importa quão sujo seja o córrego que corre no fundo do vale)
houvesse não
a poesia
e não mais uivava o cão à lua
no meio da noite
(não: não importa que o cão seja sarnento e a lua tenha sido fodida pelos pés sujos de um americano qualquer numa noite de lobisomem)
voltei
isso o que importa
para a poesia eu voltei
houvesse não
a poesia
e eu seria apenas um homem que caminha no meio da vida em busca de merda
(não importa porra nenhuma o que digam desses versos que nem parecem versos)
houvesse não
a poesia
e eu estava morto
para sempre morto no meio da merda dessa vida
terça-feira, 19 de junho de 2001
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:03 PM
Quarta-feira, Agosto 23, 2006
Ainda algumas reflexões sobre a arte, ou: isto não é uma crônica
Dadá só é dadá, quando dadá não é dadá, ou seja, a arte só é arte quando a arte não é arte. O lema dadaísta parece querer destruir o conceito mais arraigado da cultura humana: o conceito de arte, de beleza. Até então, a arte pertencia a um universo paralelo, freqüentado pelos eleitos das musas, o qual nós, os simples mortais, só tínhamos o direito de apreciar e aplaudir. De longe, de preferência. E, é claro, pagar a conta.
Ao deslocar para o ambiente dos deuses, ou seja, para o ambiente artístico, um simples e prosaico penico, Duchamps criava o estranhamento necessário para que pudéssemos começar a entender de forma completamente diferente o significado da arte. Era a vanguarda a escandalizar, a provocar. O problema é que a provocação só tem sentido na primeira vez. A vanguarda não se sustenta no tempo, porque o tempo é seu inimigo. Entendida, assimilada ou rejeitada, a vanguarda morre na primeira curva do tempo e torna-se, também ela, objeto de museu. Esclerosa-se como tudo o que veio antes dela. Não existe uma vanguarda eterna.
Aquilo que escandaliza hoje é objeto de derrisão algum tempo depois. Pobre arte. E voltamos sempre aos mesmos problemas, aos mesmos conceitos aristotélicos, à mesma busca de algo novo, de um novo escândalo. Não há revolução que resista ao olhar por mais de alguns segundos. No momento seguinte a que nos espantamos, o novo se torna velho e o de sempre toma o lugar do recém-nascido. A arte é cruel, não admite o segundo olhar. Os dadaístas que o digam e que o digam todos os vanguardistas. A busca do novo, no entanto, é o desespero do artista.
Romper padrões é necessário, mas tudo o que acontece entra, imediatamente, no rol das coisas comuns. E essa é a maldição de todo artista. Criar para renovar, renovar para envelhecer. Um roteiro cujos enredos todos conhecem e tentam quebrar e nada acontece. Então, pensar sobre a arte é pensar a arte. É curar a arte de seus tentáculos seculares e buscar não o belo, não aquilo que a famigerada metafísica idealizou, mas a sua constituição física e palpável: a técnica. O fazer. Não importa a essência, mas a aparência. O belo não está na contemplação espiritual, na elevação dos sentidos, mas na percepção de que algo foi feito e muito bem feito, que estamos diante de um artesão que faz de sua habilidade a busca daquilo que nossos olhos, nossos sentidos possam aceitar como harmonioso e agradável.
O belo só é belo quando o belo não é belo. A beleza por si mesma, independente dos sentidos, não existe, não persiste ou simplesmente desiste. A técnica, a capacidade de harmonizar e despertar nossos sentidos, só se realiza quando educa e constrói ao mesmo tempo esses sentidos, despertando a inteligência e o prazer que o belo nos traz. Não existe um belo absoluto, embora certas obras de arte sejam quase unanimemente consideradas belas. No entanto, só é belo aquilo que consideramos belo. O homem constrói para si e para os outros. A contemplação do belo é algo profundamente individual, como a construção da própria arte é um ato de total e profundo egoísmo. Ao compartilhar esse egoísmo, o artista não busca a consagração de sua obra, mas o reconhecimento de outros sentidos àquilo que ele sentiu. Portanto, não uma beleza, apenas: várias, dentre as quais a do próprio criador.
A apreciação da obra de arte torna-se, assim, um ato de integração dos sentidos do observador com os sentidos do criador. O penico do Duchamps só é obra de arte para quem a considere uma obra de arte. Assim também a Vênus de Milo ou a Gioconda. O que há por trás da arte é apenas a arte, nada mais que a arte, ou seja, a técnica. Qualquer tentativa de buscar sentidos ocultos, profecias, mistérios e outras bobagens metafísicas cai no ridículo de tentar aceitar o inaceitável, de acreditar em duendes ou espíritos, de buscar o imponderável onde há apenas a técnica humana e a sua arte mais impressionante, a sua capacidade de criar. Não nos espantemos, portanto, com a morte do belo. Temos coisas mais importantes com que nos preocupar do que o reverenciarmos. Temos um mundo imperfeito e uma arte imperfeita a atrair nossos sentidos e, através deles, torná-los, ao mundo e à arte, imagens que nos agradam ou desagradam, sem qualquer juízo outro de valor que não esse filtro impressionante que se chama sensação, ou simplesmente, prazer.
A arte só é arte quando nos causa prazer, deleite, sem que esses termos não deixem de conter em si algo de dor, de sofrimento, de angústia, pela compreensão do mundo que eles nos trazem ao contemplar aquilo que nos agrada. No fundo é isto: a arte só se realiza como arte quando nos revela um pouco mais de nós mesmos e do mundo em que vivemos. Sem metafísicas. Sem juízo de valor. Porque, afinal, a arte só é arte quando a arte não é arte. Quando nós a transformamos em arte. E em beleza, que só existe porque nós existimos e porque nossos sentidos a registram.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:18 PM
Terça-feira, Agosto 22, 2006
A necessidade da arte
Há alguns anos, um amigo me contou o seguinte: sua mãe, com quase noventa anos, ao ver a caixa d¿água colocada de forma estranha no alto da casa em reforma não se conteve. ¿Está muito ruim, ofende a estética da casa¿, comentou ela. Esse senso estético das coisas deve ou devia estar presente no nosso dia-a-dia. Devia fazer parte da educação, tanto para a vida quanto para o trabalho.
Numa feira de brindes, para mais um exemplo simples, nossos olhares são atraídos para a caneta mais diferente, mais bonita; para o copo que tenha um desenho inusitado; para o peso de papéis que nos dê prazer, ao ser contemplado; enfim, escolhemos os objetos que nos pareçam mais bonitos. E isso, em todas as escolhas para nosso vestuário, para nossa casa ou escritório. O que nos atrai é sempre aquilo que nos parece esteticamente mais interessante, independentemente do utilitarismo de um vestido, de uma panela ou de um porta-lápis.
Andando por São Paulo (e pode ser por qualquer cidade que tenha mais de cem anos), deparamo-nos quase sempre com construções antigas, casarões imensos, com amplas janelas e portas, escadarias de mármore ou outro material nobre. Encantamo-nos, no entanto, mais do que com sua grandeza, com os detalhes de florões, de cornijas, de arabescos, de gárgulas, górgonas e cariátides, de entalhes precisos e desenhos caprichosos a ornar, de forma absolutamente gratuita, pórticos, portas, janelas, balaústres, escadarias. Não têm outra finalidade que a de compor um senso estético de acordo com o gosto da época. Em São Paulo, especificamente, isso se deve à vinda, no final do século dezenove e começo do vinte, de milhares de imigrantes italianos, dentre eles, principalmente, centenas de artesãos que foram os construtores de muitas casas, vilas e mansões dessa época. Tinham, esses artesãos, não apenas a habilidade necessária ao soerguimento dessas casas, mas também o tal senso estético, que os levava a caprichar nos detalhes arquitetônicos, para tornar as residências locais não apenas habitáveis, mas generosamente agradáveis, artisticamente contempláveis. Verdadeiras obras de arte. Alguém, é capaz de apontar um pedreiro, serralheiro ou marceneiro que tenha, hoje, esse mesmo senso estético, esse mesmo gosto, ainda que rococó, por um detalhe bem feito, pela harmonização de linhas e volumes?
Esse senso estético, que pode soar aos ouvidos de muitos como frescura ou veadagem, na verdade faz a diferença em qualquer profissão. Porque a arte humaniza o homem. Sem a capacidade de contemplação do belo, que está presente em toda a natureza, muito além das babaquices metafísicas, o homem se barbariza e perde a noção de seus próprios caminhos na vida. Torna-se o bárbaro que assalta, mata, estupra, agride seus semelhantes por qualquer bobagem, como o resultado de um jogo de futebol, porque não percebe o horror de seus gestos, não foi preparado para estigmatizar a morte e a agressão como ofensas à beleza e à estética da vida, por mais cruel que, às vezes, a natureza nos pareça.
Um artista não é, necessariamente, um ser melhor do que os outros. Mas receber e reconhecer em nós o resultado de seu trabalho, a arte, com certeza nos torna mais humanos. A fruição de uma obra de arte, mesmo aquela com cujos fundamentos não concordemos, abre portas de compreensão de nossa própria mente e de aproximação com o outro, sem os filtros dos preconceitos e do estranhamento. E o senso estético da vida permite que olhemos o mundo, mesmo que seja apenas a caixa d¿água da nossa casa, com olhos mais sensíveis ao belo, ao harmônico e, por isso, mais aptos a rejeitar a estupidez de atos bárbaros.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:42 PM
Segunda-feira, Agosto 21, 2006
a república
soprava sempre o vento na mesma direção
e os cheiros de miséria provocavam rinites alérgicas
nas mesas de mansões do morumbi
gatos e cães desafiavam o poder
lambendo botas e saltos altos por sob toalhas de linho
e o vento sempre sempre a soprar
sempre a soprar na mesma direção
o sol que brilhava na república nunca era o mesmo
ora olhava o vento que soprava na mesma direção
ora soltava faíscas na prataria da casa grande
dos novos engenhos dos engenheiros do dólar
e mesmo que alguém dissesse que o sol era injusto
não parava ele para pensar no assunto
no meio do lixo até o bife podre pode parecer apetecível
antes que ratos e baratas o tomem
no meio da merda até coliformes fecais são artigos de luxo
quando o vento sopra sempre na mesma direção
e a república torce o nariz sem sentir a rinite de seus pares mais ricos
o ar esnobe da república é assim mesmo
porque ela estudou na sorbonne e um dia foi exilada política
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:11 PM
Quarta-feira, Agosto 16, 2006
POLÍTICA: UM DESABAFO E UM PROTESTO
Começou ontem, oficialmente, a campanha política para as eleições de 2006. Enquanto muita gente vai aprofundar as discussões em torno de partidos e candidatos; enquanto muita gente vai aproveitar-se de deslizes de campanha para difamar os opositores; enquanto muita gente tentará tirar o máximo proveito possível do que os partidos colocarão no ar na propaganda falsamente gratuita do rádio e da televisão; enquanto muita gente ficará histérica na defesa de seus partidos e candidatos ou porque fulano ou beltrano caiu ou subiu na preferência do eleitorado; enquanto, enfim, rolar a campanha por esses brasis a fora, eu, eleitor, animal político por excelência, apaixonado pelas idéias e pela arte da verdadeira política, desgostoso do maquiavelismo e platonismo crônicos de todos os que se arvoram como representantes do povo, entro em recesso, paro de dar palpites, de defender a quem quer que seja, embora deixe claras as minhas notórias preferências por quem já está governando esse pobre País, por uma questão muito mais de visão ampla e estratégica da história do Brasil do que por uma questão meramente partidária.
Sim, vou votar no Lula e nos candidatos de partidos da assim chamada esquerda, por uma questão de coerência filosófica. É estúpido pensar que a volta dos que sempre estiveram no poder, dos que, muito acima de pequenos golpes de alguns milhares de reais, entregaram o País à sanha do capitalismo internacional ou, mesmo, nacional, com políticas conservadoras da miséria e da desigualdade, da manutenção de seus esquemas de poder pelo poder, nas mãos sempre muito mais sujas de seus sabugueiros e representantes eleitos e reeleitos pelo poder do dinheiro, repito, é estúpido pensar que a volta dessa gente vá trazer algum benefício ao povo. Se há, entre os partidos chamados de esquerda, indivíduos ou grupos de indivíduos que saquearam ou tentaram saquear os cofres públicos, devem ser punidos exemplarmente, sem dúvida alguma. Porque ladrão não tem ideologia e aproveita-se de qualquer partido, de qualquer oportunidade. A existência de ladrões nos partidos de esquerda não quer dizer que a ideologia, o conjunto de idéias e de propostas, esteja equivocada, como quer-nos fazer crer muitos indivíduos aproveitadores, até mesmo da própria esquerda. Não pode o todo ser condenado pela miséria de suas partes. Isso é jogo, e jogo sujo de quem está vendo o poder mudar de lado e não admite que isso aconteça. Punam-se esses miseráveis, mas toque-se para frente o barco das mudanças, que mal começaram a esboçar-se diante de quinhentos anos de obscurantismo e servidão.
Disse acima que vou votar no Lula, mas quero deixar bem claro que o faço por culpa exclusiva de um sistema perverso, construído por aqueles que conservaram o poder por tantos anos, graças a iniciativas como o continuísmo implícito na malfadada emenda da reeleição. Não concordo, em absoluto, com reeleições, em nenhum nível, nem para vereador. Acho que a renovação constante dos quadros dirigentes, com a escolha de verdadeiros representantes do povo e não da reeleição ad nauseam de uma casta de políticos, deve ser um dos pilares de uma verdadeira democracia. Quando George Orwell, que não pode ser tachado de esquerdista, enunciou sua famosa frase, n¿A Revolução dos Bichos, de que todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais do que os outros, não podia estar exemplificando melhor o que é a constituição de uma casta de políticos e dirigentes que se perpetuam no poder, como os porcos de seu livro desejavam fazer. Por isso, vou votar, sim, no continuísmo, por uma questão puramente ideológica, mas sob veemente protesto. Porque, na verdade, não quero ter em minha cidade vereadores que estão na Câmara há vinte, trinta anos. Não quero ver sempre os mesmos senhores deputados estaduais ou federais a dizerem sempre as mesmas coisas, a defenderem sempre os seus próprios interesses. Não quero ver vetustos senhores do cacau a se eternizarem como senadores da república, desfilando pelos corredores do Congresso como se estivessem em seus latifúndios. São todos eles defensores não do povo que os elegeu, mas de suas sinecuras, de seus esquemas de poder, de suas relações espúrias que garantem ou um dinheiro a mais na conta no fim do mês, às custas de propinas e presentes, ou um esquema de manutenção do poder a qualquer custo, mas sempre pago pelo dinheiro do povo. Defendo a idéia de que a casta política deve ser extinta. Não precisamos deles, dos políticos, mas de representantes que possamos eleger para nos defender ou defender o que pensamos em todas a instâncias do poder. Advogo a idéia de que os representantes do povo sejam realmente representantes do povo e não políticos profissionais vinte e quatro horas por dia, só preocupados com a sua própria sorte. Não à reeleição, não à reeleição a qualquer cargo público deve ser uma luta democrática e republicana de todos os que verdadeiramente desejam um sistema político mais justo e verdadeiro.
Por isso, enquanto a campanha política rola solta nas ruas, não vou mais defender a quem quer que seja em meus artigos, em meus blogs, em meus e-mails para os poucos amigos que se aventurem a ler essas mal traçadas. Poderei, sim, escrever sobre teoria política, ou sobre as minhas idéias a respeito de como eu acho que deva funcionar um sistema democrático, mas não mais política partidária. Até que as eleições estejam definidas, os votos contados e os eleitos ou reeleitos já devidamente conhecidos.
E a todos que chegaram até aqui, a minha saudação democrática e republicana e o meu muito obrigado.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:30 PM
Quinta-feira, Agosto 10, 2006
O QUE É BARBÁRIE?
Não é preciso recorrer ao dicionário para saber que barbárie é um estado de crueldade, de selvageria, de atrocidade do homem para com o próprio homem. Condição, portanto, somente do bicho homem. Porque não há como se classificar de bárbara a caçada do leão ou a mordida do tubarão.
Somente o homem comete atos bárbaros: mata, estupra, tortura, destrói por qualquer motivo ou sem motivo algum. Para a estupidez humana, não há limites. E ainda nos consideramos reis da criação. Mas a verdade é que não somos nem reis nem criaturas, porque não há nem nunca houve qualquer criação. Somos, a humanidade terráquea, o produto ainda inacabado de um lento processo de evolução. O além-do-homem, que muitos pensam ser a super-homem, ainda está muitos milhares de anos à frente, quando conseguirmos superar o estado de barbárie em que ainda nos chafurdamos, nesse charco imenso que se chama universo.
Não vejo hierarquia nos atos bárbaros. Todos são cruéis, todos são absolutamente condenáveis. Mas, há uma barbárie solta no ar que me deixa paralisado: o terrorismo. Que inclui matar inocentes e destruir tudo que for possível, para incomodar, para retaliar, para vingar, para impor idéias, para intimidar. Porque é assim que nos sentimos, tanto diante do terrorismo de Estado, praticado por Israel contra seus inimigos, quanto o terrorismo religioso praticado pelos seguidores fanáticos e fanatizados de Bin Laden ou ainda o terrorismo sem causa aparente praticado pelos asseclas imbecis e imbecilizados do Marcola e seu famigerado PCC.
Vencer o inimigo, o objetivo da guerra. Aniquilar todos os demais, o objetivo do terrorismo. Porque o terror não escolhe o alvo: tanto pode ser o bebê que a mãe amamenta ao colo num parque tranqüilo de um país distante, como o ditador genocida de uma nação em guerra. Ambos têm o mesmo valor para o terrorista: são vidas que precisam morrer para que ele, o terrorista, também se mate. Em nome de uma causa qualquer. Em nome de um deus qualquer. Ou, o que é pior, sem nenhum objetivo senão o de assustar ou intimidar.
A força do terrorista moderno está na sua falta de escrúpulos e na sua capacidade de imolar-se. Quanto mais inocentes ele matar, mais perto de seu ideal. Morrer, para ele, é apenas uma conseqüência sem nenhuma importância de seu ato. Imola-se porque a vida, para ele, inclusive a sua, não tem absolutamente nenhuma importância: crê-se imortal, em sua estupidez assassina.
Pior o bandidinho de periferia: pensa-se herói, mas é apenas o arremedo infame de uma arte sem nenhum princípio. Mata, fere, assusta, incomoda apenas por uma trouxinha de maconha ou uma carreirinha de cocaína. Ou porque acha bonito pertencer a uma organização criminosa. Ou porque a sociedade e o Estado lhe viraram as costas, não lhe dando oportunidade. Ou, ainda, porque a família, sei lá, se desestruturou ou ele nasceu com vocação para estúpido, mesmo. Enfim, o homem sempre acha desculpas para seus atos de barbárie. Afinal, quanto vale uma vida, quanto? Nada, pensando bem: não vale nada.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:32 PM
Quarta-feira, Agosto 02, 2006
AGOSTO COMEÇA COM GOSTO: DUAS BOAS NOTÍCIAS
Notícia número um: a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado aprova emenda que proíbe reeleição a partir de 2010. Esse malfadado instituto, criado pela estupidez e cobiça de Fernando Henrique Cardoso, pode ter, afinal, os seus dias contados. Reeleição, seja de quem for, não é mecanismo democrático. É possibilidade de continuísmo de políticas absurdas, de manutenção de uma casta estúpida de políticos. Eu acho que não devia haver possibilidade de reeleição para nenhum dos cargos políticos, nem para o executivo nem para o legislativo. É preciso acabar com a casta denominada políticos, aqueles que, diante da lei, se consideram mais iguais do que os outros. Os porcos, da novelinha famosa de Orwell. Enquanto houver uma casta de dirigentes, não há democracia verdadeira.
Notícia numero dois: o Supremo abriu as porteiras dos governos tucanos de São Paulo. Ou seja, derrubou a blindagem feita pelos governadores tucanos, principalmente o famigerado picolé de chuchu Alkimin, que impedia a abertura de CPIs na Assembléia Legislativa. Antes tarde do que nunca. Vai-se começar a levantar o véu dos desmandos tucanos em São Paulo. Há mais de sessenta (eu disse mais de sessenta) pedidos de abertura de CPIs na Assembléia. Nenhuma delas pôde se constituir, porque a bancada tucana, com maioria absoluta, tem impedido que os paulistas saibam dos escândalos na Nossa Caixa (aliás, nossa uma vírgula, deles, muito deles); das obras superfaturadas do rodoanel, um projeto de bilhões (para os bolsos de muito político safado que se apresenta ao povo como vestal impoluta e para as empreiteiras de sempre); na FEBEM, esse ninho de cobras criadas e de confusões em que se transformou um projeto que tinha por objetivo dar proteção à criança e ao adolescente; na segurança pública etc. etc. etc. e haja etcéteras. A caixa preta, enfim, poderá abrir-se. Ou será a caixa de Pandora?
P.S.: em meu Blog do Macaco, os últimos itens têm aprofundado um pouco mais o meu pensamento sobre democracia.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:23 PM
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