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Sábado, Julho 29, 2006
NEM FREUD EXPLICARIA
Se eu fosse psicólogo, teria em meu consultório uma bola de cristal. Para ver o futuro. Então, poderia, com certeza, dizer coisas assim: o bandido x, que matou, estuprou, barbarizou, depois de alguns anos de cadeia, tem hoje o perfil psicológico de Madre Teresa de Calcutá. Pode ser solto, tranqüilamente, que conviverá com os familiares e os demais membros da comunidade em harmonia e paz. Não voltará a delinqüir.
Também o adolescente Champinha que, aos dezesseis anos, estuprou, matou e torturou uma jovem e seu namorado, pelo simples prazer de fazê-lo, pode, aos dezenove anos, ir para as ruas, que não oferece nenhum perigo à sociedade. É apenas um bom menino que teve um mau passo. Vejo aqui: na minha bola de cristal. Podem acreditar. Até Freud concordaria comigo.
Pois é: há alguns anos, um tal perito em psiquiatria forense (ou seja como é chamado isso) atestou em laudo a não periculosidade de um bandido chamado Luz Vermelha, solto após trinta anos de cana. Não deu outra: a bola de cristal estava esfumaçada e o tal Luz Vermelha, recuperado e bonzinho, desentendeu-se com familiares que o acolheram e acabou morto. Feliz ou infelizmente, mataram-no antes que ele voltasse a matar.
Champinha, o adolescente, no entanto, está aqui na minha bola de cristal: vejo claramente o seu futuro de adulto cumpridor de seus deveres, porque (abram-se aspas): entendemos que os episódios psicóticos que se manifestaram em sua vida foram de natureza benigna... absolutamente capaz de retornar ao convívio social (fechem-se as aspas). Essas palavras constam do laudo oficial do psiquiatra Charles Louis Kiraly, o mesmo que libertou o Luz Vermelha.
E então eu fico pensando: se, para o tal psiquiatra, o surto psicótico do Champinha que o levou a estuprar e matar uma jovem é benigno, o que será que ele vai fazer quando esse surto for maligno? Tentar matar o Papa? Ou, quem sabe, estuprar o tal psiquiatra, numa consulta eventual do bom cidadão Champinha?
Está certo: a lei diz que menor é inimputável. E não sou favorável a que a lei se modifique. Mas é preciso estabelecer limites. Uma criança não tem noção clara de muitas coisas. A educação, o meio social, o convívio com pais, amigos, parentes ajudam a formar a noção de certo e errado. E essas noções são adquiridas paulatinamente, mas de forma consistente, até a fase de escolarização e de ampliação de horizontes, do lar e dos parentes para desconhecidos e autoridade, ou seja, colegas e professores. Na adolescência, já se reconhece aquilo que a sociedade estabelece como normas de convivência. Portanto, surtos psicóticos de adolescente, que o levem ao crime, principalmente ao crime de morte, já não são assim tão inocentes, como nos querem fazer crer certos exageros protecionistas da lei.
A criança e o adolescente precisam, sim, de toda a proteção possível. Mas há o outro lado, para que a lei seja justa: há que se proteger também a sociedade. Alguém, em sã consciência, gostaria de que seu filho de dezesseis anos convivesse na mesma sala de aula com um Champinha assassino e estuprador? Claro que não. Porque todos, sem dúvida, teriam a certeza de que o crime que ele cometeu é o mais grave de todos: estupro seguido de morte, com requintes de crueldade. E ele sabia muito bem o que estava fazendo. Não é assim tão inocente. Tanto que, preso, ele se comporta como um bom menino, não tem, conforme os relatos oficiais, nenhum comportamento condenável, muito pelo contrário. O que levou o psiquiatra a concluir que ele não voltará a delinqüir, se for solto. Mais esperteza dele em se fazer de bonzinho, do que do tal psiquiatra em perceber o seu jogo.
Não é preciso mudar radicalmente a lei, como pretendem alguns. E dentre esses alguns, até compreendo a indignação do pai da moça morta. Mas também não se pode proteger de forma absoluta o adolescente que cometa crime bárbaro. Porque assassínio tem que ser punido, de forma rigorosa, tenha sido cometido por quem quer que seja, independente de idade ou nível social. A complacência com que a sociedade tem tratado crimes de morte não pode, absolutamente, continuar. Assassinos não podem voltar ao convívio social antes de penas muito, muito duras. Para dizer a verdade, a minha opinião é que não voltassem nunca mais. E podem perder esse ar de vitória os adoradores da morte: sou radicalmente contra a pena de morte.
Precisamos deixar de cultuar a morte. Precisamos parar de ter complacência com assassinos, sejam eles quem forem: não importa se é o adolescente Champinha ou o genocida Saddam Hussein. Matou, tem que ficar o maior tempo possível na cadeia, de preferência para sempre. Mas, não: o cara, no caso a mocinha, manda o namorado matar os pais. Por motivos absolutamente fúteis. Sentença: trinta e nove anos e seis meses de pena. Legal. Legal, nada. Pode ir para a rua daqui a três ou quatro anos, por um regime absurdo chamado progressão de pena. Basta ter um bom advogado. Legal, mas imoral. Absolutamente imoral. Um acinte à sociedade.
Voltando ao Champinha e ao laudo de bola de cristal do tal psiquiatra. Alguém, em sã consciência, poderá garantir que esse adolescente não voltará a delinqüir, somente porque, durante o período prisional ele se comporta como uma freira? Ora, só mesmo a estupidez humana e uma sociedade voltada ao culto da morte podem esperar que ele não faça o que já fez, ou até pior, desde que se lhe apareça uma oportunidade. E então: a quem condenar? Ao Champinha ou ao psiquiatra e sua bola de cristal?
Está claro que não é necessário condenar à prisão normal um cara como esse Champinha. Jogá-lo num Carandiru da vida seria o mesmo que condená-lo à morte. E talvez o mesmo acontecerá se ele for solto: matará ou será morto, como ameaçam vizinhos da casa de sua mãe, na pequena cidade onde vive, na Grande São Paulo. E ocasionará mais sofrimentos.
É preciso que a mesma lei que protege a criança e o adolescente tenha também a flexibilidade para manter afastados do convívio social por longos anos de uma lenta recuperação em sistema especial, mas fechado, adolescentes que cometam assassinato ou outros crimes torpes. Não importa que custe caro manter tal tipo de estabelecimento, em que esses indivíduos tenham oportunidade de se reeducarem. É o preço que a sociedade tem de pagar por não ter cuidado deles antes, com escola, com trabalho, com esperança de vida. E mesmo que eles, os adolescentes assassinos, tivessem tido tudo isso, é ainda um preço a pagar pela existência de seres que não têm condição de conviver pacificamente com os semelhantes. Constituem aquela pequena (e normalmente) aceitável porção de inadaptados que a sociedade produz, mesmo as civilizadas, mesmo as mais avançadas. Temos que conviver com os monstros que geramos. Só não podemos protegê-los em detrimento da proteção social. É absolutamente irresponsável que toleremos a liberdade de assassinos, simplesmente por firulas jurídicas ou periciais ou por incompetência de um sistema há muito ultrapassado de perdão e esperança de recuperação a curto prazo desses monstros.
Por isso, o que não podemos continuar tolerando é a cultura da complacência para com o assassínio. E continuar a buscar em laudos absurdos de psiquiatras arrogantes de seu conhecimento a desculpa para pôr na rua indivíduos como Champinha, de quem se diz que tem surto psicótico benigno. Porque isso, nem Freud explicaria. Mesmo que tivesse bola de cristal.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:42 PM
Sábado, Julho 22, 2006
CEUs: BRINCADEIRA OU ESTUPIDEZ
Os CEUs, Centros Educacionais Unificados, foi um projeto implantado na administração de Marta Suplicy, na cidade de São Paulo. Mas é preciso que se diga: não era um projeto da Prefeita, nem do PT, seu partido. Era um projeto antigo, criado e formatado por uma equipe de funcionários da Prefeitura, apresentado a várias administrações e devidamente descartado por todas. Marta tomou conhecimento e comprou a idéia. Que é muito boa.
Trata-se de um conjunto educacional, cultural e esportivo voltado não apenas aos alunos da rede pública, mas também à comunidade, que pode desfrutar de suas instalações para esporte, lazer e cultura. Tem piscinas, quadras esportivas, biblioteca, teatro etc. Com um desenho arquitetônico arrojado, vai além do projeto carioca do saudoso Darcy Ribeiro.
Constituem os CEUs um avanço em termos de educação integral e de integração das comunidades carentes e a escola. São caros, é verdade, mas valem pela proposta, numa cidade em que a maioria da população, principalmente da periferia, não tem opções de lazer e cultura. E quando se diz que são caros, há que se relativizar o preço de sua construção com o benefício que trazem. Educação e cultura, na verdade, não têm preço, por tudo que podem fazer para dar ao cidadão a consciência de seu estar no mundo, incrementando a dignidade e a capacidade das pessoas de participarem como cidadãos do complexo social em que vivemos, numa cidade de mais dez milhões de habitantes.
No entanto, ao ganhar a Prefeitura, o senhor José Serra, do PSDB, desdenhou o projeto, primeiro prometendo modificá-lo para torná-lo mais barato, como se o povo, a periferia, o cidadão comum não merecessem obras ditas mais caras. Acho que essas, as obras mais caras e luxuosas, devem, na visão do senhor José Serra, ser reservadas para as elites, para os moradores dos Jardins que, com certeza, ainda na sua visão canhestra, devem lhes dar mais valor. Depois, abandonou-o por completo. Aliás, não só abandonou o projeto, mas também a Prefeitura, ao sair candidato ao Governo do Estado, após alguns poucos meses de administração, embora tenha prometido e jurado que não deixaria os paulistanos na mão, para se candidatar a qualquer outro cargo, com documento assinado em cartório e tudo. E o seu sucessor, Gilberto Kassab, um ilustre desconhecido, ex-secretário da tenebrosa administração Pitta, até agora não deu nenhum sinal de que o projeto dos CEUs terá continuidade.
Isso se chama fazer política da mais baixa qualidade, o que se constitui num dos elementos de arrogância do PSDB e, por contaminação, do PFL, partidos que dominam o Estado de São Paulo há doze anos e que transformaram o Governo Estadual numa verdadeira caixa-preta, em que negociatas e obras super-faturadas, desmandos e erros administrativos são sistematicamente travados na Assembléia Legislativa, onde tais partidos têm maioria e não permitem que nenhuma CPI, dos quase sessenta pedidos, seja instalada. Agora, o mesmo ameaça acontecer com a Prefeitura: não devem satisfação ao povo, esses senhores, sustentados por uma elite que manipula a mídia paulista e paulistana, nem sempre com sutileza, mas de forma absoluta e articulada.
Pode-se pensar que o caso do abandono do projeito dos CEUs seja apenas brincadeira de mau gosto desses senhores, mas infelizmente sou obrigado a acreditar, diante de todo o histórico de histeria e malversação da opinião pública desses dois partidos políticos, PSDB e PFL, que a não continuidade desse projeto seja, mesmo, uma questão de estupidez. Ou canalhice.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:19 PM
Terça-feira, Julho 18, 2006
QUE ME PERDOEM OS PALHAÇOS, MAS JÚRI POPULAR NÃO PASSA DE UMA GRANDE PALHAÇADA
Lembranças meio apagadas de menino pobre do interior de Minas: julgamento, júri popular, grandes advogados, comoção. Corriam os anos cinqüenta. Um crime bárbaro e comum naquelas paragens: marido mata mulher. Causa: adultério. Geralmente pessoas da sociedade. Que pobre, quando matava a mulher, nesses tempos, era de fome. Portanto, gente de posses, da elite. E o crime gerava milhões de comentários, de disse-me-disse, de detalhes sórdidos à boca pequena, de informações e desinformações, de opiniões. Armava-se, então, o tal júri popular. E lá vinham advogados famosos da capital, geralmente a favor do réu, cuja família podia se dar ao luxo de contratá-los a peso de ouro. Era o grande espetáculo a ser comentado durante dias e meses, nas esquinas, nas mesas de jogo, nas salas de jantar de ricos, pobres e remediados. E não ser esquecido, jamais.
Ninguém ficava imune ao espetáculo. As rádios transmitiam (acho que naquele tempo podia) e o advogado principal fazia chorar até as pedras. Demolia, um por um, os argumentos da promotoria, dissecava a vida da vítima até transformá-la em demônio sedutor, em messalina a provocar o marido com mil amantes e a coitada nada podia fazer de seu túmulo ignorado e coberto de mato, num cemitério esquecido de um canto da cidade. Era, geralmente, um massacre, a que não escapavam, muitas vezes, nem amigos nem parentes. E o assassino, ao final, saía carregado nos braços do povo, por haver defendido a honra de todos os cornos da região, como o justiceiro de todas as mal amadas mulheres que ousavam erguer um só dedo contra a moral instituída. Virava exemplo. E terror de todas as possíveis, prováveis e improváveis, adúlteras.
Os tempos passaram. O país modernizou. Os costumes mudaram. Já não se julgam maridos assassinos como se julgavam antigamente. O adultério deixou de ser crime e eles, os desgraçados assassinos de esposas, muito raramente obtêm o beneplácito da mídia e da inocência. Mas a fórmula circense do júri popular mantém-se inalterada. A cada crime de grande repercussão, o espetáculo de mau gosto e de oportunidade para palhaços togados se apresentarem atrai a atenção de todos, e a mídia vende mais espaço publicitário ou mais folhas de jornal ou revista. Às custas do arregaçamento de detalhes grotescos do caso, de opiniões as mais estapafúrdias, seja dos especialistas de plantão, seja dos assassinos ou de seus parentes e amigos. Todos tiram sua casquinha, enquanto a vítima apodrece esquecida num cemitério qualquer, muitas vezes desonrada e transformada em culpada de sua própria morte pela oratória exacerbada ou por argumentos controversos de advogados alucinados pela possibilidade de aparecerem, nem que seja por alguns segundos, no noticiário noturno das televisões.
O júri popular, uma boa idéia que se transformou em circo. Não consigo imaginar que haja qualquer possibilidade de justiça em um espetáculo armado para tudo, menos para buscar as reais motivações de um crime ou para elucidá-lo racional e cabalmente. Há muito mais emoção que razão, num júri popular. Há mais opiniões que provas. Mais, muito mais palavras, que argumentos. Manipulam-se as primeiras, torcem-se os segundos. E mente-se. Mente-se de forma cândida ou cínica, mas mente-se muito. Sobretudo o que se busca é enganar os sete jurados postados como lídimos representantes de uma sociedade muito mais complexa do que ousam imaginar esses sete patetas apatetados, sonolentos, cansados após horas e horas de falação, de leituras dos autos e de muitos, muitos depoimentos, exaustos depois de dias e dias de uma rotina absurda de comer, dormir e ouvir, exauridos em sua capacidade de raciocínio e de tirocínio que, finalmente, se sentem imbuídos e incumbidos do dom mágico de decidir se um assassino confesso deve ou não ser julgado inocente ou culpado.
Isso, para mim, não passa de uma grande, uma imensa palhaçada, com todo o devido pedido de mil desculpas a todos os palhaços do mundo.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:42 PM
Sábado, Julho 15, 2006
SUPERMAN, O RETORNO... DA SOLIDÃO
Eu e meu amigo Vitório. Tínhamos mais ou menos quatorze anos. Empolgados por quadrinhos, gibis de super-heróis e bang-bang. Com os parcos recursos de nossa miserabilidade, formamos uma coleção. Um orgulho. Sei lá quantas revistas... coloridas, mágicas, páginas de paixão, felicidade e fuga para uma outra realidade. Para mundos pirados de imaginação delirante. Um dia, a coleção inteira sumiu. Desespero. Choro. Encontramos as pegadas do possível larápio: uma pegada inteira e outra pela metade, só a frente do pé. Só podia ser o fulano, que mancava, que tinha uma perna meio atrofiada. Mais, muito mais pobre que nós. Prova? Nenhuma. Só a suspeita. Só a suspeita e a certeza de que nunca mais conseguiríamos nem reaver nem fazer outra coleção. Minha paixão por gibis arrefeceu aí. Depois, a vida me levou para outros caminhos. Não voltei aos gibis. Mas, como de tudo fica um pouco, ficou um pouco, um pouco não: muito, muito de minha paixão, ficou em meu filho caçula. Professor de História, leitor e amante de gibis e super-heróis. Cada estréia de filme, um sobressalto: a espera angustiada e a ida ao cinema na primeira sessão, para ter o gosto de ver e rever, várias vezes, e discutir com os amigos, e estabelecer comparações, e analisar.
Às vezes, acompanho-o nessas primeiras sessões, entre adolescentes agitados e adultos não menos entusiasmados. Foi assim com Superman, o Retorno. Depois de quase duas décadas, um novo filme do herói alienígena, do homem de aço a cruzar o céu de Metrópolis. Confesso que não tinha nenhuma expectativa, nem contra nem a favor. Havia assistido ao Batman, meses atrás e gostara. Um belo filme. Mas, do cinemão americano de aventura sempre fico com um pé atrás: nunca se sabe o que pode sair. Estragam boas idéias com roteiros pífios ou a tudo superficializam com excesso de efeitos especiais.
Ontem à tarde fomos à primeira exibição de Superman, o Retorno. Surpresa. Lá está o herói inteiro, preservadas suas características, num filme gostoso de ver, com um roteiro inteligente, com os efeitos especiais, sim, mas a serviço da dramaturgia. Há muito o que se falar desse Superman, mas o que mais me chamou a atenção foi um detalhe de sua personalidade: a solidão. A profunda solidão do super-herói.
Seu planeta de origem desapareceu. Superman é órfão de pais e de pátria. Um ser estranho num planeta estranho. Homem entre homens, mesmo como Clark Kent, não é igual aos outros: tímido, tem poucos amigos e uma paixão. Uma paixão solitária. Lois Lane, diante de seu sumiço por cinco anos, já tem outro amor. E um filho. Superman está ainda mais só no mundo: a mãe que o acolhe de novo não pode visitá-lo no hospital, quando está entre a vida e a morte. O reencontro com Lois aprofunda a solidão no beijo que não se materializa: ela pertence a outro. E Superman cruza o espaço para salvar mais uma vez o planeta. Sozinho na sua luta contra o arquiinimigo Lex Luthor, sozinho e inerte pela kriptonita, surrado e jogado ao mar, até que é salvo pelo olhar do filho de Lois, que pode ser o seu filho. A lembrança do pai, ao visitar o menino, à noite, sozinho, enquanto ele dormia, aprofunda ainda mais o sentimento de estar só no mundo. E quando se despede de Lois Lane, tem consciência de que o espaço infinito à sua frente é limite dessa solidão. O herói solitário continua mais do que nunca solitário. Embora solidário. E talvez a solidariedade de seus atos para salvar o mundo, mesmo quando reconhecida, complemente e até aprofunde a solidão: os aplausos dos torcedores de basebol, na cena do avião, encontram o herói sozinho, profundamente sozinho, no topo da escada. E ele apenas observa... e voa.
Superman, o retorno do super-herói solitário como todos os heróis que só existem em nossos desejos e em nossa imaginação. Mesmo que não mais colecione gibis, mesmo que a lembrança de um fato distante de minha infância tenha enterrado em mim o prazer da viagem aos mundos delirantes dos quadrinhos, ainda assim há uma lágrima em meus olhos, pelo menino que fui, pelo homem que sou, pela possibilidade que ainda tenho de recuperar sentimentos idos e vividos, de esperança de um mundo que não precisasse mais de super-heróis, como Lois Lane, no filme, chegou a pensar. E então, lembro Brecht: infeliz é o mundo que precisa de heróis para salvá-lo. E nós precisamos. Para nos salvar de nossa estupidez. E de nossa profunda solidão.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:19 PM
Quinta-feira, Julho 13, 2006
MARCOLA, O LEGALISTA
Frase do Marcos Camacho, o Marcola, aos deputados da CPI do Tráfico de Armas, no dia 8 de junho, durante interrogatório no Centro de Readaptação Penitenciária de Presidente Bernardes:
Não fui eu que dei início nisso, mas, se derem as condições dignas para os presos que estão lá (na Penitenciária 2 Presidente Venceslau), SE CUMPRIR A LEI 7.210, SÓ SE CUMPRIR A LEI, NÃO HÁ POR QUE TER OS ATENTADOS.
Ou seja, o bandido, o fora-da-lei, o traficante de drogas e armas, o homem que comanda a bandidagem no Estado mais rico da Nação, exige que os nossos governantes cumpram a lei. Isso mesmo: que o Governador, a Secretaria de Segurança, a Secretaria de Administração Penitenciária, o Ministério Público, a Justiça, os senhores Juízes cumpram a Lei de Execução Penal. Apenas isso. Cumpram a Lei.
Ora, alguma coisa está errada nisso. Se o bandido mais temido do Estado, ou do País, está exigindo que uma lei seja cumprida, é porque todas as barreiras da legalidade já foram ultrapassadas. E há muito tempo. Não se está sabendo mais como lidar com a Justiça. Não se está mais sabendo como lidar com bandidos. O Estado de Direito faliu. A caixa-preta do Governo do Estado de São Paulo, há doze anos em mãos, digo, em bicos tucanos está mais preta do que nunca.
Por que, justamente o atual mandatário do Estado, liberal de carteirinha, mas atrelado ao tucanato por dever de negociatas políticas e politiqueiras, vem a público dizer que está tudo sob controle e, por isso, rejeita ajuda do Governo Federal para tirar a população do regime de terror imposto pelo legalista Marcola, a partir de uma cela de segurança máxima de um presídio estadual?
E o Secretário de Segurança afirma que em vez de tropas, ele quer dinheiro? Dinheiro para quê? Para comprar o Marcola? Ou para mandar matá-lo, numa possível farsa de fuga? Para construir mais penitenciárias de segurança máxima que não seguram ninguém? Ou para consertar o estrago feito pelos asseclas do legalista Marcola em suas inúmeras rebeliões?
Enquanto isso, nós, os cidadãos, assistimos, desolados, impotentes, mas indignados, à insensibilidade dos empresários de transporte público do Município de São Paulo, também nas mãos de um coleguinha de partido do governador, ao deixar a população a pé, porque os amiguinhos legalistas do todo-poderoso Marcola queimaram alguns ônibus por aí. E ninguém faz absolutamente nada. Claro: pedir que cumpram a lei, nem pensar. Isso até o Marcola já pediu. Aliás, pediu não: exigiu.
E rimos, quando alguém, talvez um engraçadinho, talvez um seriíssimo assecla do bandido, estendeu, há uns dois meses, depois da primeira onda de terror, uma faixa na Marginal do Tietê com os dizeres: Marcola para governador. Rimos um riso amargo, porque pensamos: para quê? Se ele já é o Governador! E com uma plataforma de governo legalista! Pedindo ordem e, por que não progresso também?
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:22 PM
MARCOLA, O LEGALISTA
Frase do Marcos Camacho, o Marcola, aos deputados da CPI do Tráfico de Armas, no dia 8 de junho, durante interrogatório no Centro de Readaptação Penitenciária de Presidente Bernardes:
Não fui eu que dei início nisso, mas, se derem as condições dignas para os presos que estão lá (na Penitenciária 2 Presidente Venceslau), SE CUMPRIR A LEI 7.210, SÓ SE CUMPRIR A LEI, NÃO HÁ POR QUE TER OS ATENTADOS.
Ou seja, o bandido, o fora-da-lei, o traficante de drogas e armas, o homem que comanda a bandidagem no Estado mais rico da Nação, exige que os nossos governantes cumpram a lei. Isso mesmo: que o Governador, a Secretaria de Segurança, a Secretaria de Administração Penitenciária, o Ministério Público, a Justiça, os senhores Juízes cumpram a Lei de Execução Penal. Apenas isso. Cumpram a Lei.
Ora, alguma coisa está errada nisso. Se o bandido mais temido do Estado, ou do País, está exigindo que uma lei seja cumprida, é porque todas as barreiras da legalidade já foram ultrapassadas. E há muito tempo. Não se está sabendo mais como lidar com a Justiça. Não se está mais sabendo como lidar com bandidos. O Estado de Direito faliu. A caixa-preta do Governo do Estado de São Paulo, há doze anos em mãos, digo, em bicos tucanos está mais preta do que nunca.
Por que, justamente o atual mandatário do Estado, liberal de carteirinha, mas atrelado ao tucanato por dever de negociatas políticas e politiqueiras, vem a público dizer que está tudo sob controle e, por isso, rejeita ajuda do Governo Federal para tirar a população do regime de terror imposto pelo legalista Marcola, a partir de uma cela de segurança máxima de um presídio estadual?
E o Secretário de Segurança afirma que em vez de tropas, ele quer dinheiro? Dinheiro para quê? Para comprar o Marcola? Ou para mandar matá-lo, numa possível farsa de fuga? Para construir mais penitenciárias de segurança máxima que não seguram ninguém? Ou para consertar o estrago feito pelos asseclas do legalista Marcola em suas inúmeras rebeliões?
Enquanto isso, nós, os cidadãos, assistimos, desolados, impotentes, mas indignados, à insensibilidade dos empresários de transporte público do Município de São Paulo, também nas mãos de um coleguinha de partido do governador, ao deixar a população a pé, porque os amiguinhos legalistas do todo-poderoso Marcola queimaram alguns ônibus por aí. E ninguém faz absolutamente nada. Claro: pedir que cumpram a lei, nem pensar. Isso até o Marcola já pediu. Aliás, pediu não: exigiu.
E rimos, quando alguém, talvez um engraçadinho, talvez um seriíssimo assecla do bandido, estendeu, há uns dois meses, depois da primeira onda de terror, uma faixa na Marginal do Tietê com os dizeres: Marcola para governador. Rimos um riso amargo, porque pensamos: para quê? Se ele já é o Governador! E com uma plataforma de governo legalista! Pedindo ordem e, por que não progresso também?
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:20 PM
Segunda-feira, Julho 10, 2006
TEMPO DE UTOPIAS
Começou a temporada de caça aos votos. De caça aos eleitores. Melhor seria dizer: chegou o tempo de utopias. Mas, realmente, não são utopias o que vendem os candidatos, seja a que cargo for. Vendem mentiras. Simples mentiras. Todos eles, sem exceção. Porque não se sobrevive a uma campanha política sem a mentira, sem a falsidade, sem arrogância dos que sabem que mentem e falseiam a realidade. Eles sabem que não conseguem se eleger, se não adular o eleitor, se não idiotizá-lo com jingles de refrigerantes ou anestesiá-lo com a repetição dos mesmos bordões. Haja paciência!
E por que é preciso mentir? E por que é preciso iludir? Será que nós, eleitores, é que condicionamos a estratégia da mentira através da suprema vontade de que, um dia, nossos sonhos de melhoria de vida se realizem através das palavras de políticos? Por que somos assim?
É difícil, muito difícil responder. Precisamos de profetas, como do ar que respiramos. Precisamos de condutores, como ovelhas soltas num pasto imenso que termina num abismo. Sonhamos nossos sonhos através dos sonhos e das mentiras de políticos irresponsáveis. Porque, se somos culpados por criarmos as ilusões que atraem os que pregam utopias, somos também vítimas de inescrupulosos que nos manipulam com suas promessas. Há, no entanto, um acordo mútuo: enganem-nos, não porque nós gostemos, mas porque não há outra saída. E nós finjimos acreditar naquilo que nem vocês mesmos acreditam.
Há coisas assim, para entrar um pouco no terreno prático: alguém apregoa mais dinheiro para a agricultura, que o destino do País é ser o celeiro do mundo. Ora, o que é isso? Todos sabemos da importância do agro-negócio e da quantidade absurda de dinheiro que seus empresários manipulam. Como e por que é preciso dar mais dinheiro para eles? O buraco, que era bem mais para cima, fica cada vez mais embaixo. E todo mundo aplaude.
Outro berra por escola básica, mais dinheiro para a escola básica. Ora, constitucionalmente, escola básica é dever dos municípios, através dos repasses também constitucionais do Governo Federal. Há que se escolherem melhores prefeitos, para a melhoria do ensino básico. Enfim, berrar que todos os meninos e meninas irão para a escola garante os aplausos e alguns votos também.
Outros gritam por independência econômica e financeira, por melhor gestão disso e daquilo, por melhoria não sei aonde e que o povo precisa de garantia de um governo honesto ou precisa ter participação nas ações do governo e blá, blá, blá. E garante olhares de esperanças e mais alguns votos, é claro.
Palavras. Palavras. Palavras. Planos recheados de palavras. Promessas recheadas de palavras. Protestos eivados de palavras. Passeatas com lindas palavras de ordem. Palavras. O povo passa a viver delas, a depender delas, a bebê-las e a comê-las ao acordar, ao almoçar, ao jantar, ao trabalhar, até ao dormir. Palavras. Nada mais que palavras. Porque todos sabemos que honestidade não se apregoa nem é atestado de bom governo. O político pode ser honesto e não fazer nada. Ou pode ser ladrão e realizar grandes obras. Superfaturadas, é bem verdade. Mas às vezes o povo gosta é disso mesmo: do rouba mas faz. Enfim, será que o povo, ou melhor, nós sabemos mesmo o que queremos. Será que algum instituto de pesquisa já levantou tim-tim por tim-tim o que realmente queremos, do que realmente precisamos, quais são os nossos sonhos e as nossas esperanças? Qual é o índice de felicidade de um povo? E de onde vem a felicidade de uma nação, a nossa felicidade? De onde?
Enfim, é tempo das palavras vãs, da venda das utopias, das mentiras mais deslavadas, das promessas mais estúpidas. Enquanto isso, a realidade de milhões de miseráveis vai sendo pouco a pouco esquecida, empurrada cuidadosamente para debaixo do tapete vermelho dos salões elegantes de onde todas as oligarquias e todos os poderosos ironizam nossa estupidez e aplaudem as palavras vazias de todos os políticos, de qualquer coloração, de qualquer ideologia. Porque eles, os ricos e poderosos, senhores sempre de tudo e de todos, sabem muito bem de onde vem o melhor vinho que bebem e o melhor caviar que comem. Enquanto nós, o povo, nem sabemos muito bem o que é felicidade e de onde ela vem. Só sabemos que das utópicas palavras dos políticos, de suas promessas inúteis, não sairá nada que nos leve aonde nem nós mesmos sabemos. Porque elas, as palavras dos políticos, embruteceram em nós até a capacidade de sonhar.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:53 PM
Quinta-feira, Julho 06, 2006
REFORMA POLÍTICA: VOLTO OUTRA VEZ AO TEMA
Época de eleições. Todo candidato fala em reforma política. Todo articulista e todos os comentaristas políticos falam em reforma política. Mas todos, sem exceção, caem no mesmo chororô de sempre: as mordomias dos políticos, a falta de produtividade do legislativo, leis mais duras para corruptos etc., etc, etc. Ou seja: de reforma mesmo, nada. Porque tudo isso é perfumaria.
Vejam um exemplo: reclamam que deputado federal ganha muito (e também os estaduais, os vereadores...). Qual é o real salário de um deputado federal? Cerca de doze mil reais. Mas, sabe o quanto ele custa, ao final do mês, para os nossos bolsos, com todas as verbas adicionais? Cerca de cem mil reais!
Ora, convenhamos: fazer reforma política para deputado diminuir o salário e manter as verbas todas é besteira. Então, se é para mudar isso, tem de mudar de forma radical. Ou seja, não adianta acharmos que nossos representantes legislativos (deputados, senadores, vereadores) precisam ganha menos. Ao contrário: devem ganhar bem, muito bem. Que tal um salário de cinqüenta mil reais para deputados federais e senadores? Pois é: pode parecer muito, mas se isso for só isso o que ele ganha, e mais nada, sem verba para isso e para aquilo, sem franquia de correio, sem passagem aérea, sem moradia etc., pode ser um salário bastante razoável para se manter numa cidade como Brasília. E mais: controle de horas trabalhadas, como qualquer outro trabalhador. E mais: sem direito à reeleição! Isso, sim, é o mais importante.
Quer ser deputado ou senador? Pois bem: vá lá, faça o seu trabalho e volte. Sem essa de ficar esquentando lugar a vida inteira, tornando-se mais do que um profissional da politicalha, dos esquemas de roubalheira no orçamento, das picuinhas que travam o trabalho legislativo, etc. Com um mandato de cinco ou seis anos para todos os cargos. Sem reeleição, sem reeleição! Acho que é tempo suficiente para o cara bem intencionado fazer algo por seus eleitores e os outros, aqueles nem tanto, também deixarem a vida pública. Não consigo respeitar um ACM da vida, que é deputado e senador há não sei quantos milênios, falando sempre as mesmas baboseiras, fazendo sempre as mesmas coisas, e mais: preparando terreno para os filhos, para os netos e bisnetos, como se, além de vitalício, o emprego fosse genético, passa de pai para filho...
E ainda há mais: não adianta votar em político que promete reforma política. Porque eles não vão fazer, mesmo, qualquer reforma que não seja paliativa, preservando todos os seus privilégios. Porque ninguém quer perder a sua sinecura. A eles não interessa nenhuma reforma que contrarie seus interesses. O povo deve lutar por uma verdadeira reforma política que não seja feita por políticos. Que seja feita por uma espécie de constituinte da reforma política eleita diretamente pelo povo, sem que dela possa fazer parte qualquer político, ou seja, qualquer indivíduo filiado a partido político ou que ocupe ou tenha ocupado qualquer cargo de natureza política. Uma constituinte da reforma política com pessoas comprovadamente probas da sociedade. Que faça audições públicas em dezenas de cidades, consulte o povo, faça pesquisas etc., para chegar a uma reforma que atenda aos interesses da Nação e não dos políticos. Aprovada, ao final, em plebiscito, pela maioria dos cidadãos.
Quero, como todos nesse País, uma verdadeira REFORMA POLÍTICA, feita pelo povo através de seus legítimos representantes, não a que os políticos dizem que farão.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:07 PM
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