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{Quinta-feira, Junho 08, 2006}


LIÇÕES DE HIGIENE




1. Lavar as mãos. Sempre. Muitas vezes ao dia. Antes de comer. Depois de comer. Após um cigarro. Ao chegar da rua. Depois de um aperto de mãos, esse de forma discreta, depois, sem que o perceba o amigo. Lavar as mãos, sempre, muitas vezes durante o dia. Sem obsessão. Antes de sentar-se ao computador. Depois de ler o jornal. Sempre manter as mãos limpas. E o rosto de vez em quando. Com água fria, de torneira. Desperta e mantém a pele saudável.

2. Ainda a água, agora na higiene íntima. Após defecar, lavar-se sempre. Com água morna ou fria, mas lavar-se sempre. Papel higiênico só para se enxugar. E depois, com muito sabão, as mãos, mais uma vez e outra e outra mais. Não obsessivamente, mas lavar-se.

3. Escovar os dentes, sempre após as refeições, com calma. Alguns dentistas dizem que por quinze minutos, pelo menos. Mas escovar bem. E a língua, também: escová-la cuidadosamente. E as gengivas. Com escova macia e um bom creme dental. Mais uma vez a água: em abundância para enxaguar. Se usar um desses detergentes bucais, faça-o com moderação, muita moderação, não mais que uma vez ao dia. E usar, sempre, fio dental.

4. Roupa de cama: trocar sempre que possível. E colocar, se possível todos os dias, ao sol para matar os ácaros. Travesseiros também. Se tiver relações sexuais, mudar toda a roupa de cama. E lavar com algum tipo de germicida líquido. Na máquina ou no tanque, no molho.

5. Roupa íntima (meias, camisetas e camisas inclusive): troca obrigatória todos os dias. Sem perdão. E lavar, também, com algum germicida líquido, no tanque ou na máquina, ao deixar no molho. E enxaguar muito.

6. Banho: também diária é a obrigação. Com água morna, de preferência. Só no inverno, se não agüentar a morna, um pouco mais quente. Nunca quente demais, pois descama além do necessário a pele. Ao enxugar-se, friccione-se um pouco. Estimula a circulação.

7. Unhas: mantê-las curtas e limpas. Também as dos pés. Para a do dedão do pé, use, de preferência um corte reto, abaulado para dentro, para não encravar.

8. Fumo: fuja! Mas, se for impossível: no máximo dez cigarros por dia; não fume com estômago vazio; não fume em lugares fechados, principalmente no quarto de dormir; não fume diante de doentes e crianças; não fume ao volante.

9. Evitar: coçar os olhos, levar a mão à boca, usar palitos de dentes, ficar em casa com sapatos de rua (é bom manter um tapete na entrada da casa ou do apartamento, para limpar os sapatos antes de entrar), andar descalço, usar roupas e sapatos apertados, usar roupas íntimas de tecido sintético, beber e comer apressadamente e pisar em cocô de cachorro, na rua.

Bem, por que todos esses conselhos agora?, pode estar perguntando eventual leitor. Ficou louco o articulista?

Você conhece Isaac Asimov? Já leu algum de seus livros? Asimov escreve ficção científica. Da melhor qualidade. Ou escrevia, pois faleceu há poucos anos. Deixou obra memorável. Seus melhores contos e romances falam de robôs. Até criou as leis da robótica, para dirigir o comportamento dos robôs. Já ouviu falar? São elas:

¿ 1ª lei: um robô não pode fazer mal a um ser humano nem, por inação, permitir que algum mal lhe aconteça.
¿ 2ª lei: um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, exceto quando estas contrariarem a primeira lei.
¿ 3ª lei: um robô deve proteger a sua integridade física, desde que com isto não contrarie as duas primeiras leis.

Então, há um conto de Asimov em que nenhum computador consegue fazer os cálculos do salto quântico, que possibilitará as viagens interplanetárias. Todos entram em pane, num determinado momento. E os cientistas não sabem por quê. A última possibilidade é um supercomputador, um cérebro eletrônico de última geração, capaz de quase tudo. As fórmulas e os dados complexíssimos são, então, jogados em sua memória. Depois de algum tempo, o computador parece que enlouquece. Começa a ficar estranho, a cantar canções e dizer coisas desconexas, como se precisasse alhear-se do que acontece em seu interior. Depois de muita expectativa, os resultados aparecem e a fórmula do salto quântico é entregue aos cientistas. Que procuram, então, saber o que aconteceu com o supercérebro, que enlouquecera e se alheara, como se sonhasse ou entrasse em zonas imprecisas, enquanto realizava a tarefa. E descobrem que, para realizar o salto, a nave e a tripulação precisariam desintegrar-se (morrer) por algum tempo, para reintegrar-se (ressuscitar) depois, no infinito do espaço sideral. Os computadores não faziam o cálculo porque isso implicaria a morte de seres humanos, o que contrariava a primeira lei. O super-cérebro, no entanto, percebera que a morte era transitória, embora real, pois havia um renascer futuro. O que ele fez? Alheou-se, passou a cantar óperas, a dizer poesia, a fazer-se de louco, enfim, para iludir a rigidez da primeira lei.

Foi mais ou menos isso o que fiz: não estou, no momento, conseguindo escrever o que eu quero, ficção. Também a realidade que me cerca anda tão deprimente, tão trágica até, que preciso dar um tempo, enlouquecer um pouco, aliviar meu cérebro e tentar, quem sabe? fingir que nada acontece, que é preciso ver o futuro e voltar a uma certa lucidez mental para, então, conseguir realizar o salto que meu cérebro se recusa a dar. Por isso, essas lições de higiene, que devem servir para alguma coisa, afinal.




posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:50 AM


{Quarta-feira, Junho 07, 2006}


VANDALISMO


Acordei tarde, muito tarde. De propósito. Não vi televisão, não ouvi rádio, não li jornais, não acessei a página de notícias da Internet. Não queria ver e ouvir, de novo, o que aconteceu ontem, no Congresso Nacional. As imagens falavam por si mesmas. E eram feias, muito feias. Não mereciam ser revistas. Também não queria ver deputados histéricos buscando culpados, falando em hecatombe, em fim das instituições. Tudo isso se transformava, dentro de mim, em um bloco só de insensatez e estupidez, numa mistura de nojo e descrença na racionalidade humana.

Não, de forma alguma se justifica o vandalismo. Venha de onde vier. De religiosos, de professores, de bandidos ou de torcedores. Vandalismo é estupidez. Destruir bens e equipamentos úteis significa dar demonstração da mais pura estupidez humana, dos mais baixos instintos de primitivismo. Incomoda-me, e bastante, qualquer ato de vandalismo: querer atingir o homem destruindo o que ele construiu é mais do que estupidez: é ilógico, não está na área do racional. Para quê? Com que objetivo? Os seres inanimados não têm em si mesmos qualquer potencial de ameaça, a não ser que se constituam em barreira, em impedimento, o que não era o caso. Um bando de homens e mulheres a reivindicar mudança numa lei, liderados por pessoas que pareciam ter suas faculdades lógicas em pleno funcionamento, não podem, de repente, explodir suas neuroses num ato de violência gratuita contra tudo o que encontra pela frente.

Não houve e não há, nesse tipo de atitude, nenhum objetivo de destruir as instituições ou de provocar qualquer tipo de crise política, social ou econômica, mas simplesmente a ação de indivíduos desprovidos momentaneamente, sei lá, de qualquer racionalidade, incentivados pelo poder que confere aos fracos o fato de estarem em grupo. O que, absolutamente, não justifica o que aconteceu. E extrapolar para a criação de uma crise política é tão insano quanto os atos dos vândalos. Querer tirar proveito político de um ato isolado de burrice é passar atestado de burrice. E se azucrinam, urram, ululam os senhores deputados da oposição é porque são eles também asnos a criar delírios de estupidez num deserto de soluções em que se transformou a atual legislatura.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:27 PM


{Terça-feira, Junho 06, 2006}


JÚRI POPULAR: UM CIRCO CARO E DESNECESSÁRIO



Julgar não é preciso. Sempre há dúvidas. Sempre há o outro lado. Sempre há sentimentos e emoções. E as sentenças são, sempre, controversas, passíveis de erros. Se existe a Justiça para julgar, nunca se sabe ao certo se houve justiça ou injustiça num julgamento. Sim, julgar não é preciso. Mas o homem ainda precisa de tribunais. E tribunal é coisa séria. Ou, pelo menos, devia ser.

No entanto, há o chamado júri popular. O tribunal dito democrático. Parece uma boa idéia. Ou foi uma boa idéia. Que se transformou em circo, em palhaçada, em espetáculo para proezas oratórias de advogados e adevogados. Com a prevalência dos últimos. E, é claro, estamos falando de Brasil, de São Paulo e, especialmente, de um certo julgamento devia ter ocorrido ontem, 5 de junho de 2006.

Se julgar não é preciso, o júri popular é mais ainda impreciso, sujeito a variações de temperatura e pressão, quando jurados (escolhidos como representantes da sociedade) são enrolados e embrulhados pela perspicácia de promotores ou causídicos dispostos a tudo para ganhar a causa, não importa o crime, não importa o réu, não importam as vítimas: o importante, num júri popular, é ganhar a causa. Isso dá prestígio. E prestígio traz novos clientes. E novos clientes trazem ganhos, lucros, dinheiro no bolso, que ninguém é de ferro. Dinheiro que podia ser honesto, mas não é. Porque ganho através de artifícios, muitas vezes de mentiras e teorias estapafúrdias, de manipulação de emoções, de espetáculo mambembe de quinta categoria.

O que se viu, ontem, em São Paulo é exemplo mais do que suficiente para continuar defendendo a minha tese: júri popular é circo. Que precisa ser extinto. Ou só usado em condições e situações muito especiais. Quando advogados de réus confessos fazem manobras que podem até ser legais, mas claramente anti-éticas, de afronta não só à Justiça mas também à sociedade, é porque o limite de tolerância a esse tipo de julgamento público já está esgotado. Transformou-se em circo, onde palhaços fazem de tudo para aparecer na mídia, em nome dos interesses de seus clientes, quando, na verdade, o interesse maior é o da sociedade que banca com impostos o preço (alto) desse espetáculo e quer ver resultados, ou seja, quer que criminosos sejam punidos e inocentes sejam absolvidos.

Mas não é o que acontece sempre, nesse tipo de julgamento: mesmo quando há provas mais do que contundentes contra os réus, mesmo quando há confissão de culpa. Nunca se sabe o que podem aprontar os defensores ou os promotores. E o júri (representado por pessoas comuns e não afeitas aos tecnicismos jurídicos) fica exposto a emoções, a manobras e a argumentações espúrias e falseadoras da realidade. E o resultado, pífio. Decepcionante, mesmo.

Para encerrar: só me espanta que a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), essa organização corporativista, tão medieval na sua origem e na ciosa proteção e defesa de seus interesses e de seus associados, não faça absolutamente nada contra a falta de ética desses advogados. Meter-se em política, a soldo de partidos burgueses, ela sabe muito bem, posando de vestal para uma sociedade já aturdida com escândalos, com roubalheiras e outras falcatruas. Não tem a OAB procuração dessa sociedade para defendê-la, nem moral para isso, quando é tão benevolente e omissa em relação aos deslizes éticos e até mesmo aos crimes cometidos por advogados inescrupulosos. Acho que devia, a OAB, cuidar mais de seu galinheiro, que anda muito sujo, e deixar de lado a política partidária.








posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:26 PM


{Segunda-feira, Junho 05, 2006}


AMBIENTE E VIDA

A Terra, em relação ao Universo, não passa de um grão de areia, ou menos. Um organismo frágil em relação às forças terríveis que, um dia, formaram tudo quanto vemos, tudo quanto existe. Na sua expansão, o Universo carrega em si mesmo a destruição e a reconstrução, no meio das quais há planetas, sóis, estrelas, objetos, enfim, que a mente limitada do homem mal ousa imaginar. E dentro desse Universo fantástico, estamos nós, navegantes desconhecidos, a habitar um planeta que nos é, ao mesmo tempo, a única casa em podemos, por enquanto, habitar, e o túmulo da vida, se não soubermos viver e sobreviver em harmonia com as leis da natureza.

O homem pensa que preservar a natureza significa preservar florestas, rios e animais. Ledo engano. Preservar a natureza significa simplesmente preservar o próprio homem. Numa simulação em termos de horas, se a Terra tivesse sido formada há 24 horas, o homem estaria surgindo nos últimos minutos, ou seja, somos seres muito recentes em relação à idade de nosso planeta. Que já passou por inúmeras transformações, dramáticas transformações, como o aparecimento e desaparecimento de milhões de criaturas, algumas tão fantásticas e aparentemente tão resistentes quanto os dinossauros que, no entanto, desapareceram muito antes de o homem surgir.

Nossa estupidez e irresponsabilidade no trato de nossa casa, ao destruirmos a natureza que nos dá a vida, possivelmente causará à Terra alguns problemas sérios, mas ela sobreviverá e gerará outros seres, outras vidas, diferentes das que existem hoje, e seguirá sua trajetória dentro do Universo, sem nem ao menos sentir qualquer abalo maior com o nosso desaparecimento. Sim, porque o que precisamos preservar, acima de tudo, não é a Terra, é a vida humana.

A sobrevivência humana é que está em jogo, não a Terra, podem estar certos disso todos os homens, todos os governos, todos os povos. Porque o homem é o único animal que tem a capacidade de destruir a si mesmo.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:02 PM


{Sexta-feira, Junho 02, 2006}



VOTAR NULO RESOLVE?



Corre pela Internet a piada do senador que morreu e, a mando de São Pedro, foi fazer estágio no inferno. Encontrou todos os seus amigos num ambiente de prazer e festa. Depois, fez estágio no céu, onde encontrou um ambiente de calma e tédio. Preferiu, é claro, o inferno. Ao voltar, deparou com um ambiente de desolação e sofrimento. Inquiriu o capeta, que lhe respondeu que, antes, estavam em campanha e, agora, já tinham conquistado o seu voto.

É claro que estraguei a piada, contando-a desse modo. Porque, simplesmente, não quero perder tempo contando uma piada. Que tem o jeito e o objetivo de ser uma piada fabular. Lembra aqueles contos de La Fontaine, como a raposa e as uvas? Pois é: isso mesmo, uma fábula com moral. Que tem por objetivo nos dar uma lição. E acho que todos perceberam a lição por trás da história do senador. Não é preciso, portanto, representar a piada, para todos entenderem.

O que ocorre é que esse tipo de piada está sendo usado como argumento, por muitas pessoas, da defesa do voto nulo. E isso não é piada. É sério. È um problema muito sério, que precisa ser mais bem entendido e debatido. E sem piadinhas, de preferência, embora o chiste derrisório tenha muito mais alcance do que a discussão aprofundada de um tema.

Não sou contra o voto nulo, mesmo porque é um direito do cidadão. Faz parte da democracia. Pode ser, e muitas vezes é, uma forma de protesto. Só não pode ser entendido como forma de anular uma eleição, idéia que também corrido na Internet: nossa legislação não prevê que se anule um pleito por excesso de votos nulos.

Mas é preciso discutir o voto nulo. Será que resolve?

Vejamos. Numa democracia republicana representativa como a nossa, é preciso escolher nossos representantes, aqueles que terão, durante um certo tempo, o direito e o dever de nos governar, construindo obras e propondo leis e outros regulamentos da sociedade, segundo os seus princípios. E aí, nos princípios, começa a encrenca. Como os candidatos se reúnem em partidos políticos e partidos políticos precisam ter princípios, isso é, uma posição, digamos, filosófica, em relação à sociedade e à forma como ela deve funcionar, eu preciso escolher qual dos partidos tem os princípios mais próximos do que eu penso ou imagino como a sociedade a que eu pertenço deva funcionar. Isso seria, mais ou menos, o ideal.

No entanto, o que ocorre? Algumas pessoas se reúnem, discutem, escrevem uma carta de princípios (estatutos), elegem alguns valores éticos, registram na Justiça Eleitoral e vão à busca de quadros, pessoas que tenham as mesmas idéias. E aí começa o balaio de gatos: o que interessa, realmente, não é a identificação do pensamento e da forma de encarar o mundo, os tais princípios, entre os indivíduos e o partido, mas a capacidade de cada filiado agregar densidade eleitoral, ou seja, atrair eleitores. Não importam as pequenas (nem as grandes) discordâncias com os tais princípios. Tampouco os valores éticos. Na mesma hora em que são redigidos, os tais princípios e valores éticos são jogados na lata de lixo pelo pragmatismo.

É claro que alguns princípios gerais predominam, por isso os partidos políticos não são, essencialmente, iguais. Tornam-se iguais no pragmatismo da vida pública, em que prevalece a ética da farinha pouca, meu pirão primeiro. Ou seja, a luta individual e individualista pela sobrevivência e pelo poder a qualquer custo. Porque, uma vez tomado o caminho da política, não há retorno. Ou o cidadão se profissionaliza ou morre de fome. E profissionalizar-se implica aceitar, na maioria dos casos, as regras de uma engrenagem muito bem lubrificada de lutas internas, de arrecadação de fundos, de corrupção, em que a ética e os valores fundamentais, sejam do partido, sejam do próprio indivíduo, contam muito pouco.

Assim caminha o candidato: para ser eleito, precisa ter poder; para ter poder, é preciso eleger-se. Entre o fogo e as brasas, alianças espúrias, mentiras e falcatruas são o doce veneno à sua disposição. Não adianta ir à mídia e defender idéias de como a sociedade deve funcionar; não adianta debater propostas para uma nova ordem social ou política; não adianta levantar os grandes problemas que afligem as populações e mostrar soluções; não adianta escudar-se em valores abstratos como justiça, defesa do meio-ambiente, eliminação da pobreza, igualdade, fraternidade etc; não adiantam a ética, os valores humanistas, as intenções: o que leva um candidato a ser eleito é o slogan que gruda na memória; as promessas concretas, por mais estapafúrdias que sejam; os gestos demagógicos; a eloqüência exacerbada; a crítica aos opositores; a mentira e a falsidade, enfim. Tudo para agradar ao eleitor. E perpetuar-se no poder.

E mais: para eleger-se e reeleger-se, vale tudo. Vale corromper e ser corrompido. Valem tanto o milhão escuso do caixa dois de empresários suspeitos quanto o tostão do empregado de banco que acredita inocentemente nas promessas absurdas do candidato. A corrupção não é apanágio de tal ou qual partido: é condição de todos. Quem caminha pelo charco não tem como não sujar os pés. E por que transformamos a política em charco, em terreno minado, em balcão de trocas?

Essa, talvez, seja a pergunta básica. E não há uma resposta simples. Teríamos de tecer um verdadeiro tratado filosófico e sociológico do povo brasileiro para buscar a resposta. Não há, e nenhum povo é assim, o tal brasileiro cordial. Tampouco somos mais estúpidos ou mais corruptos que os demais povos. Somos o que somos, e criamos para nós estratagemas que escondem as nossas mazelas históricas de nação híbrida, de povo em formação, como se tivéssemos inventado o jeitinho, a criatividade, um modo diferente de ver o mundo. De sociedade escravocrata e agrícola, em pouco mais de um século nos transformamos em um povo urbano e industrializado, sem transições, queimando etapas, inchando cidades e construindo obras sem nenhum planejamento (lembro, aqui, as ferrovias abandonadas, como exemplo). Somos, na verdade, o país do caos. Com um povo que apostou no desenvolvimento em todas as direções, sem qualquer constrangimento, sem necessidade de guerras de conquista e sem outros obstáculos que não fossem a nossa própria urgência. Como se o tempo perdido no século dezenove, quando ainda nos debatíamos entre o atraso imposto pela condição de colônia e uma aristocracia rançosa, pudesse ser recuperado sem uma organização social, política e econômica que desse sustentação ao processo de construir uma nação moderna. E sem um estado organizado e estruturado em cima de valores básicos, a república que se constituiu tornou-se frágil e presa fácil de uma elite mal preparada e absurdamente conservadora, a mesma aristocracia rançosa do tempo do império, agora travestida em republicana, para permanecer no poder. Poucos, muito poucos os presidentes ou ditadores de plantão que tivessem uma visão moderna de administração pública ou, ao menos, tivessem um lampejo de futuro. Ao contrário, procuraram, todos e cada um deles, estabelecer formas de controle e aparelhamento do Estado e marcar sua administração por suas idiossincrasias, sem que o povo tivesse a mínima oportunidade de discutir e decidir o seu próprio destino. Somos, politicamente, um povo dependente de líderes. Só muito recentemente temos obtido vitórias reais no campo da democracia, mesmo assim a duras penas. E vitórias mínimas, diria até: vitórias de Pirro. Derrubamos um presidente, mas não derrubamos o sistema que o elegeu e o sustentava. Os esquemas continuam os mesmos: mais uma vitória como essa e estaremos, sim, perdidos, definitivamente. Quando pensamos que a eleição de um presidente da República é decisão soberana do povo, ainda nos enganamos muito: a elite que se perpetuou no poder tem sob seus tentáculos toda uma rede de interferências diretas na opinião popular, através do domínio absoluto dos meios de comunicação. Não foi à toa que, durante a ditadura militar dos anos sessenta a oitenta, o ponto alto da administração dos militares tenha sido o desenvolvimento e a modernização de nosso sistema de comunicação social, principalmente a televisão. Graças a isso, a elite que se apossou desse fantástico sistema tem conseguido, na maioria das vezes, manter o status quo de governantes que atendam os seus interesses. E, para que tal ocorra, o nosso sistema eleitoral, republicano e pretensamente democrático mantém o modelo que permite todo tipo de maracutaia que temos até hoje. A Constituição atual, tão decantada como a constituição cidadã, tentou, com sua complexidade e prolixidade, iludir o sistema, mas só conseguiu, mesmo, perpetuá-lo, pois era e continua a ser uma lei inviável. O pragmatismo venceu, mais uma vez, o idealismo dos constituintes.

Diante disso, em termos políticos, temos regredido a olhos vistos. Porque o sistema corrupto e corruptor encontrou meios de fortalecer-se diante de uma sociedade desigual, mal informada (apesar de toda a tecnologia de informação) e deseducada. Também foi uma grande obra dos militares a obsolescência sistemática da escola pública e a entrega da educação aos empresários particulares. Ao lado da desigualdade econômica, criou-se a desigualdade educacional. A união entre o moderno sistema de comunicação de massas e a criação do sistema privado de ensino foi o golpe de mestre da estupidificação do povo. Os coronéis e seus currais eleitorais transformaram-se em donos de redes de televisão e empresários da educação, os primeiros oferecendo o circo e os últimos justificando academicamente a sua existência. Não precisavam, assim, nem oferecer o pão, o que gerou uma enorme economia de recursos para a acomodação dos vários segmentos dessa elite esperta e espertalhona que nos governa desde sempre. E aprofundou, é claro, o imenso fosso de desigualdade que nos aflige.

O formidável paraíso das negociatas está, assim, plenamente organizado. Não há político que escape desse sistema perverso e pervertido. Esse o verdadeiro crime organizado para espoliar, manter-se no poder e deixar ao povo apenas as migalhas necessárias à sua existência. Afinal, precisam do povo para que o seu poder se exerça e se cumpra. Triste destino de uma nação. Mas é essa a realidade que eu entrevejo e mal consigo descrever nesse breve artigo já tão longo.

Então, após toda essa digressão, volto ao tema: voto nulo resolve? Como forma de protesto, talvez. Mas como instigador de mudanças, não chega nem a fazer cócegas ao sistema podre que precisa ser extirpado como um câncer. Porque não há saída sem uma profunda reforma política. O problema é que, quando se fala em reforma política, os políticos acham que são eles que devem fazê-la. E aí o mingau azeda de vez: porque os menos indicados para isso são eles, os políticos. Legislarão, como sempre, em causa própria. É ilusão pensar que um político é contra o outro: podem ser adversários, mas inimigos, nunca. Porque dependem uns dos outros. É como imaginar uma tribo de antropófagos comendo-se uns aos outros. Impossível.

Quais políticos aprovariam uma reforma que impedisse, por exemplo, a reeleição para um mesmo cargo? E essa pode ser, não a solução, mas um mecanismo a dificultar a corrupção, ao impedir que eles se perpetuem no cargo. Quais políticos aprovariam uma reforma política que prescrevesse a fidelidade partidária, sob pena de perda do mandato? Também não seria a solução, mas outro mecanismo de controle das negociatas em que se transformaram as casas legislativas por esse Brasil afora.

Enfim, estamos num mato sem cachorro. A campanha pelo voto nulo só daria, talvez, algum resultado, se ganhasse a mídia, se tomasse mentes e corações da maioria do povo. Mas, para isso, precisaria organizar-se e ganhar a mídia, mas a partir do momento em que se organizasse e ganhasse a mídia, perderia a ingenuidade e seria alvo fácil para os manipuladores de plantão. Porque o apito e a bola do jogo, e até o campo e os uniformes, pertencem aos mesmos de sempre, encastelados em suas fortalezas cujas muralhas não temos ainda condições de ultrapassar, por falta de meios e de vontade política, presas que somos, todos os cidadãos desse País, da força de um grande e perverso sistema de comunicação e de educação estrategicamente dominado por quem nos domina. O inferno da piada do senador que morreu não é metáfora: é realidade. Em campanha, vale tudo. Depois, ao povo as batatas, como diria Machado de Assis.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:47 AM

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