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{Segunda-feira, Abril 24, 2006}


VENENO NOSSO DE SEGUNDA-FEIRA




ORKUT: a cidade de Pompéia, no interior de São Paulo, orgulha-se da fama instantânea, por causa do escândalo provocado pela publicação de fotos de uma garota da sociedade fazendo sexo com dois homens. O escândalo, mesmo, foi a reação dos coleguinhas da garota, na faculdade (?) local: agressões e xingamentos. Bem, se as fotos fossem realmente verdadeiras (ao que parece, são montagens), por que essa reação moralista? Que gente mais estúpida e imbecil e mais quantos adjetivos sinônimos houver no dicionário!!!!


ALKMIN: o picolé de chuchu (ele mesmo se identificou com o dito cujo: a Kibon até podia lançar um produto com sua marca!) não tem projeto de governo, não tem campanha, não tem nada. Aliás, nem idéias. Suas propostas (ou o que ele chama de propostas) têm a profundidade de um pires. Se eleito presidente, vamos ter aí uma fase das mais medíocres da história do Brasil. Ainda bem que a mediocridade alkminista não tem o ímpeto guerreiro do Bush. Ou, até mesmo, falta-lhe competência para isto!

DROGAS: na Av. Roberto Marinho, zona sul de São Paulo, há um drive-thru do tráfico. Ou seja, gente motorizada que compra droga não é favelado nem mora na periferia, não é? E é essa mesma gente que põe notas em jornais e vai à televisão ou faz passeata para protestar contra a violência, contra o tráfico, contra a polícia que não faz nada, contra não sei mais o quê. Eta povinho mais cara de pau!!!

FERIADÃO: Mais um fim de semana prolongado: primeiro de maio, segunda-feira. E o povão, como gado, desce todo para o litoral, se fizer sol. O gado mais rico sobe todo para Campos do Jordão, na esperança do frio. E haja congestionamentos nas saídas de São Paulo! E haja congestionamentos nas estradas! E haja motoristas imbecis dirigindo bêbados ou fazendo besteiras nas rodovias! E gente morrendo, e gente ferida, e gente como gado fazendo o que todo mundo faz! Eta vocação!!!

CELULAR: Com a fusão celular e máquina fotográfica, virou moda em Nova Iorque as pessoas fotografarem as celebridades nos seus afazeres diários e públicos. Ou seja: o culto idiota ao famoso instantâneo agora tem a cumplicidade da foto instantânea, publicada instantaneamente na mídia instantânea. Ou seja, não é apenas e tão somente o culto à celebridade: é o culto ao instantâneo, ao fugaz, ao momento. É isso o que importa nos dias de hoje. Quer saber? Acho que estão certos: nada permanece, mesmo. Inclusive a estupidez!

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 10:50 AM


{Sábado, Abril 22, 2006}


MINHOCÃO EM CIMA DO TIETÊ!



Só pode ser brincadeira. Recuso-me a achar que a proposta seja séria. Mas, vindo de onde veio, só posso concluir que tem muito engenheiro com cabeça de bosta.

O Instituo de Engenharia (IE) de São Paulo sugere a construção de 30 km de viaduto, sabe onde? EM CIMA DO RIO TIETÊ! Isso mesmo, 30 km de cimento e ferro cobrindo o leito do Rio Tietê. Para quê? Para melhorar o trânsito!

Ora, senhores engenheiros, só podem estar brincando! Ou estão loucos. Construir viaduto, um minhocão, em cima do rio Tietê só pode, mesmo, ser sugestão de gente desocupada ou tão estúpida que deseja resolver os problemas da cidade criando mostrengos urbanos, como o famoso Elevado Costa e Silva, o minhocão surrealista do Maluf.

Quando pessoas sensatas começam a pensar na qualidade de vida da cidade, propondo até mesmo a descanalização de alguns rios, como solução para os problemas de enchentes, no lugar dos horríveis piscinões; quando o que São Paulo precisa é respirar melhor, tratar melhor seus rios, suas reservas florestais, seus parques; quando se começa a discutir a própria demolição do famoso minhocão; quando os especialistas começam a pensar como solução para o trânsito a melhoria dos sistemas viários e, principalmente, a melhoria urgente dos meios de transporte coletivo, os senhores engenheiros propõem uma bobagem desta. Por que não constroem um viaduto em cima da sede do IE? Ou ligando a burrice de quem propôs à estupidez de quem aceitar fazer uma barbaridade dessa?

Acredito, em sã consciência, que essa bobagem não irá adiante. Mas, em todo caso, acho bom a população ficar atenta, para impedir, com protestos veementes, mais esse crime contra a cidade, contra o seu rio símbolo, contra a melhoria da qualidade de vida de São Paulo.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:29 PM


{Sexta-feira, Abril 21, 2006}



O QUE É ISTO: QUERO MAIS BRASIL?


Recebi um e-mail com a propaganda de um movimento: QUERO MAIS BRASIL. Curioso, fui ao site do tal movimento, li tudo o que lá está e fiquei com a pulga atrás da orelha. Por vários motivos, mas o primeiro, o que mais me chamou a atenção foi o mote menos imposto. Que aparece como primeiro item do lema do movimento. E nos depoimentos de, praticamente, todos os participantes (com fotos!) há, além da repetição de outra frase feita (quero um País melhor), há a reclamação contra os impostos.

Bem, não vou discutir aqui o tal mote de um País melhor que, embora ingênuo, é desejado por todos. O que me incomodou, mesmo, foi o problema dos impostos, que aparece na cabeça da declaração, breve, de princípios do tal movimento. E no apoio incondicional, embora discreto, de uma multidão de empresários. Então, eu pergunto: a quem interessa a discussão da diminuição da carga tributária? A todos, diriam todos. Será?

Bem, dizem que pagamos impostos de primeiro mundo e temos serviços de quinta categoria. Ou seja: sustentamos um governo incompetente, uma estrutura de funcionários públicos vagabundos, uma cambada de corruptos e por aí vai a lengalenga de quem estrebucha por aí contra a carga tributária. Que é, realmente, alta. E isso ninguém pode negar.

Mas: de onde vem essa tributação exagerada? O dinheiro arrecadado que, acham todos, devia ser usado para educação, saúde, saneamento etc, etc. está mesmo sendo desviado por políticos corruptos dessas nobres atividades? Por que, afinal, pagamos tantos impostos? E isso sem entrar no mérito de que o governo é corrupto, os funcionários públicos são safados e outras pérolas que a gente ouve por aí.

Ora, ora, senhores e senhoras: vamos dar uma olhada no passado? Será que ninguém desconfia do que fizeram os governos de, vamos ser generosos, cinqüenta anos para cá? De Juscelino até nossos dias, para termos uma referência mais concreta e que está mais fresca na mente do povo! Bem, Juscelino gastou um bocado, sem dúvida. Construiu Brasília, abriu estradas, inaugurou a industrialização... Dizem que era corrupto. Provas? Até Lacerda, aquele que urrou contra ele durante todo o seu governo, terminou seu amigo. Onde a roubalheira de Brasília? Lembram? Com a safadeza de gente inescrupulosa, quem realmente ganhou dinheiro no Planalto foram as empreiteiras: as honestas e, principalmente, as desonestas! Afinal, a pressa do governo tinha um preço. Que nós, o povo, pagamos na época e estamos pagando até hoje. Para quem? Pense um pouco.

Pula o Jânio e também o Jango. Governos militares. Todos eles: aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei. Não uma lei qualquer, mas uma lei de peso, de exceção, de ato institucional. E a gastança com pontes, rodovias, ferrovias e milhares de elefantes brancos, hoje obras abandonadas por todo o território nacional, foi a festa dos amigos. E dos amigos dos amigos. Havia um certo embaixador em Paris conhecido por ser o homem dos dez por cento. E esse homem foi, por muito tempo, ministro... da Fazenda! A dívida externa brasileira pulou mais que o João do Pulo, porque o salto não era tríplice apenas, era múltiplo. De múltiplos interesses. De quem? De milhares de empresas que hoje são multinacionais ou multi-qualquer-coisa. Cresceram e crescem com os incentivos do governo, com os empréstimos do governo, com a grana do governo... Do governo? Uma pinóia! Com a nossa grana! Quer ver uma coisa? Não estão aí gritando para o governo socorrer uma certa empresa de aviação que, por má gestão, está quase quebrando? O governo é sempre incompetente, mas na hora no aperto, correm todos para os seus cofres. Cofres do governo? Pois sim: nossos cofres!

Ah! e não falei dos cofres estaduais e municipais! Que cobram, também, seus altos impostos, para construir também os seus elefantes brancos. Quem não se lembra, em São Paulo, da famigerada Paulipetro? E os paulistanos, da ex-Avenida Água Espraiada (hoje Roberto Marinho): o metro quadrado de asfalto mais caro do mundo! E todos os estados têm as suas pirâmides egípcias. E todo município tem os seus portais e as suas fontes luminosas! Com dinheiro de quem? Nosso, claro. E acham que os governadores baixam o ICMS? Ou os prefeitos baixam o IPTU? Nem pensar! Mas gritam, como todos, contra a carga tributária.

E então: a quem interessa a redução de impostos? Aos mesmos de sempre, claro. Àqueles que sempre mamaram nas famosas tetas do governo. Àqueles que, na hora agá de baixar os impostos, vão conseguir diminuir as suas fatias. A que eles pagam, quando pagam. E que se lasque o povo que, depois de berrar nas praças, ainda vai ter de agüentar um punhado de aumentos (no imposto de renda de pessoa física, no ICMS, no IPTU...) para compensar o que o governo deixar de arrecadar com os tais empresários que, como sempre, são os primeiros na hora de abocanhar a melhor fatia do bolo.

Funciona mais ou menos assim: os caras abrem uma empresa, ganham mil presentinhos do governo (federal ou estadual ou municipal, às vezes dos três), às nossas expensas, claro. Afinal, vão dar emprego para uma porção de gente. Aí, o negócio dá certo. Claro. Com isenções de impostos e outras maravilhas, tudo dá certo. E o negócio cresce. Vira multi. É hora de pagar os impostos. Certo? Que nada. Querem mais isenções. Ou leis de não sei o quê, para incentivo de não sei mais o quê... E, em vez de mais empregos, inventam downsizing: enxugamento, sabe, para mandar uma porção de gente embora. E o coitado que ficar deve trabalhar o dobro, o triplo. E eles, os empresários, chiam contra os impostos. Impostos que, do que sobra do pagamento das gastanças de cinqüenta anos atrás, das pontes dos militares, das transamazônicas, das ferrovias não terminadas, serve para pagar, mal e porcamente, a saúde, a educação, o saneamento básico, o conserto das estradas... Mas, na hora da redução, adivinhe quem sairá lucrando? Mais uma vez. E sobrará menos dinheiro para quem? Para o quê, mesmo?

Por isso, o tal movimento Quero mais Brasil, que tem uma porção de artista aderindo, de empresários, e uma porção de gente do povo, me deixou com a pulga atrás da orelha. Podem jurar o que quiserem, não entro nessa, não. Pelos menos enquanto tiverem bandeiras que não têm nada a ver com o povo... Porque eu quero menos imposto, sim, mas menos imposto de renda de quem ganha pouco e paga muito, ou melhor, de quem paga... Porque eu quero menos imposto sim, mas no feijão, no arroz, na carne, nos gêneros de primeira necessidade... Menos imposto que torne esses produtos mais baratos etc e etc... Bem, é por aí...

De boas intenções, blá... blá... blá... Acho que todo mundo já entendeu.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:26 AM


{Quinta-feira, Abril 20, 2006}


NEM NÃO ÀS DROGAS, NEM LEGALIZE JÁ


Debater o assunto drogas é espinhoso. Qualquer posição que se defenda, logo vêm os fanáticos a falar besteiras. Não há racionalidade. Apenas paixão. Opiniões extremadas. Contra ou a favor. E o que mais precisamos neste tipo de debate é racionalidade.

Qual a saída? Não sei. A televisão, o rádio, as mídias de comunicação de massa deverão, sim, ser envolvidas em algum momento de um longo processo de amadurecimento desse debate. Mas com muito cuidado, para não acontecer o que normalmente ocorre: mediadores e apresentadores mal preparados, opiniões exacerbadas, gente querendo apenas aparecer, outros que não têm nada a dizer falando bobagens, enfim, o circo de sempre, por falta de tempo para aprofundar qualquer debate. Talvez a realização de vários fóruns, patrocinados pelos governos federal, estaduais e municipais, primeiro com especialistas e depois com o grande público para, então, chegar às várias mídias, fosse uma saída. Porque não se trata apenas de dizer sim ou não à liberalização, mas de discutir formas tanto de combate ao tráfico, se prevalecer a proibição, quanto de controle, se prevalecer a liberalização. E isso tudo é muito complexo. Soluções existem, porque não há problema sem solução. Mas é preciso estabelecer etapas, prazos, regras e condições para os debatedores, para o envolvimento da sociedade, para que a solução encontrada seja a mais simples possível e a mais viável. Ou seja: não dá para brincar com um assunto como esse. Como fizeram com o projeto de proibição de armas de fogo: inventaram um plebiscito que foi contaminado pela propaganda, que não aprofundou o tema, e pela criatividade de marqueteiros sempre prontos a usar a criatividade com suas pirotecnias. E o povo acabou iludido por falácias. Como sempre. A partir do momento em que a mídia for invadida por slogans, contra ou a favor, qualquer campanha séria de busca de solução para o problema das drogas estará definitivamente perdido.

Portanto, cumpre, e urge que se cumpra, estabelecer uma agenda séria, envolvendo entidades da sociedade civil, técnicos de ministérios como Educação, Esporte, Cidadania e outros, especialistas em medicina e sociologia, enfim, uma gama variada de pessoas que possam contribuir com visões diferentes do problema ao debater exaustivamente, mas dentro de um tempo razoável para que o tema não se dilua, não só as causas mas também as conseqüências e as medidas necessárias para estabelecer uma política de consenso quanto uso das drogas.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:32 PM


{Quarta-feira, Abril 19, 2006}


A SÃO PAULO DO SÉCULO XXII: UM SONHO POSSÍVEL


Não há saída para São Paulo, a cidade, senão: primeiro, parar de crescer; segundo, diminuir. Sim, diminuir. O paradigma muda de maior para melhor. No século XXII, vejo uma metrópole mais humana, depois de todas as intervenções catastróficas dos urbanistas e prefeitos (mais estes do que aqueles) do século XX.

Parar de crescer será o desafio do século atual. Com políticas voltadas para o esvaziamento paulatino da capital, a cidade deve recuperar em parte o seu viço. Melhoria de transportes, abertura de espaços e praças que servirão como respiradouros, controle do gabarito de construções, saneamento básico, proteção das áreas de mananciais, despoluição dos rios e do ar, término do anel viário, fiscalização intensiva dos agentes poluidores, como veículos e fábricas, urbanização de favelas e cortiços, recuperação do centro geográfico, ressurgimento de córregos e riachos canalizados, desocupação das margens fluviais, fixação da vocação para o setor de serviços podem ser algumas das providências que devem ser tomadas ao longo deste século. Que prepararão o surgimento de uma metrópole mais humana e com qualidade de vida.

Assim, no século XXII, com pouco mais de cinco milhões de habitantes, a metrópole poderá se constituir numa cidade agradável de se viver, com muitos rios, riachos e córregos de águas límpidas, com margens suficientes para a elevação das águas nos tempos chuvosos, avenidas largas e arborizadas, bulevares e praças arborizados, um sistema de transporte baseado no metrô e um cuidado extremo com seus habitantes. Uma capital digna de um povo civilizado, que terá rompido a linha da miséria e da pobreza, sem violência, sem agressões a vizinhos ou a outros países. Enfim, uma cidade que recupere a idéia de cidadania e de respeito à vida e à natureza. Não, não é uma utopia: pode ser real, se começarmos desde já a pensar na cidade que queremos deixar para nossos filhos, netos e bisnetos. E acho que já há gente interessada nesse futuro.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:40 PM


{Terça-feira, Abril 18, 2006}


QUE TAL UMA CAMPANHA PELA VOLTA DE NOSSOS RIOS?


São Paulo cresceu sem planejamento. Isso todo mundo sabe. Culpa de inúmeros prefeitos amadores, como Paulo Maluf, por exemplo, que só sabia construir. Porque construir dá prestígio político, além de grana para muitos interessados. Inclusive o próprio. Os prefeitos de São Paulo tinham, e têm, cabeça de engenheiros. Mesmo a famosa administração de Prestes Maia possuía um lado obreiro, de grandes avenidas e corredores. O que desencadeou a construção de verdadeiros absurdos como as marginais e as avenidas de fundo de vale, com a conseqüente canalização de rios e córregos.

Quem observar um mapa antigo de São Paulo, verá que o planalto onde se localiza a cidade é formado por uma bacia hidráulica fantástica. São centenas de riachos, córregos e ribeirões a formar uma teia imensa de águas, muitas águas, o que fazia de Piratininga o paraíso das tribos indígenas que aqui habitavam.. E todo esse potencial aqüífero e sua riqueza vital foram soterrados pela estupidez desses engenheiros. Podemos dizer, mesmo, que se constitui numa das maiores agressões à natureza já perpetradas pelo homem. No entanto, todos se calam.

As famosas marginais, por exemplo: há lugares onde o asfalto está a menos de dois ou três metros da margem do rio. Ora, isso é ou não estupidez? Porque rio sobe e desce, de acordo com as chuvas. Deixar as margens livres, para que a enchente não invada ruas e casas, é o mínimo que se deve fazer. Mas, não: espremeram o rio, engavetaram os córregos e riachos. E agora, alguém teve a brilhante idéia de construir piscinões, ou seja, grandes buracos para reter a água da chuva e liberá-la aos poucos, depois. O que parece uma solução, vai-se transformando em fonte de novos problemas: na época da seca, os piscinões vazios se transformam em depósito de lixo da população desavisada e se constituem em grandes focos de ratos e outros bichos, ocasionando problemas sérios de sanidade pública.

Uma cidade moderna, ciosa da qualidade de vida de seus habitantes, não pode fazer, nunca, o que se fez em São Paulo, em termos de urbanismo: destruir os seus rios e suas fontes de abastecimento de água. Rios, riachos, ribeirões, córregos são uma riqueza inestimável, em termos de equilíbrio entre o homem e a natureza. Não podem ser emporcalhados com esgoto e lixo. Não podem e não devem ser domados por canalizações irresponsáveis. A população precisa se conscientizar da estupidez de projetos pessoais e megalomaníacos de idiotas guindados à posição de prefeitos, que fazem e desfazem da cidade, como se ela fosse o quintal de suas casas.

Deixaram, e até incentivaram, que se construíssem barracos, casas, galpões, indústrias, bairros inteiros às margens dos rios. Quando o rio sobe, todos reclamam. E lá vem o senhor prefeito a canalizar o rio, ou seja, vem transferir a enchente para outro ponto, mais adiante. Como o mais adiante também sofre o mesmo processo de ocupação, mais quilômetros de canos, e assim até que o rio, não sabendo mais onde encher, transborda de várias maneiras, devolvendo suas águas sujas para dentro da casa dos mesmos que o sujaram, pela rede de esgotos muitas vezes clandestina. Não é vingança da natureza, porque isso não existe. É apenas uma conseqüência lógica da estupidez de nossos administradores.

Parece, no entanto, que uma luz está-se fazendo na cabeça de nossos planejadores urbanos: estão pensando em reabrir alguns rios, como o que passa sob a Avenida 23 de Maio, para reurbanizá-lo e, assim, evitar cheias no Anhangabaú, onde a cabeça de minhoca de outros já queria construir mais um piscinão. Ou seja: gastaram-se bilhões para colocar no fundo da terra as nossas águas e, agora, vão gastar outros bilhões para recuperá-las. Pelo menos, o gasto, agora, é por uma causa justa. Que outros rios e riachos e córregos tenham a mesma sorte. E que se respeitem as nossas margens plácidas, não apenas do Ipiranga, mas de todos os rios, riachos e córregos que levam a maior riqueza natural do planeta: a água.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:47 PM


{Domingo, Abril 16, 2006}


ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE UM BEBÊ ESQUECIDO DENTRO DE UM CARRO




Em termos mais do que humanos, neste mundo de tantas notícias ruins, a que mais me tocou, esta semana, foi o acidente do jovem pai que esqueceu o filho ainda bebê dormindo no carro e encontrou-o, cinco horas depois, já morto pelas queimaduras do sol. Isso me leva, de forma absolutamente compungida, a escrever esse texto.

O que eu acredito: na regra básica da natureza. Pais morrem antes dos filhos. É o normal. Por mais que nós, como filhos, nos lamentemos e sintamos falta e saudade de nossos pais, é essa a lei natural. Quando ela se inverte, o sofrimento dos pais que sobrevivem pode tornar-se quase insuportável. Perder um filho: seja esta, talvez, a dor maior de um ser humano.

Por isso, quero falar um pouco sobre este fato: o jovem pai e seu pequerrucho morto por um descuido, numa falha do cérebro do homem que o gerou, que o criava e devia protegê-lo. Por isso quero, mais do que falar sobre o quanto esse jovem pai deve estar sofrendo, tecer algumas considerações sobre o que permitiu que isso acontecesse. Não queria para mim nem para ninguém a milésima parte do seu desespero. Mas vou tentar entender esse estúpido descuido, porque podemos tirar dele algumas lições de vida.

Numa cidade como São Paulo, hoje, o salário de cada mês é ganho, por quem está empregado, com muito mais do que o suor do rosto. A começar pelo fato, inusitado, de se estar empregado. Com milhões de sem tudo a pulular num imenso oceano de desesperança, em busca de qualquer oportunidade. Desesperança gerada pelo desemprego, num processo iniciado há, pelo menos uns quinze anos, quando aqui chegou para ficar a tal globalização. Ou, pelo menos, o seu conceito. E com ela, todas as mazelas do enxugamento dos cargos nas empresas. Era, e é ainda, preciso alcançar ganhos de produtividade, diziam, e ainda dizem, os gurus estadunidenses, em seus polpudos manuais de administração, tornados best-sellers instantâneos pelos nossos empresários ávidos de mais lucros. E houve gurus (e com isso eu convivi e posso testemunhar) que, não contentes com as vendas absurdas de seus livros, aqui aportaram para encher os ouvidos de nossos empresários em palestras cobradas a dez, quinze ou até vinte mil dólares a hora!

Dowzing, a palavra mágica, toma de assalto as empresas. Diminuir o número de funcionários a qualquer custo. Em lugar de três, que trabalhe apenas um. E com salário menor, é claro. Parecia o caminho ideal, mais do que sonhado, planejado e discutido em cada escritório de cada executivo, para a tal produtividade, para a tal competitividade com os tigres asiáticos (os tigres, embora ainda rugindo, assustam menos hoje) com sua mão-de-obra barata (na verdade, escrava: menos de trinta dólares por mês!). E o País não podia, e ainda não pode, ficar para trás. Então, dá-lhe desemprego, dá-lhe enxugamento, dá-lhe lucro máximo. Tudo em nome da tal globalização. E criamos, de um lado, uma massa de novos escravos, engravatados ou não, mas empregados e dispostos a tudo para manter seu emprego, seu carro, sua casa, sua dignidade, e, de outro, uma longa fila de desesperados por qualquer emprego que lhes restituísse, já àquela altura, não a casa, o carro, a família, mas pelo menos a dignidade, um pouco de dignidade.

Compensação: criou-se o conceito de responsabilidade social da empresa. E gastam nossos capitalistas, também ainda de acordo com os famosos gurus, para aplacar a consciência do desemprego e da desesperança, fundações disso e daquilo, voltadas todas para o assistencialismo de gabinete: meia dúzia de engravatados, de seus luxuosos escritórios com ar refrigerado, comandando programas para outra meia dúzia de miseráveis escolhidos a dedo para terem o privilégio de romperem a linha da pobreza. Cidadania. Outro termo bonito, também ainda inventado pelos marqueteiros a serviço dos tais gurus. Porque a imprensa publica. E os governos dão incentivos. E as consciências se acalmam. Com a tal de responsabilidade social!

Ora, senhores, responsabilidade social de uma empresa não é fazer caridade, muitas vezes travestida de marketing para inglês ver. Responsabilidade social das empresas num país em desenvolvimento, com milhares de miseráveis e pobres, é criar empregos. Tenho para mim que, com os milhões gastos nesta tal responsabilidade social de fundações de gabinete, milhares de empregos poderiam ter sido salvos e outros tantos poderiam ter sido criados. E a fome de milhões, mitigada. Dowzing é coisa de gringo, para gringo. De país que já está graus acima nas estatísticas econômicas de desenvolvimento. De país que tem redes assistenciais sofisticadas. De países, talvez uns poucos, que não tenham miseráveis ou os tenham em número perfeitamente controlável. Não aqui, onde um salário mínio de trezentos e cinqüenta reais faz o milagre de sustentar uma família inteira!

Porque eu pergunto: o que ganhamos, realmente, com a tal competitividade internacional? Está certo: aumentamos nossas exportações. Mas, e daí? O PIB cresceu? O desemprego diminuiu? O que ganhamos, me digam?

Eu respondo: ganhamos gente como o infeliz que esquece o filho fechado no carro, porque está estressado por um emprego em que os minutos se contam por horas e, possivelmente, o excesso de trabalho e as horas extras não são pagas; gente que tem um emprego onde um faz o trabalho de três e gerentes mais estressados ainda, e muitas vezes incompetentes, tiram o couro de seus funcionários, para livrar o seu próprio, numa roda viva que coloca no tronco da senzala acarpetada que são nossos atuais escritórios o coitado que tem a sorte grande de ter um emprego ameaçado por dezenas de outros que estão lá fora e que topariam, por qualquer meleca, ocupar o seu lugar!...

E mais: ganhamos gente que mora uma cidade que, premida por seus desesperados e desesperançados, alcança índices elevadíssimos de violência gerada não apenas pelo desemprego, mas principalmente pela desesperança, pelo apodrecimento dos valores éticos, pela deterioração dos relacionamentos, pelo crescimento desordenado, pela incompetência de governantes, e que obriga a que qualquer cidadão que tenha um automóvel um pouco melhor ande de paletó e gravata de grife, para parecer o que definitivamente não é. E mais: a colocar películas escuras nos vidros de carros caros, pagos a duras prestações, para que ninguém o veja enquanto sua para realizar as obrigações diárias de levar a esposa ao outro emprego, o filho mais velho à escola e o bebê ao berçário!

E quando essa rotina se quebra, o seu cérebro estressado, angustiado pela pressão, pelo corre-corre, pelo trânsito e sua violência, e pela violência que ele lê e vê diariamente nos jornais, na televisão, nas ruas por onde trafega, não registra que a criança ficou esquecida dormindo no carro escuro, sem qualquer possibilidade de que as pessoas que por acaso ali passassem pudessem vê-lo e socorrê-lo! E o desgraçado desse pai só se dá conta do filho depois de cinco horas!

Ora, por favor, quem tem ainda coragem de condenar um tal homem? Quem? Já teve a sua condenação, para o resto de seus dias. Pagou o maior de todos os preços que pode um pai pagar na vida: ser o responsável pela morte do próprio filho! Não, não pode haver maior desespero. Um desespero causado, em última instância, pelo tipo de mundo que inventamos com a tal globalização. Com a tal competitividade. Com a tal produtividade a qualquer custo!

E então eu pergunto: queremos mais? Queremos continuar nessa corrida maluca? É essa a sociedade por que realmente lutamos? Será que não há, pelo menos a médio e longo prazo, outros caminhos?

Impingiram-nos tudo isto: a globalização, as leis do mercado, a premência. Estamos colhendo desemprego, desesperança e desgraças. E querem, os mesmos que nos impingiram tudo isso, continuar sua obra, porque, pelo andar da carruagem, que nem de carro estamos indo, é essa a sociedade que certos homens estão querendo e, mais, querendo impor-nos goela abaixo. A qualquer custo.

Paremos, pensemos, olhemos em volta: aí estão todos, não de mãos dadas, mas a lutar cada um por si. Com o ódio estampado em cada face. Com a cobiça do poder e do dinheiro em cada olhar. Paremos. E decidamos com cautela, com muita cautela, o que realmente queremos. Para não termos que, um dia, chorar a morte precoce de nossos filhos. E não porque os esquecemos dentro de um carro fechado. Mas por outros e muitos outros motivos. E todos, absolutamente todos, publicados nos jornais, nas rádios e nas televisões como notícias ruins. Muito ruins.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:09 AM


{Quarta-feira, Abril 12, 2006}


OS SEGREDOS DE SUZANE




O título acima plagiei do Luís Nassif (Folha, de ontem, 11.4.2006), pescado na internet. Gostei não apenas do título mas também do artigo, bastante singelo, mas que põe o dedo no ponto exato de onde provém a dor: ninguém ainda desvendou o mistério da adolescentezinha mimada que mandou matar os pais. A coisa está, sim, muito mal conduzida, como sempre, pela mídia. Esse tipo de crime, por envolver aspectos profundos de nosso imaginário, preocupa a todos, atrai a mídia, provoca discussões. E é preciso ir com cuidado, ao tentar entender as motivações desse tipo de criminoso.

Cita-se Truman Capote. E é, sim, magnífico, o seu A Sangue Frio. Mas não tem a Justiça estadunidense muito apego às emoções dos criminosos, não: são devidamente enforcados. Mesmo com todo o aplomb do jornalista e escritor. Porque há que se separar muito bem uma coisa da outra: entender motivações, buscar causas, analisar possíveis traumas causados por família repressora etc. não tem nada a ver com a punição dos criminosos, quando há assassínio. E punição nada tem a ver com exemplo para a sociedade ou com motivações bíblicas de olho por olho, dente por dente. Sou peremptoriamente contrário à pena de morte, mas não me acumplicio com uma sociedade lacrimosa, a perdoar assassinos porque se arrependeram. Arrependimento todos têm. Ou quase todos. Só as vítimas não se arrependem.

Mas voltemos aos mistérios de Suzane. O caso mais se emblematiza quando se trata de pessoas consideradas bem educadas, quase ricas, estudantes de faculdade classe média alta, envolvidas com sujeitos menos providos tanto intelectual quanto financeiramente, teoricamente mais vulneráveis aos apelos do crime. Começam aí os enganos. A falta de valores éticos não escolhe classe ou inteligência. Pode estar presente tanto no filho do banqueiro quanto no filho do traficante. As diferenças são apenas de sofisticação dos meios empregados para materializar a falta desses valores. Portanto, não há que se analisar apenas o lado dos meninos deslumbrados por conviverem com a loirinha classuda, nem só o lado da garota atraída pelo fogo juvenil de quebrar convenções de seu meio, mas o conjunto de todas as influências. Drogas, sexo e uma relação delirante entre os namorados, Suzane e um dos irmãos Cravinhos, podem dar pistas interessantes. Família repressora existe desde que o mundo é mundo. Nunca foi e nunca será desculpa para assassínios. Mas também é uma fonte inesgotável de busca por fatores intervenientes, quando a repressão tangencia e envolve assuntos tabus, como sexo e drogas. Personagens psicóticas, cujos valores éticos caem diante de situações emocionais, quando se unem em delírios de grandeza e impunidade, esta última alardeada e praticada por nossa sociedade permissiva, geralmente provocam casos de autodestruição ou de crimes terríveis.

Há que se aprofundar a análise e buscar razões, porque tais elucubrações e resultados possíveis ajudam a entender um pouco mais a mente humana; não se pode, no entanto, contemporizar com a pretensa fragilidade de Suzane, nem com a estúpida pretensão de imputar aos rapazes, o namorado e o irmão, a culpa por um crime muito bem compartilhado entre eles, executado friamente com a ajuda intelectual e material da garota, de forma torpe e sem possibilidade de reação das vítimas.

E por falar em vítimas, qualquer prospecção desse tipo de crime tende a levar, depois de mil voltas e reviravoltas, a implicar mortos e assassinados em culpas reais ou prováveis, diante da óbvia impossibilidade de que eles se defendam ou a expliquem as motivações de seus atos e opiniões que contribuíram para o desfecho mortal. E isso é muito perigoso, porque deixa no ar a impressão de que, se não fossem eles e seus atos, julgados e condenados, o crime não teria existido. Culpabilizar as vítimas, mesmo diante de provas terríveis, não é menos terrível que o crime cometido. Portanto, mesmo a genialidade de um Truman Capote pode não ser suficiente para o desvendamento total de todos os mistérios de Suzane. Principalmente se nos lembrarmos que, no livro de Capote, as motivações do crime dos rapazes americanos contra a família de fazendeiros eram pura e simplesmente financeiras, pois eles não tinham qualquer relação íntima com as vítimas, o que facilitou o trabalho do escritor que, mesmo assim, acaba por manifestar uma certa simpatia pelos criminosos, iludido, talvez, pela concepção judaico-cristã de culpa e arrependimento. E falar em culpa e arrependimento não é, com certeza, a melhor forma de se colocar o dedo no ponto exato de onde provém a dor, ou seja, não é a melhor maneira de descobrirem causas e motivações para o crime de matar os pais.

Talvez os segredos de Suzane nem ela mesma os conheça ou saiba exteriorizá-los de forma lógica ou sequer compreensível. São e serão sempre mistérios. Mistérios da mente humana.



posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:44 PM


{Terça-feira, Abril 11, 2006}


AINDA O TRÁFICO, AINDA AS DROGAS, AINDA A HIPOCRISIA...



Consumo de drogas e tráfico. Problema cascudo. Que a sociedade não enfrenta do modo como devia: sem moralismos. Porque, ou discutimos isso como pessoas civilizadas ou estamos pondo em risco o próprio conceito de civilização.



Como jogar lenha nessa fogueira? Bem, o primeiro passo é deixarmos de ser hipócritas e reconhecermos que há, sim, quase total culpa pelo tráfico de uma certa classe média e média alta que consome toda e qualquer droga que se lhe apresentam como salvadora de suas neuroses. Não adianta combater o tráfico, se a sociedade não se conscientizar de que uma coisa não funciona sem a outra: o consumo é causa e o tráfico, efeito. Mas isso é apenas um lado do complexo prisma que envolve a discussão sobre drogas.



Primeiro, vou deixar clara minha opinião sobre o tema drogas: nunca consumi, não consumo e não consumirei jamais qualquer droga alucinógena, porque acredito que o ser humano não precisa disso. Não há provas de que cocaína ou maconha ou seja lá o que for aumentem em um átimo sequer a capacidade de entender a realidade ou de tornar alguém mais capaz do que é naquilo que faz. Nenhum artista (ou cientista ou quem quer que seja), e isto é mais do que provado, realizou qualquer obra-prima quando estava drogado, se não tivesse capacidade de criá-la sem o seu uso. Ou seja: a droga não aumenta a capacidade nem criativa nem intelectual de ninguém. Mas estão provadas cientificamente a dependência química e a deterioração física e mental dos usurários de drogas. Além dos problemas familiares, sociais, financeiros.



Dito isto, vamos a um argumento a favor da droga: a liberdade que tem o indivíduo de dispor de si como lhe aprouver. É um direito inalienável esse ou pode ser discutido? Pode, ou deve, o direito individual prevalecer sobre o social a despeito de quaisquer outras implicações? Acho que é esse um dos cernes da questão. Porque, na verdade, estaremos discutindo isto: que tipo de sociedade nós queremos?



Vamos, em tese, concordar com o argumento do direito individual. Que vantagens e desvantagens haveria na descriminalização das drogas? Com certeza, há muitas vantagens: eliminaríamos, em primeiro lugar, o tráfico, já que a droga seria comercializada de forma controlada, embora livre, com o pagamento de impostos e demais regulações legais. Só o fim do tráfico já seria um argumento poderoso a favor da legalização. Mas ainda há outros: o controle (pelo estado e, conseqüentemente, pela sociedade) impediria que menores usassem drogas e isso também pode ser um ponto altamente positivo. E mais: os drogados teriam assistência no uso, evitando-se as mortes por overdose; teriam locais certos de consumo, assistência médica e psicológica; tratamentos para desintoxicação quando resolvessem deixar o vício etc. etc. Há experiências dessa legalização em países europeus que comprovam que não há aumento significativo no uso de drogas, no início da liberalização, ocorrendo, inclusive, uma certa diminuição do número de usuários após algum tempo. Não sei se é verdade, mas parece lógico que isso ocorra. Portanto, teríamos uma sociedade mais justa, mais respeitosa dos direitos individuais, convivendo de forma pacífica com as diferenças. E isso parece bom. Há outras implicações? É lógico que sim, e esse pequeno artigo não pretende nem ir a fundo na questão nem levantar todos os problemas relacionados a tal decisão. Apenas dizer que, se pretendemos examinar sem moralismos o uso de drogas pela sociedade, devemos fazê-lo de forma desapaixonada e criteriosa, tendo sempre em mente a pergunta fundamental: que tipo de sociedade queremos?



E a descriminalização pode ser um caminho, porque o atual modelo repressivo tem-se revelado impotente para resolver o problema. Mas ela não é e não pode ser encarada como um modelo definitivo, tampouco como solução de todos os problemas, porque, a despeito da carga democrática e de aparente respeito humano que traz, ainda há questões mais profundas a serem discutidas, talvez mais adiante, talvez agora. Por exemplo: por que o homem precisa de drogas? Será que a necessidade de alienação está, de alguma forma, embutida na nossa herança genética ou terá sido criada em função das pressões do meio? Terá a ciência, algum dia, capacidade de anular os efeitos das drogas e libertar, para sempre, o homem desse tipo de dependência? Podemos entregar às drogas alguns indivíduos em nome da teórica salvação dos demais? Será que não estamos usando os drogados como bois de piranha de nossa própria incompetência como seres humanos? Vale a pena desperdiçar alguns cérebros para salvar outros? Não criaríamos uma nova casta de humanos, o que levaria à segregação e ao preconceito, futuramente? Não é perigoso demarcar, como gado, alguns indivíduos porque são diferentes e necessitam, para viver, de drogas e alucinógenos? Enfim, não será o melhor dos mundos um mundo em que se liberem as drogas, mas pode ser o início de uma discussão que leve à solução do problema. Ou vamos continuar sendo hipócritas na defesa do combate violento aos traficantes, esquecendo-nos de que eles são alimentados pelas mesmas pessoas, ou seus familiares, ou seus amigos, ou seus conhecidos, que vociferam nos meios de comunicação contra a violência do tráfico? Há aspectos emblemáticos nessa luta contra o tráfico: que outro empreendimento humano não se abalaria com prejuízos de milhões de dólares, ao serem apreendidas toneladas de drogas em todo o mundo, e continuaria suas atividades, como se nada tivesse acontecido? Não parece uma luta sem fim, sem qualquer perspectiva de vitória?



Acredito, e faço disso minha crença inabalável, que as drogas são perniciosas, sim, incluindo entre elas o álcool e o fumo, e que seu uso e abuso têm trazido mais, muito mais problemas que benefícios; e mais: acredito que o homem não precisa delas para se tornar melhor, ou pior, pois são apenas instrumentos de fuga da realidade, sinal, muitas vezes, de covardia diante do ato de viver, que é, sim, complexo e difícil, mas deve ser encarado como a experiência única e vital do ser humano. Também não estou me debandando assim facilmente para as fileiras dos que defendem de forma demagógica e irresponsável o uso indiscriminado de drogas e sua descriminalização. Não me iludo e nem devem se iludir as pessoas menos desavisadas com slogans e mecanismos de pressão de minorias. Mas, a discussão séria do problema e, até mesmo, a possibilidade de concordar com a liberalização do uso das drogas devem fazer parte da pauta de qualquer sociedade democrática e preocupada realmente com a relação entre seus membros e seus mecanismos de defesa, com seu funcionamento mais lógico e mais republicano, com seu futuro, enfim. Sem hipocrisias.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:55 PM


{Quinta-feira, Abril 06, 2006}


POBRES, FEIOS, FEDIDOS... E TRAFICANTES, OU: COMO MV BILL FOI PARAR NA DASLU?



Leio no jornal de hoje: platéia chora no debate com MV Bill na Daslu (OESP). Tentemos entender: quem é MV Bill? O que é Daslu? Que debate é esse em que a platéia chorou? E que platéia era essa?

Para isso, vamos voltar um pouco no passado. Há duas semanas a Rede Globo de Televisão colocou no ar, no Fantástico, o seu programa de atrações do domingo à noite, uma nada agradável atração para abrir a semana: um documentário denominado Falcão, sobre os meninos do tráfico, nas favelas do Rio de Janeiro. Foi realizado por um tal MV Bill, rapper e dublê de sociólogo, fundador de uma ONG denominada CUFA (Central Única das Favelas) e um escritor chamado Celso Athayde. Ambos também lançaram um livro com o mesmo título e tema. E esse era o motivo da palestra na Daslu.

Daslu: uma das maiores lojas de departamento de São Paulo, talvez do País. Esteve envolvida, há alguns meses, com notas frias e contrabando. Está sob suspeição dos órgãos federais. Seu público é a classe alta, que paga os preços mais altos por mercadorias, roupas, calçados, perfumes etc., as mais comuns, porém com grifes internacionais. A imprensa chama-a de templo de consumo dos ricaços. Portanto, a platéia da tal palestra do rapper era constituída da fina flor da sociedade paulistana, mais alguns pobres da favela ao lado da loja. Afinal, cada Daslu tem sempre uma favela por perto.

Não vou cair na esparrela de condenar o moço da palestra, um cara bem intencionado, cuja meritória obra é alertar a sociedade para o grave problema dos meninos do tráfico, meninos e meninas que têm a vida é encurtada pelo envolvimento com criminosos que os transformam em assassinos precoces. Das personagens do documentário, quase todos (crianças na faixa dos cinco anos à adolescência) já morreram (o filme foi realizado há uns três ou quatro anos). Essas crianças, bestializadas pelo ganho fácil do comércio e consumo de drogas, portam armas e crescem de acordo com a moral vigente em seu meio: matar para não morrer. Ou: morrer não tem a menor importância, já que não têm futuro mesmo. Numa das cenas do filme, um menino de seus dez, onze anos diz que se ele morrer, virão outros. Ou seja: a única consciência que parecem ter esses desgraçados e abandonados por todos é que são feitos em série, como clones saídos de máquinas de copular e vender cocaína, à mercê de traficantes inescrupulosos que, do alto dos morros, conspiram contra a rica sociedade dos prédios de apartamentos e freqüentadores de shoppings, como a Daslu.

Mas a realidade não é bem assim: se são pobres, feios, fedidos e traficantes, é porque há, sim, uma sociedade de dentes polidos, bem vestida, encastelada em edifícios com sofisticados sistemas de segurança, deslocando-se em carrões importados, blindados e com vidros escurecidos, gente que consome o que a Daslu e os demais templos de consumo lhes vendem, mas também consomem, e muito, o que os pobres, feios e fedidos meninos do morro acondicionam em envelopes de dez gramas com suas mãozinhas rápidas no gatilho, a mando dos senhores do tráfico. E quem são esses senhores?

Há, sim, poderosas organizações criminosas internacionais por trás das mãozinhas lépidas das crianças das favelas que manipulam cocaína como se fosse fubá, nos morros e favelas desse País a fora. Há, sim, muito dinheiro envolvido no comércio de drogas. Há, sim, muita gente que tem mansões em Miami às custas dessas mãozinhas. Eles, os meninos pobres, feios e fedidos, são apenas o elo mais fraco, e mais pobre e mais feio e mais fedido de uma longa e desgraçada cadeia alimentar que começa com os pobres, feios e fedidos plantadores de coca num país qualquer da América do Sul, passa por escroques internacionais, alimenta uma centena de poderosos e termina na cheiradinha inocente de pessoas elegantes como as que assistiam ao debate do MV Bill na Daslu, e choravam de emoção ao constatar que existe tanta pobreza nesse miserável País...


Então, eu pergunto: quem são esses senhores do tráfico? Quem sãos os que alimentam a cadeia infernal de comércio e consumo de drogas em todos os países ditos civilizados, ricos ou medianos, desse nosso cínico mundo de consumo de bens fabricados por mão de obra escrava em países do terceiro mundo ou de produtos provenientes do trabalho de pobres, feios e fedidos plantadores de coca da América do Sul e comercializados, no final da cadeia, por seus irmãos pobres, feios e fedidos das favelas brasileiras? Quem são esses senhores? Os que têm mansões em Miami? Sim, claro, mas também muitos dos que estavam ali na platéia da Daslu, com seus lencinhos perfumados, a chorar de emoção com a realidade trazida pelo rapper. Sem emoções baratas, por favor, senhoras e senhores, e sem cinismo também: todos os que fumamos o fuminho sem graça da maconha de terceira ou cheiramos o inocente pozinho branco de variados teores de pureza temos o nosso dedinho limpo, bem tratado e perfumado bem ali, no gatilho de uma das armas daquelas pobres, feias e fedidas crianças do tráfico, os falcões que não voarão nunca, porque suas asas estão quebradas ou já nasceram sem elas.

Não é um julgamento moral, e se o considerarem como tal, não estou nem aí. Mas, pelo menos ponham a mão na consciência e deixem de ser cínicos: aposentem os lencinhos perfumados e encarem a realidade com menos falso sentimentalismo, porque chorar diante das objetivas da imprensa e câmeras de televisão, num debate na Daslu, por causa dos pobres, feios e fedidos, já é um pouco demais!

Pois é: MV Bill, eu acho, estava perdendo tempo, com aquela gente. Mas isso é problema dele. Que, afinal, deve saber o que está fazendo. Já que a demagogia é de quem o convidou e não dele, que aceitou., não é mesmo?

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:51 PM


{Quarta-feira, Abril 05, 2006}


TRÊS LÁGRIMAS



Eu chorei pela primeira vez na minha vida
Quando minha vida se complicou
Éramos então duas crianças
Cheias de vida e de esperanças
Lembro-me bem do teu olhar espantado
Quando te roubei um beijo bem roubado
E uma lágrima dos olhos me rolou

Eu chorei pela segunda vez na minha vida
Quando a minha vida desmoronou
Tínhamos então mais vinte anos
Mágoas saudades desenganos
Lembro-me bem do teu olhar esquisito
Quando te olhei surpreso e tão aflito
E uma lágrima dos olhos me rolou

Eu chorei pela terceira vez na minha vida
Quando a minha vida se acabou
Vinha pela rua amargurado
Quando ouvi bem o teu chamado
Lembro-me só que fugira a meiguice
Do teu lindo olhar agora era a velhice
E uma lágrima dos olhos nos rolou.

(Três lágrimas, valsa de Ary Barroso)



Encontrei esta senhora, pela primeira vez na vida, quando eu contava aí pelos sete ou oito anos de idade. Calças curtas, paletó jaquetão, nas mãos uma vela e um livrinho de orações. Primeira comunhão. Vi-a no canto do altar, piscando para mim. Pareceu-me maravilhosa, em seu trajo resplandecente, uma coroa de luz em volta da cabeça. Confundi-a, mesmo, com a imagem da virgem. Não me lembro se chorei. Mas devia tê-lo feito, pois tudo levava às lágrimas: a igreja enfeitada, a emoção de minha mãe, a solenidade da missa cantada, as velas acesas e o altar iluminado. Ela piscou para mim e vi, nesta senhora, o futuro, o meu futuro: estava protegido por todos os santos e por deus. Rezava o pai-nosso e o mundo se descortinava, longe do pecado, da ameaça do inferno e das tentações do mundo. A minha inocência estava preservada.

Encontrei esta senhora, pela segunda vez na vida, quando contava aí pelos dezesseis, dezessete anos de idade. Era, então, um jovem pretensioso, embora inocente quanto ao futuro que me aguardava. Estava saindo do cinema, um filme proibido, condenado pela igreja, de Fellini, uma loucura que fizera urrar de raiva a platéia do interior, acostumada aos dramas açucarados de Hollywood, enquanto agitava a pequena cidade uma chusma de missionários católicos, a fazer miséria com a crença das pessoas. Passei pelo largo da igreja, onde uma multidão se concentrava para ouvir o orador da noite. Naquele momento, um silêncio funéreo, emoldurado pela lua cheia, parecia transir de medo a multidão. E então, o padre, lá do alto de púlpito, de dentro de sua batina negra, agita para cima o terço e exorta a que todos façam o mesmo. O silêncio se quebra com o tilintar de milhares de terços, uma cena de impressionante efeito, como se lá da lua um raio cruzasse o coração de cada um e o fizesse crer, agora mais do que nunca, num milagre de seu deus. E foi ali que a vi, a tal senhora, ainda bela, mas já madura, com um longo e brilhante vestido negro, os olhos azuis, a tez pálida à luz da lua. Ainda bela, mas já fugidia aos meus desejos. Queria, talvez, chorar, mas nenhuma lágrima havia em meus olhos, atraídos por outros encantos. Fiz-lhe um discreto sinal, e fui embora. O mundo me chamava e eu levava todas as certezas dentro de mim.


Encontrei esta senhora, pela terceira vez na vida, quando já contava eu mais trinta ou quarenta anos mais. Um senhor já quase maduro, família criada, o mundo de certezas transformado em realizações e frustrações, em vitórias e derrotas, e ainda muita luta a ser vencida. Se não tinha mais ilusões, também não cultivara assim tantas amarguras. Meu passo medido me levara aonde devia ter ido. E então, num beco sem saída, entre o cais e o nada, topei com ela mais uma vez. Velha, desdentada, prostituída por todas as grécias e por todos os vaticanos. Pela primeira vez, dirigi-lhe a palavra: por que estás assim? Tu me violentaste, sua voz era frágil. Tu me deixaste assim. Se era uma lágrima que ela queria, soltei uma gargalhada e fui embora. Afinal, quem é que ainda se divertiria com uma velha inútil e bêbada, que um dia freqüentou os salões e os templos iluminados de realezas estúpidas de todos os continentes? Antes de virar a esquina e sumir de vez por entre as luzes do cais e da cidade à minha espera, parei, voltei-me lentamente para ela, sorri, apenas sorri, mostrei-lhe o dedo médio e gritei: Vai-te foder, senhora Metafísica.


posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:59 PM


{Terça-feira, Abril 04, 2006}


QUEM MANDA NA OPINIÃO DOS BRASILEIROS, OU: QUE MÍDIA É ESSA?



Primeiro, deixe-me esclarecer bem: este artigo não tem o propósito de apoiar ou atacar a quem quer que seja, muito menos os mencionados abaixo. Nem defender teses. São, apenas, reflexões de quem olha um pouco mais atentamente o que está acontecendo por aí, há muito tempo, e quer compartilhar com outros que tenham ou não a mesma opinião. Aliás, é preferível que pensem de modo diferente os poucos que lerem estas mal traçadas, porque a polêmica é sempre bem vinda.

Dito isso, vamos à tarefa a que me propus: tentar entender quem faz a cabeça dos cidadãos brasileiros.

A mídia noticia e repercute notícias. É um tambor oco, cujo som ecoa pelo cipoal de outras mídias e retorna, às vezes ampliado, às vezes já amortecido e sem forças para que a notícia tenha outros desdobramentos. E isso é estranho. Porque um pequeno fato pode se tornar emblemático, sem que o seu emissor saiba bem por quê ou quando isso vai acontecer.

O último fato, digamos, de pequena monta que se transformou em acontecimento nacional foi a dança da deputada, no plenário da Câmara, comemorando a vitória de outro deputado num determinado processo ou julgamento. Chamou-o o repórter de ¿dança da pizza¿, o que deve ter ajudado a ganhar a repercussão que teve. E quem foi o emissor ou emissora de tal proeza? A Rede Globo de Televisão, que será, na verdade, daqui para a frente, a personagem principal de nossa análise. Que pode ser equivocada em muitos pontos, mas que deve levar a muitos uma reflexão sobre quem realmente influi na opinião do povo brasileiro.

Não vou historiar a trajetória da Rede Globo. Todos a conhecem. Nasceu e, principalmente, cresceu sob o regime de exceção dos militares. E tem pagado uma fatura alta por isso, mesmo não sendo a única. A maioria das empresas brasileiras teve de pagar pedágio ao regime militar para não fechar as portas. Em São Paulo, não preciso relembrar a famigerada Operação Bandeirantes (OBAN): muito sangue derramado nos porões da ditadura tem a marca da grana ¿que ergue e destrói coisas belas¿ de empresários que hoje posam de democratas e bons cidadãos, que a consciência não é e nunca será o apanágio dos homens de negócio. Mas a Rede Globo, por se colocar num ponto estratégico dentro da mitologia popular, o meio artístico, teve uma parcela maior de ojeriza das esquerdas, por suas notórias ligações com o regime, o que, verdade seja dita, era impossível de se evitar. Tornou-se, querendo ou não querendo os seus fundadores e diretores, o órgão oficial dos milicos travestidos de presidentes, dos quais muitos até mesmo programavam os atos que eles consideravam importantes de tal modo que chegassem primeiro ao Jornal Nacional.

A Rede Globo cresceria, com certeza, a despeito do regime militar. Mas, disse e repito: teve de pagar ágio e pedágio, sim, aos milicos, para que financiamentos e projetos de desenvolvimento fossem aprovados. Não havia outra saída. E se fôssemos contabilizar todas as empresas que fizeram o mesmo, nossa ojeriza teria infinitas direções.

Pois bem: no ocaso do regime militar, na campanha das diretas, uma situação que todos conhecem me chamou a atenção. Todos os órgãos da mídia (com exceção dos nanicos de esquerda) relutaram em apoiar o grito das ruas. Começaram noticiando com certa tibieza, até adquirirem confiança na leitura correta do momento histórico. Ninguém queria arriscar-se e o apoio real só veio com a certeza de que a abertura, relativa, permitia colocar em primeiras páginas as passeatas e os discursos da oposição. No entanto, o grito das ruas contra a Rede Globo era o que mais se ouvia, mesmo quando ela abriu suas câmeras para registrar os acontecimentos.

Aqui abro um parêntesis. Qual a função da mídia, seja ela escrita ou falada? Noticiar, de forma distanciada e neutra os acontecimentos, ou emitir opiniões e influenciar esses mesmos acontecimentos? Isso, como todos sabem, é balaio de gatos. É discussão para gente grande. Pela complexidade e pela dificuldade de definir o que é neutralidade. Mas eu acho o seguinte: não existe imprensa (ou mídia) neutra. O que pode existir, e muitos jornais, revistas, televisões, rádios etc. seguem, é um princípio ético de equilíbrio, isto é, mesmo que os jornalistas, os articulistas e os donos tenham opinião, as notícias só são publicadas quando as fontes são devidamente checadas e, principalmente, quando envolvem questões de opiniões e julgamento dessas fontes, se dê oportunidade a que o outro lado também se manifeste, em proporções de tempo e/ou espaço idênticos.

Dito isso, gostaria de, ainda, reforçar mais uma opinião pessoal, no caso das diretas e a Rede Globo: não tinha essa emissora nenhum dever moral ou ético de apoiar as eleições diretas para presidente, naquele momento histórico, como, aliás, nenhum outro órgão de comunicação tinha esse dever. Ou seja: o que se deveria cobrar da mídia era a publicação do que realmente acontecia, mesmo que se desse voz àqueles que sempre tiveram voz única na mídia, os militares e seus sequazes. O que se devia cobrar da mídia era não falsear a realidade, não omitir o que estava à vista de todos. Mas não: o que o povo nas ruas queria era o apoio da mídia, principalmente da Rede Globo de Televisão, eleita a partir daí como aquela que devia ser a voz do povo em vez de ser a voz da ditadura. Por que isso?

Por um motivo muito simples: desde aquela época, já era a Rede Globo, apesar de todos os protestos da esquerda, a queridinha do povo, com seus artistas, com suas novelas, com seus jornalistas, com seus animadores. Porque já construíra no imaginário popular uma imagem de qualidade e bom gosto (graças ao polêmico convênio com o grupo Time-Life), que a tornara o veículo numero um da mídia no Brasil. Mesmo a esquerda, que tanto a criticava, mantinha com ela uma relação de amor e ódio, pois ninguém ficava imune ao seu poderio crescente.

E já naquela época, das diretas já, começava a Rede Globo a renegar o prato em que se empanturrara, para se curvar à audiência que a mantinha. E esse paradoxo tem um preço. Um preço estranho a pagar e complexo de se entender. Ouve e repercute, a partir da abertura do regime, os anseios do povo: basta lembrar as transmissões históricas da eleição, agonia e morte de Tancredo Neves ou a criação do mito Airton Senna. Mas ao mesmo tempo começa a influenciar de forma cada vez mais perigosa na opinião dessa mesma massa que a credencia com sua audiência. A eleição de Collor de Melo é o ápice desse perigoso jogo de espelhos da mídia poderosa com o seu público. E a queda desse presidente o momento em que ela toma consciência da encrenca em que se metera. Mas as cartas estão lançadas e não há mais jeito de retroceder.

Hoje, a Rede Globo de Televisão é infinitamente mais cautelosa em relação a influenciar pessoas do que fora outrora. Mas não se iluda: ainda influencia. E muito. Mesmo o presidente Lula só foi eleito porque, além de abrandar o discurso esquerdizante, obteve da Globo o compromisso de deixar de pegar em seu pé. E mais: as demais emissoras de televisão e mesmo outras mídias muitas vezes seguem a reboque de seus noticiários. E repercutem tudo o que a Globo põe no ar. E ainda mais: são, inúmeras vezes, mais realistas do que o rei e, além de repercutir, procuram aprofundar de forma atabalhoada e opinativa aquilo que saiu primeiro na Globo ou teve o seu beneplácito. Ou seja: com raras exceções, a mídia brasileira tem uma clara doença contagiosa de dependência da Globo. Mesmo os veículos que se criam para se lhe oporem E isso, sim, é preocupante. Isso sim, é anti-democrático e, até mesmo, um perigo para as instituições.

Não deve ser visto, aqui, nenhum tipo de campanha como ¿fora Rede Globo¿, porque essa emissora é, em grande parte, criação do próprio povo brasileiro, que a elegeu como sua queridinha por motivos que vão muito além dos problemas políticos e filosóficos que ela traz em seu bojo, com sua potência e sua onipresença em nossos lares. Teve a Globo competência para se tornar, sim, uma das melhores mídias do mundo. Teve a Globo competência para se expandir e atingir, hoje, mais de cento e vinte emissoras filiadas, que cobrem praticamente todo o território nacional. Teve a Rede Globo a competência para instituir um poderoso marketing, cujo objetivo era e é conquistar e manter mentes e corações, o que explica, em parte, o fato de ter-se tornado a emissora preferida do povo. Mas não tem, e acho que nenhum outro veículo teria, competência para se livrar da encrenca em que se meteu de ser quase unanimidade e influenciar o pensamento e a opinião de milhares de pessoas que não têm outra fonte que não a televisão para se colocar diante de si mesmas, como cidadãos, e diante do mundo que a rodeia, para saber interpretar essa realidade e ter opinião própria. O que se deve criticar é o complexo de quero ser Globo das outras emissoras de televisão e a absurda dependência das demais mídias, principalmente aquelas com mais apelo popular, com as honrosas exceções de sempre, em relação ao que acontece ali. Esse atrelamento, seja consciente ou não, configura um perigoso monopólio de informações, o que o torna extremamente prejudicial ao povo brasileiro e à própria idéia de democracia.

Então, qual é a saída desse imbróglio todo? Não sei. E acho que ninguém sabe. Enquanto pautarmos nossa opinião pela mídia ou enquanto essa própria mídia não se modificar, para deixar de ser estúpida e partir para um tipo de jornalismo mais ético, não adianta praguejar contra a Rede Globo, paradoxalmente culpada e inocente de nossa indigência política e educacional. O que sabemos é que o tambor da Globo não pode continuar a bater majoritariamente, nem queremos outro que a substitua nessa função. Há que se democratizar a informação. Para não se cometerem injustiças. Para que não haja pré-julgamentos e linchamentos públicos (ainda me arrepia lembrar o caso emblemático da Escola Base, de São Paulo). Há que se preservar o direito de resposta. Há que se responsabilizar quem fala e escreve asneiras e acusa sem provas, pois a mídia não pode ser o oráculo supremo, como muitos que nela militam alardeiam e professam. Há que se ter princípios éticos. Há que se ter, no entanto e principalmente, liberdade, total liberdade de opinião. Como fazê-lo? Como achar o ponto do bolo? Também não sei. Só o que eu sei é que esse assunto precisa ganhar as ruas, ser debatido nas escolas, nas academias, nos bares, nos lares, em cada ponto onde se reúnam cidadãos de bem desse País. Porque não pode a opinião pública continuar à mercê da opinião de uns poucos e, prisioneira dessa opinião, escolher, democraticamente, o destino de um povo.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:49 AM


{Sábado, Abril 01, 2006}


ESPANTO



Bem, deixe-me remar de novo contra a corrente. Que veio forte. Pororoca. Vou tentar explicar para ver se entendi. A deputada (nem vou citar seu nome, para não me comprometer com coisa alguma) festejou, dançando, pulando, sei lá o que era aquilo, a não cassação de seu colega e amigo pelo plenário da Câmara. Gesto que está sendo punido pela mídia com o grotesco nome de dança da pizza! E pela própria Câmara, com sanções etc.!

Espere aí: deixe-me entender direito a história. Quando o meu time (e o de qualquer torcedor) faz um gol, mesmo com o jogador em impedimento, todo mundo comemora. A Argentina comemora até hoje um famoso gol do Maradona, na Copa de 1986, com a mão! E quantas famílias de assassinos confessos não comemoram sua absolvição, quando isso acontece? Ou seja, vitórias se comemoram. Ou não?

Muito bem. O que a tal deputada comemorou? A vitória de seu colega, de seu amigo, sei lá. E quem deu essa vitória? O tal plenário da Câmara, com seus votos. A regra é clara: se fulano ou beltrano é acusado, tem de ser julgado. E quem julga, no caso de um deputado? O tal plenário da Câmara! Que, pela lei e pelas palavras de todos os seus membros, é o juiz supremo, ou seja, tem a última palavra. Se o tal plenário da Câmara absolveu, por que razões não importa, o amiguinho da tal deputada, por que ela não pode comemorar? Por que é a dança da pizza, se com isso a imprensa quer dizer que a absolvição foi injusta? Pode, até, ter sido injusta, como injusto foi o gol de mão de Maradona, como são injustas tantas outras decisões que ocorrem por aí... E tantas vitórias, também! E no entanto, mesmo injustas, todas essas decisões e vitórias são comemoradas por quem de direito.

Mesmo que eu fique de beicinho, se o outro ganhou, não há o que fazer: foi uma vitória. E ponto. E vitórias se comemoram. Justas ou injustas. Daí a punir quem comemora uma vitória com sanções, com represálias na mídia, com artigos irados, isso, para mim, já é prova não só de estupidez, mas, principalmente de não concordar com as regras vigentes. Ou será que há sinal de algum preconceito embutido aí? E há mais: todo mundo sabia que a história que rola no Congresso ia terminar em pizza, ou seja, ia dar em nada ou quase nada. Por que, agora, o espanto? Por que, agora, a punição a uma pessoa que não fez nada mais do que qualquer mortal faria, na mesma situação: comemorar a vitória de um amigo?

Aí vão dizer: tudo bem, pode-se comemorar, mas não em público! Não dançando no plenário! Ora, onde está escrito que não se pode comemorar em público? Onde está escrito que não se pode comemorar no plenário? Sentiram-se injuriados os donos da verdade, os moralistas de plantão? Por que, então, não condenaram veementemente o gesto do Maluf, quando saiu da cadeia, por artifícios não muito legais, e foi comemorar comendo pastel e bebendo chope em Campos do Jordão? Por que não fizeram o mesmo protesto quando puseram na rua os assassinos da filha de Glória Perez, depois de poucos, pouquíssimos anos na cadeia? Por que não houve a mesma onda moralista, quando soltaram a menina que matou os pais, de forma bárbara, enquanto dormiam em seu leito? Por que não chiam tanto, enquanto os responsáveis pelo Bâteau Mouche ainda não foram punidos? Ou aquele deputadozinho que construiu com areia de mar os prédios que ruíram no Rio de Janeiro? E tantas e tantas outras barbaridades que andam por aí, com seus responsáveis comemorando todo dia a impunidade!... Ninguém chia, ninguém protesta, ninguém escreve artigos irados ou debochados ou seu lá o quê, reprisando seus feitos na televisão, no rádio, nos jornais!...

Não concordo com o plenário da Câmara nem dele discordo. Apenas o que eu sei: absolveram o tal deputado porque podiam fazê-lo. Se foi justo ou injusto, nem importa muito, porque não conheço, e acho que pouquíssima gente conhece, o real mérito da história. Mas não é isso o que está em jogo, mas sim o direito de se comemorar uma vitória. Mesmo que de Pirro. Porque o ser humano é assim. Age assim. E todos os que condenam a tal deputada que dançou fariam a mesma comemoração, se o adversário, mesmo com todas as provas a favor, fosse condenado. Como tenho visto muito por aí. Ou não? Ou eu é que estou louco? Talvez seja apenas implicância minha e, nesse caso, então está tudo bem. Ou não?

De qualquer forma, por essa e outras, é que tenho vontade de vomitar, quando leio as bobagens que andam por aí. Porque são piores do que aquilo que fazem todos dias todos os corruptos de todos os partidos desse pobre País!

Haja saco!

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:48 PM

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