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{Sexta-feira, Março 31, 2006}


CARTA ABERTA AO TIMES

Embora de pijama, vejo-me obrigado a representar a VV.Exas. contra o abuso inominável de que vimos sendo vítimas, eu e outras pessoas igualmente respeitáveis, num campo de concentração dentre os muitos que devem existir por este mundo concentrado de hoje, e que não sei dizer se fica na Europa ou na Ásia ou mesmo na Polinésia, pois justamente este é o segredo maior que paira sobra as nossas cabeças, enquanto ainda as temos. Aqui todos falam todas as línguas, cada um a sua naturalmente, e o que pode parecer estranhável é que nem sempre ó o inglês que fala o inglês, o francês quem fala o francês, o russo quem fala o russo, e assim por diante, sendo ao contrário comum que um embaixador da Abissínia, por exemplo, nunca tenha ouvido falar o o abissínio em toda a sua vida, ou que um legado do papa não saiba sequer dizer amen em latim, ou ainda que um descendente de Napoleão Bonaparte só conheça em francês os nomes das boates mais famosas, como Folies Bergère ou Mandarin e outras semelhantes. Eu mesmo, que sou iraniano, ou pelo menos me sinto iraniano esta manhã, não sei dizer ao certo nem onde fica situado o Irã no mundo conturbado de hoje, embora já tenha viajado muito no passado, sobretudo em imaginação.

Mas o assunto desta, que coloco numa garrafa e jogo no cano de esgoto para que possa chegar até às mãos de VV.Exas., não é geográfico nem lingüístico, e sim estritamente moral e humano, como o foi o Sermão da Montanha, por exemplo, para só citar um exemplo famoso. Trata-se apenas de despertar a consciência de VV.Exas. para o fato de, em pleno século XX, e ao que consta em pleno período de paz, ser permitido a um pequeno grupo de idiotas manter presos e por vezes mesmo amarrados alguns cidadãos de alta linhagem e de reputação acima de qualquer suspeita ¿ só porque esses cidadãos, entre os quais estou eu naturalmente, não pactuam e não poderiam mesmo pactuar com suas idéias retrógradas e obsoletas, seja em matéria de religião como de política, de amor como de finanças ou de arte. Pois o que ocorre neste campo de concentração onde me encontro, como deve acontecer em todos os demais, é apenas isto e que me parece de um absurdo inominável: uma minoria armada até os dentes, inclusive com cadeiras elétricas, manda e desmanda sobre uma maioria de indivíduos realmente individuais e tenta impor-lhes à força a sua cartilha de primeiras letras, quando não o seu catecismo religioso dos tempos antediluvianos, que é a quanto chegam no melhor dos casos as idéias ou que outro nome tenha a intolerância desses senhores da terra e dos céus.

A comida aqui não é má, mesmo porque já faz parte do programa desses maníacos a preocupação de manterem quanto possível vivos os seus escravos brancos ou negros, amarelos ou vermelhos ¿ sem o que teriam, por desfastio, que devorar-se entre si e declarar-se em guerra quase que diariamente, o que não lhes seria de muito proveito. Mas se a comida não é intragável, a liberdade aqui é uma palavra que já não existe nem sequer nos dicionários e de que só ouvimos falar quando somos nós que a pronunciamos, em geral em voz baixa e para nós mesmos. E sem liberdade, hão de convir VV. Exas. que este mundo, por melhor que seja, não passa de um pesadelo e de uma farsa de mau gosto ¿ como há de achar no front o soldado com o seu fuzil e suas polainas, num dia azul de primavera.

Não temos sequer a liberdade de amar ¿ já não digo uns aos outros, o que seria demais, mas a uma mulher de nossa predileção, ou mesmo a uma simples mulher ¿ pois as únicas mulheres que vemos ou são estrábicas ou não têm quaisquer atributos que as diferenciem dos homens donos do campo, tratando-nos ou como crianças ou como idiotas, no que aliás copiam um pouco as verdadeiras mulheres. E não havendo mulheres propriamente ditas, o cérebro emperra e os nervos sobem à flor da pele, dando azo a esse espetáculo triste e grosseiro da masturbação coletiva, mesmo nos feriados e dias santos. A única mulher que tenha algo de feminino, dentre as poucas que circulam pelas salas da nossa prisão, ´[e a mulher do inquisidor-mor ou, se VV. Exas. preferem do chefe da guarda ou administrador do estabelecimento ¿ mas essa mesma tem um estrabismo bem pronunciado e é menos acessível do que a lua no céu ou o seu reflexo no fundo de um poço, dada a vigilância a que estamos continuamente submetidos. Há casos profundamente dolorosos, como o do dr. Kheiter por exemplo, que se vê obrigado a masturbar-se como um menino de colégio só porque os nossos carrascos decidiram que não somos homens até o dia em que finalmente resolvamos voltar ao aprisco das idéias feitas e ao cadinho de seus sentimentos desumanizados e postiços. Eu, neste particular, vivo à custa de minhas boas recordações de todos os bordéis e salões de luxo que freqüentei dos vinte aos 35 anos, na Europa, na Ásia, na Oceania, na América, na África, e sobretudo em sonho. Não que eu fuja à regra geral da masturbação; mas posso afirmar que sinto muito menos os agulhões da carne do que, por exemplo, o legado pontifício ou seu casmurro secretário, para não falar de um estudante chamado Vinícius e que vive a recitar a Bíblia justamente naqueles trechos em que a Bíblia desperta a imaginação da juventude e favorece, de certo modo, as poluções noturnas.

Mas tudo isto é muito trágico, eu bem sei, e o pijama não e o traje apropriado para considerações de tal transcendência, mesmo num mundo em que o absurdo é cada vez mais a regra geral, ou tendo a sê-lo pelo menos. Em outra oportunidade (caso me arranjem uma outra garrafa) voltarei ainda ao mesmo assunto, que pode parecer monótono a VV. Exas. mas que para nós é vital e direi mesmo único, já que a morte do espírito é mil vezes mais trágica do que a morte do corpo, e que o homem privado da sua liberdade de pensar e de amar vale menos do que a sua sombra num muro ¿ a menos que se trate naturalmente de um muro junto ao qual ele esteja sendo fuzilado, com os olhos bem abertos e a cabeça erguida.

Respeitosas saudações.

Não creio que alguém adivinhasse a assinatura do texto acima. por que não há, no mundo, muitos campos de carvalho. No Brasil, há um só, com maiúsculas: Campos de Carvalho. Walter Campos de Carvalho, mineiro de Uberaba, lá nascido nos idos de 1916. Advogado, viveu a maior parte de sua vida em São Paulo. Escritor. E dos melhores. Por isso, pertence à categoria dos malditos. Aqueles que não tiveram, no tempo devido, o reconhecimento de sua obra. Colaborou no Pasquim e no Estadão. Publicou: Banda forra (ensaios humorísticos), 1941; e os romances: Tribo, 1954; A lua vem da Ásia (1956); Vaca de nariz sutil (1961); A chuva imóvel (1963) e O púcaro búlgaro (1964). Morreu em 10 de abril de 1998. Há algum tempo, corri São Paulo, livrarias e sebos, e a Internet, em busca de suas obras. Nada. Agora, a José Olympio acabou de publicar sua obra reunida, cujo volume me chegou às mãos graças a um presente de meu amigo Nabil Arida, que a encontrou na Bienal do Livro (até que não foi tão inútil assim a tal Bienal). Queria lê-lo sofregamente, mas tenho refreado o impulso, para degustar com calma toda a ironia fina e todo o estilho requintado de Campos de Carvalho. Por isso, o texto acima, que foi tirado de:

Carvalho, Campos de, 1916-1998. Obra reunida / Campos de Carvalho; prefácio Jorge Amado; introdução Carlos Felipe Moisés. ¿ 4ª edição ¿ Rio de Janeiro, José Olympio, 2005.

Conteúdo: José Olympio e Campos de Carvalho, singulares / Jorge Amado; A lua, a vaca , a chuva e o púcaro / Carlos Felipe Moisés; Obra reunida: A lua vem da Ásia; Vaca de nariz sutil; A chuva imóvel; O púcaro búlgaro.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:15 PM


{Quinta-feira, Março 30, 2006}


REFLEXÕES SOBRE ALGUNS PROCESSOS DEMOCRÁTICOS




Se Juscelino conseguiu 50 anos de progresso em 5 anos de governo, não sei. Nem mesmo me importa muito, no momento, se ele construiu Brasília. Importa, neste momento, dizer de JK que o seu apreço à democracia foi o exemplo mais fecundo que se pode deixar à história de um país que ainda não sabe muito bem o que significa essa palavra.

Aliás, pouca gente sabe o que significa democracia. Dizem ter sido inventada pelos gregos, mas desconfio e quase mesmo acredito que os filósofos e políticos da velha Grécia só inventaram realmente a palavra. Porque o conceito ainda está por ser refinado e aprofundado, para que se possa afirmar com certeza se tal ou qual país é ou não democrático.

Hoje, pratica-se o que se chama democracia representativa. Ou seja, elegem-se pessoas que julgamos nossas representantes num parlamento, o que parece ser algo próximo do ideal. Mas é preciso que haja outros mecanismos de democracia direta, para complementar a idéia de representação. E isso, ainda, é muito difícil. Mesmo com sistemas aperfeiçoados de consulta, o povo raramente é levado a decidir sobre questões importantes, e quando ocorre essa consulta, quase sempre ela acaba contaminada por formas equivocadas de propaganda. Haja vista a consulta sobre fabricação de armas, no Brasil, completamente obscurecida pela visão míope de um raciocínio político mais equivocado ainda, em vez de direcionada para uma discussão que visasse realmente o bem público.

Quanto à representatividade parlamentar, acredito ser uma fórmula bastante inteligente, em teoria, por se aproximar a algo realmente parecido com democracia, desde que não se transforme em motivo de estrangulamento desse mesmo processo, que é o que vem ocorrendo, de forma clara e peremptória, no Brasil. Para que esse processo tenha menos vícios, é necessário que haja partidos políticos fortes. Com ideologias claras. Com diretrizes programáticas conhecidas por todos. De tal forma que, ao votar, saibamos qual tipo de governo estamos escolhendo. Por isso, o pluripartidarismo, por mais atraente que seja, não é o melhor caminho. Para haver partidos fortes, é necessário que haja poucas agremiações, acredito que, no máximo, quatro. Não há muitas linhas programáticas de governo que justifiquem a existência de tantos partidos. Confunde-se partido político com outras formas de pensamento. Explico-me: ecologia, por exemplo. Está acima ou, se preferir, fora de qualquer coloração política: uma pessoa pode ser de direita ou de esquerda (para usar termos mais conhecidos) e ser ecologista ao mesmo tempo. Não há que se fundar um partido verde, isso é estupidez. A preocupação com a natureza nada tem a ver com o naipe ideológico-partidário, embora possa ter com a forma como vai ser tratada a questão pelo partido x ou y, e isso pode, e deve, constar do ideário de cada um, abrigando sob sua bandeira os ecologistas de tal ou qual ideologia. Porque, na verdade, não há ecologista de direita ou de esquerda, e até mesmo George Bush podia sê-lo, e só não o é por razões de sua estupidez e, mais ainda, e pior, por seus compromissos com forças econômicas poderosíssimas.

Assim, com poucos partidos políticos, as diversas opiniões a respeito dos inúmeros problemas sociais se aglutinam em torno de uma bandeira, sabendo-se que as questões fundamentais serão atendidas, independentemente de quem esteja no poder. Dou mais um exemplo: educação. A linha educacional a ser adotada deve ser discutida com educadores e ter o aval popular, mas qualquer que seja o partido no poder, as verbas da educação devem ser sempre as mesmas, porque isso é política de estado e não de governo. O que pode mudar é como essas verbas serão aplicadas e disso o povo também deve estar consciente ao votar.

Outro fator que contamina o processo representativo é o voto do parlamentar nas diversas câmaras do poder legislativo: não pode haver voto secreto. Toda votação em plenário deve ser aberta, para que todos saibam exatamente se o parlamentar está ou não seguindo as diretrizes do seu próprio partido e as promessas que fez a seu eleitorado. É preciso que o eleitor saiba com absoluta transparência o que pensa o vereador, o deputado estadual ou federal, ou o senador.


Também o poder legislativo não pode ter maiorias contrárias ao poder executivo, porque isso provoca crises imensas de governabilidade, mesmo nos regimes parlamentaristas. Acredito que, diante de partidos realmente fortes, com programas de governo devidamente discutidos pela população durante a campanha eleitoral, não há que se temer por desvios de autoritarismo, se o número de votos dado aos cargos do executivo determinar a maioria nas casas legislativas. Já há mecanismos de defesa do sistema suficientes, como o Ministério Público e o Judiciário, para se temer que, eleito, um prefeito, governador ou presidente tenham mais de 50% dos parlamentares de seu partido. Se o povo escolheu x ou y, é preciso que essa pessoa tenha base parlamentar suficiente para implantar as diretrizes de seu governo. Se elas forem erradas ou prejudicarem o povo, repito, há meios mais do que democráticos de se impedir que isso aconteça. O que não se pode é manter um governo democraticamente eleito refém de um parlamento hostil.

Enfim, a democracia ainda é um sistema em evolução e seus processos precisam ser aperfeiçoados, para que possamos manter o apreço que JK teve ao sistema democrático, sem que ele se contamine por crises estruturais que só trazem desesperança e desprestígio a uma forma de governo que, se não é a melhor, é a única que temos. Por ser mais decente e mais condizente com os anseios do povo.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:37 PM


{Terça-feira, Março 28, 2006}


CHEIRO DE 64




No começo, foi assim: perigo vermelho. Os comunistas escondidos do governo JK dão as caras e as cartas no governo Jango. Pularam a indecência do Jânio, o queridinho das elites, da direita hidrófoba, que fez o que fez. E jogou o Brasil no impasse. Mas havia João Goulart, no caminho da direita. E ele era o estorvo. Com seus criptocomunistas e suas reformas de base. Recorreu-se a tudo: a imprensa, como sempre, dando o maior apoio. Não havia a Veja, mas havia O Cruzeiro, havia o Correio da Manhã, e havia Carlos Lacerda. E Magalhães Pinto. E outros, muitos outros. A desculpa: o perigo vermelho. Até à horta se recorreu: melancias! Verdes por fora, vermelhas por dentro. E era preciso erradicar as melancias. Passeatas com as mães pela tradição, a família. Orações. Padres. E Jango, coitado, acreditando num programa reformista, fez o que eles queriam: tentou reagir. Fez comícios. Fez discursos. Ao lado de quem? De Brizola, o pior de todos. Então, era preciso sentar a pua. E lá vieram os milicos, financiados pelo latifúndio, abençoados por cardeais, aplaudidos por fantoches travestidos de governadores, apoiados pelo povo bestificado pela mesma imprensa de sempre, a que late mais alto quanto mais ração lhe dá a inteligentsia dos patrões. Uma quase unanimidade, o golpe de 64. Para restaurar a democracia, os bons costumes e pôr os ladrões na cadeia. Sim, havia também um viés moralista contra a pretensa corrupção dos poderes públicos. Vieram, então, os salvadores. Salvadores de seus próprios soldos e da parcela mais que generosa a tinham direito todos os que financiaram o golpe. Com baionetas, calaram a boca dos jornalistinhas que os apoiaram, deitaram e rolaram por mais de vinte anos. Resultado: falsos milagres econômicos, estagnação, inflação, achatamento dos salários, prisões, muitas prisões e mortes. E corrupção, muita corrupção, que ninguém é de ferro.

Agora, depois de tanto tempo, a direita tem argumentos semelhantes: a corrupção. Ou pretensa corrupção. Os cães estão de novo nas ruas. Seu latido repercute. A sarna é a mesma. Corrupção. E ameaçam com as armas de sempre: denúncias sem provas, justificativas imbecis para ataques de todos os lados. E os corruptos de ontem (que perderam sua boquinha) posando de baluartes da honestidade. Armam-se as mesmas articulações, as mesmas justificativas. Faltam as marchas das famílias com deus pela tradição. Ou vice-versa. Qualquer coisa que manipule o povo, que chame a atenção, que atraia as manchetes da imprensa de sempre, a mesma que se vendeu e se estrepou, em 64, a mesma que colhe com júbilo os restos dos banquetes das oligarquias que riem às suas costas, convencidas de que não é preciso muito para enganar os trouxas de sempre. E lá vêm denúncias e manipulações. Simplesmente porque eles, os direitistas de sempre, agora denominados de liberais e neo-liberais não toleram que o País caminhe por suas próprias pernas, governado por um homem que não come das migalhas de seus banquetes.

Porque, no começo, é sempre assim: acusam, derrubam, destroem. Depois, tomam conta. E não sobra para mais ninguém. Que, em matéria de corrupção, de grandes negociatas, de entreguismo, eles, os de sempre, são imbatíveis: roubam e sacaneiam de uma forma tal, que os enganados e sacaneados (para variar, o povo) até agradecem por terem sido roubados. São sábios, muito sábios, esses que estão aí, cabeçudos e narigudos a berrar por todos os cantos. Berram, latem, estrebucham, porque não podem ficar sem o poder que sempre tiveram. E o povo, enganado pelos sempre prontos jornalistinhas de pasquins semanais subsidiados com dinheiro do povo (vejam o preço de papel!), vai na onda dessa canalha. Há um cheiro de 64 no ar. Um cheiro de merda!

Haja saco!

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:57 PM


{Sábado, Março 25, 2006}


BOBAGENS

A Internet, esse grande e espetacular lixão do pensamento humano, tem de tudo e aceita tudo. Felizmente. Não importa se há sites estúpidos, como os de pedofilia ou nazistas. Esses, as leis de cada país e o bom senso dos que não gostam de pedófilos nem de nazistas (que, acredito, devem ser a imensa maioria) acabam por excluir. O que importa é a democratização do conhecimento que a Internet começa a promover. Digo começa porque há ainda um grande caminho a percorrer, até que a rede alcance toda a população do mundo, sem exceções.

Mas, ia dizendo que há de tudo nesse lixão imenso. Fuçando, a gente encontra coisas engraçadas. Num site, provavelmente católico, cujo endereço é http://our.homewithgod.com/drleadnet/intellectus/contradicoes_u.htm, um artigo denominado As Contradições do Ateísmo, o articulista, um tal de Dr Leadnet, diz que (todo o texto em grifo é dele) muitos ateus (cujas verdadeiras motivações para a crítica nada têm a ver com lógica) apelam, freqüente e conscientemente, para as tão conhecidas falácias da lógica. Vamos a alguns breves exemplos:

1-Apresentar ou afirmar uma conclusão baseada no fato de alguém não ter podido responder a uma questão de elevada complexidade ou a uma pergunta intencionalmente formulada com o intuito de deixar o interlocutor confuso ou emocionalmente influenciado.

2-Apresentar uma conclusão após distrair a atenção e o raciocínio do interlocutor com a colocação de uma mistura de informações fragmentadas as quais não apóiam e nem validam a conclusão preliminar baseada em dedução pessoal.

3-Procurar forçar uma conclusão baseada em limitadas opções de resposta as quais foram, erroneamente, apresentadas como as únicas opções para a questão.

4-Afirmar uma conclusão após, ilegitimamente, forçar uma errônea e/ou impossível comparação entre duas coisas.

5-Apresentar conclusões em um determinado momento onde não se possa apresentar uma outra premissa que prove o contrário.

6-Apresentar conclusões após, deliberadamente, desconsiderar os aspectos mais complexos de uma questão, levando assim o ouvinte a admitir uma afirmação dedutiva sem a análise do essencial do que esteja em foco.

8-Apresentar conclusões que nada mais sejam do que diferentes reafirmações de uma mesma asseveração, levando-se em conta a mesma premissa, não a colocando, portanto, a fim de ser questionada, mas revalidando-a, ilegitimamente, baseada em ciclos viciosos de repetições e de reafirmações das mesmas premissas.

9-Apresentar conclusões distorcendo o real significado de termos e de conceitos, onde a ênfase gramatical ou a emoção podem, eventualmente, conduzir a uma aceitação meramente dedutiva da premissa.

10-Apresentar conclusões tomando-se em consideração premissas baseadas em teses.


Ora, eu poderia, também dizer que, em defesa de suas teses (se você leu atentamente os argumentos acima, nem precisa gastar seu tempo: são os mesmos! Vá, portanto, para o final do artigo, que é mais interessante), os deístas (cujas verdadeiras motivações para a crítica nada têm a ver com lógica) apelam, freqüente e conscientemente, para as tão conhecidas falácias da lógica. Vamos a alguns breves exemplos:

1-Apresentar ou afirmar uma conclusão baseada no fato de alguém não ter podido responder a uma questão de elevada complexidade ou a uma pergunta intencionalmente formulada com o intuito de deixar o interlocutor confuso ou emocionalmente influenciado.

2-Apresentar uma conclusão após distrair a atenção e o raciocínio do interlocutor com a colocação de uma mistura de informações fragmentadas as quais não apóiam e nem validam a conclusão preliminar baseada em dedução pessoal.

3-Procurar forçar uma conclusão baseada em limitadas opções de resposta as quais foram, erroneamente, apresentadas como as únicas opções para a questão.

4-Afirmar uma conclusão após, ilegitimamente, forçar uma errônea e/ou impossível comparação entre duas coisas.

5-Apresentar conclusões em um determinado momento onde não se possa apresentar uma outra premissa que prove o contrário.

6-Apresentar conclusões após, deliberadamente, desconsiderar os aspectos mais complexos de uma questão, levando assim o ouvinte a admitir uma afirmação dedutiva sem a análise do essencial do que esteja em foco.

8-Apresentar conclusões que nada mais sejam do que diferentes reafirmações de uma mesma asseveração, levando-se em conta a mesma premissa, não a colocando, portanto, a fim de ser questionada, mas revalidando-a, ilegitimamente, baseada em ciclos viciosos de repetições e de reafirmações das mesmas premissas.

9-Apresentar conclusões distorcendo o real significado de termos e de conceitos, onde a ênfase gramatical ou a emoção podem, eventualmente, conduzir a uma aceitação meramente dedutiva da premissa.

10-Apresentar conclusões tomando-se em consideração premissas baseadas em teses.



Pois é: ateus e deístas podem apresentar os mesmos tais princípios lógicos para se atacarem. Não é interessante?


Ao contrário dos argumentos do articulista sobre as tais contradições do ateísmo, que nem vou repetir aqui (quem quiser que o leia no site indicado, pois são uma coleção de bobagens), volto a enfatizar algo que tenho escrito: O ATEÍSMO NÃO É UMA FILOSOFIA. É APENAS A DESCRENÇA (NATURAL) EM UM DEUS, EM UM CRIADOR. NADA MAIS. Querer que o ateísmo substitua na mente das pessoas todo o arcabouço de filosofias, crenças, visão de mundo, atitudes, preceituário ético etc, das crenças deístas é uma grande bobagem. NÃO ACREDITAR EM DEUS NÃO SIGNIFICA NÃO TER UM CONJUNTO ÉTICO DE VIDA. O ateu é, repito, apenas uma pessoa que não aceita a crença estúpida e anti-natural da existência de um ser supremo. É, por isso, um livre pensador, como muitos se autodenominam, sem as peias e as amarras de livros sagrados, de verdades absolutas, de teologias excludentes, de sistemas rígidos de raciocínio. No mais, ele pode ser o que quiser ou a educação ou o meio onde vive o levarem: benemérito da humanidade ou carrasco nazista; corintiano ou palmeirense; bom cidadão ou sonegador de impostos... Exatamente como todos os demais seres desse planeta, inclusive os deístas.


E outra coisa: fazer a crítica das religiões, de qualquer religião, nada tem a ver com ateísmo. Uma pessoa pode, perfeitamente, não concordar com os princípios que regem as religiões e ser deísta, ou seja, acreditar num criador e tudo o mais. É claro que, como ateu, eu posso e devo, de acordo com minha consciência, denunciar as mazelas e, aí sim, as contradições das religiões estabelecidas em torno da crença em um criador. Mas, poderia também ficar calado e a existência dessas seitas ser absolutamente indiferente para mim.


E expliquemos ainda mais: a crença deísta é imposta através da educação, do meio, da palavra de pais, professores, padres, rabinos etc. Se não se falar em deus para uma criança, ela crescerá sem saber o que é isso, e mais: nem será deísta nem atéia, apenas um ser natural, que não precisa de um criador para existir, viver e ser uma pessoa como qualquer outra, com sentimentos e pensamentos, com uma filosofia de vida e com princípios éticos em relação a si mesma, aos outros e ao mundo que a rodeia. (*) O resto são bobagens para as quais já se gastou energia demais do ser humano para inventar e manter deuses, templos, rituais com cosmogonias, teogonias e teosofias. E ponto final.


(*) Uma lembrança agradável da juventude (e irônica, claro): Tarzã, o rei dos macacos, por eles criado na selva, na concepção de Edgar Rice Burroughs, não tinha nenhuma religião ou crença em qualquer macaco criador ou superior.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:10 AM


{Sexta-feira, Março 24, 2006}


A COBRA ESTÁ FUMANDO... DE RAIVA



CAMPANHA POLÍTICA: PSDBFL acusa Lula de estar fazendo campanha política antes da hora. E Alkmim, o picolé de chuchu, o queridinho da imprensa capitalista de São Paulo, o tucano mais narigudo do País, o que está fazendo? Se não é campanha política, o que é, então, visitar obras do complexo olímpico do Rio, ao lado do louquinho César Maia? Turismo, com certeza, não é... Haja saco com essa cambada!

ROUBAR MANTEIGA É CRIME HEDIONDO: Se a empregada doméstica Angélica Aparecida de Souza Teodoro, solta depois de 6 meses de prisão, tivesse matado o marido, em vez de roubar um pacote de manteiga no supermercado, no valor de três reais, já estaria na rua há muito tempo, como ré primária. Ou tivesse matado os pais, como fez a Suzana Richtofen, que está por aí, livre, leve e solta. Ou o Pimenta Neves, o jornalista que fuzilou a namorada, covardemente, pelas costas, há seis anos, e também está por aí, livre, leve e solto... Assim caminha a Justiça brasileira: matar é crime comum, roubar manteiga é que é crime hediondo! E ainda resolvem dar pena progressiva para seqüestradores, assassinos, traficantes, etc., todos bons cidadãos, recuperados depois de três, quatro ou cinco anos de prisão...

CPI É SÓ CIRCO, NADA MAIS: Como previra, vão acabar em nada, essas CPIs e CPMIs que andaram criando por motivos políticos. Por quê? Porque não têm consistência legal as provas que apresentam, porque seus membros são afobados e imbecis e só querem aparecer na mídia (quem ainda se lembra daquele deputadozinho Neto?), com seus comentários bisonhos, suas conclusões intempestivas. Se querem justiça, investiguem primeiro, colham provas, ouçam testemunhas e tirem conclusões depois. CPI e CPMI não são instrumentos de condenação, mas de investigação. Estão certos os ministros do Supremo Tribunal Federal em criticar os procedimentos de deputados e senadores na condução das investigações. Se não fazem nada direito, como querem que o plenário do Congresso casse os mandatos dos acusados? Até agora, as poucas cassações efetuadas tiveram motivação unicamente política: do acusador, por ter acusado e dos outros dois cassados, unicamente por vingança, vingança e nada mais que vingança.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:04 PM


{Terça-feira, Março 21, 2006}


PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE PÁSSAROS

Não, não quero, hoje, escrever sobre política, religião, pobreza, tristezas humanas. Hoje, primeiro dia do outono (que começou ontem, com pompa e circunstância, às três e pouco da tarde: os cientistas têm o número exato, mas quem se importa com eles, com os cientistas e com os números exatos?), quero falar de pássaros. Alguém se lembra de uma crônica de Cecília Meireles, O Bem-te-vi Gago? Não? Também não importa. Só me veio à lembrança, porque quero falar de bem-te-vis.

São Paulo, todos sabem, é um mundo, não uma cidade. Aqui tudo é possível ou impossível. Até mesmo um minúsculo oásis entre edifícios. Aliás, há vários, nessa cidade de tantos adjetivos. Mas há um especial: a minha casa. Onde moro há mais de... não importa, há muito, muito tempo. No Jabaquara. Perto do metrô. O bairro mudou nesses anos todos (que, de tantos, me recusei a dizer): dezenas de prédios cercam, hoje, a minha casa, o meu quintal. Que resiste. Com uma meia dúzia de árvores, todas plantadas por mim, apesar do espaço exíguo. Há palmeiras, caquizeiro, guaranazeiro, jabuticabeira, pitangueira e mais um ou dois ilustres desconhecidos (pelo menos, para mim). Até há uns oito anos, o quintal era freqüentado por muitos pássaros: sanhaços, bem-te-vis, sabiás, rolinhas, pardais, bicos-de-lacre etc. Chegamos a contar umas quinze espécies. Poucos resistiram à verticalização do bairro. Migraram. Minguaram. Desapareceram. Fugiram. Mas os bem-te-vis, não. Resistem. E fazem ninhos e se reproduzem. Conhecemos, eu e minha família, já algumas gerações de bem-te-vis, sempre por perto, sempre atentos a nossos movimentos, meio desconfiados, mas nunca medrosos. Alguns vão embora com seus filhotes, outros ficam por aqui mesmo e nos apresentam, orgulhosos, a nova família.

Pássaros, todos sabem, cantam. Nascem com o dom do canto, mas não com o conhecimento do canto. Como nós, humanos: temos a possibilidade da fala, mas a língua, esta é aprendida. O mesmo ocorre com os pássaros: aprendem o canto de sua espécie com os mais velhos. Pois bem, há um bem-te-vi novo no pedaço. Já emplumado, orgulhoso, voa para cá e para lá. Belo. Mas como ainda canta mal, o desavergonhado: todo o dia o ouvimos esgoelar-se pelas árvores, a tentar o canto que ainda está longe de afinado. Aliás, nem o típico bem te vi ele ainda consegue articular. Só um grito meio roufenho, buzina desafinada no burburinho das árvores. Mas está lá, o danadinho. Enquanto não aprende direito as notas nem sempre bem articuladas de seu canto, divertimo-nos. Por isso, aliás, a lembrança da crônica de Cecília Meireles, que falava de um bem-te-vi que cantava bem-bem-bem-te-te-te-vi-vi-vi e que ela achou, por isso, que os pássaros estavam sofrendo algum tipo de mutação genética, por causa do clima, da bomba atômica. Intrigada com o fenômeno, não pôde deixar de concordar com sobrinho que, ao ouvi-lo, exclamou: um bem-te-vi gago!

Aonde quero chegar com esse papo furado de bem-te-vi? Não sei. Talvez a lugar nenhum. Apenas registrar que há um novo bem-te-vi em meu quintal, tentando aprender o canto de sua espécie. Nem sei se ele é gago ou se conseguirá articular as três sílabas famosas com a presteza e habilidade de seus pais. Porém, uma certeza eu tenho: enquanto houver bem-te-vis, ainda haverá esperança. Esperança de quê, cara? Também não sei, apenas esperança. Por que, temos de ter esperança de alguma coisa? Será que não basta, apenas, ter esperança? Pelo menos, para não ficar se preocupando com política, com a estupidez humana, com as guerras... Mas eu disse que não ia falar disso! Paremos por aqui, e fiquemos apenas com... o quê, mesmo? Com bem-te-vis e esperanças! Uns e outros podem ser gagos, mas enquanto existirem...

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:37 PM


{Segunda-feira, Março 20, 2006}


RELIGIÃO E BARBÁRIE

A minha implicância contra os sistemas deístas, sejam eles ocidentais ou orientais, fundamenta-se na idéia de que as religiões se constituem numa praga impossível de ser controlada. A partir do momento em que se institucionalizaram, ou seja, se tornaram organizações com chefes, papas, aiatolás, rabinos, bispos etc., deixaram de ser culto ao deus para se tornaram organizações poderosas e donas dos destinos das pessoas. Para isso, distorcem ensinamentos, inventam leis e mandamentos, impõem regras, cobram dízimos e tributos, constroem templos, criam organogramas, tratam seus seguidores como gado, impõem-se em todos os setores da sua vida pessoal e não admitem outras verdades que não sejam as que seus líderes pregam. Abandonam, em conseqüência, qualquer escrúpulo para se manterem: através de rezas e mantras ou através de regras disciplinares rígidas, cuja finalidade é tolher a liberdade de pensamento de seus seguidores; em nome do seu deus, agora tornado único e exclusivo, dão a si mesmas o direito de prender, torturar, matar ou mandar matar. Porque a vida, para as religiões e seus mandatários, não tem nenhum valor, já que a fé impõe o sacrifício ao deus e a esperança dos que seguem seus mandamentos está no outro mundo, seja ela um céu beatífico ou um paraíso de virgens. Mas isso é um conceito meu, pessoal, porque sou ateu e não gosto de religiões. Combato-as com a minha lógica, com o meu verbo, com a minha sensibilidade para analisar os fatos e, acima de tudo, porque acredito na liberdade de expressão e na não violência. Não vejo na perseguição a qualquer culto a saída para a barbárie que, eu acredito, as religiões promovem através de seus fanáticos. Creio que a construção de um pensamento racional, por mais difícil que seja tal tarefa, possa contribuir para a diminuição do ódio e do preconceito. A bola da vez é, sem dúvida, o fanatismo oriental, mas não se esqueçam: todas as religiões já cometeram, cometem ou cometerão seus excessos. É apenas uma questão de oportunidade. Dê aos fanáticos condições para se impor, que eles se manifestarão. Da forma raivosa e odiosa de sempre. Não pode haver contemplação para esse tipo de gente. São bárbaros, monstros a serem combatidos sob todas as formas possíveis, menos a violenta, que é o que eles querem como justificativa para continuar seu banho de sangue. O terrorismo deles não pode ter como resposta qualquer outro tipo de violência, mas algo precisa ser feito e, parece, começa a ganhar corpo uma cruzada das mentes mais lúcidas deste planeta contra a barbárie do fanatismo. Sem violência, sem preconceito, sem medo. Por isso, achei muito bom o artigo a seguir. Se possível, leiam, divulguem, mesmo que sejam católicos, protestantes, muçulmanos, enfim, mesmo que sejam deístas. Mas acima de tudo, divulguem se não desejam que sua fé se transforme em fonte de fanatismo, de preconceito, de terrorismo e morte.


Isaias Edson Sidney


MULÇUMANA SE ERGUE CONTRA RADICAIS


Sírio-americana recebe ameaças por suas críticas ácidas ao Islã, tema de livro em que ela questiona a religião

John M. Broder /OESP-19.3.2006
THE NEW YORK TIMES
LOS ANGELES


Há um mês, a dra. Wafa Sultan era uma psiquiatra sírio-americana pouco conhecida vivendo nos arredores de Los Angeles, nutrindo um ódio e um desespero profundos por seus semelhantes muçulmanos. Hoje, graças a uma entrevista dura e provocativa na TV Al-Jazira em 21 de fevereiro, ela é uma sensação internacional, aclamada como uma voz fresca da razão por alguns, e, por outros, fustigada como uma herege e infiel que merece morrer.

Na entrevista, que foi visitada na internet mais de 1 milhão de vezes, Wafa criticou asperamente clérigos muçulmanos, guerreiros sagrados e líderes políticos que, acredita ela, distorcem os ensinamentos de Maomé e do Alcorão há 14 séculos. Ela disse que os muçulmanos, que ela compara desfavoravelmente aos judeus, entraram numa vertigem de autopiedade e violência; que o mundo não está testemunhando um choque de religiões ou culturas, mas uma batalha entre modernidade e barbárie, batalha que as forças do Islã violento, reacionário, estão fadadas a perder. Religiosos de todo o mundo muçulmano reagiram condenando-a, e sua secretária eletrônica se encheu de ameaças. Mas os reformistas islâmicos a enalteceram por dizer, em alto e bom som, em árabe, e na TV mais vista do mundo árabe, o que poucos muçulmanos ousam dizer.

"Nosso povo é refém de nossas crenças e ensinamentos", disse Wafa, de 47 anos, em entrevista na semana passada em sua casa num subúrbio de Los Angeles. "O conhecimento me libertou desse pensamento retrógrado. Algo precisa ajudar a libertar o povo muçulmano dessas crenças equivocadas."

Suas palavras mais provocativas na Al-Jazira talvez tenham sido aquelas em que ela compara como judeus e muçulmanos reagiram à adversidade. Falando do Holocausto, ela disse: "Os judeus saíram da tragédia e obrigaram o mundo a respeitá-los com seu conhecimento, não com seu terror; com seu trabalho, não com seus choros e gritos." E prosseguiu: "Não vimos um único judeu explodir-se num restaurante alemão. Não vimos um único judeu destruir uma igreja. Não vimos um único judeu protestar matando pessoas. Somente os muçulmanos defendem suas crenças queimando igrejas, matando pessoas e destruindo embaixadas. Esse caminho não dará nenhum resultado. Os muçulmanos precisam se perguntar o que eles podem fazer pela humanidade, antes de pedirem para a humanidade respeitá-los."
Pouco depois da transmissão, clérigos na Síria a denunciaram como infiel. Um disse que ela causou mais danos ao Islã que as charges dinamarquesas zombando de Maomé.

Wafa afirma que está "trabalhando num livro que vai virar de cabeça para baixo" o mundo islâmico. "Cheguei ao ponto em que não há volta. Estou questionando cada ensinamento de nosso livro sagrado." O título provisório é The Escaped Prisoner: When God Is a Monster (O Prisioneiro Evadido: Quando Deus é um Monstro).
Wafa cresceu numa grande família muçulmana tradicional em Banias, Síria. Seguiu estritamente a religião até a idade adulta. Mas sua vida mudou em 1979, quando era estudante de medicina na Universidade de Alepo, no norte da Síria. Na época, a organização radical Irmandade Muçulmana estava empregando o terrorismo para tentar enfraquecer o governo do então presidente Hafez Assad. Ela contou que pistoleiros da Irmandade Muçulmana invadiram uma sala de aula da universidade e mataram seu professor. "Eles dispararam centenas de balas nele, gritando 'Deus é grande!'", conta ela. "Nesse ponto, perdi a confiança que tinha em seu deus e comecei a questionar todos os nossos ensinamentos. Foi o ponto de virada de minha vida. Eu tinha de sair. Tinha de procurar outro deus."

Ela e o marido, que agora usa o nome americanizado de David, fizeram planos de emigrar para os EUA. Seus vistos finalmente chegaram em 1989. Os Sultans e seus dois filhos (depois eles tiveram um terceiro) se estabeleceram com amigos em Cerritos, Califórnia. Wafa conseguiu sua licença médica americana e David opera um posto de verificação de emissão de carros. Eles compraram uma casa e puseram os filhos em escolas públicas. Todos são cidadãos americanos.

Ela começou a escrever primeiro para si mesma, depois para um site de reforma islâmica chamado Annaqed (A Crítica). O ensaio irado nesse site feito por Wafa sobre a Irmandade Muçulmana chamou a atenção da Al-Jazira, que passou a convidá-la para debates e entrevistas. "O choque que estamos testemunhando em todo o mundo não é um choque de religiões ou um choque de civilizações", disse Wafa na TV. "É um choque entre dois opostos, entre duas eras. É um choque entre uma mentalidade que pertence à Idade Média e outra mentalidade que pertence ao século 21. É um choque entre civilização e retrocesso, entre o civilizado e o primitivo, entre barbárie e racionalidade." Ela afirmou ainda que não pratica mais o islamismo: "Sou um ser humano secular."

Desde então, tem recebido numerosas ameaças de morte em sua secretária eletrônica e por e-mail. Uma mensagem dizia: "Oh, você ainda está viva? Espere e verá." Outro dia, recebeu um e-mail em árabe dizendo: "Se alguém a matar, serei eu." Ela está mais preocupada com a segurança de parentes nos EUA e na Síria do que com a própria: "Não temo nada. Acredito na minha mensagem. É como uma jornada de 1 milhão de quilômetros, e eu acredito que já caminhei os primeiros e mais difíceis 10 quilômetros."


TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:52 AM


{Sábado, Março 18, 2006}


POR QUE NÃO QUERO A VOLTA DOS LIBERAIS


Há vinte anos, era recém-contratado da área de recursos humanos, treinamento, de um grande banco brasileiro, onde trabalhei por quinze anos, até me aposentar. Assisti, portanto, de uma posição privilegiada, o avanço das políticas neoliberais e o estrago que elas fizeram tanto na empresa privada quanto nos governos que, a partir de então, passaram a seguir sua cartilha de absurdos.

Nessa época, entre 85 e 90, o tal banco comemorou internamente o número recorde de funcionários: noventa mil! Quando saí, em 2000, havia pouco mais de 25 mil funcionários. E o lucro do tal banco? Atingia números estratosféricos.
O que aconteceu durante todos esses anos? Houve simplesmente a importação e implantação da idéias neoliberais de dowsinzing, de enxugamento, de exploração máxima da capacidade do trabalhador: se havia três funcionários, que um só passasse a executar a tarefa desses três. Se havia dez, doze níveis gerenciais, que se reduzissem para cinco, seis. A carga de trabalho interna dobrou, triplicou, para quem permaneceu, enquanto o desemprego grassava na categoria. A desculpa era a informatização, numa revolução que, de silenciosa, ganhou depois as ruas, com a multiplicação dos empregos informais, dos camelôs, dos milhares de barraquinhas a vender produtos falsificados e/ou importados de países cuja mão de obra ou é escrava ou custa um décimo do que nos demais países. E mais: os salários dos que permaneceram empregados despencaram a níveis de quase sufocamento, sem que os sindicatos, pressionados pela demissão desenfreada, pudessem negociar acordos menos catastróficos. E isso não aconteceu apenas no banco em que eu trabalhava: foi um modelo adotado em oito ou nove dentre dez empresas, no Brasil todo.

Não houve transferência de mão-de-obra para outras indústrias que informatizaram os bancos e, provavelmente, as demais empresas, de todos os setores da economia. Ou seja, o desemprego e o empobrecimento das classes médias foram o resultado dessa política perversa de enxugamento, de empresa mínima com lucro máximo. Também o Estado entrou nessa paranóia de estado mínimo, com a venda de inúmeras empresas lucrativas, patrimônio longamente amealhado pelo povo, sem que houvesse a contrapartida de melhoria das contas públicas. E as empresas privatizadas seguiram o modelo de enxugamento: jogaram na rua outros milhares de funcionários.

E então, para tentar compensar o estrago feito, criou-se, primeiro, o conceito de terceirização: as empresas, que gastavam x para manter um serviço, como por exemplo, de limpeza, passaram a gastar x e mais alguma coisa para contratar empresas que fizessem o mesmo serviço. Por trás, um segundo conceito, também importado, e que parecia ser o correto, de que a empresa devia manter o foco no seu negócio, sem um milímetro de desvio ou de gordura. Tudo bem: parecia ser o certo. Mas só parecia, porque isso, o enxugamento e a terceirização, também contribuiu para o desemprego, já que as empresas prestadoras de serviço passaram a explorar a mão-de-obra desempregada, pagando salários cada vez mais aviltantes, o que enfraquecia cada vez mãos o poder de barganha do operariado. O terceiro conceito que, teoricamente, parecia também fantástico, e tem sido vendido como panacéia, é o do empreendedorismo. Ou seja, o funcionário demitido deve usar o FGTS e demais verbas rescisórias para abrir o seu negócio próprio e seguir adiante. Muito bem, ótimo. Apenas se esqueceram de: primeiro, desburocratizar o sistema de abertura e fechamento de firmas e, segundo, criar incentivos e facilidades de crédito para os milhares de pequenas firmas que surgiram e ainda surgem, cuja maioria tem um ano e pouco de vida útil. Porque, mais uma vez não levaram em conta que, de cada dez empreendedores, talvez apenas dois ou três conseguiriam, face à concorrência e a outras injunções políticas e econômicas, sobreviver e prosperar de acordo com a cartilha tão bem apregoada por diversos órgãos que se criaram para preparar o coitado do desempregado para se tornar patrão de si mesmo. Mas não lhe ensinaram que, na maioria dos casos, ele tinha que aprender a assobiar e chupar cana ao mesmo tempo. Afogado em dívidas, acabava fechando a empresa e caindo na famosa economia informal, nome pomposo para o tal jeitinho brasileiro para superar dificuldades, nem que seja através do ilícito e da exploração do roto pelo rasgado.

O empobrecimento das classes médias, aquelas que consomem, que mantêm motoristas, copeiras, cozinheiras, babás, que pagam seguros e convênios médicos, que vão a restaurantes, bares, cinemas e teatros, que viajam e mantêm casas de campo ou no litoral, que colocam seus filhos em colégios caros, foi a cereja no bolo do receituário neoliberal: desiludidas com o empobrecimento e com a incapacidade de manter o mesmo status, acabaram substituindo analistas por cocaína, diversão por pílulas da felicidade, viagens por casas gradeadas. E mais: não só contribuíram para o desemprego geral, como para o crescimento do tráfico de drogas, principalmente nas grandes cidades, o qual contribuiu para o aumento da violência, que propiciou o surgimento da indústria da segurança que, por sua vez, fez aumentar o arsenal e a sofisticação dos bandidos e traficantes, o que ocasionou o aumento de segurança, num círculo vicioso que não tem, hoje, perspectiva de se romper no curto prazo. Não bastam diatribes contra os que consomem drogas e financiam o tráfico que leva à violência: as causas são mais profundas, embora estejam aí, às nossas vistas, apreciadas pelos teóricos de gabinetes alcatifados em escritórios com ar condicionado dos arranha-céus de vidro das grandes cidades ou nas redações de revistas semanais e da grande imprensa, do rádio ou da televisão, em sua sanha de interferir no pensamento e na opinião do populacho preocupado apenas em sobreviver com os baixos salários, quando têm emprego, ou em arranjar um bico que garanta as contas do fim do mês.

A grande sacanagem das políticas neoliberais levou o País à situação em que se encontra hoje: desemprego e miséria em contraposição a ilhas de prosperidade e ganhos absurdos de bancos, ainda que o sistema financeiro permaneça dependente do capital externo, graças a outra grande falácia vendida como o supra-sumo da modernidade, a tal globalização, que só interessa aos países mais ricos. E ainda pregam, hoje, agora, em seus pretensos programas de governo, a idéia do tal estado mínimo, como se isso fosse, mais uma vez, a panacéia para o desenvolvimento, quando sabemos que há milhões de brasileiros que só sobrevivem graças aos programas assistenciais do Governo Federal; que há ainda bolsões imensos de miserabilidade absoluta, que não podem ser desprezados em sua urgência por um prato de comida; que há milhares de problemas que só podem ser resolvidos com a intervenção do Estado. No mundo todo, não se contam nos dedos de uma só mão os países que têm verdadeiramente o tal estado mínimo. E os que parecem tê-lo, como o Japão, são países de pleno emprego, população reduzida e até importadores de mão-de-obra.

A armadilha deixada pelos anos de política neoliberal consiste em que não há muita margem de manobra para um governo que pretenda redirecionar o País. A metáfora do transatlântico, aqui, explica razoavelmente bem as dificuldades: a mudança de rota de um desses monstros do mar é tarefa complexa, que exige tempo e uma grande quantidade de comandos, em comparação com um pequeno barco de pesca ou veleiro. O País é um imenso transatlântico, cuja política econômica é algo que não admite experiências ou milagres: já estamos escaldados com os planos loucos de governos anteriores, que só agravaram a situação ao invés de resolvê-la. Há necessidade de vários anos de práticas ortodoxas, que fundamentem bem os princípios de controle dos gastos públicos, de equalização das dívidas externa e interna, de câmbio livre, de aumento das exportações, de fortalecimento simultâneo do mercado interno, com a melhoria de salários e decréscimo do desemprego, para que se possa pensar em mudanças de rota rumo a uma situação em que tenhamos um País mais igualitário, menos miserável, com sistemas de proteção social compatíveis com os impostos que pagamos. Que são altos, sim, mas não a ponto de inviabilizar negócios e empreendimentos, como pregam os aventureiros e os mesmos liberais, ávidos de poder, que, eles sim, aumentaram quase à exaustão a capacidade tributária do País. O que precisa ser equacionado, quanto à política de impostos, são as distorções de um sistema injusto de arrecadação que permite que a massa assalariada pague muito, enquanto o grande capital paga o mínimo ou não paga nada, por usar mecanismos de sonegação ou de incentivos encontrados nos meandros burocráticos do cipoal de leis que regulamentam, complicam e estrangulam o sistema fiscal, seja ele municipal, estadual ou federal.

Enfim, por essa e muitas outras razões, é necessário que fique atento o povo com relação à forma como se conduzirá o processo eleitoral que se aproxima. Os mesmos ratos e urubus que dilapidaram a nação, não com pequenos escândalos financeiros e roubalheiras à Maluf, mas com políticas de proteção ao capital internacional, com a entrega de nossas riquezas a troco de bananas à sanha dos escroques de Wall Street ou de Londres ou de qualquer outro país disposto a investir pouco e lucrar muito, estão agora vociferando, raivosos, posando de honestos e probos, quando têm em seu currículo as idéias neoliberais que, ao retornarem, fortalecidas pelo voto popular, levarão esse País à ruína definitiva, sem que nem percebamos, pela sagacidade da rapinagem, pela bem urdida trama ideológica que eles têm capacidade de tecer. Como já o fizeram na década de oitenta e, principalmente, noventa do século passado: devagar e sempre. O banco que teve noventa mil funcionários e hoje tem um terço disso continuará aumentando seus lucros semestralmente, continuará mantendo como quase escravos os seus funcionários e, como quase todas as demais empresas, desenvolverá políticas de responsabilidade social com fundações culturais com sede na Avenida Paulista para disponibilizar arte para meia dúzia de gatos pingados ou entidades financiadas com a economia nos salários de seus funcionários voltadas a trabalhos comunitários em meia dúzia de favelas ao lado de suas sedes suntuosas. Ora, senhores e senhoras, a função social (outro conceito distorcido pelo neoliberalismo) das empresas não é distribuir catálogos com obras de arte em papel couché ou alimentos aos famintos da favela ao lado, mas dar emprego e sustento a quem queira trabalhar, mesmo que a mais valia (enfim, um conceito socialista) seja paga mensalmente com a força do braço ou da inteligência do operariado, seja ele do chão de fábrica ou dos carpetes dos escritórios.

A volta dos mesmos ratos e urubus de sempre, a roerem nossas riqueza e a comerem nossa carne: será que é isto o que o Brasil e seu povo merecem? Não, positivamente, ninguém merece!

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:06 PM


{Quarta-feira, Março 15, 2006}


TERMINOU A PALHAÇADA: O PSDB VAI DE PICOLÉ DE CHUCHU!

Pois é: depois de uma lenta e dolorosa gestação, a entourage do governador de São Paulo usou o fórceps e pariu-o como candidato à presidência da República. O estranho triunvirato que se designou para a escolha ainda geme um pouco com as dores do parto, mas passa bem. Sobreviveram. Mesmo porque vagina, digo, vaso ruim não quebra, só entorta um pouco e logo está pronto para outra. Já o recém-nascido, digo, o recém-candidato ri às bandeiras despregadas, às custas do outro, o que era para ter sido e não foi, porque regateou, exigiu, pensando ser bebê Johnson, mas era só um aborto. Agora, haja marketing (e grana, do contribuinte de São Paulo) para empurrar goela abaixo do eleitorado brasileiro que picolé de chuchu é iguaria inigualável. Só quero ver a diarréia, depois.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:22 AM


{Domingo, Março 12, 2006}


FANATISMOS

Assusta-me e arrepia-me o fato de que estamos nas mãos de loucos imbecis, que se julgam donos da vida de qualquer um, porque se acham injuriados em sua fé por qualquer razão ou motivo ou sem qualquer razão ou motivo. Fé é questão de foro íntimo, e nada mais. Não pode ser transformada em imposição, em obrigatoriedade a que adoremos este ou aquele profeta. Jesus, Buda, Maomé e tantos e tantos outros próceres e fundadores de seitas e religiões foram homens. Homens iguais a mim, iguais a você. Falíveis. Loucos ou lúcidos. Disseram palavras interessantes de ética e respeito ao ser humano, mas também falaram muita bobagem. E viveram noutra época. Com outros costumes, com outros anseios. Não podem ser paradigmas absolutos para nada. Aliás, não há paradigmas absolutos. Não há verdade absoluta. Então, indignado, ainda, com a estupidez humana, faço minhas as palavras do articulista abaixo, não por acaso um dramaturgo ganhador do prêmio Nobel. Por favor, leia, pense, pense muito e, se possível, distribua. Aos amigos, aos inimigos, aos familiares, mas principalmente àqueles fanáticos que todo mundo conhece e com quem se convive diariamente. Pacatos por fora, mas vulcões prontos a explodir a qualquer palavra de ordem de algum pastor, padre, aiatolá, rabino, pai ou mãe de santo enlouquecidos pelo fanatismo ou por uma circunstância qualquer de seus genes.

Para desarmar os psicopatas da fé

(OESP ¿ 12.3.2006)

Ativistas muçulmanos cometeram ofensa maior à imagem do profeta ao transformar charges em questão global

Wole Soyinka*

Quem é culpado por trazer infâmia à religião do Islã? Os indivíduos e as ralés que invocam o nome de seu profeta na perpetração de crimes que revoltam nossa própria humanidade? Ou o cético que responde da única maneira que conhece, mas dentro das leis de sua nação?

Precisamos tratar essa questão com toda a objetividade: quem realmente leva o nome do reverenciado ícone do Islã para o domínio dos infiéis e descrentes, onde ele então se torna assunto de discussão aberta, ponto de referência e bode expiatório para os crimes dos fiéis? Só uma resposta honesta pode marginalizar e desarmar os psicopatas da fé, e não tentativas fúteis de forçar qualquer nação soberana a aplicar leis que não se ajustam a sua própria constituição e uso.

Há dois anos, na capital da Nigéria, Abuja, fanáticos muçulmanos saíram às ruas para protestar contra a realização do concurso de Miss Mundo, alegando que tal exibição de feminilidade era uma afronta aos ensinamentos do Islã. Quando terminaram, dezenas de inocentes jaziam mortos nas ruas, em suas casas e em locais de trabalho.

As opiniões de outros devotos, secularistas ou ateístas, caíram na irrelevância. Casas e escritórios foram incendiados e bairros inteiros, devastados. Para garantir o silenciar de qualquer comentário, uma jornalista foi declarada culpada de blasfemar contra o profeta Maomé. E um obscuro vice-governador de um obscuro Estado chamado Zamfara entrou na onda da notoriedade instantânea ao emitir uma fatwa de morte contra a jornalista, por blasfêmia.

Denunciei essa orgia assassina. Para meu assombro, vozes liberais do mundo ocidental - liberais com o sangue dos outros e em defesa do agressor - escolheram refletir sobre a impropriedade da "importação da decadência ocidental" para a inocência prístina da Nigéria, contaminando os valores culturais desse país. Não deveria ser necessário, mas senti que era meu dever informar sobre a existência de concursos de beleza - tanto femininos quanto masculinos - em várias culturas tradicionais africanas, algumas das quais incluindo até mesmo danças competitivas. O âmago do principal discurso - a santidade das vidas humanas acima e abaixo das pretensões de qualquer ícone da fé - foi perdido. É assim que a impunidade nasce e a lei da ralé e de seus manipuladores é tacitamente endossada pelos apaziguadores do mundo.

Impunidade gera impunidade. Os massacres em torno do caso da rainha da beleza, em nome de sensibilidades religiosas, não foram a primeira sangria desse tipo na Nigéria. E não seriam a última num lugar onde o governo massageia os egos assassinos das tropas de choque religiosas.

Depois da designação de uma nova ofensa contra o profeta Maomé na distante Dinamarca, sabíamos que a vez da Nigéria chegaria em apenas alguns dias; tudo o que precisávamos fazer era esperar e ver onde a carnificina ocorreria. O esperado, é claro, aconteceu. Num local remoto no norte do país, Maiduguri, os fanáticos foram ao trabalho. Atacando num domingo, eles caíram matando sobre inocentes e deram início a sua tarefa sangrenta. De novo, esperamos a reação oficial, que veio em estilo já conhecido - o governo preferiu recomendar "comedimento". Não houve disposição oficial que indicasse a aplicação rigorosa das leis da nação. Só pedidos de "comedimento".

A matança se espalhou. Uma característica dos imitadores da violência é que eles nunca se contentam em imitar os outros. Sentem-se obrigados a superar o evento original. O boicote de bens dinamarqueses e o incêndio de embaixadas em outros países evoluiriam, na Nigéria, para a carnificina no território de quem chegou atrasado.
Tudo isso é realmente uma questão de sensibilidade religiosa? Ou existem outros fatores - mal-estar político, econômico, social, etc. - na raiz desses surtos de fúria organizada? Sabemos as respostas.

Caberia perguntar: quem de fato corrompe o nome do profeta Maomé? Aqueles que abatem inocentes em nome do profeta, inocentes que nunca degustaram manteiga dinamarquesa em toda a vida, que nem sequer sabem da existência de um país chamado Dinamarca, ou algum editor de cartuns que, pelo que sabemos, nunca teve afinidade espiritual com Jesus Cristo, Maomé, Buda ou Oxalá?

O governo dinamarquês, graças a Deus, não quis assumir a culpa pública pela conduta de um de seus cidadãos, um indivíduo que em nenhum momento foi acusado de ser seu funcionário, representante ou porta-voz. A proposição de que um governo deve agir como fiscal da escolha individual dentro de uma sociedade livre é repugnante.
A ação daqueles cartunistas irreverentes e de seu editor nunca deveria ter se transformado numa questão global. As imagens ofensivas teriam sido vistas quando muito pela pequena comunidade de leitores. Mas o que os ativistas da religião fizeram foi expandir o "território de insulto" para o ilimitado. Cometeram maior ofensa à imagem do profeta com a agora inevitável proliferação das charges. E suscitaram questões sobre os seguidores do profeta e sua compreensão da complexidade do mundo. Que se pese tudo isso, com toda a sobriedade, no comentário de uma outra charge, desta vez de um jornal francês. Essa charge retrata um profeta Maomé pensativo, frustrado, enquanto a legenda diz: "É duro ser amado por idiotas".

Assassinatos em represália ocorreram em Onitsha, no sudeste da Nigéria, onde o retorno dos cadáveres acendeu memórias de massacres anteriores. Assim a coisa se espalha, e se espalha, à falta de uma linguagem firme de repúdio, um apelo veemente pelo isolamento dos matadores furiosos e a exposição de conhecidos manipuladores da psicologia de massa (na maioria, políticos calculistas).

Já é hora de líderes muçulmanos de todo o mundo proclamarem uma fatwa contra os que matam em nome de sua fé. Enquanto as multidões se enfurecem, o massacre de inocentes continua intenso em Darfur. Nunca, na memória recente, o estupro se tornou tão rotineiro, quase obrigatório, como uma arma favorita de agressão. Sociedades antigas são varridas numa campanha bárbara, abertamente articulada, para eliminar uma identidade racial.


* Wole Soyinka , dramaturgo nigeriano, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1986
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:53 PM


{Sexta-feira, Março 10, 2006}


DIA INTERNACIONAL DA MULHER: QUE BOBAGEM!



Instituíram e todo mundo comemora: o dia internacional da mulher. E haja mensagens idiotas para as coitadas das mulheres! Porque é isso o que elas, as mulheres, recebem: homenagens e mensagens imbecis. Todo mundo falando abobrinha sobre o papel da mulher, sobre a beleza da mulher, sobre o fato de que sem a mulher o mundo seria tão horrível etc. E gastam-se palavras inúteis. Ora, ora, ora... E a discriminação odiosa contra as mulheres orientais? E a dupla jornada de trabalho da mulher ocidental, considerada mais politizada e, por isso, mais escravizada? E o comércio de escravas de todas as cores, no terceiro mundo, para satisfação de burgueses ricos das europas e dos states? E a prostituição de meninas em todo o litoral brasileiro, para turistas babões do primeiro mundo? E a gravidez precoce de milhões de adolescentes, sem que se estabeleçam políticas decentes de amparo a essas meninas perdidas em todo o mundo? E toda a sacanagem diária que se faz contra a mulher, nos lares, no trabalho, nas ruas, nas igrejas, enfim, em todos os setores de uma sociedade hipócrita e imbecilizada por crenças estúpidas e segregadoras? E agora vêm com esse papo anual de dia da mulher! Por que não comemorar o dia do cachorro, do papagaio, do mico-leão? Afinal, mulher e bicho é tudo a mesma coisa, para esses imbecis que ficam por aí a oferecer flores e poemas e palavras de elogio à mulher, como se ela fosse uma coisa a que se presta homenagem uma vez por ano e depois esquece e tudo volta ao que era antes: escravização, paulada, desprezo. Porra! Que merda de dia internacional da mulher é esse? Parem com isso e tomem tino: devia haver, sim, o DIA DO SER HUMANO, quando todos parariam para refletir que devemos parar de sacanear uns aos outros, com trabalho escravo, com guerras, com discriminação e que devíamos procurar viver respeitando a nós mesmos e aos demais, sem essa de amor ao próximo e outras babaquices periódicas e estúpidas. Aliás, nem devia precisar de um dia, não: o SER HUMANO, independente de cor, religião, situação econômica, social ou política, deve ser motivo de reflexão diária de todos, homens e mulheres, em todo o mundo. Ou será que eu só é sou ranzinza?

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:09 PM


{Quarta-feira, Março 01, 2006}


QUARTA-FEIRA DE CINZAS

As cinzas da quarta-feira de ressaca do carnaval cobrem, pouco a pouco, a hipocrisia, a falácia, as acusações infundadas, os gritos histéricos de filhotes de filhotes da ditadura e dos falsos democratas, à Carlos Lacerda, verônicas despudoradas a lamentar falsamente um governo que odeiam mas em que fingiram acreditar, diante da vitória incontestável do povo, para se passarem por politicamente corretos.
Dissequemos.

A hipocrisia dos que acusam de corrupto um governo: os liberais ou assim denominados (nova designação para a velha política da farinha pouca, meu pirão primeiro), descaradamente botam suas bocas sujas nos trombones sempre prontos da imprensa capitalista, como se fossem vestais assustadas, perdidas num bordel. Ora, ora, desde quando há pureza de intenções em empresários, usineiros, latifundiários, banqueiros et caterva, neste pobre e espoliado País? Só para ficar no assunto da moda: governo JK. Lembram-se das negociatas para construir Brasília? De onde veio a corrupção? Não de Israel Pinheiro, o administrador; não do palácio, como apregoava o líder das vacas que vão para o brejo e nele se chafurdam, com os bolsos cheios de dólares: o funesto e já citado Lacerda; tampouco dos candangos que amassavam o barro que o diabo das empreiteiras lhes entregava diariamente, para erguer a nova capital. Vinha a corrupção de milhares de empreiteiros, de fornecedores, de aproveitadores, enfim, que usaram a construção de Brasília para enriquecer e ganhar poder. Com artimanhas e jogos de cena, enganaram o povo e dilapidaram o patrimônio público, roubaram descaradamente, como contribuição ao progresso. Progresso de suas gordas barrigas bem nutridas. Ou alguém acha que a inflação e a dívida externa foram invenção de Juscelino para barganhar favores com a oposição de cachorro louco que lhe fez a famigerada UDN? O dinheiro que os empreiteiros e fornecedores ganharam com Brasília dava para construir várias outras capitais. Juscelino não viu? Israel Pinheiro permitiu? Isso não importa mais: era o preço da chantagem. Ou isso, ou não haveria nova capital. Ou isso, ou não haveria estradas. Ou isso, ou não haveria industrialização. O preço da chantagem, da roubalheira, ainda estamos pagando. E não foi chantagem política, não: foi toma lá da cá, repito, das empresas e fornecedores, da iniciativa privada que, no Brasil, se tornou cada vez menos iniciativa e mais latrina.

Os filhotes da ditadura: quem não se lembra do famigerado milagre? Inflação mascarada e varrida para debaixo do tacão das botas dos generais, em mágicas delfínicas. Crescimento econômico, ilha de tranqüilidade, com os porões de presídios cheios de opositores, enquanto rolava uísque importado nas mansões dos candidatos a poderosos, os atuais grandes empresários desse imenso pântano de oportunidades que se transformou o País durante os governos militares. Cresceram com e pela ditadura, esses nossos empresários impolutos. Os generais, coitados, nasceram pobres e tiveram apenas o vislumbre do banquete, nas grandes negociatas armadas sob seus olhares de caçadores de bruxas. Eram só inquisidores ignorantes, nas mãos dos aproveitadors. O banquete verdadeiro passou longe dos quepes e das tropas mal armadas e mal amadas. Bajularam, beijaram botas e esporas, engoliram desaforos, mas engordaram suas contas e aumentaram ao infinito o poder de suas empresas, os (quase) todos donos de banco, de fábricas, de usinas, de terras que hoje arrotam honestidade com sabor de vitória e vingança porque o povo, enfim, descobriu que o buraco da corrupção é muito mais embaixo do que sonham nossas inúteis elucubrações.

As verônicas: cobriram o rosto com seus véus negros e fingiram penitenciar-se da ladroeira passada, como se a procissão dos insepultos tivesse, enfim, chegado ao seu final. Ledo engano: lá estão todos eles, no Congresso, nas Assembléias, nas Câmaras, nos governos estaduais e municipais, bocas abertas a deglutir tudo o que podem, vorazmente, cadáveres fedorentos que procriam como peixes, repovoando de corruptos e corruptores todas as estâncias de todos os poderes. Nada temem, porque elegem, a seu bel prazer, os bois de piranha para se estreparem em seu lugar, em CPIs de muita falação e pouca ação.

Enfim, a hipocrisia dos que clamam contra a corrupção está na hipocrisia do bordel: todos estrebucham valores morais contra as prostitutas durante o dia, mas freqüentam-nas à noite, envoltos nos seus véus de verônicas de procissões, ávidos do dinheiro público, da boquinha no palácio, dos dólares e das negociatas que financiam a permanência da miséria, da desinformação e da apatia do povo. Porque, ao povo, segundo eles, bastam as suas falsas lágrimas de prostitutas arrependidas. Com a bênção, é claro, do PSDBFL.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:12 PM

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