{Veneno de Cobra } spacer
spacer
spacer

{Sábado, Janeiro 28, 2006}


VENENO DA COBRA: DOSES HOMEOPÁTICAS, MAS LETAIS!



Ano Mozart. E temos que ouvir imbecilidades como esta, de um maestro: O gênio de Mozart é a prova incontestável da existência de deus. E o tsunami de 2004, que matou mais de 250.000 pessoas, é a prova inquestionável da existência de quê? Hem?

Uma pergunta, para ofender, sim... e fazer pensar um pouco. Se for provado que a Terra é o único planeta habitado do Universo, o que isso mudará em sua existência?

Sabe aquele padre que vive cagando regras do púlpito? Sabe aquele pastor idiota que acha que todo mundo está dominado pelo demônio? E aquele aiatolá sinistro que acha que todo infiel vai queimar no inferno? Ou, quem sabe, aquele rabino ridículo a dizer palavras sagradas em cima de um livro cheio de bobagens? Enfim, há inúmeros outros idiotas iguais ou parecidos querendo mandar na sua vida, na sua consciência, no seu pensamento. Que tal mandar todos eles catar coquinho? Ou dizer para eles irem falar asneiras para as negas deles? Ou, melhor ainda, mandar que eles enfiem todas as palavras sagradas, o deus, o demônio, os livros, tudo, naquele lugar? Será que você não se sentiria melhor, mais livre? Faça, faça isso, sim, que não haverá deus porra nenhuma para castigá-lo, nem demônio para atentá-lo, nem inferno a esperá-lo depois que você morrer...

A igreja católica apostólica romana não precisa de mim para dizer que ela é um dos maiores cancros da humanidade. Basta alguém com um mínimo de sentido crítico ler a história dessa funesta instituição para perceber a manipulação das idéias que levou à sua constituição, o sacrifício inútil de vidas que ela propiciou, através dos tempos, para impor-se; a ganância que tomou conta de seu organismo, de seus papas, de seus líderes, em detrimento do povo que ela diz querer salvar; o engodo que ela criou no imaginário do povo, com suas cerimônias ridículas organizadas por cardeais, bispos e padres imbecilizados pelo onanismo e pela pedofilia; enfim, basta ler um pouco, um pouco só, a história dessa malfadada instituição, para detestá-la para sempre e desejar que ela desapareça para sempre.

Buda até pensou algumas coisas interessantes. Não era mau sujeito. Mas seus seguidores, imbecilizados pela arrogância dos que pretendem ser humildes às custas da ignorância alheia, não entenderam nada. Ergueram estátuas ridículas e templos estúpidos para solenidades inúteis, em nome do Buda. E jogaram na vala comum das religiões estupidificadoras um pensamento que poderia até mesmo tornar-se interessante para o desenvolvimento intelectual da humanidade, ajudando-a a livrar-se da barbárie.

O Corão é um conjunto estúpido de normas arcaicas de alguém que não tinha nada a fazer, a não ser querer deixar para seus seguidores a escuridão, a morte e a falsa esperança de outro mundo tão inviável quanto a possibilidade de que o tal profeta um dia levante da tumba.

Não há esperança para o homem dentro da religião. Todas, sem exceção, são estúpidas, porque baseadas em princípios falsos. E tornam o homem um cacto no meio do deserto: seco, inútil e sem nenhum horizonte.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:11 PM


{Quarta-feira, Janeiro 25, 2006}


A QUEM ELES QUEREM ENGANAR? AO ELEITOR, É CLARO


Claro que há jornalistas sérios. Claro que nem toda a mídia é mal intencionada. Mas é claro, também, que falar mal da mídia é comprar encrenca. Jornalistas se acham acima do bem e do mal, colocam-se no limbo, como vestais. E, é claro, há exceções, também. Jornalistas existem que aceitam a crítica e também criticam essa postura imbecil. Mas, infelizmente, na grande imprensa brasileira, há cada vez menos verdadeiros representantes desses dinossauros. Portanto, vistam a carapuça do que segue todos os que assim o desejarem.

A revista IstoÉ, que compete com a Veja para ver quem é mais cara de pau, publicou uma pesquisa, encomendada pelo primeiro damo do Rio, o travesso Garotinho, sobre as eleições. Como os números começam a ser favoráveis a Lula, resolveram não divulgar as simulações de segundo turno. Não só não divulgaram, como ainda mentiram, ao dizer que não fizeram tais simulações. Mentira logo desmentida pelo Ibope e pelo registro no Tribunal Eleitoral.

Ou seja: um episódio mais do que emblemático do que vem por aí. A canalha toda da imprensa cachorra, que não sabe o que é ética, esses mesmos que publicam todos os dias o que o PSDBFL deseja e não o que os (e)leitores precisam saber, vai começar a deitar e rolar no quesito cara de pau, para desmoralizar o Governo e encher a bola de Garotinhos, de Serras, Alkmins e quantos venham por aí, como oposição a Lula. Porque, afinal, é ano de eleições.

Quando os chamo de ratos, começo a me arrepender. Embora odeie ratos, acho que, se fosse um, ficaria ofendido, ao ser comparado com essa gente. São imbecis da pior espécie, mentirosos de carteirinha, defensores do imobilismo e da sacanagem neo-liberal incrustada no PSDBFL, a pior coisa que a política brasileira já produziu nesses quinhentos anos de domínio das oligarquias de sempre. E ainda posam de damas impolutas, de defensores da moral e dos bons costumes, ratos de esgoto que vêm saqueando esse País de trouxas que, um dia acordou, meio aos trancos e barrancos, para eleger um Presidente que não provém das classes dominantes. Porque, afinal, mentir é preciso e, em ano eleitoral, vale qualquer golpe. Por mais baixo que seja.

É claro que há jornalistas sérios, é claro que nem toda mídia é mal intencionada. Mas isso está-se tornando, cada vez mais, casos excepcionais. Exceções. Que, infelizmente, comprovam a regra de que estão todos vendidos, literal ou ideologicamente, aos rompantes de políticos arrogantes ou às políticas neoliberais do capitalismo excludente arraigado visceralmente a esses agentes oriundos das oligarquias ou freqüentadores assíduos das migalhas que caem de seus banquetes. Lamentável. Por mim, por você, por todos os (e)leitores enganados desse pobre País. Porque golpe baixo será a regra a partir de agora.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:46 PM


{Terça-feira, Janeiro 24, 2006}


PENSAMENTOS ATEUS


NÃO É UMA CRÔNICA, SÃO APENAS IDÉIAS QUE ME PASSAM PELA CABEÇA QUANDO NÃO SE TEM MAIS NADA A FAZER... SENÃO PENSAR UM POUCO. PORQUE NEM FILOSOFIA TUDO ISTO É: SÃO APENAS PENSAMENTOS, PENSAMENTOS ATEUS


O ateísmo é a condição natural do homem. Pensar em um deus é exercício artificial sobre a incompreensão do mundo. O homem não precisa de deus. Principalmente desse deus dito único e absoluto. O deísmo, praga do pensamento, torna-se mais cruel quando se transforma em monoteísmo. O monoteísmo consagra a estupidez do pensamento humano sobre a ignorância ou a incapacidade de entender a natureza. Pensar em um deus que cria o mundo e todas as coisas que há nele é confessar a inutilidade do próprio raciocínio e da lógica. Se somos dotados da capacidade lógica, a crença criacionista e monoteísta invalida totalmente essa capacidade, torna-a nula e absurda. Porque crer em um deus é confessar a si mesmo a crença na mais absurda mentira já inventada pela mente humana. E, no entanto, em cima dessa mentira, construiu o homem o mais alucinante sistema de mentiras jamais imaginado. Justificar deus tornou-se um exercício da mais pura e louca fantasia, travestida de exercício lógico. Não pode o homem continuar a conviver com tal estupidez e sobreviver a ela. Há que destruir no âmago da inteligência humana esse mito mais do que deletério, um mito que impede o homem de ver a si mesmo como um elo fundamental do sistema evolutivo, um elo da vida que flui da matéria primitiva para a conquista de universos inimagináveis. A responsabilidade do homem diante do universo não pode ser transferida para um mito impeditivo da compreensão da natureza. Extirpar a crença em um deus criador torna-se, assim, um passo importante na evolução do pensamento lógico do homem, um degrau na sua caminhada rumo a destinos que só ele mesmo pode definir, sem interferência de forças transcendentais que nunca contribuíram para um único momento de evolução humana. Criar mitos sempre foi uma necessidade diante do desconhecido. Um mito é sempre uma mentira que nos permite vislumbrar a verdade. No entanto, o mito de um deus criador, único, destrói o próprio conceito de mito, por não conter em si nenhuma verdade de que o homem possa lançar mão na sua trajetória de vida. Não se pode ter nenhuma contemplação com esse mito: ou o destruímos para sempre, ou continuamos escravos de invenções e convenções estúpidas e impeditivas do verdadeiro progresso do pensamento humano.


A metafísica afastou o homem da realidade. A religião embruteceu-o. Não há como saber o que veio primeiro: se a metafísica ou a religião. Mas são ambas dois sistemas de pensamento que obscureceram a mente humana para a realidade, para a verdade. Suas metodologias enganosas, baseadas em sentimentos e emoções, na idéia de que é preciso crer cegamente numa supra-realidade divina ou anti-humana, desviaram o pensamento do homem para aquilo que realmente importa em sua passagem pela Terra: a melhor forma de adaptar-se à natureza e viver harmonicamente com ela. Não se pode ter nenhuma complacência nem com a metafísica nem com a religião: são sistemas mórbidos, que pregam a desumanização do homem, sua entrega a um deus ou a uma impossível vida além da vida como solução para problemas mentais, emocionais ou, até mesmo, físicos, num processo enganoso de falsos milagres, aprofundando, com isso, a miséria humana, com o sentimento de culpa e idéia da redenção, o que torna desculpável todo e qualquer crime contra o próprio homem e contra a natureza. O pensamento religioso pode parecer uma espécie de bálsamo para momentos de dor profunda, mas é apenas uma fuga, um meio de enganar a dor por algum tempo, o que exige que o homem desvalido passe a gastar cada vez mais as suas energias na adulação da divindade em busca da cura, amortecendo-o para outras atividades mais lúcidas. O homem não precisa da metafísica e da religião. Sua destruição, se fosse isso possível, embora desejável, não causaria mais prejuízo do que tem sido a sua existência para a humanidade. Eles, os religiosos de todos os credos, os defensores da metafísica estupidificadora, nunca tiveram sentimento de humanidade, apesar de todos as falsas juras de amor, de paz e outras falácias que prometem. No fundo, o que resta de qualquer religião é o sentimento egoísta do lucro de seus dirigentes, a hipocrisia que vende qualquer produto, desde que bem embalado em invólucros de falsas promessas. Trocaria a vida de milhares de homens ditos santos por qualquer outro ser que tenha uma vida ética e não tenha tentado enganar as pessoas com pretensas visões místicas ou estúpidos milagres de prestidigitação. Não vale a vida desses pseudo-heróis o mal que eles causaram ao desenvolvimento intelectual da humanidade. Sua estupidez atravancou de lixo o caminho do pensamento científico e racional, com a imposição de idéias absurdas e preconceitos infelizes. O homem, quanto mais religioso, mais egoísta: acha que todos devem compartilhar do mesmo estado de estupidificação mística em que ele se encontra e se arvora missionário de uma causa idiota, a tentar convencer com argumentos falaciosos e ilusões criadas em suas mentes doentias a uma humanidade incrivelmente crédula e ignorante, certa de que presenciou milagres ou é capaz de fazê-los. O culto a imagens e objetos e a transferência para eles de poderes mágicos torna o homem religioso um ser desprezível em termos intelectuais, digno, no entanto, de total compaixão por parte de quem tenha um mínimo de senso crítico. Sob o manto da liberdade religiosa e de pensamento, esconde-se um mundo tão imensamente fantástico de falsificação, de empulhação e de extorsão, que se pode dizer que a religião se tornou o mais festejado e promissor negócio da Terra, movimentando cifras muito maiores do que o próprio sistema capitalista é capaz de fazer girar, o que torna a religião uma praga impossível de ser combatida e erradicada. Qualquer tentativa de impedir que seitas se organizem como quadrilhas para roubar o povo esbarra na gritaria inconseqüente dos que defendem seus negócios com o argumento de liberdade religiosa, como se se pudesse dar liberdade à erva daninha para destruir as plantações. Por isso, não acredito na erradicação do pensamento religioso, essa praga arraigada na memória do homem, de forma radical nem em curto nem em longuíssimo prazo. Mas acredito que um processo educacional com menos influência das estúpidas teorias criacionistas acrescido do desenvolvimento do pensamento científico possa diminuir pouco a pouco a intolerância, a estupidez e a ignorância que se escondem por trás de todo pensamento metafísico ou religioso.


A condição natural do homem, apesar de todos os protestos que isso possa gerar, é o ateísmo puro. Pensar num ser criador constitui-se num artifício tão falacioso quanto pensar que o mundo é ilusão. O criacionismo estúpido imagina a intervenção de um ser grandioso, onipotente, onipresente e imensamente sábio, porque não sabe olhar o universo. A cegueira não permite aos criacionistas contemplar o mundo como ele é e isso o torna um imbecil para a realidade, por isso precisa apegar-se a salmos e rezas, a livros idiotas escritos há centenas ou milhares de anos, por homens muito mais ignorantes do que somos hoje, para que esses livros ditos sagrados lhe digam como o mundo funciona. E como não há relação alguma entre aquilo que está escrito nos livros sagrados e a realidade, seu intelecto fica obnubilado pela ignorância de centenas ou de milhares de anos, gerando todo tipo de preconceito e estupidez contra os demais seres que o rodeiam. A pretensa aura de sapiência que se instaura em torno de papas, gurus, aiatolás, rabinos ou pastores de qualquer espécie devia ser inscrita nos tribunais internacionais de crime de lesa-humanidade. São monstros travestidos de homens caridosos, porque acredito que muitos deles têm alguma percepção de que o que pregam não passa de fantasia para enganar trouxas, mas continuam assim mesmo a repetir as velhas fórmulas de seus antepassados, ou por covardia, ou por estupidez, ou porque não querem perder a sinecura de que vivem e com a qual enriquecem ou se tornam poderosos. Multiplicam a estupidez simplesmente porque são cegos e surdos à voz que vem da natureza. Mas dizem-se sábios e acreditam-se sábios à força de pensar que o são realmente. Sua desumanidade torna-os, aos criacionistas e ditos delegados de deus, a pior espécie de homem, já que são antinaturais e anti-natureza. Para eles, o que importa é a consciência tranqüila diante daquilo que chamam de deus, não importando que, para isso, muitos morram ou sejam mortos.


Pode-se perguntar: o que colocar no lugar do deísmo? Nada. Não se coloca nada no lugar do deísmo. Quando se deixa de acreditar em deuses, não existe nenhuma outra crença ou filosofia para se colocar no lugar. Porque o ateísmo não é uma filosofia, é apenas um conceito anti-deus, anti-criacionismo. O ateu não é um filósofo, é apenas alguém que não acredita nas bobagens deístas e criacionistas. Nada mais. Por isso, não há pregação pelo ateísmo, não há e não pode haver sociedades atéias ou templos e quaisquer outras besteiras desse tipo. Um ateu não sai por aí a pregar o ateísmo, porque não há o que pregar, o que defender. A crença em deuses é somente uma crença e nada mais. Ou seja: depende daquele ingrediente imponderável, inatingível e indiscutível chamado fé, a criação mais emblemática do deísmo. Acreditar em deus é um ato de fé. O problema é que esse ato de fé se transformou em religião, em filosofias, em metafísicas absurdas e excludentes. Por isso, o crente é um ser absurdo. Combater essa estupidez, sim, é um dever do ateu e de todos os que pensam um pouco além da estupidez humana em sua busca insana pela eternidade, por mistérios e por milagres. Mas não há elementos de troca. O ateu não tem nada a oferecer ao crente para substituir sua fé, apenas a liberdade. Liberdade de pensar e buscar a sua própria Weltanschaaung, seu próprio ideário e seu próprio sistema ético.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:10 PM


{Terça-feira, Janeiro 17, 2006}


OS RATOS

Há pragas perniciosas com as quais convivemos naturalmente: ratos, baratas, pernilongos, mosquito da dengue... Com os ratos, a regra é simples: como agem sorrateiramente, à noite, como só os ratos sabem fazê-lo, não nos incomodam muito. Ou, pelo menos, não os vendo, não os combatemos. Mas há uma regrinha de ouro: quando começam a ser vistos durante o dia, é porque a infestação está atingindo níveis muito altos, perigosos para a saúde humana.

São Paulo, a cidade, está infestada de ratos. Sem que a população se desse conta, começa-se a ver ratos por todos os lados, em plena luz do sol. Basta um pouco só de atenção, porque, silenciosos e sorrateiros, andam pelos cantos, em seu passo rapidinho. Mas, não é apenas a capital paulista que está infestada de ratos. O Brasil, há muito, tem tido surtos terríveis de ratos de todos os tipos: camundongos, ratos, ratazanas...

O Partido da Frente Liberal, conhecido pela sigla PFL, abriga em seus quadros o que restou da antiga ARENA. Alguém ainda se lembra dessa sigla? Aliança Renovadora Nacional. Sob esse pomposo nome, criou-se todo um aparato político de sustentação dos golpes militares de 64 e 69. Era o braço político do regime de terror, instalado naqueles terríveis anos de chumbo, como se convencionou chamar o período ditatorial. Enquanto se construía, com a ajuda de muita propaganda e do amordaçamento dos meios de comunicação, um grande milagre econômico para inglês (e americano, e FMI...) ver, os porões enchiam-se de presos políticos. Bem, isto todo mundo sabe: não vou repetir a história. Nem reclamar. Doeu, mas passou. O que é preciso lembrar é que era tempo de ratos gordos, verdes, a desfilar sua arrogância por todos os cantos, vigilantes e alimentados por uma grande parte de nossas oligarquias sempre prontas a estender seus tapetes aos poderosos de plantão. E a tal ARENA era o barco onde essa rataria toda costumava agrupar-se. Para apoiar o ditador de plantão. Com a redemocratização, o barco afundou, mas não a rataria. Que, espertamente, vestiu outras carapuças, outros jaquetões, e enfurnou-se toda no PFL. Que está aí, até hoje, agora não mais ratos gordos, mas camundongos muito bem disfarçados de democratas. Camundongos, sim, mas nem por isso menos alimentados. São perigosos, mas parecem sob controle. Só parecem. Porque disfarçados, sorrateiros, agem nas sombras de um grande guarda-chuva chamado PSDB.

O PSDB, ao contrário do PFL, não surgiu da debandada inicial da rataria do regime militar. Já nasceu e cresceu sob outros ventos, mais favoráveis. E parecia que tinha origem mais nobre, o que os levou a se identificar não com roedores mas com a rica plumagem dos tucanos. Tinham, sim, cores variadas e atraentes e, principalmente, um grande bico. E foi nesse bico, que embarcou a maior parte da população brasileira, levada por uma bem articulada campanha dos meios de comunicação, nos quais sempre se aninhou a parcela mais bem pensante de nossas elites, e por propostas que pareciam apagar qualquer vestígio das grandes sacanagens até então praticadas contra o povo pelas oligarquias dominantes desde sempre.

Engano, ledo engano: o ninho tucano, de repente, se viu rodeado e recheado de grandes ratos que, agora mais gordos e mais fortes, tinham sobrevivido aos ventos democráticos e só esperavam um novo alento, para ganhar de novo o poder. E o ninho tucano virou ninho de ratos. Ratos espertos, que sabem o que querem e são competentes no que fazem, que é manter-se no poder.

Mas, vamos à obra principal dessa rataria toda: a eleição e reeleição de um grande pavão. Isso para continuar a falar de bichos. De bichos e homens. Sim, um enorme pavão que encantou a todos, como o flautista de Hamelin. Lembram a história ou lenda, sei lá? Pois é, o flautista de Hamelin pretendia afogar todos os ratos, mas afogou mesmo todas as crianças. Por vingança. É mais ou menos isso o que fez o grande pavão. Para se reeleger, prometeu salvar a todos dos ratos, mas o que fez mesmo foi comprometer a economia do país por, praticamente, seis anos. Seis anos de estagnação. Quatro do segundo mandato e mais dois do seu sucessor, que teve que pagar a conta. E está pagando ainda.

E agora vem a rataria toda de novo, a berrar que tudo o que Lula faz é eleitoreiro. Ora, paciência tem limites. Mentiras têm limites. Só um exemplo, para voltar à cidade de São Paulo: quando Marta assumiu, cinco anos atrás, a cidade estava um verdadeiro caos. As sedes das subprefeituras estavam caindo, as máquinas todas paradas, por falta de manutenção, lixo por todo lado, o povo desesperado. Marta tirou São Paulo da UTI, e devolveu aos paulistanos a auto-estima perdida durante os mandatos de dois grandes ratos: Maluf e Pitta. Pois bem: fez uma besteira. Abriu um túnel numa grande avenida da região mais nobre da cidade, o que agradou os moradores da periferia que por ali passam para trabalhar, mas irritou profundamente os riquinhos. Conclusão: entregaram a cidade a dois ratos que pareciam batidos, em eleições anteriores, um do PSDB e outro do PFL, que estão colhendo tudo quanto Marta plantara, porque encontrou a Prefeitura em situação muito melhor. E engordou, bastante, o cacife de um deles, para torná-lo até mesmo, de novo, presidenciável, apesar de todas as promessas de campanha de que não abandonaria a cidade, para lançar-se ao queijo maior.

Assim caminha a política brasileira: no período entre ratos e ratazanas, o povo reclama, porque não entende que a oposição sempre pega o rabo de foguete, a situação deteriorada, a economia em frangalhos. E quer milagre. Como é impossível fazer milagre com a herança recebida (herança maldita não é retórica, não, é realidade), quando as coisas começam a melhorar, a música do flautista de Hamelin, ampliada em milhares de decibéis pela mídia dominada pelos ratos, engana todo mundo e a história se repete como farsa: lá vem, novamente, a rataria toda para fazer a festa. E tem rato para todos os gostos, a infestar não apenas a cidade de São Paulo, mas o País todo: rato de libré, ratazana de chapéus de grandes abas, camundongos aos milhares, vestidos todos com rica roupagem tucana, alegres e felizes porque o cheiro do queijo do poder já os torna assim, assanhados e babentos, todos loucos para se apoderar definitivamente desse pobre País, cujo povo não percebe a infestação de ratos, porque parece acostumado a conviver com eles. Há muito, muito tempo. Ratos que, agora, já podem ser vistos, aos montes, em plena luz do dia.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:59 AM


{Segunda-feira, Janeiro 16, 2006}


ARMADILHAS DO ATEÍSMO

Sou ateu. Convicto. E mais: acho que o ateísmo é o estado primitivo do homem. Ou seja: todo mundo nasce ateu. A idéia de religião é um conceito que a família e a sociedade nos impõem. As pessoas se tornam deístas (cristãs, muçulmanas etc.) porque há todo um trabalho de iniciação aos chamados mistérios das religiões, que nada mais são do que conceitos culturais arraigados há milênios, como o tipo de vestuário, a linguagem ou a forma como cumprimentamos uns aos outros. Acomodamo-nos ao deísmo como nos acomodamos aos usos e costumes da família e da sociedade a que estamos vinculados. Sem qualquer crítica. Apenas nos acomodamos à idéia de que há um criador e somos criaturas. Uma bobagem milenar, mas um mito poderoso e profundamente entranhado em nossa existência, a tal ponto que o fato de nos tornarmos ateus constitui um certo tipo de violência que cometemos contra nós mesmos: é preciso modificar estruturas de pensamento e ter a coragem de virar de ponta cabeça conceitos que, por mais absurdos que sejam, prendem nossa mente em armadilhas difíceis de serem superadas. Assim se justificam, por exemplo, que cientistas renomados e competentes, conhecedores das leis do universo que inviabilizam os conceitos criacionistas, se confessem crentes em uma divindade, por uma questão de fé. Aliás, um dos grandes méritos do deísmo foi a criação do conceito de fé: quando se encurrala um crente, ele apela para a fé e pronto, não há mais nada que o demova a pensar racionalmente na impossibilidade da existência de deuses.

Mas, atenção: um ateu é só uma pessoa que nega a existência de deus, renega todos os conceitos metafísicos que essa idéia contém e que, portanto, não professa religião alguma. Só isso. No mais, um ateu é um indivíduo que pode ter milhares de outras idéias e professar centenas de outras filosofias, certas ou erradas. Ou seja: um ateu pode ser ou não racista, nazista, comunista, bom ou mau, assassino ou cidadão acima de qualquer suspeita, homossexual, bissexual, machão convicto, machista, herói, vilão ou o que sonhe a nossa imaginação quanto às qualidades ou virtudes de um ser humano. Um ateu pode ser profundamente ético ou profundamente canalha. Porque o ateísmo não é uma seita, ou uma filosofia: embora o pensamento ateu quase sempre implique um profundo posicionamento diante da vida e do universo, porque negar a existência de um deus requer repensar o mundo, isso não é uma verdade absoluta. Pode-se ser apenas ateu, e nada mais. Sem outros questionamentos ou posicionamentos. O que eu quero dizer, em síntese, que, não sendo uma filosofia, o ateísmo não tem e não pode ter sociedades que se reúnam para pregar suas idéias, não pode ter defensores públicos ou qualquer tipo de demiurgos. Os ateus não se reúnem em congressos ou academias, para estudar o ateísmo. Os ateus não precisam ir aos meios de comunicação para divulgar o ateísmo. Quem o faz é charlatão ou imbecil.

O que deve, então, fazer um ateu? Se for um indivíduo preocupado com o homem ou, mesmo, um cientista, um educador, um comunicador ou um político, o ateu pode e deve, sim, divulgar idéias que combatam o obscurantismo, a estupidez, a exploração das religiões, as crenças que iludem e não contribuem para o desenvolvimento da humanidade. Não se prega o ateísmo: combate-se a ignorância, que é a causa maior das ilusões deístas. E qualquer posição filosófica baseada no ateísmo é de inteira e total responsabilidade de quem a defende. Nenhum ateu fala pelos demais. A minha atuação publica será pautada, claro, pelo meu ateísmo e vou defender idéias, projetos e propostas que não contrariem o meu pensamento. Mas isso é uma decisão exclusiva minha, de ninguém mais. E por uma questão de justiça, de que eu possa estar imbuído, vou sempre defender, por exemplo, um estado que não se sujeite a qualquer religião; vou tentar impedir que as pessoas sejam dominadas, em sua vida privada ou pública, por conceitos religiosos que deveriam ser inteiramente de foro íntimo e não impostos a toda a sociedade como verdades absolutas; não vou querer que, nas escolas, se ensinem princípios religiosos que contrariam toda a lógica e todo o conhecimento científico que temos até hoje das leis da natureza; não vou permitir que se mantenham privilégios a grupos religiosos só porque são religiosos, como não se permitem privilégios de qualquer natureza a outros grupos ou sociedades; não vou querer que as pessoas sejam enganadas por padres, pastores, aiatolás, rabinos, gurus ou por qualquer espécie de charlatão a tentar tirar seu dinheiro ou seus bens em troca de qualquer tipo de ajuda dita espiritual, em nome de deus, alá, buda ou que nome tenha a divindade: se é um bem imponderável, como uma bênção, um passe, uma oração ou um pedido ao deus, deve ser absolutamente gratuito, sem necessidade de templos, de faustos, de cerimônias ou outras idiotices.

Enfim, a responsabilidade de um pensador ateu e humanista não é defender o ateísmo ou sair por aí a tentar provar que deus não existe. Isso é bobagem. Não se prova que tal coisa não existe. Mas prova-se, sim, que a natureza age dessa ou daquela forma; que o universo tem leis conhecidas e desconhecidas para explicar todos os fenômenos; que o homem é um animal que deu certo e tem maior capacidade de raciocínio lógico do que as demais espécies do planeta, mas que ainda está, e parece que estará sempre, em evolução; que a vida é o bem mais precioso do homem e que, depois dela, não há mais nada e, por isso, precisamos deter os assassinatos, impedir as matanças, lutar contra as guerras, pregar não uma nova utopia, mas a realidade de que ao homem não resta alternativa senão viver em paz, ou seja, aprender a conviver uns com os outros em situação de acordos mútuos que respeitem o direito do outro à vida, pois só assim a humanidade poderá, em termos de longo, longuíssimo prazo, superar a barbárie e sobreviver. Isso são idéias decorrentes de meu ateísmo, porque, acima de qualquer ateísmo, sou um ser humano e, por isso, tudo que é humano me interessa. Agir como demiurgo de idéias ateístas é cair numa das maiores armadilhas do próprio ateísmo, em cujo cerne está a idéia absoluta, sim, absoluta, da liberdade de pensamento: pregar uma idéia que só subsiste em negação a outra que, por ironia, não tem comprovação científica.


posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:56 PM


{Domingo, Janeiro 15, 2006}


DE JK A LULA LÁ (conclusão)



As oligarquias não querem perder seus privilégios: por mais encarquilhadas que sejam, as elites têm sempre poder de reação a qualquer movimento que possa ameaçar, um pouco que seja, seus bens ou propriedades e, por extensão, seu poder. Agarram-se ao poder como erva daninha. Mas não são as únicas culpadas de todas as desgraças. Não são o mal absoluto, porque o mal absoluto não existe. São, sim, culpadas de muitas desgraças: da desunião da América espanhola ao grau de infantilismo e escravidão a que relegaram todas as populações que se submeteram a seu jugo. Mas não são culpadas do imobilismo dessas mesmas populações. Imobilismo que as mantém como bois na canga, em troca de um pouco de capim. E mais do que o imobilismo, a esperança inútil de um dia conseguirem, através do trabalho, erguer a cabeça acima das botas que as esmagam. E por que não se levantam as massas exploradas? Há um outro fator primordial: o malfadado cristianismo infiltrado em suas mentes, muito mais do que qualquer outro sentimento. É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico alcançar o reino dos céus. A massa tem medo de deus, de perder o paraíso depois da morte. E vivem no inferno em vida. Ao contrário das elites, que pouco estão ligando para a vida eterna e sabem muito bem desfrutar a vida aqui na terra mesmo, depois se vê o que se vai fazer do lado de lá.

As massas exploradas são educadas na esperança da utopia. As elites crescem e se mantêm no pragmatismo do capital. Mesmo que preguem, por necessidade de sobrevivência, de forma categórica, a moral cristã. Aliás, está nessa moral o ponto de convergência entre as massas e as elites: convergência que dá ao pobre um sentimento de superioridade, de soberba, porque coloca o miserável num degrau mais próximo do deus. Então, o conservadorismo das massas se explica, se aclara, se deixa tomar pelo pobre como o alimento da vida, não mais terrena, mas a vida eterna junto ao trono divino. As massas são divinas e, por isso, arrogantes em sua ignorância da percepção clara das relações mundanas. Temem reagir e perder a aura, perder a inocência.

Lula e o PT perderam a inocência. E isso é um escândalo. Intolerável. Porque, quem cria o maniqueísmo de que as massas, os pobres, os miseráveis são incorruptíveis ou superiores em termos de espiritualidade ou de qualidades morais não são as próprias massas, porém as igrejas cristãs, de todos os naipes, a serviço das elites e de seus desígnios, mesmo involuntariamente. E, ao chegar ao poder, todos podem perceber claramente que não há, no mundo real, no mundo da economia de mercado e da luta de interesses, nenhuma possibilidade de que os governantes não tenham o seu choque de realidade e joguem o jogo há muito iniciado, para tentar modificá-lo só depois de conhecidas, e bem conhecidas, todas as sus regras. É quando, na verdade, parecem perder a inocência. Para quem não entende o jogo. Porque, na verdade, não há inocência a ser perdida e a frase que abre esse parágrafo é apenas um jogo de retórica, uma inverdade para chamar a atenção do leitor desatento. Todos sabem muito bem qual é o jogo a ser jogado e suas conseqüências. As elites não gostam de perder os anéis para conservar os dedos, mas não são estúpidas o bastante para, quando se trata de jogos de poder, não terem suas cartas nas mangas e mostrá-las, entre dentes de puro maquiavelismo, no momento certo. E Lula, que se vê Juscelino, sabe muito bem onde pisa. Para alguns metros de conquistas, muita vez precisa ceder outros tantos de afagos, de jogos de cena. E preparar o terreno movediço de reformas sociais e políticas, para não se surpreender com as cascas de bananas de utopias mal costuradas em reuniões sindicais. Reformas que privilegiem as classes mais pobres e não apenas as elites, como sempre aconteceram até agora. Mas isso é difícil, muito difícil. Porém, não há maldade nas elites, ao tentaram conservar o poder a todo custo e impedir as reformas que possam trazer algum alento ao povo, porque, repito, o mal absoluto não existe, mas há estupidez em não quererem entregar alguns anéis para não perderem os dedos, embora a História não seja pródiga com governos populares. Por isso, o sorriso de Mona Lisa de Juscelino, embora elitista, tinha muito mais de popular que o cenho fechado de Lula, com sua barba hirsuta que a tantos atemorizou. Ainda que, sob a barba de carbonário, Lula esconda mais conciliações à Juscelino do que sonha a nossa vã filosofia.

Também não há bondade na luta das classes populares, em sua tentativa de melhoria de vida. Porque, é claro, não existe o bem absoluto. O que o povo espera é melhoria de vida, de aproximação ao pragmatismo das elites, reconhecimento de seu trabalho, ou seja, nacos mais substanciosos do banquete. Por mais paradoxal que possa ser o raciocínio, às massas nem sempre interessa o poder total, porque sabem muito bem o preço a pagar por isso. As elites, estúpidas, têm procurado manter esse poder a todo custo, como se ele fosse a pedra filosofal, a razão de sua existência, quando, na verdade, seu compartilhamento, sua alternância faria com que se acalmassem as reivindicações populares, se isso resultar em melhor distribuição de renda, em maior proteção aos desassistidos. O desaparelhamento do estado, como pregam essas elites estúpidas que se encastelam em partidos pseudo-socialistas como o PSDB, só serve para incrementar as diferenças e acirrar a luta de classes. Porque o povo não confia nas elites e só vê como saída para suas desgraças as benesses que provenham de um estado protetor. Há, assim, que se conservar esse manto, essa proteção. Há, inclusive, que se aparelhar melhor essa proteção, como uma das formas de atingir esse equilíbrio entre a voracidade do mercado e o temor da miséria das classes desfavorecidas. São e continuam sendo estúpidas as elites que não entreguem, portanto, alguns anéis, para salvar os dedos ou, pelo menos, a mão. A ganância sem limites de latifundiários, de minorias oligárquicas, dos cartéis que empobrecem fatias consideráveis da população, com a única finalidade de manter um poder absoluto sobre todos os meios de produção é que torna más as elites, embevecidas em contemplar os diamantes de seu próprio umbigo, esquecidas de que podem sofrer reveses muito mais rigorosos, se um dia a massa se levantar, mesmo que não consiga vencer.

Portanto, numa análise histórica de nossa política de JK a Lula, não há estigmatização maniqueísta de que é bom isto ou aquilo, o que há é a constatação rude de que as elites têm sido más, porque têm sido burras. Querem o poder a todo custo e pagam por ele o ônus da miséria, do subdesenvolvimento e da própria luta de classes. Juscelino, não sendo massa, manobrou bem entre o povo e as elites. Lula, não sendo elite, tem manobrado bem entre as oligarquias e o povo. Cada um de seu jeito, cada um em sua época. Só é necessário que a estupidez dessas nossas elites não atrapalhem o jogo e não vistam, mais uma vez, o manto do totalitarismo, porque não é essa a saída, como não foi até aqui, para a situação de eterno País do futuro que tem impedido esse povo, e até mesmo essas elites, de atingirem um patamar mais elevado de desenvolvimento que possa diminuir o grau de desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:34 PM


{Terça-feira, Janeiro 10, 2006}


QUANDO SE FUZILA UM GENERAL



No uniforme de um general se prendem
estrelas e divisas e condecorações
de guerra...

Do peito nu de um general se desprendem
pedaços podres de carne que chamam
coração...

Dos colhões de um general se apreendem
botins de batalhas e balas
de canhão...

No cu de um general não há pregas:
apenas a boca de uma metralhadora
ligando o cu sem pregas ao cérebro
sem neurônios...

De uniforme estilizado, ou de peito nu,
na frente de um pelotão de fuzilamento,
um general não deve mostrar medo de morrer:
ele deve pôr pra fora os colhões de canhão ou
mostrar o cu sem pregas para as balas dos fuzis.

Por isso, quando se fuzila um general,
todo cuidado é pouco: escolhem-se armas
de grosso calibre ou balas de prata
(como se fosse matar um vampiro)
porque na guerra (para um general,
não há tempo de paz) o campo verde
onde ele pisa vira a cada passada
um poço de sangue coberto de pus.


quarta-feira, 23 de abril de 2003

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:55 PM


{Segunda-feira, Janeiro 09, 2006}


DE JK A LULA LÁ



O golpe das elites de 64 teve início no fatídico dia da posse de Jânio Quadros como Presidente da República. Porque Jânio foi apenas mais um dos grandes equívocos dessas elites, ao tentar impor um presidente pelo voto democrático. Sua posse parecia consolidar o regime tão habilmente construído por Juscelino, mas desmoronam-se todas as esperanças de bom termo para o seu mandato no famoso discurso noturno em que ele, Jânio, do alto de seus mais de seis milhões de votos, desanca o governo do homem que lhe dera posse e chama todo o seu governo de corrupto. Ali está o ovo da serpente: a aparente luta contra a corrupção, que as forças conservadoras levantarão como bandeira para o golpe de 64.

O governo de Juscelino não pode ser considerado um modelo de administração pública, mas JK não era corrupto nem eram corruptos os seus ministros e auxiliares diretos. Acontece que, para construir Brasília a toque de caixa, muita gente de dentro do próprio governo teve de fechar os olhos a uma série de irregularidades praticadas por centenas de empresários de empreiteiras, loucos para enriquecer às custas do dinheiro público. Esses mesmos que, após a posse de Jânio, pretendiam continuar com as mesmas regalias. Esqueceram-se, no entanto, de que o novo presidente não tinha compromisso com o progresso representado pelas grandes obras do governo precedente. Aliás, como ficou claro de suas ações, Jânio não tinha compromisso com nada além do poder pelo poder. Embora eleito com maioria esmagadora de votos, não tinha base sólida no Congresso, que logo desconfiou de seu jeito estapafúrdio de governar, através de bilhetinhos desaforados e de medidas altamente discutíveis em todos os terrenos: ia da proibição do uso de biquínis até a condecoração do líder guerrilheiro cubano Che Guevara. Sua política parecia uma nau sem rumo, governado por um louco bêbado que, só não era inútil, porque servia aos interesses das classes mais conservadoras. Mas sua instabilidade emocional levou a que essas mesmas classes que o apoiaram se desencantassem com ele, ou melhor, quando pensou que teria apoio do povo para impor um regime ditatorial, no velho e folclórico modelo das repúblicas de banana da América Latina de então, escorregou na casca dessas mesmas bananas e as recebeu do povo que não se levantou para exigir sua permanência ao renunciar de modo estapafúrdio, sete meses depois da posse. Seu entusiasmo pelo governo de Fidel vem de um equívoco (mais um) de sua cabeça louca: via no líder cubano um ditador à moda antiga, não acreditando nas intenções socialistas e socializantes de seu governo, mas vendo apenas o lado nacionalista que, acreditava Jânio Quadros, não resistiria muito tempo num confronto com os Estados Unidos da América, e voltaria aos trilhos da velha mania latino-americana de ter à frente de seus governos tiranos que discursavam de dia contra o leão do norte e, de noite, comia nas mãos dos estadunidenses, em longos e complexos complôs que os perpetuassem no poder. Jânio queria ser um desses ditadorezinhos de francaria, usando e abusando do poder para impor suas idéias tresloucadas. O problema foi que o golpe ainda não tinha amadurecido e Jânio ficou falando sozinho.

Antes que passemos adiante na história, é preciso falar um pouco mais de JK. Juscelino veio das classes mais pobres de Minas, mas não era exatamente um homem do povo. Popular, sim, mas não advogava a política dos descamisados, dos desamparados. Sua visão das classes mais desassistidas tinha o viés das elites que o acolheram através do casamento com dona Sara, da tradicional família mineira, e através das alianças políticas que o levaram ao governo. Elites menos selvagens do que as que dominavam o país há tanto tempo e que voltariam ao poder com os militares, mas elites. O seu desenvolvimentismo tinha o caráter meio messiânico de que somente com o progresso os mais pobres poderiam colher migalhas suficientes do grande banquete para não incomodarem as festas, os bailes e o enriquecimento honesto dessas elites, que continuariam no poder, porém de uma forma mais gentil, bem na linha do brasileiro cordial de Gilberto Freire. E progresso, para Juscelino, consistia em abrir novas fronteiras e estradas (daí a construção de Brasília), financiar o capital estrangeiro para industrializar o País, modernizar fábricas e propiciar infra-estrutura que atraísse o grande capital. Havia, pois, um plano de longo prazo que pode parecer extremamente populista, mas que seguia a lógica do capitalismo, talvez menos selvagem do que aquele que tivemos depois, mas alinhado a forças poderosas de interesses econômicos, embora menos cruéis, do conservadorismo tradicional. Gente bossa nova, que iria enriquecer, sim, mas que não deixaria na miséria total o povo que os manteria no poder: uma política econômica que diminuísse de forma controlada o fosso existente entre os mais ricos e os mais pobres, voltada, portanto, para os interesses da mais que emergente classe média, aquela que teria a responsabilidade de não enriquecer demais às custas do pobre, a classe responsável por não incomodar os mais ricos, de que dependeriam, e de não permitir que os mais pobres se tornassem miseráveis. Esse o País das elites que apoiavam Juscelino. Um País equilibrado, menos injusto, longe das aventuras igualitárias do socialismo soviético ou de qualquer outra origem. Nem Bélgica nem Índia: exploração, sim, mas sem exageros. Pobreza, talvez, também sem exageros. Enfim, um capitalismo progressista à João XXIII.

Nada disso, porém, deu certo. As elites, que não admitiam e não admitem jamais perder os dedos para salvar as mãos, impuseram ao povo a figura ridícula de Jânio Quadros, um aventureiro que levou o País para os descaminhos do golpe militar, com sua renúncia absurda. A crise dessa renúncia todos conhecem: João Goulart, aconselhado por Tancredo Neves, tomou posse sob condições ultrajantes, tentou dar a volta por cima e foi vencido por seu próprio idealismo socialista de reformas do Estado e da sociedade. Também pensou ter apoio do povo, mas o povo foi sempre massa de manobra de quem detinha e ainda detém os meios de comunicação, os jornais, as emissoras de rádio, a incipiente televisão da época, enfim, os formadores de opinião. O golpe de 64 não foi tramado apenas nos gabinetes da periferia do poder, nem somente nos quartéis de generais provindos da classe média mas com arrojos elitistas (gente que devia comer mortadela e arrotar peru), nem apenas nas embaixadas estrangeiras, mas gestado principalmente nos grotões conservadores dos latifúndios cujos proprietários é que o financiaram, na moita, às escondidas, temerosos que são todos os que detêm de fato o poder econômico de verem seus nomes na lama dos conspiradores. Essa gente não conspira, compra conspiradores e se mantém na sombra, tocando seus negócios, manipulando os destinos e as vidas das pessoas.

Os governos militares se sucederam, através do golpe dentro do golpe: 1969 é, nesse quesito, o ano emblemático, que inaugura o período mais negro do regime militar. São de triste memória e constituem um dos capítulos mais tenebrosos da história desse País. Não merecem mais do que algumas poucas linhas, tendo em vista o objetivo desse texto. Se não foram modelo de democracia, também não tiverem êxito na imposição de políticas econômicas que tirassem o país da situação indigente de devedor crônico de organismos internacionais. Incompetência que custou caro, muito caro, ao povo brasileiro. Pagamos uma tríplice conta: falta de liberdade, estagnação e inflação.

O processo democrático se consolida e termina com a trágica morte de Tancredo Neves, aquele mesmo que foi conselheiro e primeiro-ministro de João Goulart. Ou seja, mais uma vez o povo apoiava um presidente escolhido pelas elites, de forma indireta, para tentar tirar o País do sufoco de mais de vinte anos de incompetência. Felizmente, a democracia parecia consolidada nas mãos dos vencedores de sempre, com a posse do vice, José Sarney, cujo governo ganha tons de populismo ao criar o Plano Cruzado de combate à inflação e abandoná-lo a seguir, para garantir mais um ano de mandato. Um desastre que prenuncia outro ainda maior: a eleição de Fernando Collor de Melo, outra aposta das elites para se impor ao povo através de um presidente populista. Mais um engano. Mais um engodo. Seu plano econômico desmonta o que havia ainda de possibilidades de garantir um futuro digno para o País, agora desolado pelo sistema de corrupção e de incompetência (mais uma) instalado em Brasília. Seu único e casual acerto foi a abertura da economia brasileira para o mundo, forçando a entrada do País na chamada era da globalização. Embora a um custo alto, a indústria brasileira, atrasada e vivendo de subsídios embutidos numa política cambial protecionista, teve de correr atrás de uma modernização forçada, para não desaparecer. O triste fim de seu governo teve mais a ver com a encenação de uma ópera bufa do que com ideais democráticos por que ansiava o povo.

Mais um vice é chamado assumir o governo. Maldição que parece perseguir a recém-instaurada democracia brasileira. E Itamar Franco, apesar de todo o folclore de se preocupar mais em se ver fotografado ao lado de modelos sem calcinha do que com os destinos do País, consegue realizar um governo cujo mérito maior foi estabelecer uma política econômica de longo prazo, de controle da inflação e de desenvolvimento sustentado. E elege como sucessor seu ministro da fazenda, Fernando Henrique Cardoso, o príncipe da sociologia brasileira, o queridinho das elites, um homem cujo passado irreprochável como perseguido político, professor brilhante e pensador parecia ser o sonho de todo e qualquer país, ao tê-lo como presidente da República. Um sonho que se transforma em pesadelo, ao se revelar o senhor FHC um homem mesquinho, vaidoso e arrogante. Seus dois primeiros anos de governo são, contudo, um exemplo de competência e honradez: o plano econômico do governo Itamar segue sem grandes sobressaltos e o País parece se preparar para um grande salto de qualidade. Mas a vaidade de um possível segundo mandato e o medo das elites de que o próximo presidente seja o metalúrgico Lula fazem com que todos os projetos e planos de governo sejam postos única e exclusivamente a serviço da reeleição. E FHC torna-se o primeiro presidente a ter dois mandatos consecutivos. Mas seu segundo governo já havia perdido o bonde da história, ao submeter o Plano Real de combate à inflação a seus desígnios políticos. São mais quatro anos de estagnação, em que FHC tenta, inutilmente, consertar os erros econômicos dos dois últimos anos do primeiro mandato. Comprara a reeleição e nós é que pagávamos, mais uma vez, a conta. Com mais um engodo das elites, com mais um presidente que servia a propósitos dos grupos que sempre mandaram nesse País, que nunca se importaram com a situação do povo.

E então, Lula é eleito presidente. Com uma carga excessiva de esperança, dessa vez, do povo. E outra carga imensa de desconfiança das mesmas elites que, agora, só podiam torcer para que Lula embarcasse num processo populista semelhante ao do Collor e impusesse à nação planos mirabolantes de reformas heterodoxas. Seriam o prato cheio para desestabilizar o seu governo e retomar o controle da situação. Mas, surpresa: Lula, num acesso de bom senso que pode lhe custar muito caro, retoma a ortodoxia econômica do governo Itamar e, em três anos de governo, recupera a economia arrasada por FHC, preparando o País para, agora sim, dar o grande salto de qualidade em termos de desenvolvimento sem inflação. Isso, no entanto, compromete, e bastante, as promessas populistas de campanha, o chamado lado social. O País da fome, os grotões de pobreza e miséria recebem, sim, atenção do governo, mas isso não rende manchete de jornais, a não ser quando se descobre algum desvio ou algum escândalo. E os inimigos de Lula estão de plantão para, a qualquer sinal de fumaça, entrar em campo com sua tropa de choque. E isso de fato acaba acontecendo, quando se descobre que o Partido dos Trabalhadores tinha atrás de si um rastro de cascas de bananas em que muitos de seus dirigentes escorregaram, por incompetência, desleixo ou falta de caráter, o que pode comprometer a possível reeleição do único presidente deste País não comprometido com as forças hegemônicas de uma elite que nunca pensou a nação a não ser em termos de atendimento de seus interesses. E isso pode ser mais uma tragédia política brasileira, mais uma frustração de que esses últimos cinqüenta anos estão repletos, desde o suicídio de Vargas, passando pelo desastroso desgoverno de Jânio, pela deposição de Jango, pelos sucessivos milicos incompetentes, pela morte prematura de Tancredo, pela aventura circense de Collor de Melo. Foram todas oportunidades perdidas.

Um País jovem que se construiu nesses quinhentos anos com poucas tragédias, com uma única guerra externa, a do Paraguai (de triste lembrança, mas um soluço apenas no mar da História), sem revoluções sangrentas e lutas intestinas, sem grandes sofrimentos causados por desastres naturais, sem ter derramado muito sangue para definir suas fronteiras, com uma população mesclada em termos de cor de pele (embora não seja o paraíso visto por muitos), com unidade territorial e lingüística, embora com grande diversidade cultural, constituído por um povo que tem, sim, grandes defeitos, mas muito menos do que as diferenças poderiam trazer em termos de lutas separatistas ou de perseguições a minorias, enfim, uma Nação que tem tudo para dar certo, mas não consegue superar a barreira administrativa de um governo decente que tenha continuidade e leve avante planos econômicos e de desenvolvimento sustentado, para tirá-lo da condição de eterno País do futuro. Um enorme navio que não acha seu rumo, perdido em picuinhas de suas elites, em processos de corrupção e de fantasmas que parecem pairar acima de toda e qualquer possibilidade de, um dia, achar mar calmo. Enfim, uma tragédia à brasileira, mesquinha, sutil, mas uma grande pedra no caminho de um povo que não merece as elites que tem.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:45 PM

spacer