{Veneno de Cobra } spacer
spacer
spacer

{Sexta-feira, Novembro 25, 2005}


TIO BENTO APRONTA MAIS UMA, OU MELHOR, MAIS DUAS!

Primeiro, veio a proibição de aceitar candidatos a padre que sejam homossexuais. Na igreja do tio Bento (ou seria Benedito?) XVI, veado não tem vez. Tudo bem. É direito dele não gostar de veados. Mas usar isso como desculpa de uma política (?) para evitar pedofilia é um acinte à nossa capacidade de raciocínio. Vejamos.

Todo mundo sabe que padre faz voto de castidade. Ou seja, virou padre, renunciou para sempre ao direito (ia dizer sagrado) de trepar. OK? Então, não tem essa de que pedofilia é coisa de veado, de homossexual, porque se o cara gosta de homem ou de mulher, não importa muito: tem que se manter casto! Jogar a culpa da pedofilia nos homossexuais é dizer que todo homossexual é pedófilo. E isso é, no mínimo, um absurdo. E os padres que não são homossexuais? Não podem ser pedófilos, isto é, não podem gostar de trepar com meninas e adolescentes? Ou será que só houve pedofilia com meninos, nos Estados Unidos, no Brasil, no mundo inteiro? Então, pedófilo que gosta de menininhas pode?

Repito: nem todo pedófilo é homossexual e nem todo homossexual é pedófilo. Portanto, sua santidade (?), o neo-nazi-fascista Bento pisou mais uma vez na bola.

A segunda nota fora fica por conta do desconvite à cantora Daniela Mercury para se apresentar num evento no Vaticano, porque ela fez campanha contra a AIDS, pelo uso da camisinha. O Vaticano (não importa que cabeça mitrada esteja sentada naquele trono idiota) continua com a mesma visão estúpida de que mais vale um aidético no céu do que a vida sadia com o uso de preservativos. Enquanto isso, milhões de pessoas morrem na África, na Europa, no Brasil, no mundo todo, porque seguem a doutrina de sua santidade (?). A santa madre igreja católica apostólica romana precisa deixar de se meter (literalmente) em assunto que envolve ética (que o cristianismo católico não tem!) e a vida das pessoas (que o cristianismo católico nunca valorizou!).

Será o Benedito? ou é só o Bento, mesmo?

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:26 PM


{Sexta-feira, Novembro 18, 2005}


TERCEIRA VIA? O QUE É ISSO?


O PMDB não é um partido político. Foi e continua sendo uma frente que abriga as mais contraditórias correntes políticas e ideológicas, desde o fisiologismo mais sacana ao idealismo absoluto. Na sua propaganda gratuita, veicula, agora, a idéia de ser a terceira via, o ponto de equilíbrio entre PT e PSDBFL, isso mesmo, a mistura de PSDB e PFL. Bela tentativa de jogada de marketing, num momento de desilusão política, principalmente em relação aos partidos de esquerda. Mas, será isso verdadeiro?

Claro que qualquer partido pode reivindicar para si mesmo o que quiser, dentro das leis eleitorais vigentes. Mas, dizer-se terceira via um partido que se constitui num amontoado de correntes contraditórias é ferir, no mínimo, a lógica política. Uma parte do PMDB apóia o atual governo, enquanto outra o odeia com todas as suas forças. Então, qual banda irá se constituir nessa pretensa terceira via?

Mas, há outros complicadores: o que é, afinal, uma terceira via? Pode-se pensar em conciliação, quando há o embate de forças contraditórias que não suportam conviver umas com as outras, sem o risco de uma guerra civil ou de se inviabilizar qualquer possibilidade de governo democrático. Nesse caso, uma via intermediária, que alije do poder contendores irreconciliáveis, pode e deve surgir para evitar o conflito. No entanto, não é isso o que acontece no Brasil, atualmente. Há forças de esquerda que, apesar de toda a contundência oposicionista de anos passados, não têm e nunca tiveram condições, desejo ou vontade de tomar o poder a qualquer custo ou, estando no poder, destruir os oposicionistas. Tanto o PT quanto os demais pequenos partidos que o apóiam não têm nenhuma intenção de fazer calar a imprensa, prender oposicionistas ou aprovar leis anti-democráticas. Há um forte sentido republicano e democrata nos discursos e nas práticas dos atuais detentores do poder. Já não é o mesmo o ânimo que corrói as entranhas do PSDBFL: sua angústia em se ter-se tornado oposição pela primeira vez, seu ódio hidrofóbico ao PT, sua gana de a tudo enxovalhar, seu apetite pelo poder, enfim, todas as atitudes que têm tomado até agora contra o Governo eleito democraticamente fazem-nos concluir que eles, sim, têm nas veias um forte componente golpista, que cheira, às vezes, a uma inominada saudade dos militares de 64. E isso preocupa, e muito, porque estão radicalizando o debate, sem que haja reação à altura dos opositores, atônitos todos eles com a virulência do ataque, com apoio de uma certa mídia que sempre se pautou por defender os interesses da oligarquia de forma dissimulada, mas que, agora, escancarou de vez a sua falta de compostura ética, para retratar de forma unilateral todos os acontecimentos dos últimos meses.

Não se defende a corrupção. Não se pode contemporizar com os que erraram. Porém, não se pode sacrificar um ideário construído ao longo de duros anos por causa da estupidez de alguns poucos. Os corruptos passam, o ideal permanece. Jogar fora a criança com a água suja do banho é matar princípios democráticos ainda incipientes num País cuja tradição de liberdade ainda está sendo construída. O golpismo do PSDBFL torna-se, a cada dia, mais patente. Golpismo político, é verdade, mas golpe é golpe, com toda a sujeira que costuma acompanhar-se. Confundem oposição com inimizade, com ódio, principalmente porque há, no interior desses partidos, lutas surdas entre grupos hegemônicos ligados à oligarquia paulista. Só se unem esses grupos antagônicos na ojeriza ao governo central, esquecidos de que estiveram por quinhentos anos no poder e pouco, muito pouco fizeram por esse desgraçado País que não merece mais esse tipo de política rancorosa e anti-democrática.

Por isso, defendo com unhas e dentes a limpeza ética do Partido dos Trabalhadores. Porque não há terceira via, e a alternativa de poder que se nos oferece o PSDBFL já provou não ser a melhor saída para o País. Precisam os políticos desses partidos, antes de tentar voltar ao poder, reciclar seus conceitos de respeito à ordem democrática, tomar um pouco de vergonha na cara em relação a tudo o que não fizeram pelo Brasil e deixar de lado a arrogância estúpida de seus líderes, para que se apresentem novamente como confiáveis ao povo brasileiro. E o PMDB, que podia, sim, constituir-se em opção às atuais forças inimigas, precisa livrar-se, também, de sua banda podre, de sua banda fisiológica e definir-se ideologicamente como partido político.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:25 PM


{Quinta-feira, Novembro 17, 2005}


1964 - 2005: A HISTÓRIA SE REPETE OU É TUDO UMA GRANDE FARSA?

Tem crescido a historiografia do golpe de 64. Mas não creio que todas as reflexões tenham sido feitas nem que se tenham esgotado todas as análises. Os fatos históricos se clarificam, mas as motivações, as pequenas rixas nos bastidores, a índole dos participantes e seus interesses quase sempre escusos, esses não deixam rastro e o analista equilibra-se no terreno escorregadio das suposições. Mas também as suposições fazem parte da grande História, porque rio dos acontecimentos não tem apenas os peixes graúdos dos que decidem, mas também a voracidade anônima de milhões de seres que, unindo suas fraquezas, constituem uma força colossal, embora quase imperceptível.

Não acredito em teorias conspiratórias, mas creio nessa força meio invisível de movimentos sub-reptícios que condicionam o caminho e a trajetória daqueles que têm a coragem ou a ousadia de se designarem líderes de movimentos que eles parecem comandar, mas, dos quais, na verdade, são apenas instrumentos e, por isso, facilmente descartáveis no primeiro embate interno da revolução que, em todos os casos, num processo autofágico, produz uma segunda geração de aproveitadores que dela se apoderam e determinam seus rumos.

Assim também aconteceu com o golpe de 64. E para entendermos o que se passou, é preciso prestar atenção não apenas nos movimentos que a antecederam, mas principalmente nas forças que a alimentaram. João Goulart, político esperto, formado nas lides internas do PTB getulista, não era, no entanto, o estadista que se julgava ser. Também não era comunista. Creio que a melhor de suas qualidades era o idealismo salvacionista de origem popular, herdado do getulismo. Achava que, unido às forças de esquerda, poderia realizar uma verdadeira revolução no País, com as famosas reformas de base, plataforma de seu governo. E dentre essas reformas, a que mais assustava o País ainda dominado pelos latifúndios, era a reforma agrária. Pregá-la era falar de corda em casa de enforcado. Preconizá-la como meta de governo era, no mínimo, provocar a ira de gente muito poderosa, que se achava dona de quase todo o País por lei divina, desde as capitanias hereditárias. Era um povo de mentalidade atrasada, muito distante do profissionalismo agrário de hoje, quando ainda não se inventara, pelo menos nessas plagas, o agro-business. Os coronéis ainda mantinham sob cabresto vastas parcelas do eleitorado e, por isso, elegiam políticos ligados a seu interesse, quando não eram eles mesmos os eleitos para postos importantes da claudicante república de então. A modernização promovida por Juscelino transformara o País, mas não chegara ao campo. No entanto, isso era só questão de tempo. A urbanização crescente, a industrialização, as estradas, as novas fronteiras abertas com a construção de Brasília, tudo isso decretava o início do declínio do coronelismo, o surgimento de novos valores e novas formas de tratar o campo. Podia-se não ter visão clara do futuro, mas intuía-se que novos bandeirantes surgiam no campo minado das relações entre a fazenda e a cidade: propriedades menores podiam tornar-se muito mais rentáveis graças à mecanização e o latifúndio deixaria de ter o peso político que sustentava sua existência e mantinha sob a chibata do coronel milhares de homens presos a sistemas arcaicos de produção e de relações trabalhistas. O operário já ganhara sua alforria com as leis trabalhistas e, mais dia, menos dia, elas chegariam também ao campo. Tais eram as profecias, para qualquer visionário de porta de botequim. E isso assustava os latifundiários. Principalmente porque o próprio Presidente da República se colocava como o profeta desse apocalipse inevitável. Mas havia, também, muitas outras forças conservadores, cujos interesses difusos podem ser levantados. A Igreja, mesmo depois de mais meio século de república, ainda não se conformara com o laicismo do governo. Tinha, como ainda tem, só que em menores proporções, muitos interesses tanto no campo quanto nas cidades: propriedades que ela sentia ameaçadas pela pregação aparentemente comunista do Presidente e, às vezes, claramente esquerdista de muitos de seus auxiliares. E o Vaticano há muito se declarara inimigo irreconciliável dos movimentos de esquerda, principalmente idéias provindas da Rússia e da China. Comunista comia criancinha e enforcava padres, sendo o último o temor maior. Também vastos setores da política tinham suas bases assentadas no conservadorismo de partidos como a UDN e o PSD, cujos próceres representavam os movimentos mais à direita do espectro político herdado do liberalismo democrático de Juscelino, cuja volta ao governo parecia difícil de ser evitada. E o poder, para essa gente, com a ascensão de Jango, parecia escorrer-lhe, definitivamente, por entre os dedos. A UDN representava uma certa elite de cunho conservador, levemente desenvolvimentista, intelectual, comprometida com mudanças que não abalassem os alicerces do conservadorismo, isto é: mudar para ficar tudo como está. Já o PSD representava os interesses claros dos latifúndios, dos grotões, do povo do interior, do caipira. Mas nem um outro partido tinham menos fome de poder. Por isso, quase sempre, se engalfinhavam. E havia ainda interesses regionais contrariados, como São Paulo e Minas Gerais, que há muito disputavam entre si, para a ciumeira dos demais Estados, o poder central. E toda essa gente, formando um cadinho formidável de forças contrárias, de repente se uniu numa única bandeira, fornecida pela pregação reformista de João Goulart. Igreja, latifundiários, interesses regionais, partidos políticos assustados, líderes ambiciosos (exemplo: Carlos Lacerda), uma mídia que surgia das mãos dos poderosos (rádio, televisão, jornais eram canais que ganhavam força estupenda, nos anos sessenta), tudo isso juntado ao ainda despreparo do povo para assimilar as novas realidades, como o urbanismo, as comunicações, a industrialização, fez daquele momento, inícios dos anos sessenta, o momento crucial de ruptura: ou os conservadores se uniam para tomar o poder, ou nunca mais teriam outra oportunidade. A articulação para derrubar Jango começou desde sua complicada posse, nos grotões mais atrasados dominados pelos coronéis, nas sedes dos imensos latifúndios ainda iluminadas com querosene, e foi-se espalhando difusamente pelos demais estamentos da sociedade, na pregação dos padres das pequenas paróquias, nos jornais locais e na voz das inúmeras emissoras de rádio espalhadas pelo território nacional, atingiu as capitais mais longínquas e depois as mais importantes, tomou os meios de comunicação, os partidos políticos e contou, sim, com a ajuda internacional dos Estados Unidos, aos quais não interessavam os rompantes esquerdistas do governo, principalmente depois da desastrada experiência de ter debaixo de seu nariz um Fidel Castro. E contava, essa articulação difusa e confusa, com dois aliados poderosos: de um lado, a fraqueza de um governo que se achava forte, sendo esse o seu calcanhar de Aquiles, e de outro o descontentamento das forças armadas, incomodadas com inúmeras atitudes de Jango (politização das tropas, quebras de hierarquia etc), mais do que com sua pregação. O famoso comício da Candelária foi a senha para que todas as forças contrárias a Jango de repente se articulassem e superassem suas divergências. O Exército seria o ponto de união, como uma espécie de juiz acima do bem e do mal. Todos os recursos, políticos, financeiros, logísticos, seriam carreados para os militares, que tomariam o poder por um tempo mínimo necessário para a rearticulação dos movimentos civis, a quem seria entregue depois o governo, saneado politicamente dos indesejáveis, sem o ônus, para esses movimentos, de ter de limpar a casa. E foi o que aconteceu. Ou quase. Não contavam com o golpe dentro do golpe, o que ocorreu em 69, com a tomada do poder por uma linha de militares de extrema direita, que não estava na história, e ambicionava o poder pelo poder, para realizar um projeto de Nação muito diferente do que sonharam os articuladores do movimento de 64, a essa altura já quase todos presos, cassados ou alijados da vida pública, pelo menos os que não concordaram com as novas diretrizes estabelecidas pelo Ato Institucional número 2. O que se viu a seguir é história, que merece, sim, outras análises, mas que foge ao escopo desse artigo.

O que eu pergunto, agora, é: o que tem a ver tudo isso com 2005? E a resposta, guardadas as mil devidas proporções, está no fato de termos, de novo, no Brasil, um governo de esquerda ou, pelo menos, de aparência esquerdista, de cunho popular, contrário, de qualquer modo, aos interesses de amplos espectros de uma certa elite que ainda sonha com, para ela, os doces tempos da velha república.

Não podemos lançar, neste momento, um olhar ingênuo sobre o Governo Lula, a ponto de imaginarmos que todos os homens do Presidente são impolutos defensores do bem, homens acima de qualquer suspeita. A arte da política, nesses trágicos trópicos, não se realiza sem uma boa pitada de tudo o que de ruim o homem construiu desde que se tornou menos nômade e se reuniu em tribos governadas por um líder, o mais forte ou mais esperto, escolhido ou imposto, gerado pela luta ou pelo poder de um deus qualquer. Portanto, não nos enganemos quanto aos aspectos, digamos, menos éticos de práticas pouco ortodoxas, mesmo para um partido, o Partido dos Trabalhadores, que sempre condenou nos outros todas essas práticas e maracutaias. Não é esse o ponto principal. Independente de haver ou não atos corruptos, cometidos por esse ou por aquele prócer de tal partido, o que importa observar é que, se não fosse esse o motivo, haveria mil outros pretextos para enlamear o Governo e enfraquecê-lo de tal forma, que não pudesse Lula se reeleger ou eleger, depois, um sucessor.

A ascensão de Lula ao poder contraria todos os princípios que estão na cabeça de nossas elites: a idéia de que é preciso mudar para continuar tudo como está. Não há mais a ameaça das reformas de base nem o perigo comunista, num mundo de tal forma interligado e (detesto esta palavra, mas não há outra no momento) globalizado, onde as verdadeiras ameaças são resolvidas a bala pelo xerife do Norte, com pouquíssimas contestações de meia dúzia de nações e organizações que não têm força para enfrentar o leão, que nenhum governo ocidental consegue ser definitivamente de esquerda, a não ser no discurso. A economia, no atual estágio de nossa história, constitui-se no verdadeiro poder acima de todos os governos, atada às grandes corporações e à necessidade de emprego para um número tal de pessoas que não permita o desequilíbrio entre os despossuídos de tudo e aqueles que servem à máquina infernal do capitalismo internacional. Assim, torna-se praticamente impossível que um governante como Lula consiga alterar profundamente os rumos do País. Porém, há a possibilidade de mudanças pontuais, que determinem formas estruturais de divisão do grande bolo capitalista, embora sem mexer nos fundamentos e nas bases econômicas que dão sustentação ao aparelho estatal e às leis de mercado. Mas só essas mudanças estruturais já são suficientes para provocar arrepios em muitos políticos da direita, acostumados há quinhentos anos ao poder, do qual não admitem abrir mão ou, mesmo, compartilhar com quem quer que seja. São esses segmentos políticos oligárquicos tão ou mais realistas que o rei a quem obedecem, o mercado. Porque os capitalistas, os donos do mercado, as grandes corporações, por mais desumanas que sejam no seu afã do maior lucro, sabem que um certo equilíbrio deve ser mantido, tanto em termos de divisão um pouco mais eqüitativa do bolo (afinal, algumas migalhas do grande banquete não custam assim tão caro) quanto em termos políticos, de alternância do poder, porque tais práticas funcionam como amortecedores das grandes diferenças sociais, impedindo que uma grande massa de mendigos e miseráveis um dia possa se revoltar, o que é mais difícil de ocorrer, ou que esses marginalizados atinjam uma cota impossível de ser controlada, o que já está há muito ocorrendo no Brasil, o que obriga os poderosos a manter grandes aparatos policiais para defesa de suas propriedades, de seu lazer, de seu bem-estar, o que, afinal, pode custar mais caro do que dividir um pouco o bolo com esses miseráveis e mantê-los a distância. Governos como o de Lula ajudam nesse processo de descontração das tensões sociais, embora às vezes obtenham alguns pequenos ganhos a mais do que podiam prever os verdadeiros donos da riqueza. Mas isso faz parte do jogo e não chega a se constituir em graves problemas, já que eles têm mecanismos de aumento de seus lucros, a despeito de qualquer ambiente mais ou menos hostil. No entanto, a oligarquia que sempre exerceu o poder em nome dessa gente não pode ficar distante do governo, do mando absoluto, como guardiã de todas as estruturas. Precisam desestabilizar qualquer governo que contrarie um só de seus interesses. Então, aí está armado o pretexto para, sem qualquer dó ou piedade, possam execrar publicamente um governo que, ao fim e ao cabo, mesmo praticando políticas econômicas conservadoras, pode manter-se por um tempo indeterminado no poder e mostrar ao povo a possibilidade de alguns ganhos significativos na luta por uma vida melhor.

Há, portanto, um movimento orquestrado, organizado, para derrubar o Lula? Se há um movimento para derrubar o Lula, disso não tenho dúvida. Não deve ser organizado nem orquestrado, como não o era nos primórdios de 64. Está-se tornando. Vejam os indícios: nos dois primeiros anos, Lula dispôs até de uma certa folga para governar, porque se esperava que ele fizesse algumas bobagens ou loucuras, principalmente no campo econômico. Como Collor fez, muita gente apostava em medidas populistas ou de impacto, que virassem o País de pernas para o ar e o mercado (o deus ex-machina) se pusesse em polvorosa e totalmente contra o Governo. Como tal não aconteceu, ou seja, Lula adotou e até aperfeiçoou o modelo conservador de economia, para obter, depois, ganhos em outras áreas, como a distribuição de renda através de programas sociais, a oposição manteve-se na expectativa, com as mãos amarradas. Mas, as eleições se aproximam e, mantido o curso do navio, seu timoneiro pode ser reeleito. A brincadeira precisa acabar, pois ameaça tornar-se séria. Então, é preciso surrupiar a bola do jogo e expor com fúria todas as mazelas do Governo. Arma-se um cavalo de Tróia: o presidente de um partido da base aliada (nem tão aliada assim), um tal de deputado Roberto Jefferson. É ele quem desencadeia, com gestos teatrais e discurso bem articulado de bufão de um teatro armado para atrair a mídia comprometida com o ideário oposicionista, todo o inferno astral do Governo, ao atirar num passarinho, que ele denominou espertamente de mensalão, e acertar num javali de grande porte, a terceirização das finanças do PT por seu tesoureiro para uma empresa de comunicações de Minas. Estava armado o pretexto para uma devassa sem precedentes na História do Brasil, maior até que aquela que conduziu à forca o Tiradentes. Denúncias mil pipocam cada dia, cada semana, todas provindas de testemunhas previamente arranjadas para contar histórias que podem ou não conter alguma verdade, mas que abasteçam diariamente a mídia e mantenham ocupadas todas as mentes mais lúcidas do País, não com a análise serena dos fatos e sua apuração, mas com a indignação provocada pela grande quantidade de denúncias sem provas, apoiadas nas palavras de fulano ou beltrano, num movimento uníssono e constrangedor de qualquer tentativa de reação por parte dos acusados, pois mal se estampam manchetes com um escândalo já outro toma-lhe o lugar, num redemoinho de informações desencontradas, de documentos forjados, de análises precipitadas de fatos comuns, enfim, num verdadeiro massacre entorpecedor da opinião pública. A única diferença de 1964 é que, agora, não há politização das Forças Armadas, que permanecem alheias ao movimento político, esgotadas que foram em seu brio pelo desastre dos governos militares. Mas a grande grita é a mesma. Os grandes conspiradores são praticamente os mesmos, com caras e bocas diferentes, mas os mesmos. As idéias, caiadas de novo, parecem novas, mas pertencem aos mesmos cérebros caquéticos da elite conservadora, em cabeças diferentes, mas as mesmas idéias que povoaram e continuam povoando a mente obliterada da oligarquia que governa este trágico país há quinhentos anos. Ou seja, o que se está tentando fazer com o governo Lula é o mesmo que fizeram com Jango: golpe. Golpe político, mas golpe, com todo o jogo sujo de qualquer golpe.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:52 PM


{Segunda-feira, Novembro 07, 2005}


NO COMPUTADOR

ligo o computador e abro uma página do word
e tento escrever um poema

não há tesão nenhum em meu tentar

apenas murchas palavras num computador
apenas murchos pensares em letras minúsculas

o som suave das teclas apenas persiste
o sonho que em mim não mais existe

vejo a praça, a praça imensa de minha infância
o coreto redondo, a tipuana em flor
são lugares comuns como o porto aonde chegam
navios fantasmas em pleno luar

o bater das teclas no computador
diminui pouco a pouco a minha dor
enquanto analiso se permito no poema
a rima pobre surgida por acaso

mas é nessa rima que embarco
sofrendo a esperança que ali não há
naquela praça imensa morreram um dia
a criança e o jovem que no meu sonho espreitam
não posso baixar a guarda de meus pensamentos
que lá vêm os dois a me fazer chorar

inúteis versos na memória de sonho de bits e bytes
de meu mais inútil ainda computador

o som do teclado abafa um pouco o burburinho
de uma praça distante da cidade perdida
não quero voltar ali, não quero encontrar
aqueles que espreitam atrás do caramanchão
para apontar o dedo acusador para mim
sou o covarde que matou um dia o sonho
de nunca mais pensar que seria o que sou

então que se salve o poema lá dentro
de minha memória de computador
para que eu não chore, afinal,
uma lágrima apenas de arrependimento
num poema que tentei um dia
escrever inutilmente num novo documento do word



são paulo, 21.3.2005

isaias edson sidney

iesidney@uol.com.br


posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:45 PM

spacer