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Sexta-feira, Setembro 30, 2005
O DIREITO AO FODA-SE
O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de foda-se! que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do foda-se!? O foda-se! aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me. Não quer sair comigo? Então foda-se!. Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se! O direito ao foda-se! deveria estar assegurado na constituição brasileira.
O texto acima conclui uma crônica em que o autor (totalmente desconhecido para mim) defende o uso do palavrão como forma de libertação de nossos instintos mais primários, de liberação do estresse. Concordo plenamente com ele.
Na atual crise, há momentos em que deveríamos poder chegar para o ACM neto, por exemplo e dizer: cara, você é muito chato, vai tomar bem no olho do seu cu! Ou para a Heloísa Helena: por que você vai para a puta que te pariu? Ou para o Valério: cara, você não é empresário porra nenhuma! Enfim, há palavrões para todos os gostos, todos os personagens e todas as situações.
Mas, diante do que está acontecendo, devia haver também o sagrado direito ao foda-se. Como descarga de toda a desgraça que parece não ter fim. Como forma de enfiar a cabeça na areia e acordar depois que toda a merda já tiver sido jogada no ventilador. Como maneira de calar a boca de gente que se mete a jogar a primeira e, não só a primeira, mas todas as pedras, quando tem o rabo mais sujo que cu de rinoceronte.
Assim, quando algum luminar da CPI disser que esse governo é mais ladrão do que o governo do FHC, a gente podia gritar: é mesmo? Então, foda-se! O Pallocci recebia propina? Foda-se! O Zé Dirceu é o chefe da quadrilha? Foda-se! O governo comprou a presidência da Câmara? Foda-se! O Lula sabia de tudo? Foda-se!
E assim, quem sabe, dizendo que se fodam todos, governo e oposição, possamos ter consciência de que, afinal, somos nós mesmos que estamos nos fodendo! Que não há saída, se a crise não chegar a um final razoável. Que a opção ao PT são mais quinhentos anos de Fernandos, de Serras, de Alkimins e de toda uma nojeira que sempre mandou neste País, de uma elitezinha filha da puta (que até o safado do Severino reconhece) que sempre fez o que quis, arruinou a Saúde, entregando o povo nas mãos das empresas de seguro, como a Sulamerda e outras mais que cobram o olho da cara para não dar assistência nenhuma, quando se precisa (e se considera o melhor ministro da saúde de todos os tempos), vendeu o patrimônio público a troco de banana , com falcatruas de todos os tipos, para pagar uma dívida que não foi paga com um dinheiro que sumiu (e se acha mais patriota que o Tiradentes), destruiu as universidades e o ensino fundamental, deixando que se abrissem faculdades de merda em cada esquina para enganar o pobre que não tem acesso às faculdade públicas (e dá-se ares de maior entendido em educação de todos os tempos), tirou o emprego de milhões de trabalhadores, com uma política de privilégio às multinacionais e aos banqueiros internacionais (e se diz doutor em economia), enfim, uma gente que só trouxe mazelas para o povo e agora está aí a ruminar todo o seu ódio, com a boca aberta para abocanhar de novo o poder, sedentos mais uma vez de nosso suor e de nosso sangue!... É isso, mesmo, que estamos querendo? Eu, não, eu não quero nada disso de novo, que o meu rabo já ardeu os suficiente com as sacanagens dessa gente! Então, o que é que se pode dizer nesta hora? É só olhar para trás e pensar: se o PT fez merda, que se foda! Punam-se os canalhas! Botem na cadeia os zés, os delúbios, os sílvios e quem mais estiver com o pé na lama, se for o caso, que se fodam todos! Mas voltar ao que era antes? NEM FODENDO, VIU, NEM FODENDO!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:49 PM
Quinta-feira, Setembro 29, 2005
SISTEMA DE QUOTAS: O QUE É PRECISO ENTENDER
A miscigenação no Brasil torna-se um complicador, quando se fala em sistema de quotas para negros, por exemplo, em universidades. A cor da pele de muito brasileiro esconde a origem de antepassados negros. Muita gente branca pode alegar ter o pé na cozinha, como até mesmo um ex-presidente já o afirmou. Assim, fica difícil dar direitos através da cor da pele, principalmente quando está em jogo uma vaga numa boa universidade. Não sou, portanto, a favor de tal política, que pode gerar muitos equívocos. Por outro lado, a população negra merece, ou melhor, tem o direito de que o Estado constitua políticas afirmativas de inclusão social que iniciem o processo de demolição desse verdadeiro muro da vergonha, que é a ilusão de que não existe preconceito no Brasil. Existe, sim, e é preciso ser combatido com leis, com políticas, com programas e com ações que dêem visibilidade ao negro, que o estabeleçam como um dos pilares da formação de nosso povo, reconhecendo, afinal, o erro hediondo da escravidão, sem jogar para baixo do tapete esse fato paradoxal de nossa história. Paradoxal porque é, ao mesmo tempo, a mácula de vergonha e fator de enriquecimento de nossa cultura. A contribuição do continente africano para nossa formação como povo, sociedade e nação ainda não teve o reconhecimento merecido. E só esse tipo de inclusão pode resgatar uma dívida que não se paga nem com todo o ouro do mundo. O negro brasileiro precisa de visibilidade para ser, afinal, aceito como cidadão de primeira classe. Como, aliás, devem ser aceitos todos os demais povos de diferentes ascendências que aqui aportaram e ainda aportam. Embora um tanto utópica, a sociedade multi-étnica (e uso esse termo por falta de outro: não existem raças, apenas povos diferentes, por várias razões, e apenas uma raça, a raça humana) que aqui se forma pode se constituir num modelo bastante interessante, nesse conturbado mundo de divergência e guerras inúteis.
Voltando à tentativa de entender um pouco mais o conceito de quotas em universidades públicas, devemos ter em mente que, por uma questão de isonomia, o dinheiro público não pode ser canalizado para um só segmento social, mas distribuído o mais equanimemente possível. E, no caso da educação, há um desequilíbrio muito grande. O modelo de ensino implantado por políticas irresponsáveis tem privilegiado a escola particular em detrimento da escola pública, cuja qualidade declinou na mesma proporção em que se universalizou. Temos, pelo menos teoricamente, ensino fundamental e médio para todos. No entanto, por razões mais do que sabidas e estudadas, se tomarmos pela média, é um ensino de baixa qualidade. É claro que temos excelentes escolas públicas, mas não são a desejável maioria. São quase exceções.
Por outro lado, a particularização do ensino não trouxe a tão sonhada e esperada qualidade que os defensores da livre iniciativa tanto propalam. É preciso não nos iludirmos com o mito de que qualquer escola particular é melhor do que qualquer escola pública. Isso é uma grande mentira. Uma falácia que falsos educadores encastelados há anos e anos nos órgãos decisórios de todas as instâncias do poder nos impingem através de uma bem orquestrada cantilena nas várias mídias a que têm acesso. O ensino particular tem mazelas tão grandes ou piores que o ensino público.Vende-se muita ilusão travestida de qualidade. Se temos milhares de escolas particulares no Brasil, podem-se contar nos dedos as que realmente prestam um serviço que pague o preço que cobram. Quando contam com um bom corpo docente, não têm um sistema educacional confiável. E vice-versa. E a maioria fica no mais tradicional do ensino: disciplina (em que a palmatória é substituída por métodos mais sutis, mas igualmente eficazes), muita matéria para o aluno decorar (como forma de iludir as famílias com a promessa de se sair bem no vestibular) e nenhuma preocupação com a formação ética e intelectual do aluno. Ficam no arroz-com-feijão mal requentado servido como se fosse caviar aos mais desavisados. Mais deformam do que realmente educam.
É minha crença particular (e acho que de muitos cidadãos preocupados, também) que educação é um dever de Estado, um bem inalienável que não pode e não deve ser entregue às mãos e à sanha de empresários ou de quem quer que busque o lucro às custas de um valor que se constitui numa das maiores riquezas de um povo, sua formação intelectual e ética. Nenhuma nação tem o direito de se dizer civilizada, se não tiver um sistema educacional acessível a todos os seus cidadãos, sem distinção de qualquer espécie, com a qualidade que permita formar pessoas dignas e éticas, de acordo com os valores mais caros de igualdade e cidadania. Aos particulares, os nichos, ou seja, não se pode negar aos cidadãos o direito de buscarem outros tipos de educação de acordo com suas opiniões ou cultura: comunidades que desejem preservar seus valores, sejam eles de qualquer natureza, se não desrespeitam as leis e a Constituição, podem manter livremente seus educandários. Portanto, não é preciso destruir a escola particular, apenas melhorar e universalizar o ensino público.
Isso, porém, é o melhor dos mundos. Não a utopia, mas a realidade que precisa ser conquistada ao longo de alguns anos de investimento e de vontade política. Gasta-se muito com o ensino no Brasil, e gasta-se mal. Melhorar a qualidade desse investimento já se constituirá num salto tremendo para alcançar o ideal que todos queremos.
Vamos, agora, analisar a idéia da reserva de quotas para os alunos egressos das escolas públicas em universidades também públicas. Por uma questão de eqüidade, não vejo nenhum absurdo em que 50% por cento dessas vagas sejam reservadas aos alunos que provierem de escolas públicas. É apenas uma forma de valorizar o investimento feito nesses alunos. Não haverá, como muitos preconceituosos possam pensar, o tal nivelamento por baixo. Principalmente, porque se estará dando oportunidade aos melhores alunos das escolas públicas que, concorrendo entre si, determinarão a melhoria das próprias escolas de que provêm. Porque há o efeito testemunho, ou seja, quando uma escola pública se destacar, a própria sociedade forçará a que as outras atinjam o mesmo nível. Isso levará a que, pouco a pouco, todas as escolas atinjam níveis de excelência iguais ou até mais altos que as escolas particulares. O que fará aumentar a demanda por escolas públicas. Com o aumento da demanda, decorrente da melhoria do ensino, a sociedade exigirá cada vez mais e melhores escolas, o que levará, também pouco a pouco, ao declínio do número de escolas particulares e, conseqüentemente, à extinção do sistema de quotas.
Além disso, esse sistema irá contemplar não apenas os negros, mas também outros grupos sociais marginalizados, como índios e imigrantes de várias nacionalidades, distribuídos em inúmeras comunidades nesse Brasil afora. Sem o constrangimento de obrigar a que os estudantes declarem a cor da pele, no momento de exigir o seu direito mais do que legítimo a uma educação de qualidade.
Portanto, está mais do que na hora de todos os interessados na melhoria da qualidade do ensino no Brasil saírem de suas tocas, de seus paradigmas mais que ultrapassados, e encararem sem preconceito a idéia de que é preciso começar a fazer alguma coisa para ultrapassarmos a barreira do subdesenvolvimento educacional em que nos encontramos. O sistema de reserva de 50% das vagas em universidades públicas para egressos da escola pública não é uma panacéia, mas tem inúmeros e bons efeitos colaterais que precisam ser levados em conta. Pode ser um remédio um pouco amargo para certos setores de nossa sociedade, e todos sabem muito bem quais são, mas é um preço a pagar, durante algum tempo, para começarmos a equacionar o problema educacional de nosso País, sem o que não haverá futuro com progresso sustentável e uma sociedade mais justa em todos os sentidos.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:29 PM
Quarta-feira, Setembro 28, 2005
BANG-BANG: VEM AÍ CHUMBO GROSSO!
Não, não estou falando da nova novela da Globo. Que também podia ser motivo desse artigo, diante algumas polêmicas suscitadas. Mas deixa pra lá. O que eu quero falar, mesmo, é do famigerado referendo que vem aí.
Talvez eu seja um otimista incorrigível. Talvez eu acredite ainda na capacidade humana de sair da barbárie. Talvez... talvez uma porrada de coisas para justificar o que eu penso sobre o uso de armas pelos cidadãos. E o que eu acho se resume numa só frase: CIDADÃO NÃO PODE E NÃO DEVE ANDAR ARMADO. Se tem arma, é bandido... ou policial... ou militar... Armas são estúpidas. E só gente estúpida anda armada. Policial e militar, portanto, são gente estúpida? Mais ou menos, diria eu. São os estúpidos necessários, nesse mundo bárbaro. Embora sua missão seja nos proteger, todo mundo sabe que isso nem sempre acontece. O ideal, mesmo, é que ninguém, mas ninguém, mesmo, precisasse andar armado. Mas, aí, dirão alguns, e eu concordo, vá ser otimista assim na p.q.p.!
Bem, o negócio é que vem aí o tal referendo. Oportunidade talvez única para um pouco de sensatez. Por enquanto, as pesquisas apontam a vitória do SIM, com mais de oitenta por cento dos votos. Por enquanto. Porque vem aí a propaganda a favor e contra... E pelo que eu sei, o lobby das armas virá com chumbo grosso para cima da população. Insinuarão ou dirão com todas as letras que o menos que um cidadão desarmado deve ser chamado é de otário. Sim, quem não tem uma arma em casa, ou no carro, ou na cintura, para se defender da bandidagem, é, no mínimo, imbecil. E por aí vai ser o bang-bang contra a proibição da venda de armas e munições no Brasil.
Portanto, todos os que são a favor dessa proibição que se preparem. A luta vai ser dura. Os argumentos para se votar a favor do SIM são tão óbvios e transparentes, que isso pode levar a que as pessoas de bem, e sensatas, desse País pensem que a batalha já está ganha. Enganam-se. Vai ser preciso não ficar na defensiva. Vai ser preciso muita saliva para sairmos desse bang-bang com a certeza de que não somos otários na defesa da proibição de venda de armas e munições no Brasil.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:10 PM
Terça-feira, Setembro 27, 2005
CONTO SEM DESCONTO
O tema do mês, lá do nosso velho e bom Grupo de Contistas, na casa da Cármen Rocha, era VESTIDO RUBRO. Aí, me deu um saracutico, uma vontade de tapar a boca do mundo, de que eu escrevia sempre do mesmo jeito, no mesmo estilo meio destrambelhado... Mas eu acho que queria, mesmo, era tapar o buraco da vontade de dizer que se pode, sim, ter muitas versões de um mesmo conto... que, ao cabo, como dizia o velho e bom Machado, só existem idéias velhas caiadas de novo... que podemos dar demãos de tintas em velhas histórias e torná-las novas, diferentes, sei lá. Aí vão os dois contos com o mesmo tema:
JACINTHO
Isaias Edson Sidney
Grupo de Contistas de São Paulo, setembro de 2005
Tema: vestido rubro
O táxi parou à porta do clube. Estranhou o endereço. Conferiu. Era, sim, o endereço do convite. Pagou e desceu. Luzes fortes e coloridas deixaram-no atordoado. O porteiro, num imponente fardamento negro de botões e divisas douradas, estendeu-lhe a mão enluvada, num gesto excessivo de cortesia. Conferiu o convite e abriu-lhe a imensa porta de mogno, que rangeu um pouco nos gonzos. Criados de libré formavam um corredor de boas vindas ou circulavam pelo imenso salão portando bandejas com champanha e canapés. Tentou acalmar-se e mostrar-se à vontade. Mas a gravata, o colarinho e o smoking faziam-no sentir-se dentro de uma pele que não era a sua. Sempre trabalhara em escritórios e bancos, nunca, porém, tivera de freqüentar a elegância de um baile como aquele. Não tinha muito traquejo social. Tímido e franzino, poucas vezes saía com os amigos para um jantar ou uma farra regada a cerveja e mulheres. E, nessas ocasiões, sempre se portava com discrição, com que os amigos, poucos, do escritório onde trabalhava há mais de dez anos, se acostumaram, depois de desistirem de estimulá-lo com palavras de incentivo e chacotas, todas deixadas de lado por inúteis. Era esse o seu jeito e assim morreria. O convite trouxera-lhe júbilo e receio, por sua imponência. Os colegas de repartição estranharam o fato de somente ele ter sido o escolhido, dentre tantos. A firma era grande. Por que só ele naquele escritório desimportante de bairro? Depois da estranheza, veio a inveja. E muitos chegaram, mesmo, a dizer que Jacinto comprara o convite ou o adquirira por meios não muito louváveis. Depois da inveja, houve algumas manifestações de ódio, flagrantes em conversas entreouvidas no cafezinho da tarde ou em bilhetes anônimos que chegaram à sua mesa. Pensou em desistir, passar adiante a honra de tal deferência. Convite irrecusável e intransferível: o pequeno bilhete em letras negras cursivas no canto do envelope deixava claro que a direção da firma não estava brincando. Jacinto não podia se dar o luxo de contrariar ordens tão peremptórias. E ali estava ele, naquele imenso salão de baile, sentindo-se estranho e buscando algum rosto conhecido que pudesse servir-lhe de âncora. Nada. Ele não conhecia ninguém e ninguém parecia conhecê-lo. Um criado prestativo tirou-o do embaraço e conduziu-o até à mesa que lhe era reservada. Havia quatro cadeiras e, sobre a mesa, quatro elegantes placas de prata com os nomes de seus ocupantes. Achou estranho seu nome grafado à antiga, com agá depois do tê, Jacintho, assim mesmo, Jacintho, mas gostou. Era um conservador e agradavam-lhe os detalhes antigos. E isso o deixou um pouco mais à vontade para pesquisar o ambiente. Notou que vários casais já dançavam na pista, ao som de uma valsa conhecida. Observou o toalete das senhoras, todas em amplos vestidos rodados e rendados, com decotes generosos e mangas bufantes, o colo e os braços enfeitados com jóias que ele não sabia se eram ou não verdadeiras, mas de grande bom gosto; notou a elegância dos cavalheiros, todos de somoking e gravatas discretas, sapatos brilhantes de bico fino e um ar blasé de quem nunca se vestiu ou se portou de maneira diferente; gostou da ornamentação discreta das mesas, com pequenos arranjos de flores campestres, e das guirlandas de rosas vermelhas dispostas em pontos estratégicos do salão. Devia haver, ali, pelo menos umas cinqüenta pessoas. Consultou o relógio. Ainda era cedo. Virou-se para um criado, para pedir um champanha e ficou encantado com sua presteza e gentileza. Serviu-se de uma taça e o sabor da bebida afrouxou seus últimos receios. Recostou-se, aliviado, ao espaldar alto da cadeira, puxou um charuto, cortou-lhe delicadamente a ponta e logo um criado apareceu para acendê-lo. Saboreou longamente a fumaça. O charuto, hábito antigo, sempre fora o companheiro de momentos em que ele precisava centrar um pouco o ego, fazer-se mais presente, eliminar a excessiva timidez. Apagou-o, no entanto. Não queria perturbar narizes sensíveis, apenas relaxar e aproveitar. Em poucos minutos, o salão começou a encher-se e o burburinho das vozes já o atordoava. Chegaram os demais ocupantes da mesa, um senhor e duas senhoras muito distintas. Apresentaram-se formalmente e logo entabularam uma conversação fútil sobre festas e hábitos de salões elegantes, com algumas observações apimentadas sobre um ou outro convidado ou convidada cujo exagero no vestir-se parecia um pouco deslocado do ambiente, o que deixou a todos muito à vontade, desconhecidos que, de repente, vêm no outro um amigo de muitos anos, devidamente incentivados pelo consumo do excelente champanha, servido sem nenhuma parcimônia. O baile animava-se e Jacintho, enobrecido pelo th do nome na placa, não se furtou de convidar a ambas as damas a uma ou outra contradança, em que se mostrou não só exímio dançarino, mas também um gentil e honrado cavalheiro a despertar nas senhoras olhares de concupiscência e camaradagem, principalmente diante da informação, lançada fortuitamente, no meio de um chiste, de que ele, Jacintho, era solteiríssimo e, até certo ponto, bem arranjado na vida. Logo se armou entre as duas damas um certo clima de disputa discreta para ver quem melhor agradava a tão ilustre cavalheiro, o que acabou por despertar no outro convidado um certo desconforto que se transformou em ciúme e em tentativa de desqualificar o oponente, através de chistes mais agressivos ou, mesmo, de algumas palavras irônicas a respeito da figura franzina, embora elegante, de nosso Jacintho, agora à vontade como o galo que se sente dono do terreiro, perdida quase totalmente a timidez, agraciando as senhoras com palavras e relatos mundanos com estilo e até com certa desenvoltura que não lhe era comum ou peculiar. Enfim, Jacintho desencantava e encantava. E desarmava o rancor do pretenso adversário. Já eram quase três horas da manhã e o baile prosseguia, agora lotado de gente que se tornava divertida, alegre, dançante, sob os eflúvios do champanha e animados pela orquestra que se esmerava num repertório clássico de valsas, boleros e tangos. E foi quando voltava do toalete masculino, que Jacintho parou extático e absolutamente abobalhado pela visão da mulher de vestido rubro, que dançava um tango com um parceiro de cabelos longos, presos num ridículo rabo-de-cavalo, que exagerava os passos da dança e atraía para o casal olhares irônicos e invejosos. Jacintho não voltou à mesa. Ficou ali, admirado com a beleza da mulher, seu rosto branco, marmóreo, os olhos negros, a sobrancelhas finas e fortes, os lábios vermelhos, os seios que pareciam querer explodir da prisão do tomara-que-caia apertado, a cintura fina e as pernas, ah, as pernas, longas, perfeitas, a romper por entre as dobras e fendas do vestido rubro, uma taça de vinho das melhores cepas a emoldurar um corpo perfeito que se equilibrava vertiginosamente sobre os saltos finos e altos dos sapatos delineados como gotas de sangue a deslizar sobre as tábuas envernizadas do salão. Nunca vira uma mulher assim, pensou Jacintho. E uma grande tristeza abateu-se sobre ele. Nunca vira e, com certeza, nunca teria oportunidade de ver outra vez uma mulher assim. E ele a desejou, como jamais em sua vida medíocre pudesse pensar em desejar alguma coisa. Tê-la uma vez, uma única vez, em seus braços, e já valeria a pena ter vivido, mesmo aquela vida medíocre de simples escriturário. Fechou os olhos por um instante, por um breve instante, para tomar fôlego, aceitar sua insignificância e retomar o caminho da mesa onde o aguardavam duas senhoras distintas, distintas e nada mais. Quem sabe, até, a conquista de uma delas seria seu prêmio de consolação. E teria o resto da vida para sonhar com a mulher de vestido rubro e transformar aqueles segundos de alumbramento em compensação de toda a sua mediocridade. Abriu os olhos. A dama de vestido rubro encarava-o, a uma certa distância, já descartado o parceiro do tango, já a orquestra investindo num outro ritmo, já o mundo se ordenando de outra forma. Jacintho sentiu o assoalho tremer, um buraco abrir-se, mas não se jogou nele. Olhou para trás, desconfiado. Não havia ninguém. Era para ele que a dama do vestido rubro olhava. A dúvida em sua mente durou apenas um segundo, mas nesse segundo, Jacintho, como que açodado por velhos demônios, reconstruiu-se como pessoa, como homem. Despiu a vida de empregado de empresas que não lhe davam qualquer reconhecimento. Reciclou o diploma de contador e reescreveu nele, em letras douradas, o título de economista. Ganhou porte de atleta, mercê de exercícios em academias caríssimas. Viajou a Paris, num congresso em que representava o governo do país. Casou-se duas vezes com atrizes de cinema. Da última, divorciou-se após um escândalo que envolvia sexo, dinheiro e política. Cobriu as madeixas que teimavam em surgir com as cores negras da graúna em cabeleireiros de Londres especializados em dar glamour a decadentes nobres ingleses. Construiu uma mansão no bairro mais elegante da cidade. Comprou iate e carros importados. Presenteou com jóias caras as mulheres mais faladas da sociedade. Quando caiu em si, estava nos braços da dama de vestido rubro, rodopiando no meio do salão totalmente vazio ao som de uma valsa de Strauss, beijando seus lábios e apertando contra si aquele corpo escultural. E logo o som do baile, as conversas, a música, o tilintar dos copos, os risos e o riscar dos sapatos no assoalho, tudo desaparecia ao trotar de uma parelha de cavalos brancos a conduzir numa carruagem pelas ruas molhadas da madrugada da cidade grande os dois pombinhos apaixonados que se abraçavam e se beijavam como loucos. E o último gesto de Jacintho foi abocanhar sofregamente o seio róseo, para logo sentir no pescoço a língua quente da mulher e, em seguida, uma leve mordida que o levou ao paraíso, num orgasmo inaudito e abundante que manchou indelevelmente as calças pretas, e foi esse detalhe que deixou perplexo o policial que encontrou o seu corpo estirado nos jardins tomados de hera e mato, dormitório de cães vadios, nos fundos do elegante Sport Club Jacintho de Thormes, abandonado há mais de cinqüenta anos. Ao lado do corpo, um vestido rubro.
LUA NEGRA
Isaias Edson Sidney
Grupo de Contistas de São Paulo, setembro de 2005
Tema: vestido rubro
Estuporados, motor e motorista. Morreu o trambolho. Jacinto olhou feio o motorista, praguejou. Sem muita vontade, a nota amassada mudou de mão. Em volta, o silêncio. Só. Luzes. O clube, do meio do nada. Número igual convite. Degraus. Um negro envelopado, grandes mãos, luvas brancas. Conferiu. O gonzo da porta em altura de palmeira bateu em nó de arrepio na garganta. Criados, dezenas. Prontidão educada e mecânica. Em cortejo atônito, Jacinto em mesa colocado. No branco esfumaçado do tampo, placa de prata. Jacintho, leu. De novo. Estranho o th, fora de moda. O charuto, pensou, sabe a calmaria. Trolha acesa, o perfume nas papilas linguais, o encanto. Sem sentido, pensou na forte fumaça perfumada. Apagou a trolha no cinzeiro solícito em mão de libré. Bebeu. Goles do líquido champanhoso aquietaram a garganta ranzinza. Acudiu em volta. Salão de caverna. Luzes poucas e bruscas, canhões de artilharia, colunas de brilho. Secas as petúnias nas mesas, seco o soluçar da orquestra tangueira, valseando pares em poses e pompas de baile. Viu o que qualquer olho veria. Coragem, tentou animar-se. Ver o improvável, o lado louco, exige mais. Ensimesme-se, Jacinto. Lobo solitário, a estepe espreita, pupila dilatada, narinas abertas, o pêlo eriçado. Cheirou, sentiu, pressentiu, riu e reviu. No meio do salão, entre braços e pernas, encoberto embora por intensos babados claros e esguias fatiotas negras, o rubro vestido envolve a lua. Sangue em algodoal, tremeluzentes ventos, dançantes folhas. Ia e vinha, vinha e ia, rodapionando em zaguezigue, o róseo seio a explodir o decote rubro, rubra a enluvada mão, rubro o salto agulha a sustentar marmóreas colunas em coxas e joelhos encarnadas, rodamoinhos de sexo e paixão. Lua de Lilith. Jacintho assume o th, a si mesmo enobrece, com áurea palma em falso diploma, com ricos e enricados negócios, mansões, iates, carros, tudo do sonho à realidade pescado, metamorfoseado, longa a cabeleira, esticada a ruga da testa, multizerado antes da vírgula o saldo na conta bancária mais que especial. Desencantado o charme, decorado o script, empertigado o porte, assombra, assusta e assume aqueles braços e pernas e seios, o longo tango em tremeleques e tremeliques, o espanto em volta, aplausos, o beijo. Retransporta o sonho para a carruagem, cocheiros em libré, o aconchego de veludos e cetins, paraíso o destino. O beijo. Profundidades molhadas de lagos e torvelinhos. O seio. Rósea rosa da púrpura brotado para o toque, para a boca, para o lábio. Sorve, e em sorvedouro aceita o lábio em leitosa e molhada língua a triscar devagar a estrada da aorta, jugular pulsante em tonitruante desejo, desejo que desce e no ventre explode em mancha branca na calça negra, orgasmo definitivo, ultimado nos caninos a cavar devagar, bem devagar,a jugular, o gozo, o gosto, o fim, o riso em rito na face para sempre preso. Eclipsa-se de Lilith a face negra e, à alva, surge abandonada a carruagem. Dentro, Jacintho, com th, esturricado, a abraçar o vestido rubro.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:52 PM
Segunda-feira, Setembro 26, 2005
O QUE EU PENSO... SOBRE A NATUREZA
De pitagóricas lembranças se nutre o pensamento humano, a iludir-se na criação de teogonias inúteis, de cosmogonias absurdas, longe a idéia do racionalismo puro que deve abrigar, não a ilusão da essência do mundo, mas a verdadeira visão da natureza na qual nos inserimos como parte integrante de uma cadeia de vida muito mais bela e rica do que aquela criada pela imaginação fértil da metafísica e da crença em deuses primordiais e vingadores. Livre o pensamento do homem de tais incompreensões do mundo, vingariam idéias mais realistas de defesa do ambiente em que vivemos, de respeito à natureza e de visão do futuro do próprio homem. Não estaríamos a depredar de forma consistente e permanente o mundo que nos acolhe, se tivéssemos o senso comum de sobrevivência não da entidade homem, mas da espécie humana, como elo da cadeia da vida, esta, sim, o valor supremo da natureza. Defender de si mesmo a casa onde habita, a missão do homem do século vinte e um. Se se desfizer da estúpida noção de eternidade. O planeta Terra, na ordem geral do universo, pode ser, pelo menos na compreensão que atualmente temos de sua grandeza, uma gema única em milhões de anos luz. Se permitirmos que seu ambiente se degrade a ponto de inviabilizar a vida, não haverá futuro para o homem. A poluição humana pode e deve ser controlada, para além de quaisquer jogos políticos de poder e dominação. Tudo separa o homem, neste momento histórico, em nações, em tribos, em ideologias opostas, levando-o a guerras e conflitos aviltantes e inúteis, extremamente destruidores e danosos, mas uma só idéia pode uni-lo: a defesa do planeta. O problema é fazer que povos tão diferentes entre si, em estágios tão distintos de interesses, possam compreender a linguagem da natureza que aí está a nos passar mensagens claras de insatisfação. O clima esquenta as águas dos oceanos e faz derreter gelos eternos, por culpa única e exclusiva da excessiva emissão de gases poluentes e da quantidade de veneno que jogamos na atmosfera. Com isso, fenômenos naturais provocam grandes catástrofes em todas as regiões da Terra, dizimando vidas e condições de vida, destruindo o trabalho humano de inúmeras gerações em poucas e decisivas horas. Tudo se explica, só a estupidez humana não encontra motivos para continuar a sujar os rios, a poluir o ar, a derrubar florestas, a deixar que se deteriore o solo, a envenenar os aqüíferos, a matar os animais, a destruir, enfim, a casa onde mora e na qual está condenado a viver ainda por muitos e muitos séculos. E a pior poluição é o idealismo pitagórico de que somos viajantes num mundo eterno, de que aqui estamos de passagem para outras paragens, para um paraíso que nos espera depois da morte. Essa concepção absurda entrava qualquer possibilidade de entendimento do que realmente somos, seres frágeis a navegar num planeta azul à mercê de forças que não compreendemos e das quais somos, sim, eternos prisioneiros: as forças da natureza, que devemos respeitar para que possamos sobreviver.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:33 PM
Sábado, Setembro 24, 2005
O QUE EU PENSO... SOBRE O BELO
Dadá só é dadá, quando dadá não é dadá, ou seja, a arte só é arte quando a arte não é arte. O lema dadaísta parece querer destruir o conceito mais arraigado da cultura humana: o conceito de arte, de beleza. Até então, a arte pertencia a um universo paralelo, freqüentado pelos eleitos das musas, o qual nós, os simples mortais, só tínhamos o direito de apreciar e aplaudir. De longe, de preferência. E, é claro, pagar a conta. Ao deslocar para o ambiente dos deuses, ou seja, para o ambiente artístico, um simples e prosaico penico, Duchamps criava o estranhamento necessário para que pudéssemos começar a entender de forma completamente diferente o significado da arte. Era a vanguarda a escandalizar, a provocar. O problema é que a provocação só tem sentido na primeira vez. A vanguarda não se sustenta no tempo, porque o tempo é seu inimigo. Entendida, assimilada ou rejeitada, a vanguarda morre na primeira curva do tempo e torna-se, também ela, objeto de museu. Esclerosa-se como tudo o que veio antes dela. Não existe uma vanguarda eterna. Aquilo que escandaliza hoje é objeto de derrisão algum tempo depois. Pobre arte. E voltamos sempre aos mesmos problemas, aos mesmos conceitos aristotélicos, à mesma busca de algo novo, de um novo escândalo. Não há revolução que resista ao olhar por mais de alguns segundos. No momento seguinte a que nos espantamos, o novo se torna velho e o de sempre toma o lugar do recém-nascido. A arte é cruel, não admite o segundo olhar. Os dadaístas que o digam e que o digam todos os vanguardistas. A busca do novo, no entanto, é o desespero do artista. Romper padrões é necessário, mas tudo o que acontece entra, imediatamente, no rol das coisas comuns. E essa é a maldição de todo artista. Criar para renovar, renovar para envelhecer. Um roteiro cujos enredos todos conhecem e tentam quebrar e nada acontece. Então, pensar sobre a arte é pensar a arte. É curar a arte de seus tentáculos seculares e buscar não o belo, não aquilo que a famigerada metafísica idealizou, mas a sua constituição física e palpável: a técnica. O fazer. Não importa a essência, mas a aparência. O belo não está na contemplação espiritual, na elevação dos sentidos, mas na percepção de que algo foi feito e muito bem feito, que estamos diante de um artesão que faz de sua habilidade a busca daquilo que nossos olhos, nossos sentidos possam aceitar como harmonioso e agradável. O belo só é belo quando o belo não é belo. A beleza por si mesma, independente dos sentidos, não existe, não persiste ou simplesmente desiste. A técnica, a capacidade de harmonizar e despertar nossos sentidos, só se realiza quando educa e constrói ao mesmo tempo esses sentidos, despertando a inteligência e o prazer que o belo nos traz. Não existe um belo absoluto, embora certas obras de arte sejam quase unanimemente consideradas belas. No entanto, só é belo aquilo que consideramos belo. O homem constrói para si e para os outros. A contemplação do belo é algo profundamente individual, como a construção da própria arte é um ato de total e profundo egoísmo. Ao compartilhar esse egoísmo, o artista não busca a consagração de sua obra, mas o reconhecimento de outros sentidos àquilo que ele sentiu. Portanto, não uma beleza, apenas: várias, dentre as quais a do próprio criador. A apreciação da obra de arte torna-se, assim, um ato de integração dos sentidos do observador com os sentidos do criador. O penico do Duchamps só é obra de arte para quem a considere uma obra de arte. Assim também a Vênus de Milo ou a Gioconda. O que há por trás da arte é apenas a arte, nada mais que a arte, ou seja, a técnica. Qualquer tentativa de buscar sentidos ocultos, profecias, mistérios e outras bobagens metafísicas cai no ridículo de tentar aceitar o inaceitável, de acreditar em duendes ou espíritos, de buscar o imponderável onde há apenas a técnica humana e a sua arte mais impressionante, a sua capacidade de criar. Não nos espantemos, portanto, com a morte do belo. Temos coisas mais importantes com que nos preocupar do que o reverenciarmos. Temos um mundo imperfeito e uma arte imperfeita a atrair nossos sentidos e, através deles, torná-los, ao mundo e à arte, imagens que nos agradam ou desagradam, sem qualquer juízo outro de valor que não esse filtro impressionante que se chama sensação, ou simplesmente, prazer. A arte só é arte quando nos causa prazer, deleite, sem que esses termos não deixem de conter em si algo de dor, de sofrimento, de angústia, pela compreensão do mundo que eles nos trazem ao contemplar aquilo que nos agrada. No fundo é isto: a arte só se realiza como arte quando nos revela um pouco mais de nós mesmos e do mundo em que vivemos. Sem metafísicas. Sem juízo de valor. Porque, afinal, a arte só é arte quando a arte não é arte. Quando nós a transformamos em arte. E em beleza, que só existe porque nós existimos e porque nossos sentidos a registram.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:22 PM
Quinta-feira, Setembro 22, 2005
VAI EMBORA, SEVERINO!
O grito da galeria, de uma professora da Universidade de Brasília, parece encerrar a carreira do primeiro presidente da Câmara dos Deputados a renunciar ao mandato, em toda a história Republicana. Severino foi embora, não sem antes, num discurso melancólico, dizer-se inocente e acusar a elitizinha de complô contra ele. Vilão e corrupto ou herói e vítima?
É preciso analisar com cuidado o caso Severino, pois se trata de caso emblemático de nossa história recente. Não dá para satanizar um acontecimento que tem tudo para se transformar num divisor de águas de nossa política, mas, provavelmente não vá conduzir a nada. A luta renhida pela Presidência da Câmara parece confirmar que nossos políticos constituem uma classe podre, que só preocupa com seu próprio umbigo e não está nem um pouco preocupada com os destinos do País.
A eleição de Severino tem lances burlescos de burrice explícita. Político calejado pelo sol do sertão, sempre freqüentou a Mesa Câmara, como representante da raia miúda do Congresso, o famoso baixo clero, constituído de parlamentares de pouca expressão e muita ambição. Quando o partido do governo rachou, com dois candidatos à Presidência da Câmara, a oposição comemorou Severino com gosto de vingança na boca, esquecidos de que o deputado tinha uma longa ficha de fisiologismo político e que não iria, definitivamente, ser uma pedra no sapato do governo, mesmo tendo alguns rompantes de independência. E os fatos confirmaram que Severino nunca foi oposição, embora tentasse fazer doce e tirar proveito da situação em que se encontrava. Navegava em águas turbulentas, mas tinha uma certa habilidade política. Só não podia contar que seu passado viria à tona e o condenaria.
A história da propina está absolutamente mal contada. Não que a verdade que possa aparecer absolva Severino. Mas é preciso que se busque o que realmente houve, porque não se pode dar status de heroísmo a empresário corruptor. Acredito que Severino não tenha achacado o tal Buani, mas este, sim, tenha procurado o então primeiro secretário da Câmara e proposto o negócio.
O caso é meio enrolado. Mas vamos simplificá-lo, aqui, para melhor entendimento. Buani passou a controlar os restaurantes da Câmara a partir de 2000, por um ano, com a possibilidade de mais cinco renovações consecutivas, ano a ano. Em 2002, deve ter procurado o Severino e pedido garantia para mais três anos, o que obteve. De forma ilícita. Com o pagamento de uma certa quantia ao deputado, em prestações. O tal cheque de 2002 traz todas as evidências do fato. Quando Severino se elegeu presidente da Câmara, o acerto já deveria ter sido pago e as partes estavam quites. Aposto que não encontrarão nenhum pagamento dessa época na quebra dos sigilos bancários de ambos. Buani, no entanto, está endividado: família grande, pensões a pagar, negócios talvez mal gerenciados, as concessões foram caindo ano a ano e não serão renovadas etc. O escândalo do mensalão está no ar e alguém da oposição, que devia saber do acerto com Severino por boatos (essas coisas sempre vazam, mas ficam no terreno do disse-me-disse), resolveu tirar a limpo a história. Afinal, Severino se tornara um estorvo para os objetivos tucanos e pefelistas, e era preciso removê-lo. Arma-se, então, o circo em que uma verdade, o pagamento de propina a Severino, se transforma em instrumento de manobra política, na hora certa, no exato momento em que se precisa de um bom motivo para defenestrá-lo.
Portanto, Buani não é o pobre empresário extorquido pelo poderoso político. É o corruptor endividado que, bem instruído pelos interesses dos poderosos, tem a oportunidade de resolver sua situação. Agora é esperar para ver quem vai pagar as dívidas do Buani. Severino não pode abrir a boca, porque confessaria a corrupção. E os políticos mais uma vez conseguem dar o famoso nó em pingo d¿água, para garantir seus interesses. E o Brasil que se dane.
Por isso, vai embora, sim, Severino, mas que sua despedida melancólica não seja só mais um ato de bufonaria política, em que os palhaços somos nós, sempre, os eleitores. Que a história acima, que tem tudo para ser verdade, venha à tona e puna os dois lados: corruptor e corrupto. A outra lição, a que políticos e eleitores deviam tirar, essa provavelmente não se transformará em realidade, pois, com certeza, o tal Buani vai se candidatar a deputado (e será eleito, em mais um estelionato) ou ganhará uma sinecura qualquer em algum gabinete de Brasília, locupletando-se, em ambos os casos, de nosso rico dinheirinho. Enfim: assim caminha a classe política e assim caminha o Brasil, se algo não se fizer a favor do País.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:34 PM
Quarta-feira, Setembro 21, 2005
REAGIR É PRECISO
Ora, CPI dá mais Ibope e põe no mesmo pote a fedentina dos bastidores. Por isso, também, esse assunto não é notícia. A pauta é única: escrachar o PT, sangrar o Lula e, se possível, bebê-lo em noite de lua cheia, que é quando lobos e hienas se locupletam. Para encurtar a conversa: estou com Lula e não abro. Se há corrupção, vamos investigar, se provar, vamos punir, seja quem for. Vale para o PT, ou seu avesso. Vale para a tucanada emplumada, para as raposas pefelistas, para os jacarés liberais e para os gambás trabalhistas. Vale para os alpinistas de plantão e também para os ratos de porão de navio - travestidos de verde e amarelo, de azul real ou de vermelho desbotado.
Sulamita Esteliam, jornalista e escritora. Mineira, vive no Recife.
Artigo: Quero meu partido de volta, publicado em http://www.lainsignia.org/
Pois é: aos poucos, depois de quatro meses, o espanto e a indignação começam a ceder à razão. Artigos publicados na imprensa, na boa imprensa, e em bons sites e blogs da Internet começam a tentar iluminar a crise sob outros focos.
Que o grito de Gorki continue ecoando: QUE ARREBENTE MAIS FORTE A TEMPESTADE! Nós agüentaremos!
O que não dá mais para agüentar calado é o desbunde dessa direita uivante e hidrófoba.
Já não dá mais para ficar indiferente é à cara de pau de uma certa imprensa de hienas e urubus.
Não dá mais para baixar a cabeça e deixar que mentiras se transformem em verdades ao serem repetidas à exaustão.
Não dá mais para fingir que a palavra de bandidos presos e condenados, políticos com longa ficha corrida na polícia, doleiros que vivem da sem-vergonhice de várias cores e tendências adquira valor de verdade em acusações irresponsáveis.
Não dá mais! Chega de choro!
REAGIR É PRECISO!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:51 PM
Terça-feira, Setembro 20, 2005
O BELO
Blogueiro visita blogueiro. Para comparar, para xeretar, para chupar. Ou, simplesmente, porque gosta. Afinal, blogueiro gosta... de blog! Óbvio? Nem tanto. Apenas, bem, apenas, talvez curiosidade... Assim, visito, de vez em quando ou de vez em sempre (depende do humor, da disposição, da banda larga da Internet...), dentre outros:
o Alvinho: http://capelinhademelao.zip.net/
o Zé Arlindo: http://riobaldotatarana.blig.ig.com.br/
a Cármen: http://carmenrochacontos.blog.uol.com.br/index.html
E hoje, a Cármen (Rocha que chora), me fala de emoções parisienses (muito chic!). E pensa no Belo (emoção estética, não o cantorzinho de pagode que anda vendo o sol nascer quadrado). Também tenho pensado no que é realmente belo. Todos concordam que há beleza na arte, seja ela qual for. Mas é só na arte? E na natureza? Quem escolhe onde há beleza? Podem ser belos: o pôr-do-sol... a tempestade... o rio que sai do leito e destrói tudo... o verme... o corpo em putrefação... o monte de bosta à beira da estrada... a estrela que explode... a caveira da múmia... o vírus da Aids ao microscópio eletrônico... o cogumelo atômico destruindo Hiroshima... o câncer no olho...
Antes que entre na escatologia e se torne de mau gosto a minha lista, paremos por aí... O que eu ando pensando é se não confundimos conceitos, se não pensamos no Belo como aquilo que é bom e no feio como aquilo que é mau... E aí, fazemos uma grande confusão, e não sabemos, mesmo, é nada.
Só acho que devemos rever nossos conceitos... Chega de maniqueísmos!
Por que chorar pelo mundo perdido? Talvez, Cármen, minha amiga, seja melhor chorar pelo mundo encontrado: o que está aqui e agora! Ou não?
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:18 PM
Segunda-feira, Setembro 19, 2005
CABEÇA DE TUCANO
Tenho pensado muito. E por muito pensar, adio escrever o que eu penso da atual crise. Mas, não posso adiar mais. Preciso começar a pôr em tela branca de computador algumas idéias que me afligem. A coisa será longa, como um desabafo. Por isso, peço paciência, assim como irei tentando pelas bordas comer esse angu quente. Não sei, ainda, se conseguirei dizer tudo o que me veio à cabeça, nesses últimos meses. Talvez seja melhor começar com as emoções que me assaltaram. Primeiro, horror. Depois, pânico. Sabe a frase de Júlio César? Até tu, Brutus. Que foi plagiada por Veja, para destruir o Ibsen Pinheiro? Pois é: era o fim da picada, eram as águas de março fechando o verão.
Vou entrar logo no centro das minhas dores: o que representou a eleição de Lula? No olho do furacão, não temos idéia da grandeza ou da fúria da tormenta. Também não percebemos a importância desse fato, para a História, com h maiúsculo e tudo. O mundo percebeu, em parte. Alguns líderes e analistas, mais argutos, comemoraram. Outros, olharam de lado, com um muxoxo de desprezo. Mas ninguém ficou indiferente. Os que se assustaram e ficaram na moita, esperando o fracasso, são os que eu denomino cabeças de tucano. Esses que aí estão, agora, a torcer as mãos pelo inusitado da crise. Deixemo-los, por enquanto, que a eles voltaremos mais tarde. O que é preciso ficar claro: a eleição de Lula se constituiu num daqueles momentos em que a História dá um nó em si mesma, para mudar os caminhos do homem. O difícil é perceber isso, quando fazemos parte da multidão que, na encruzilhada, determina o rumo dos acontecimentos.
O século vinte foi a era da morte das utopias. Tanto as de direita, fascistas e nazistas, quanto as de esquerda, estalinistas e maoístas. Sobrou o capitalismo sem ideologia das grandes corporações. Vivemos a idade do gelo, em termos de economia e relações de forças internacionais. Com a derrocada do império soviético, o grande dragão branco obteve licença para matar. E essa vocação está sendo cumprida cirurgicamente, desde o Vietnã até o Iraque. Às esquerdas, restou o gueto: Cuba, por exemplo. A China não contava, pois o grande capital não sabe lidar com mistérios, só com fatos. Agora, está lá o grande dragão vermelho: será uma ameaça ou uma esperança? Ninguém sabe. A única coisa que se sabe da China é que é grande e que mudou. Para onde, por quê, como? Mistério, ainda. Portanto, governo socialista, mesmo, só o inglês, com a dama de ferro e tudo e, agora, com um pobre travestido de nobre. Os nórdicos (Suécia, por exemplo) freqüentam o imaginário como folclore. Não fazem proselitismo, não contam.
Mais do que o fim das utopias, foi o fim das ideologias. Os governos de todos os povos só podem alcançar algum tipo de sucesso econômico e social, se se integrarem e se entregarem à sanha globalizada do capital volátil das grandes corporações. Não há saída. As oligarquias é que mandam. São todos príncipes, monarcas, condes, aves raras de alta plumagem, mesmo que, sob o rico manto do poder, escondam a miséria e a fome. Governos populares têm a marca do despreparo (para aceitar o grande capital), da incompetência (para baixar a cabeça à globalização). Exemplo: o fracasso de Walesa, o operário que ousou chegar à presidência de seu país. Não era esquerda, era apenas um operário. Fosse, embora, um símbolo.
Lula podia tornar-se a exceção. Podia, não: tornou-se. E o pior, para a cabeça engalanada de tucanos e outras aves raras, seu governo começou a dar certo. Porque não enfiou a faca na água nem deu tiro no escuro. Está, aparentemente, aceitando as regras do jogo no xadrez dourado da política econômica. Se chutasse o balde e tentasse promover por decreto, como muitos tentam fazer, a revolução do social, seria fácil acusá-lo e defenestrá-lo. Mas Lula ganhou a sábia visão de quem andou muito por aí e sacou que as arapucas estavam armadas ao longo do caminho, à direita e à esquerda. Conduz o barco em meio à tempestade com a altivez de quem conhece os caminhos entre os abrolhos. Olha os mapas com cuidado, para chegar um dia a um porto mais seguro. E isso deixou a esquerda de cabeça de tucano embasbacada, sem oriente, sem bússola. Porque Lula representa, sim, uma mudança profunda de rota. Não o percebemos porque, passageiros do navio em noite de bruma, não temos noção precisa das rotas e do destino. E também porque barco muda fácil de rumo, não os transatlânticos, cujas manobras exigem planejamento, perícia, calma e, sobretudo, um olhar aguçado. Para as estrelas. E o grande navio, aos poucos, aumenta a velocidade de cruzeiro, com as máquinas ajustadas e a rota já quase plenamente estabelecida. Parecia que a grande viagem tinha começado. E eis que surge a tempestade.
Era tudo o que desejavam as cabeças de tucano: uma lambança. Não para virar o barco, mas para deixar enfraquecido seu timoneiro. Para varrer, a bombordo e a estibordo, quantos sonhos se pudesse sonhar, quanta esperança ainda se pudesse ter. Como em amanheceres pantaneiros, alvoroçaram-se, abandonaram os ninhos onde se cutucavam inutilmente e limpavam as penas, para alçar o vôo das ilusões reencontradas. Graças a meia dúzia de lambões, de marinheiros bêbados, de gumetes safados. E tome CPÌ, e tome inquérito, e tome notícias trágicas em semanários de bico comprido, em jornais de pelagem real, em redes de televisão de variadas cores. Com o balanço do navio, não há quem não fique enjoado e enojado. Também eu fiquei, a princípio. De ressaca. Sem dramine que desse jeito. Sem rumo e sem teogonia. A esperança morria, naufragada em lama, em malas, em subterfúgios, em mentiras. Venciam os que apostaram em cabeça de tucano: no medo. Macbeth, o vilão atormentado de Shakespeare, assassinou a noite movido pela ambição. Nossos vilões assassinaram a esperança movidos pela estupidez. Só isso: burrice.
E agora? Eu repito: e agora? Só nos resta, àqueles que têm consciência da importância de Lula e seu governo para os destinos do País, agir como o albatroz do poema de Gorki: QUE ARREBENTE MAIS FORTE A TEMPESTADE! Porque não importa quão terríveis pareçam os ventos, as chuvas, os trovões, só podemos nos agarrar a uma só certeza: o navio não pode voltar a ser comandado por cabeças de tucano, que representam a volta aos velhos portos do atraso, da miséria, do entreguismo, do deixar tudo como está para ver como é que fica, para gáudio dos que pensam que o verão sempre se fecha, não com as águas de março, mas com o uísque caro a rolar nas mesas elegantes do eterno banquete das oligarquias.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:27 PM
Sábado, Setembro 17, 2005
RELIGIÃO E ESTADO
Retirar os crucifixos das salas de audiência do Judiciário. Essa é a proposta defendida pelo juiz Roberto Arriada Lorea, 40, de Porto Alegre, e que será apresentada, no final deste mês, em um congresso que reunirá magistrados do Rio Grande do Sul.
A notícia acima é alvissareira. Afinal, uma proposta lógica. Se o Estado é laico, por que conservar símbolos religiosos em tribunais, escolas, repartições públicas. No entanto, a proposta não é, assim, tão fácil de ser colocada em prática. Haverá muita polêmica e a maioria das pessoas acabará por acomodar-se ou por covardia, ou por ignorância ou por fazer parte do lobby religioso.
O que devia acontecer: silenciosamente, sem alarde, serem eliminados todos os símbolos e referências religiosas de todas as repartições públicas. Primeiro, porque não podem ser misturados os negócios de Estado com a fé religiosa. Segundo, porque é politicamente correto que não se privilegie uma única religião, no caso, a cristã. Isso é desrespeito aos direitos de comunidades não-cristãs e dos ateus. Em terceiro lugar, todos são iguais perante a lei. Se pode um símbolo cristão, devia poder um símbolo não-cristão também e aí as coisas não andariam bem, porque, por exemplo, qual seria o símbolo dos ateus? Felizmente, os ateus não têm e não devem ter símbolo algum.
Quando, no entanto, se faz uma proposta formal, como a do juiz citado acima, arma-se logo uma polêmica. Consultam-se padres e bispos que, logicamente, são contra. Consultam-se membros de outras religiões que, logicamente, são a favor. Consulta-se o povo que, logicamente, não tem o que dizer porque nunca pensou nisso e o povo se divide de acordo com a opinião dos chamados formadores de opinião. E não se faz o mais óbvio, o mais racional: não se consulta a lei. E tudo fica como antes... Por isso, a proposta acima não é tão alvissareira quanto pareceu à primeira vista para os que defendem um Estado absolutamente laico. Na minha opinião, não se deve propor nada: devia-se simplesmente agir, em nome da razão e da lei, no caso, a Constituição, que estabelece a separação entre Estado e religião. Apenas isto e nada mais: por uma espécie de consenso geral, tiram-se todos os símbolos religiosos das repartições públicas, e pronto. Sem propostas, sem polêmica, sem discussões, sem interferências de quem quer que seja.
Como seria bom se o mundo fosse racional!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 6:33 PM
Sexta-feira, Setembro 16, 2005
NÃO DÁ PARA RESISTIR: O ASSUNTO HOJE É MALUF
Se até o Le Monde recriou, em francês, o verbo malufar (está lá, no título da notícia: pour avoir trop malufé, les Malufs sont en prison), não serei eu, que tenho por lema NUNCA VOTEI EM MALUF NEM EM JÂNIO QUADROS, a deixar de pôr um veneninho na situação.
Está certo, a prisão do Maluf e do filho veio num momento de constrangimento geral, para dizer o mínimo. Nem deu para comemorar muito, a prisão dos malufs. Mas, em todo caso, vamos gozar um pouco, para aliviar a tensão, o estresse ideológico (como escreveu o Luciano Pires, e eu ainda vou falar disso).
Pois é, Maluf na cadeia. E já vai fazer uma semana! Não é incrível? Mas, vamos a alguns detalhes: tem reclamado da comida. Disse que, se tivesse cachorro em casa, não lhe daria a quentinha da Federal. Claro, ele não deve se lembrar do que seja arroz, feijão e salada. Acostumado aos restaurantes do Plaza Athené, deve ter esquecido o que é isso. Além do mais, a quentinha não vem acompanhada de vinho a seiscentos dólares a garrafa! Já o cachorro do Maluf, se ele, é claro, tivesse algum, só roeria osso importado, está pensando o quê?
O advogado dos malufs disse que ele emagreceu. Ora, que ótimo! Um spa gratuito e ele ainda reclama! Nem precisou tocar nos dólares da Suíça!... Disse, ainda, o tal advogado, que o filho, o malufinho, está com olheiras! Coitadinho. Deve ser por noites insones, sem nenhum dólar para contar, sem poder fazer nenhuma remessa para o exterior, sem poder ameaçar o doleiro para ficar de bico calado... Quanta preocupação!
E pior: a polícia não deixa entrar nem um quibezinho, para amenizar a solidão dos dois, no meio de mais de cem presos amontoados nas celas da Polícia Federal! Então, aquilo que era para ser comemorado, anos atrás, com carnaval na rua e fogos de artifícios, acaba virando uma melancólica sucessão de pequenos detalhes que deixam a todos nós muito amuados, muito, mesmo...
Enquanto isso, do lado de fora, o ilustre vereador de São Paulo, Aguinaldo Timóteo, canta árias de baixaria, de histerismo e de coleguismo: estaciona o carro (da Câmara, claro, pago com nosso rico dinheirinho!) em local proibido, xinga jornalistas de imbecis, culpando-os pela prisão do amigo Maluf e solta a pérola das pérolas, que o Maluf é um preso político!
Eu fico pensando, nesses tempos bicudos: é isso o que temos como alternativa ao PT, se o PT desmoronar? É isso? E a gente não pode pedir que o mundo pare para a gente descer? São esses os representantes do povo que o povo escolhe, quando não vota no PT? É, gente, se a crise não passar, vamos ter de descer das tamancas, botar a viola no saco, nos enfiar em algum buraco e esperar... esperar que, um dia, esse povo aprenda a votar e nos livre dos malufs, dos timóteos, dos serras, dos alkmins, dos sarneys, dos fhcs, dos severinos, dos acms filhos e netos, enfim, dessa gente toda que está gozando muito porque a pimenta está em nosso rabo... E se não tiver jeito, o jeito será pegar um livro do paulo coelho (a outra opção é o sucídio), sentar á beira do caminho e chorar...
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:04 PM
Quinta-feira, Setembro 15, 2005
BUANI, SEVERINO E O FESTIVAL DE GROSSURA...
O tal do Buani apareceu com o cheque. Tudo bem. Ou, menos mal. Só não precisava dar aquele showzinho ridículo. O cara quer aparecer tanto, que colocou a mulher para ser a musa do mensalinho. Pode? Saiu a tiazinha no jornal, com direito a calcinha e tudo! E o povo idiota, babando... Não se pode esquecer que o tal Buani é corruptor: afinal, por que motivo que, só agora, três anos, depois, ele está denunciando o Severino? Devia ter posto a boca no trombone no primeiro achaque! Se consentiu é porque tinha (e acho que tem) o rabo preso e agora percebeu que o momento não daria oportunidade a que fosse investigado também. Então, é preciso ir com calma, para que um cara que paga propina para ter lucro (vejam o número de restaurantes e de lanchonetes que o cara tem na Câmara!) não se transforme em herói e daqui a pouco estará concorrendo a deputado e será mais um a inventar e a participar dos esquemas de corrupção. É preciso que o povo não seja enganado: lembram da história dos trezentos picaretas no Congresso? Pois é: acho que o número era até meio conservador... Portanto, fora com os severinos corruptos e com os buanis corruptores!
O Stanislaw Ponte Preta criou o FEBEAPÁ, o Festival de Besteira que Assola o País. Podemos reciclá-lo criando o FESTIVAL DE GROSSURA QUE ASSOLA BRASÍLIA EM TEMPOS DE CPI. E criar, até mesmo, o troféu COICE DE OURO. Vejam se não tenho razão:
deputada que era (ou é, a gente nunca sabe) juíza pergunta a depoente se ele sabe como é a vida dentro de uma prisão brasileira...
deputado paulista, ligado a um time de futebol de bigodudos chama o depoente de você e trata-o como se ele fosse um seu empregado nas várias padarias que tem no Jabaquara (todas com testas de ferro à frente, é claro)...
deputado diz a ex-ministro do governo que ele chefiava uma das quadrilhas dentro do Palácio...
e a pior de todas: deputado leva à CPI militar que prendeu depoente nos tempos da guerrilha!
Os interrogatórios das CPIs, para gáudio dos tarados, voyeurs, sádicos e outros bichos, têm sido um festival de grossura, de insistência em aspectos irrelevantes, de perguntas toscas e repetitivas, de desrespeito às mínimas leis de civilidade e de técnica, com discussões ridículas de uma gente mal preparada para a função a que se atribuiu. Interrogar não é achincalhar. Perguntar tem o objetivo de buscar respostas e não adianta nada o deputado ou senador ficar divagando sobre possíveis crimes ou o que quer que o depoente tenha cometido. Isso não leva a nada. Só irrita. Só demonstra que o cara quer é aparecer, ficar o mais tempo possível diante das câmeras de televisão. Depois de horas e horas de perguntas cretinas, não se chega a quase nada, porque suas excelências tergiversam, repetem, agridem os depoentes, que, diante do festival de grossuras, fecham-se em copas, para não se comprometer. É muita sandice. Perde-se, assim, um instrumento importante de investigação, por culpa exclusiva de idiotas do óbvio, de políticos despreparados e rancorosos, de interrogadores que fazem papel de palhaços para a mídia, a fim de aparecer bem diante dos futuros possíveis eleitores. É por isso que acho um porre esse tipo de show promovido pelas CPIs, um verdadeiro festival de grossura, em que o prêmio COICE DE OURO vai para o imbecil que levou pela rédea o tal coronel torturador!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:24 PM
Segunda-feira, Setembro 12, 2005
LAMBANÇA À VISTA. MAIS UMA.
Pense na hipótese da seguinte situação, absurda: o guarda de trânsito vai multá-lo por atravessar o farol vermelho. Você diz a ele que, se a multa for suspensa, você entrega a placa de dois outros que fizeram o mesmo e não pararam. Que tal? O guarda topa a parada e você lhe dá o número das duas placas, cujos motoristas são localizados e, diante da autoridade, negam o delito. E daí? Você tem outras testemunhas? Você fotografou o delito? Tem provas? Não: só a sua palavra. O delito tem grandes chances de ter acontecido, mas onde estão as provas? Você diz à autoridade de trânsito: eu vi, mas quem tem de provar é Vossa Senhoria, o guarda, a fiscalização... A situação é improvável, claro, mas a idéia de que isso possa acontecer em outras circunstâncias, não. Quem acusa tem o ônus da prova. Ou seja, acusou, provou. Se não, nada feito. Ingênua será a autoridade que aceitar a acusação sem provas. É mais ou menos isso o que tem acontecido no Brasil, nas tais CPIs. O cara chega lá e diz cobras e lagartos de fulano ou sicrano. E quem quiser que busque as provas. Ora, isso não é delação premiada: isso é palhaçada premiada. Para ganhar espaço na mídia. Para se sair bem na fita. Para tentar escapar de algum delito. Para embaralhar o que já está embrulhado... Enfim, por mil motivos, o cara vai lá e entrega quem ele quer, e os histéricos de plantão se encarregam de fazer o circo pegar fogo. Com todos os palhaços dentro, é claro...
Veja-se o caso do Severino. Há grandes possibilidades de que a história da propina tenha sido verdadeira. Mas o cara, dono do restaurante, que tem uma dívida bastante grande para com a Câmara, resolve tumultuar, para ganhar tempo, sei lá. Vai lá, conta a história, chora, faz drama. E não apresenta nenhuma prova, ou as que apresenta não têm substância: cópia de um documento (que qualquer colegial ingênuo montaria) e a referência a um cheque de não sei quando pago a não sei quem... Se o tal cheque não aparecer ou não contiver o endosso do motorista do Severino, o que vai acontecer? Para o Severino, nada. Para os que armaram o circo, o bicho vai pegar. Porque o Severino já anunciou retaliação. E aí? Quem ficou com o mico na mão, além da cara de tacho, terá a Comissão de Ética (presidida por um amigo dele, do Severino) no seu encalço. Apressadinho sempre come cru. E quem faz lambança acaba na merdança...
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:22 PM
Sexta-feira, Setembro 09, 2005
POR QUE É PRECISO TER ESPERANÇA
Tenho um amigo em Belzonte, amigão de muitos anos. O Zé, que não é Dirceu, mas é Arlindo. Que tem uma irmã trabalhando no interior da Bahia, a Brígida. Não a conheço. Pois bem, o Zé Arlindo me mandou um e-mail de sua irmã. Pedi licença para reproduzi-lo, ipsis literis, aqui, nesses venenos que ardem mas curam. Dá bem uma idéia do que estou falando, do motivo por que, passada a tormenta, é preciso reagir, é preciso ter esperança. Sem demagogia, sem dor de cotovelo, sem rancores. Mas é preciso pôr de novo a cabeça para fora, tirar de detrás da porta a bandeira vermelha e voltar a ter orgulho de um partido cujos donos não são os dirceus, os delúbios et caterva. Que o partido é muito, mas muito maior que todos os que dele se aproveitaram para achincalhar nossa esperança. E tem mais uma coisa: não fui, não sou e jamais serei filiado ao PT. Por uma razão muito simples: manter a mente aberta e a esperança no coração. Se o PT, por alguma razão, afundar de vez, não preciso chorar pelos homens que o destruírem, porque a mensagem de um mundo melhor que ele pregou, essa não morre jamais.
Aí estão as palavras de minha amiga (creio poder chamá-la assim), Brígida, para ilustrar o tipo de esperança a que se precisa agarrar quando o barco parece fazer água. Leiam, primeiro, a apresentação do meu amigo Zé Arlindo:
A Brígida foi funcionária da Petrobrás durante muito tempo e em 1999 entrou num PDV e comprou uma fazendinha (quase um sítio) na Chapada Diamantina onde está cultivando café orgânico e viaja pela Bahia dando cursos de agricultura orgânica em comunidades de pequenos agricultores e acampamentos do MST. Veja o que ela disse de uma cidade onde ela esteve chamada Pintadas (devia ter muita onça lá!):
Eu estou viajando muito pelo interior da Bahia ministrando cursos de Agricultura Orgânica, pelo Senar, tenho conhecido outras realidades do sertão baiano, e tem sido uma experiência muito interessante. Dinheiro pouco mas muita satisfação. Estou voltando hoje para Piatã depois de 10 dias fora. Ah to contando para todo mundo que fui a cidade de Pintadas, sertão brabo da Bahia e Administrado pelo PT há três gestões. Tudo começou com uma mulher chamada Irmã Neusa, que enfrentou com muita Dignidade as maiores barbaridades do Sr. ACM, e firme nos princípios socialistas e dentro do espírito da Igreja progressista de Leonardo Boff, faz uma grande diferença. Pelas cidades onde tenho ido é incrível como PINTADAS faz bonito!, Na segunda-feira que é o dia da feira lá o Centro de Inclusão digital, com dez computadores ligados à internete é exclusiva para o pessoal da Zona Rural, que vem até a cidade para vender seus produtos! Quer mais! assim que o PT e a Neusa ganharam a eleição há 9 anos atrás o ACM mandou fechar a única agência Bancária que existia na cidade BANEB na época e os aposentados tinham que se deslocar 50 km para irem ao município mais próximo para receber sua aposentadoria, foi então que Neusa criou a Cooperativa de crédito, que iniciou com um capital de 10.000,00 (dez mil reais) e hoje opera com meio milhão. É o PT que a gente sempre acreditou e que ainda existe e não é conhecido!
E então, dá ou não dá para ainda ter um pouco de esperança?
Vamos lá, minha gente: ERGAMOS A CABEÇA, E VAMOS EM FRENTE!
OLHA LÁ, MINHA GENTE, DO QUE ESSA GENTE É CAPAZ!
Li na coluna Persona do Estadão que uns mauricinhos lá dos Jardins (os bairros de classe média alta que votaram em peso no Serra) se reuniram num churrasco. Até aí, tudo bem, que mauricinho também gosta de queimar umas carnes, desde que não seja na laje e que as carnes tenham grife (...). Lá pelas tantas, resolveram abrir o bico (que tucano também canta, sabia?) Também aí, não há muita diferença com o povão, não. Que goró é goró, envelhecido ou não por doze anos. Enfim, lá no meio da cantoria deles, apontou música do Chico Buarque. Agora, vejam só a sacanagem com o Chico e com a gente: o Apesar de você virou Apesar do PT...
Bem, entenderam, não? Apesar do PT, amanhã há de ser novo dia... É o novo dia deles, lá, dos mauricinhos dos jardins. Claro, a boquinha vai voltar, pensam eles. E de novo no poder a tucanada, os ACMs, os que venderam o País e nem tiveram a picardia de nos dar o troco. Os sacanas estão aí, de bico aberto, esperando só que crise provocada pelos delúbios, pelos carecas, pelos dirceus et caterva se estenda a todo o partido. Como se a gente não conhecesse a reza que eles rezam, a música que eles cantam.
Então, gente, vamos deixar barato, baixar a cabeça e permitir que eles voltem?
É preciso levantar a cabeça, botar de novo a bandeira debaixo do braço, partir para a luta e reconquistar o espaço perdido! Chega de chororô! Vamos cantar assim:
APESAR DO DIRCEU,
AMANHÃ HÁ SER
NOVO DIA...
Acho que o Chico Buarque ia gosta mais...
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:18 PM
Quinta-feira, Setembro 08, 2005
REAGIR É PRECISO
A crise, há mais de três meses, tem deixado em estado de torpor todas as pessoas que, um dia, acreditaram no PT como agente de transformação da política brasileira. Eu disse acreditaram? E por que não continuam acreditando? Está certo: há decepção no ar. Um cheiro de perfume vencido. Lembra a piada do perfume de marca Sete Anões? Pois é: deve haver um morto aí. Mas é só. Há mais coisas além do que diz a Veja, a Isto É, a Época, o Estadão, a Folha... Houve muita marola, muito diz-que-diz, muita comemoração do fim do baile antes que a orquestra parasse. Se estou decepcionado? Claro, como todo muito. Mas não arrependido. E sabe por quê? Porque a opção, o outro lado, o lado dos que estavam no poder antes e há tanto tempo que nem me lembro mais, essa opção é muito, mas muito pior. Já provamos o veneno deles. Travestidos todos agora de honestos, de idealistas, de incorruptíveis, de justiceiros do bem, já aprontaram tudo o que puderam durante o tempo em que estiveram no poder. Não vou nem listar o que fizeram. Não vale a pena.
O que vale a pena? Se a alma não é pequena, como diz o Poeta lá de Portugal, vale a pena pensar que o pior está passando, que o diabo era feio mas não tão pavoroso, que o Lula ainda pode se sair dessa encrenca que armaram para ele. É bobagem ficar estimulando a imaginação com a idéia de que ele podia saber ou não do que se passava. Isso, absolutamente, não interessa. O que interessa é que é preciso preservar a imagem do Presidente. O único filho do povo que chegou lá. O único que não estudou nos melhores colégios e faculdades, para aprender as artes da burguesia bem falante que nos vem enrolando desde o Caminha e sua carta de pedido de emprego para o cunhado, muito bem embalada na descrição de uma descoberta que tirou para sempre o sossego dos índios. Lula sabe o que está fazendo, mesmo! Sabe o que herdou e que não pode sair, por enquanto, de um roteiro que, bem ou mal, precisa ser cumprido. Ele sabe que o socialismo não vinga em países pobres, porque pobreza, quando repartida, gera mais miséria. Ele sabe que o capitalismo é só uma fase para o socialismo, desde que deixem que se cumpra o seu ciclo, sem a selvageria vigente na era tucana. Ele sabe que não pode fazer loucuras na economia, porque o preço a pagar é muito alto. Ele intui que há luz no fim do poço econômico em que nos meteram e é preciso chegar lá. O que não podemos fazer, nessa hora de histeria, é compactuar com os histéricos que são massa de manobra para derrubar o governo e voltar ao que era antes, com aquele sorrisinho maroto, a tirar sarro da nossa cara, a dizer que eu não falei? deixa com a gente, que vocês, a esquerda e o povo, não sabem de nada, nós é que temos prosápia e prosopopéia para governar, chega de brincadeira, deixa com os profissionais! Que uma coisa é certa: profissionais eles são, sim. E todos sabemos bem a profissão deles e a competência que têm para fazer revoluções e transformações que não mudam nada.
E então? Será que vale a pena chorar um leite derramado que pode bem servir de alimento para algo melhor? É preciso reagir, minha gente. É preciso, passada a tormenta, olhar o horizonte. O navio Brasil não tem retrovisor, não. Vamos mostrar a essa gente que o erro, se houve e na proporção em que dizem que ocorreu, pode muito bem se transformar em motivo para o sonho não acabar. Porque, se nos entregarmos à sanha dos que estão de bico aberto para abocanhar de novo o poder, nunca mais poderemos sonhar de novo. Chega de nos escondermos, vamos erguer a cabeça e dizer, como Lupicínio: errei, erramos. Mas não destruímos nem vendemos o País. E vamos em frente!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:31 PM
Quarta-feira, Setembro 07, 2005
COMO SE CRIAM OS MONSTROS
O povo pode ter memória curta. Eu, não. Ainda me lembro, muito bem, de coisas que fiz no passado e de que muito me arrependo. Dentre essas coisas de que me arrependo, está o fato de haver, um dia, votado num candidato a vereador pelo Partidão, quando eram ainda os tempos bicudos da ditadura. Seu nome era dito, à boca pequena, para amigos e parentes de confiança, como se fosse um perigo pronunciá-lo, embora fosse ele candidato registrado e tudo, provavelmente pelo MDB, a frente que abrigava desvalidos, desgarrados e outros bichos. Alberto Goldman, esse o nome daquele que a gente pensava ser do partido dos desvalidos, dos sem-partido, dos proscritos mas era do partido dos outros bicho. Pois, vendo-o, hoje, como deputado federal pelo PSDB, não consigo imaginar que um dia votei nele, em começo de carreira, candidato a vereador em São Paulo, um nome cochichado como ligado ao Partido Comunista, oráculo de futuras possíveis mudanças, nos velhos idos de 70. Agora está ele lá, no ninho tucano, bicudo como os demais, falando e fazendo as asneiras de todo tucano, atacando a esquerda e colocando-se não como o oráculo do futuro, como nos velhos idos de 70, mas como a velha e sempre vigilante oligarquia tão bem representada por peessedebistas e pefelistas, bem acomodado ao figurino neo-neo-liberal que vendeu o Brasil e continua tentando recuperar o poder para vender o resto. Pois é, como não podemos nos esquecer de quanto somos culpados pelos monstrinhos que criamos, embora aí, a culpa se relativize pela ignorância do futuro! E muitos poderão dizer: mas eu também votei no Zé Dirceu e ele está aí, a aprontar esquemas de compra de votos no Congresso, como outro monstrinho. É. É difícil explicar, mas vamos tentar. Há monstrinhos e monstrinhos, nessa lama em que chafurdam os nossos políticos. Zé pode ser, sim, um monstrinho criado pela esquerda, e não há desculpa se ele fez o que dizem que fez. Mas Zé, o revolucionário cassado e execrado pelos milicos, que deu a volta por cima e se tornou o segundo homem da República, como aprendiz de corruptor, comprou corruptos para a sua causa, para apoiar o governo dele. A compra é, sim, um delito, se realmente ocorreu. A sacanagem é grande, sim. E Zé está pagando e vai pagar caro por sua ousadia. Mas Goldman, o ex-comunista, não comprou consciências para sua causa. Goldman, atual tucano de bico grande, vendeu e tem vendido a própria consciência para entregar o Brasil nas mãos liberais dos que hoje comandam, por exemplo, os planos de saúde, as reservas estratégicas de aço, as... bem, deixa pra lá, todo mundo sabe do que eu estou falando. Seu crime não vai ser punido, porque Goldman, o ex-oráculo da esquerda e atual cabeça pensante do ninho tucano, é gente de bem, é aquele que sabe articular as palavras para derrubar severinos e, por tabela, tentar derrubar o governo da esquerda que, um dia, ele defendia, quase clandestino. Se o Zé se transformou em monstrinho da esquerda, ao comprar ou tentar comprar a direita para apoiá-lo, Goldman posa de democrata ao usar todo o seu poder de articulador para derrubar um governo democraticamente eleito e que governa, com seus pecados (quem não os tem?) da forma mais democrática possível, tentando sobreviver nesse ninho de (ia dizer de cobras, mas o bicho mais terrível hoje no Brasil não são as cobras) tucanos neo-neo-liberais. Pois é: a gente cria monstros sem saber. Como a imprensa está, agora, criando o neto de ACM (já que o pai se foi, prematuramente, e o avô já está com pé na cova), que a todo momento aparece nas telas da tevê e nas folhas de jornais e revistas a falar de honra, de honestidade, como se o clã Magalhães fosse o mais sério e confiável representante do povo simples do Brasil. É. É muito fácil fabricar monstrinhos. O duro, depois, é contê-los, quando, já crescidinhos, fazem que fazem para nos comer a todos, sem dó nem piedade. Como diz Emir Sader, professor da USP, é necessário castrar os tucanos antes que povoem o mundo de... severinos, diz ele, de monstrinhos como Goldman e ACM neto, acrescento eu... Em tempo: aí vai o artigo do professor, para os meus (pouquíssimos) leitores, mas como homenagem a uma opinião com a qual eu concordo em gênero, número, grau e mais o que possa haver...
O MUNDO PELO AVESSO
EMIR SADER
6/9/2005
Políticos descartáveis
Um ex-secretário de Estado dos EUA é o autor da famosa frase sobre o ditador Anastácio Somoza: It's a sun of a bitch, but it's our son of a bitch. No Brasil, Severino é o Somoza da burguesia que o elegeu. Agora que não serve mais, querem o cargo de volta.
A burguesia não tem partido, já nos ensinava Gramsci. Usa os partidos e os políticos, conforme lhe interessem em cada momento político, afim de garantir a reprodução da sua lógica de maximização dos lucros e de hegemonia dos seus valores na sociedade. Da mesma forma que o império se vale de quem cumpra com os seus desígnios. O ex-secretário de Estado norte-americano Foster Dulles, no governo Eisenhower, é o autor da famosa frase sobre o ditador Anastácio Somoza: It's a sun of a bitch, but it's our son of a bitch.
A burguesia brasileira se valeu de uma malta de aventureiros e corruptos, conforme lhe foram funcionais para derrotar a esquerda e garantir a continuidade do poder. Foi assim com Jânio Quadros, para derrotar o nacionalista general Henrique Lott. Foi assim com a ditadura militar, para derrotar a esquerda. Foi assim com Collor, para derrota a esquerda. Foi assim com Severino Cavalcanti, para impor derrota ao governo Lula.
Depois, passada a circunstância, quando já não tem mais utilidade ou caso se torne um aliado incomodo, a burguesia se desfaz dos bonecos que criou e inflou, jogando-os no lixo, até mesmo tratando de demonstrar que não tinha nada com isso, como se tivessem sido invenções da natureza ou do acaso. Foi assim com Jânio, com a ditadura militar, com Collor, e agora com Severino.
Este foi um candidato articulado pelos tucanos, com FHC na cabeça. Um Pigmaleão do mal, lançado, apoiado e votado pelos tucanos, a começar por esse ex-comunista, Alberto Goldman, que agora finge que não tem nada a ver com esse engendro. Os tucanos colocaram um vice de confiança deles, do PFL, e diziam abertamente que seria o poder atrás do trono e, caso chegasse a hora, assumiria no lugar de Severino. Ieda Crusius, Artur Virgilio, Zulaiê Cobra, todos brindavam a vitória contra o governo, elevando Severino a presidência da Câmara de Deputados.
Agora se comportam como o tipo que foi pego roubando um porco, com o bicho nos ombros e que faz gesto de surpreso: Tirem esse bicho daí. As marcas digitais do crime apontam para os dedos dos tucanos. Se a imprensa tivesse um mínimo de decência, reconstituiria os votos que elegeram a Severino e publicaria a lista, para que a cidadania pudesse saber quem joga com a republico conforme sopra o vento.
Os mesmos mentores das denúncias contra a corrupção, aqueles que privatizaram o patrimônio publico a preço de banana, os mesmos que querem retornar ao poder para dar continuidade a esse processo, privatizando a Petrobras, o Banco do Brasil, a Eletrobrás, a Caixa Econômica Federal, cumprindo o compromisso que assumiram com o FMI, quando quebraram o país pela terceira vez em seu governo, são os que geraram o monstro de Severino Cavalcanti e agora querem jogá-lo na lata do lixo, de onde o tiraram, porque já lhes serviu e agora se torna aliado incômodo.
Severino sempre foi conhecido como corrupto. Mas era their son of a bitch, o corrupto, um dos tantos, de plantão no PSDB. Não serve mais e deve ser descartado. Outros aventureiros se candidatam a terem seus 15 minutos de glória. Como dizia o cartaz no casamento do filho de César Maia: Não procriem. É necessário castrar os tucanos, antes que povoem de novo o poder de Severinos.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de A vingança da História.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:27 PM
Segunda-feira, Setembro 05, 2005
NOJO DE POLÍTICOS
Deu no jornal: uma foto de carro em cujo vidro estão estes dizeres, em letras garrafais:
POLÍTICOS ME DÃO NOJO!!
Pois eu diria:
ELEITORES QUE ELEGEM POLÍTICOS QUE LHE DÃO NOJO É QUE ME ENOJAM!
Até quando agüentaremos sempre os mesmos políticos, sempre os mesmos sacanas, eleitos e reeleitos por um povo que, absolutamente, não sabe votar? Não sabe porque não quer saber. Que vota por qualquer promessa que nunca será cumprida. Que vota por um prato de feijão ou uma cesta básica. Que vota porque alguém mandou. Que vota pensando no seu próprio interesse ou no interesse de suas corporações. Que vota sem pensar no passado desses políticos. Que vota sem pensar no seu próprio futuro. Políticos dão nojo em eleitores que votam neles, sem nenhuma consciência do que estão fazendo. ETA POVINHO BESTA!!!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:31 PM
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