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Terça-feira, Março 29, 2005
VENENO PARA UM CARA QUE SE DIZ ESCRITOR
Quando Domingo Perón retornou à Argentina e candidatou-se à presidência, perguntaram ao grande Borges (este, sim, um escritor!) o que ele achava. O velho mestre afirmou que só os imbecis votariam no Perón. Passadas as eleições, eleito o caudilho com milhões de votos, cobraram nova posição do escritor. Agora sabemos, disse ele, quantos imbecis há na Argentina.
E quantos imbecis existem no mundo?
Difícil, muito difícil saber. Porque não há eleições mundiais. Mas, com absoluta certeza, dentre os milhões que suponho existirem, estão os leitores do Paulo Coelho.
Dessa vez, o velho bruxo estraçalhou: na vendagem e na bobagem.
Como pode alguém ter coragem de gostar de tanta asneira? E não me venham com o argumento de que é preferível que o povo leia Zahir a não ler nada. Neste caso, o nada é muito mais proveitoso.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 5:39 PM
Sexta-feira, Março 25, 2005
E-MAIL ENVIADO AO SENHOR ROBERTO MACEDO, ARTICULISTA DE O ESTADO DE SÃO PAULO, A DESPEITO DE ARTIGO PUBLICADO NESSE JORNAL EM 24.3.2005, TAMBÉM ENVIADO (E PUBLICADO TRUNCADO) AO BLOG COMITÊ DOS CIDADÃOS INDIGNADOS (http://falviomusa.blog.uol.com.br):
Prezado Senhor Roberto Macedo:
Li o seu artigo, publicado ontem, n¿OEstado de São Paulo, LEGISLATIVO NÃO MERECE VOTOS. Achei-o interessante por bater, em vários pontos, com aquilo que eu penso de nossos legisladores (em todos os níveis: municipais, estaduais e federal). Já há muitos anos (nem me lembro quantos!), só voto na legenda, para cargos proporcionais, porque acho que o mandato legislativo pertence ao partido e não ao eleito. E comigo assim o faz toda a minha família. Foi sempre um protesto inútil, sei-o bem. Mas, pelo menos, deixava minha consciência mais tranqüila, pois sabia que o deputado que mudou de partido ou traiu o povo não teve o meu voto. Pelo, menos, não diretamente. Mas talvez seja chegado o momento de atitudes mais radicais. Talvez, mesmo, anular o voto, e fazer campanha para isso, como o senhor sugeriu. Até que uma reforma política tenha curso. Mas... reforma política feita por quem? Por esses mesmos políticos que estão aí?
Então, depois de muitos anos de observação da cena política, depois de inúmeras decepções, tenho pensado em possibilidades ou sugestões para uma verdadeira reforma política. São idéias que me surgem, utópicas, talvez, mas que poderiam, se levadas à opinião pública, despertar um diálogo mais sério a respeito do tema. Tomo, então, a liberdade de compartilhá-las com o senhor, não para que sejam publicadas e enaltecidas, mas para que possam alimentar alguma discussão a respeito, como forma de ajudar a esclarecer o eleitor, sempre enganado na hora do voto.
Minha idéia básica é seguinte: os políticos não podem fazer reforma política, porque sempre falarão mais altos os interesses corporativos. No entanto, dependemos deles para seja feita essa reforma. Sem saída, então, a situação? Talvez não, se pudermos pressionar, de todas as formas possíveis, até à exaustão, por um processo que seja o mais democrático possível.
Vamos lá: devíamos lutar para que fosse constituída uma espécie de CONSTITUINTE DA REFORMA, cujo objetivo seria apresentar um conjunto de leis que regulassem a atividade política, dentro dos princípios democráticos da Constituição vigente, para aprovação, por plebiscito, de toda a sociedade.
Essa CONSTITUINTE DA REFORMA (ou que nome lhe seja dado) seria formada por, digamos, cem ou, no máximo, cento e vinte pessoas, escolhidas de várias formas, dentre as mais representativas de nossa sociedade, escolhidas por voto direto, a partir de indicações de vários setores, como OAB, ONGS, entidades científicas, universidades etc., desde que não estejam e nunca tenham estado vinculadas a partidos políticos.
Essas pessoas teriam, por exemplo, seis meses para consultar a sociedade, através de debates públicos e de recepção de sugestões, e mais seis meses para elaboração de um conjunto das leis políticas da Nação, que seriam, conforme já afirmei, aprovadas (ou não) pelos eleitores, através de plebiscito.
Como conseguir chegar a essa CONSTITUINTE DA REFORMA POLÍTICA? Não sei, exatamente, mas há mecanismos constitucionais que permitem sejam apresentadas emendas populares. Há também a pressão do povo, através da mídia. Enfim, é preciso que o povo tome a si a tarefa de fazer alguma coisa. Porque não basta ficar reclamando, é preciso agir. De alguma forma.
Algumas idéias que eu, como cidadão, gostaria de apresentar a essa CONSITUINTE DA REFORMA POLÍTICA, ou, se essa idéia não prevalecer, a um projeto de reforma política ideal:
1. MANDATO: acredito que 4 anos seja pouco e 8 (com reeleição) seja muito. Ficaria com um mandato de 6 anos, para todos os cargos políticos, desde presidente da república até vereador. Talvez com mecanismos que permitam o ¿impeachment¿ (de forma mais acessível ao povo, para todos os cargos) ao longo do terceiro ano.
2. REELEIÇÃO: fica proibida para o mesmo cargo. Ou seja, se o cidadão foi eleito vereador, ou ele se candidata a outra coisa ou fica em casa pelos seis anos seguintes. Fica em aberto, para discussão se essa regra vale só para cima ou também para baixo, ou seja, um senador se candidatar a deputado, etc.
3. COINCIDÊNCIA DE MANDATOS: eleição coincidente (no mesmo ano), para todos os cargos.
4. VOTO DISTRITAL MISTO para cargos proporcionais: deputados (estaduais e federais), vereadores etc.
5. FIDELIDADE PARTIDÁRIA: o mandato deve pertencer ao partido. Se um político mudar se, desligar ou for desligado do partido que o elegeu durante o exercício de qualquer cargo político, perde o mandato.
6. PRESIDÊNCIA DAS ASSEMBLÉIAS LEGISLATIVAS (câmara de vereadores, estaduais, câmara federal e senado): mandato de três anos, exercido, no primeiro período, pelo candidato mais bem votado e, no segundo, pelo segundo mais votado, independente do partido. Ou mandato de dois anos, com três períodos, exercido respectivamente pelos três mais votados. Os demais cargos da mesa diretora devem ser preenchidos pelos critérios atuais de proporcionalidade. A idéia é que o povo, dessa forma, já escolheria naturalmente os chefes dos poderes legislativos.
7. RECESSO PARLAMENTAR: somente de trinta dias por ano, em época a ser determinada pela lei.
8. REMUNERAÇÃO: os eleitos (de todos os cargos) devem ter uma remuneração digna (a ser proposta e acordada pela sociedade), mas não deverão ter nenhum tipo de mordomia, como franquias postais, passagens aéreas etc. E da remuneração devem ser descontadas todas as faltas, como qualquer trabalhador.
9. ASSESSORIA PARLAMENTAR: as câmaras (municipais, estaduais e a federal) e o senado deverão ter um corpo permanente de funcionários públicos, concursados e profissionalizados para a assessoria parlamentar, distribuídos igualmente aos gabinetes dos parlamentares. Devem ser funcionários das câmaras e do senado e não dos parlamentares. Esses teriam direito, apenas, a um pequeno número de assessores especiais (que não podem ter parentes parlamentares de nenhuma outra casa), remunerados de acordo com a lei. Por exemplo: deputados federais e senadores, cinco assessores; deputados estaduais, três e vereadores, dois.
10. CÓDIGO DE ÉTICA: com uma série de recomendações de caráter ético, para regular o comportamento dos políticos e assessores, de modo a tornar transparente para a sociedade os seus deveres, obrigações e direitos.
Bem, essas são algumas idéias, Senhor Roberto Macedo, que eu, como cidadão, gostaria de ver debatidas nos jornais, no rádio, na televisão etc. Porque não dá mais para confiar nesses políticos que aí estão, pois se há gente honesta e realmente interessada em lutar pelo povo entre eles, há por outro lado uma multidão de trambiqueiros e enganadores desse mesmo povo que, infelizmente, é iludido muitas vezes por promessas que não podem ser cumpridas.
Muito obrigado por sua atenção.
Isaias Edson Sidney
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:23 PM
Quarta-feira, Março 16, 2005
UM LONGO DESABAFO
Falamos, às vezes, da mente primitiva do homem das cavernas, por exemplo. Por falta de melhor palavra, até aceito o adjetivo. No entanto, não nos esqueçamos de que a nossa mente também ainda é muito primitiva. Ou seja, a evolução não dá saltos. Não tem pressa. Não acontece de uma hora para outra. Entre nós e nossos antepassados, o tempo é muito pequeno, em termos cosmológicos. Estamos ainda engatinhando, no processo evolutivo natural. Somos bebês a ensaiar os primeiros passos. Nosso cérebro (como já disse algures, uma fantástica usina ) ainda deve ter muito a evoluir, ou seja, a modificar-se, a transformar-se, principalmente quando sabemos que, conscientemente, só usamos uma pequena parcela dessa usina para criar todo um complexo civilizacional sem precedentes até agora. Mas as diferenças entre os cérebros, no homem hodierno, embora sejam um assunto tabu, constituem um mistério da natureza. Pelo menos, por enquanto. Enquanto há cientistas cujos cérebros têm a capacidade de imaginar, criar e projetar máquinas fantásticas, como naves especiais comandadas por sofisticados computadores, ainda há milhões de seres humanos vivendo na mais sórdida ignorância de aspectos vitais, como a noção da própria existência independente de deuses. Mesmo os cérebros privilegiados para tarefas extremamente complexas manifestam total inadaptabilidade a aspectos comezinhos da existência, como se houvesse um grau tão grande de especialização de uma área cerebral que não permitisse o desenvolvimento de outras sinapses senão aquelas para as quais a mente se especializou. Ou seja, há sábios idiotas. O problema é que não há idiotas sábios. Os poucos que assim poderiam ser denominados foram sempre indivíduos portadores de síndromes tão estranhas quanto desenvolver capacidades únicas e levar essa capacidade a um grau tão grande de especialização, que se comprometem todas as demais funções cerebrais ditas e aceitas como normais. Não tem nenhuma serventia prática a capacidade de um cérebro de fazer cálculos matemáticos sofisticados, por exemplo, e o homem portador desse cérebro possuir um alto grau de esquizofrenia que o impede da convivência com outros seres humanos. O estereótipo do cientista louco tem, como todo mito, alguma base de verdade. As inteligências diferenciadas, geralmente, têm falhas estruturais nos demais mecanismos cerebrais que os tornam inadaptados para outras funções. Assim, por serem indivíduos diferentes, os cientistas acabam sendo taxados de loucos. São compensações que a natureza faz, em suas experiências, dotando uma área cerebral de maior capacidade em detrimento de outras. São aspectos interessantes a serem compreendidos, futuramente. Aspectos que permitem que especulemos sobre os rumos da evolução, embora toda especulação nesse campo tenha altíssima possibilidade de erro. No entanto, se até agora algumas dessas experiências não têm dado muito certo, criando alguns dinossauros invertidos, isto é, indivíduos com altíssima capacidade cerebral e pouca adaptabilidade aos demais aspetos da vida prática, nada nos impede de pensar que, em algum momento da cadeia evolutiva, essas experiências comecem a encontrar um equilíbrio que permita desenvolver um novo tipo humano, dotado de capacidades cerebrais desenvolvidas de forma mais equilibrada, um homem mais inteligente e, ao mesmo tempo, sem as síndromes de inadaptação que muitos de nossos chamados gênios sofreram, ao longo da história. No entanto, são especulações que não podem ser confrontadas com a realidade, porque são modificações tão sutis, no longo rio da evolução, que não temos, ainda, como medir e avaliar o que realmente está acontecendo. Além disso, não há, verdadeiramente, em termos de evolução, um único rio que conduza a humanidade a um destino único, mas inúmeros rios que caminham para destinos diferentes, com diferentes tamanhos e com obstáculos também diversos, de tal modo que o homem, ao mesmo tempo, seja considerado uma espécie única, tem inúmeros afluentes e corredeiras e quedas, de tal forma que muitos desses rios se transformam em riachos, em fios d¿água, e desaparecem no meio do caminho, enquanto outros podem tomar rumos completamente inusitados. Porque a lei da natureza é experimentar sempre, ao acaso. Só os mais adaptados tendem a permanecer. Mas também aí só o acaso pode determinar que isso de fato aconteça. Uma espécie pode desaparecer em virtude de mudanças dramáticas do ambiente, ou por escolhas infelizes no caminho da vida. E o homem é uma espécie que tem alta capacidade de escolha. Se optar por um caminho errôneo, pode comprometer sua sobrevivência no universo. O desaparecimento de um planeta como o nosso, na ordem universal, não passaria de um acontecimento extremamente inexpressivo. Somente nós, que somos parte desse planeta, na nossa pequenez, é que nos achamos importantes. Se pudéssemos juntar toda a areia que há em nosso planeta numa só praia, a Terra seria menos que um minúsculo grão. Praticamente nada sabemos do Universo que nos cerca. E, possivelmente, nunca saberemos. Pensar sobre isso pode conter uma dose de pessimismo que muitos não devem tolerar, mas é a única forma de nos colocar frente ao problema de nosso próprio destino. Temos a capacidade de escolher o caminho. Isso é fato. Não é fato que façamos a escolha correta. Por isso, é preciso levantar vozes de alerta contra a destruição do ambiente em que vivemos, contra a corrida armamentista, contra o desenvolvimento brutal da capacidade de destruição que a humanidade vem acumulando. O pacifismo e os movimentos ecológicos não são criação da mente de poetas e sonhadores, de utópicos e covardes que, simplesmente não gostam de armas ou de guerras, ou que não desejam a exploração das riquezas da Terra, mas constituem, mesmo em suas formas mais exageradas de manifestação, um alerta precioso quanto ao mundo que queremos deixar para as gerações futuras, ou, até mesmo, se vamos deixar alguma coisa para as gerações futuras. E o futuro não se planta no futuro, tem que começar já, agora, no preciso momento em que estamos. Ações globais e planos nacionais de combate à poluição e à degradação do ambiente devem ser adotados por cada um dos indivíduos conscientes desse planeta. Caso contrário, não saberemos nunca o caminho da evolução da mente primitiva do homem, não teremos, na realidade, saído das cavernas, apenas construímos cavernas tecnologicamente mais avançadas, com luz elétrica, água corrente e ar condicionado. Mas cavernas, apenas cavernas.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:45 PM
Segunda-feira, Março 14, 2005
VENENOS DA INTERNET
Conviver com vírus e programas espiões é moleza. O difícil, nesse mundo digital e abstrato da Internet, é conviver com os porcos. E eles estão aí, escondidos em cada esquina virtual, atrás de suas latas de lixo, com seus focinhos podres e seu bafo sinistro, com seus e-mails e nomes falsos, prontos a atacar, com seu veneno, as mentes e os corações...
Os porcos!
Nazistas, pedófilos, sexistas, homofóbicos, racistas, armamentistas, fundamentalistas... a escória da humanidade!
Como existe gente podre nessa rede!
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:08 PM
Sexta-feira, Março 11, 2005
CONTO? CRÔNICA? OU PROSA POÉTICA?
MEDO DE AMAR
Quem mora no morro tem medo de mar. Mas não devia ter medo de amar. Dali, daquele alto, contemplava o ondular suave dos morros abaixo e pensava no mar. Bicho do mato, uma só vez atiçara a mente para uma viagem meio assim de turista desenxabido e fora dar numa cidade que tinha mar, um marzão assim, de pôr medo em noite de luar, não pelo seu tanto de água, mas pelo seu jeitão, assim, de bicho a ondular, ondulando sempre sem parar. Tivera medo. Bicho do morro nascera, não nascera para o mar, não vivia para amar. Lá, na cidade do mar, muito tempo não gastou, que o tempo do mar era só rolar, rolar pra lá, rolar pra cá, dando tonteira de enjoar. Do que ele gostava, mesmo, mesmo, era do sossego das nuvens, do calmo ondular do mato subindo o morro. Mão estendida na fronte, olhou para cima, céu sem nuvem. E estendeu lento o olhar para a linha além do morro, tarde, vermelha, sol se escondendo devagar. No quase-escuro do vale, rio sem cachoeira, rio bom, de peixe melhor ainda. Pensamento seguiu o risco de ave que busca o ninho: veio, num piscar, um par de olhos de mar, assim azul, azul, quase verde, na sua cabeça a ondular, mar batendo na pedra, espuma e som, barulho de assustar. Tonteira na cabeça, tonteira de enjoar, marulho de mar, ondear de montanha. Quem mora no morro... Não, não tinha medo daquele mar, aquele mar que era morro e era mar, que era como o ondear suave do morro e o verde da mata, não o verde do mar. Deitou. Barriga pra cima, a cismar, João sem medo, João do morro, não o João do mar. Dormiu e sonhou um sonho de peixe de mar, peixe assim meio mulher, mas peixe, com olho de verde-mata, com olho de cisma e paixão. De susto, abriu o olho, do mar já esquecido, e viu outro olho dourado, lá em cima, bem em cima dele, olhando para o seu olhar, um olho só, um olho cheio, luzente, em lúdico luar, enluarada lua como ela só, só para ele a olhar. Lá embaixo, no vale, entre as brumas do rio a marulhar, em meio a folhas da mata, da mata verde-mar, o breu da noite, num sono de morte, num sonho de medo. Mas era ele o João, o João da mata, não tinha medo, não tinha medo nem do olho do céu nem da sombra do vale. Se tinha medo, era medo do mar. Ou de amar? Levantou, andar um pouco, acordar as pernas, e lembrar o que fazia ali, mas só via o verde do mar a se misturar com o verde da mata e, guardando no alforje o seu coração, ancas a ondear, olhos de ferir e matar, a mulata. Ah! aquele imenso mar, aquele imenso amar e a mata nos olhos dela, e o mar na cabeça dele, era aquilo, então, o amor, ela aquilo que ele sentia que a mãe dizia para ele não sentir nunca na vida, era aquilo a perdição dos homens, é isso, mãezinha, o que bate e, de tanto bater, destroça em espuma a vontade dos homens? Ah! o amor, o amor tão velho quanto o mar, tão verde quanto a mata! E então ele lembrou, tinha de procurar as cabras, as dez cabras do pai. E lembrou a ordem da mãe: vigiar, vigiar bem as dez cabras do pai. Onde? Onde as cabras do pai? No alto do morro, olhou e só viu o que via o seu olhar: nada de cabra, nada das dez cabras do pai. O morro tão longe do mar, o mar tão perto de seu olhar. Não, mãezinha, eu não posso, nunca, ter medo de amar: esse imenso ah! mar...
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:03 PM
Terça-feira, Março 08, 2005
EVE - BOTERO
DIA INTERNACIONAL DA MULHER
O mundo do século XXI ainda é dividido por temas que estarão superados em alguns séculos. Um deles é a chamada guerra dos sexos. O machismo e o feminismo são categorias absurdas de exclusão e dominação. Não têm futuro. Mas ainda deverão permanecer por algum tempo. Porque não há um Homem, como não há uma Mulher. Há homens e mulheres que necessitam, biológica e culturalmente, um do outro. Se a dominação masculina é estúpida, agressiva e totalmente despropositada, o contrário também não tem sentido: as mulheres, com certeza, passarão um período, provavelmente curto, de domínio, como forma de compensação pelos séculos de predominância machista, mas logo perceberão a inutilidade de manter uma guerra que só existe em termos de mídia mal informada e de certos pseudo-filósofos da defesa de conceitos que devem ser superados. O que se pode dizer é que há diferenças, sim, entre homens e mulheres, mas são diferenças que se somam e não diferenças que se excluem. O feminismo, como o machismo, tem os seus dias contados, porque não há futuro em qualquer forma de predominância de um sexo sobre o outro. É claro que é necessário que as mulheres ascendam a posições de destaque e lutem para que a igualdade de direitos e deveres chegue a um ponto de equilíbrio. E, como disse, é provável que a balança, por algum tempo, penda para as mulheres, como forma de obter esse equilíbrio. Mas a busca por conquistas tecnológicas, por avanços da ciência, pela melhoria das condições sociais dos povos fará com que homens e mulheres caminhem juntos, sem traumas, porque não tem nem um pingo de lógica e de bom senso a supremacia sexual. Acomodar as diferenças entre homens e mulheres será um passo largo da humanidade em busca do racionalismo, uma ponte natural para superar a estupidez e a barbárie. Não gostaria de falar sobre os abusos cometidos contra as mulheres por culturas que ainda estão subjugadas por conceitos obtusos de poder e de demonização da mulher, mantendo hábitos tão bárbaros quanto a deformação genital praticada, sob inspiração religiosa e cultural, de certas etnias orientais e africanas. Esse tipo de ato, por mais estúpido que seja e, portanto, merecedor de todo o nosso repúdio, representa, infelizmente, apenas uma ponta do grande iceberg de violência e agressões que a irracionalidade humana tem cometido contra o próprio ser humano em toda a sua história. A mulher tem sido um elo fraco nessa corrente de violência. Mas, não é a única. O prazer sádico de subjugar, de torturar e matar tem sido uma constante em todas as civilizações. E esse traço bárbaro da índole humana dirige-se contra tudo e contra todos que se inferiorizam ou são inferiorizados pela brutalidade ou, ainda, contra todos que se interponham à sede de poder de certos grupos e indivíduos que se acham superiores aos demais. Desse traço bárbaro da índole humana não escapam os mais fracos, sejam homens, mulheres, crianças ou jovens: todos acabam por sofrer nas garras dos mais poderosos, quando se desumanizam ao ponto de não respeitarem mais a vida humana. Contra esse tipo de gente, contra esse tipo de atitude, é que é necessário acordar as consciências e dizer um basta. Mas, para isso, ainda há um caminho muito longo a percorrer. Um caminho que passa por obstáculos como superar conceitos arraigados à mente humana, como a metafísica (e toda a conseqüente série de filosofias que pregam a estupidez do espiritualismo) e a cultura da morte. Quando isso acontecer, os olhos dos homens e mulheres desse possível e desejado futuro poderão se voltar para o passado e compreender quão difícil terá sido a escalada da humanidade em busca de um racionalismo que tenha por princípio o respeito: do ser humano para consigo mesmo e do ser humano para com o ambiente em que vive.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:03 AM
Sexta-feira, Março 04, 2005
UM CONTO
O ROMEIRO
(Tema: bailando no inefável, para a reunião do Grupo de Contistas de São Paulo, no dia 3 de março de 2005, na casa da Cármen Rocha)
Sentiu-se dançando num inefável tapete de musgos. Mas era apenas merda. Muita merda acumulada em anos e anos de cagança festiva e dourada. Foram os anos das cerimônias mais pomposas, dos milagres mais etéreos. Multidões chegavam de todas as partes. E devoravam dezenas de milhares de cachorros-quentes, de espigas de milho e bebiam a beberagem escura que os camelôs de comidas, em centenas de carrocinhas, ofereciam como brinde, um caldo grosso e doce, diziam ser de cana. Assim, cagava-se muito. Cagava-se em todos os lugares. E agora, na noite de breu da cidade da santa, sozinho e cansado, ele queria apenas uma enxerga dura para jogar o esqueleto bambo da longa travessia. De longe viera, como tantos vinham todos os anos. Mas dessa vez, não teve reza que evitasse o tempo perdido. No tranco da estrada, o carro quebrado, justo o eixo novo, novinho em folha. Estrago feito, não adiantava espernear. Mas achar a cabriúva, cortar a árvore, aplainar a madeira, acertar com capricho a espiga, arredondar a emborgueira, alisar, azeitar e encaixar bem direitinho a cantadeira nas duas rodas que giram, e em harmonia girando, fazem chiar o chiado do carro além da curva da estrada, tudo isso levou tempo. Nesse entretanto, os dois bois engordaram, tornaram-se preguiçosos e a viagem, ainda mais lenta naquela lentidão de caminhos. E ele viu a estrada se esvaziar e depois se encher e de novo se esvaziar de peregrinos. Quando, enfim, chegou à cidade da santa, só encontrou despojos de festas acabadas, caminhos entulhados de ex-votos e lixo, muito lixo. E pior, chegou de noite, já sem óleo de mamona na azeiteira, o carro sem canto, sem alma, e ele cansado da longa jornada. Turvos do pó de tantas estradas, os olhos não mais reconheciam as velhas pegadas que levavam à vetusta capela onde todos se ajoelhavam em extremado ato de fé e de humilhação. Lavavam, ali, para sempre, velhos pecados. Deixavam, ali, aos pés da santa, a alma limpinha, imaculada mesmo, pelo menos até a próxima romaria. Trêfego e sujo, que os bois preguiçosos guiassem seus passos. Confiava, mais por necessidade que por fé de romeiro, no seu instinto de velhos conhecedores das encruzilhadas. E agora estava ali, pisando aquele musgo gosmento que cheirava pior que o sovaco do capeta. A sensação inefável virou logo desespero. Ajoelhar para pedir um milagre à santinha, nem pensar. Era tudo merda, merda até o meio da canela. Chapinhou um pouco para lá e para cá, sem saber direito o que fazer. O breu da noite sem estrela e a vista turvada do pó não o deixavam enxergar nada além da silhueta sossegada dos dois bois e do carro atolado, inerme, sem canto, sem alma. Num gesto desesperado, soltou Malhado e Cheiroso, atrelou os arreios e tentou montar num deles, sem saber direito em qual dos dois lombos tentava se equilibrar, o que só alcançou depois de muito esforço, as pernas escorregadias do limo sujo. Lá de cima, atiçou a espora no flanco do bicho, e gritou: Eia, Malhado! O bicho resfolegou, chapinhou as patas no lodo fedorento, fez que ia e corcoveou. Mal sentiu o baque das costas na lama macia e mal-cheirosa, percebeu a cagada que fizera. Errara o nome do bicho. E Cheiroso era boi sistemático e sorumbático. Não ia aceitar nunca um novo apelido, assim, depois de velho. E mais furioso ficou ao ouvir o nome dele, Cheiroso, trocado assim pelo do outro, com quem convivia há tantos anos entre turras e chifradas. Mas esse pensamento na sua cabeça não teve continuidade, porque agora ele se sentia flutuando, quase a bailar, naquele inefável mar de anos e anos de cagança festiva e dourada. E afundar para sempre, ali, como um carro sem canto e sem alma, era só a menor de suas preocupações.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:05 PM
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