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{Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005}


ARMAS, PARA QUE VOS QUERO?!

Ainda na década de cinqüenta, quando a tevê mal engatinhava, no interiorzão lá de Minas, atrasado como ele só, tínhamos pouca diversão vinda de fora. O cinema era uma delas. Por ser caro para quem de migalhas vivia, tinha mais prestígio e mais influência que o rádio, barato e mais concorrido.

Das matinês dominicais, as únicas que podíamos freqüentar, por serem mais baratas, aprendíamos a sacar com os cow-boys de araque e a matar mais índio e bandido que formiga em dia de chuva. Era a ideologia que reproduzíamos nas ruas e praças onde brincávamos de mocinho e bandido, com todo mundo querendo ser mocinho, pois índio e bandido sempre se davam mal.

Com armas improvisadas, feitas de madeira, acabávamos sempre bandidos ou índios diante de um moleque mais poderoso que aparecia com revólver de metal ou, ainda, supra-sumo do invejável, com revólver de metal e um rolo de espoleta!

Nas tarde e noites enluaradas, as ruas cheias de cow-boy tranqüilizavam os adultos, que podiam, assim, ouvir pelas ondas curtas a novela preferida ou, em longas conversas em cadeiras de balanço, nas salas de assoalho de madeira e grandes janelas voltadas para a rua, ou nas calçadas perfumadas por damas-da-noite, colocar em dia as fofocas da igreja, do clube ou da fulana que traía o marido e o coitado era sempre o último a saber.

Então, nossos revólveres de brinquedo estalavam tiros onomatopaicos pela noite, em disputas acirradas e batalhas a que não faltavam joelhos ralados e uma ou outra briga de verdade, por conta de exageros de uns e outros. As garotas, geralmente, ficavam fora de tais estripulias, encantadas com afazeres outros, como brincar de casinha ou de roda, ou apenas tentar entender as conversas dos adultos.

Nesse mundo estável e estático, sem querer, adquiríamos a cultura da arma como forma de defesa. Assimilávamos conceitos absurdos de que índio era apenas um alvo móvel a ser abatido pelo tiro mais certeiro. E, principalmente, que o mundo se dividia em bons e maus, num maniqueísmo estúpido e rasteiro que muitos levam pela vida afora. E, pior, que os bons somos sempre nós e os outros, bem, os outros são sempre índios ou bandidos.

Hoje, adulto e do alto de sessenta anos bem vividos, recordo tudo isso para rejeitar o lixo que vinha embutido em brincadeiras aparentemente tão inocentes. E admirar-me que poucos, como eu, que tenham vivido esses tempos e outros que lhe sucederam, com outras armas e outras tecnologias muito mais avançadas, que propiciaram ampliar ao infinito aquela mesma velha ideologia, com a ajuda da televisão a cabo e de filmes cada vez mais sofisticados e com conceitos ainda mais refinados, pudessem tomar consciência do veneno que nos vem corroendo nesses últimos anos do século vinte e um e início do vinte e três: o veneno de uma sociedade armada, de uma sociedade doente que precisa ter sempre um trinta e dois na cintura, para, como um cow-boy em seu cavalo ou em seu foguete interplanetário, matar índios e bandidos que nos ameaçam a cada instante.

Fico pensando mais ainda: nos que, por ignorância e estupidez, matam por uma batida no trânsito, um pára-lama amassado, ou, ainda, por um insulto de bar, porque bebeu uma cerveja a mais, só porque tinha na cintura o cinturão do cow-boy e na cabeça a imbecilidade de uma ideologia maniqueísta tão bem urdida e tramada nos intrincados gabinetes da grande nação do norte. Ou, ainda, no idiota que esquece na gaveta do criado-mudo o revólver brilhante e bem azeitado, encontrado depois pelo filho de cinco anos que aperta por acidente o gatilho, ao mostrar com orgulho o símbolo da idiotice paterna a outro amiguinho. E o vizinho não sabe por que morreu e o filho, por que matou. Mas eu sei.

Eu sei, e vou botar a boca no mundo. E o jeito de botar a boca no mundo é ficar aqui a escrever essa crônica para publicar em qualquer lugar da Internet, porque é preciso que os admiradores da estupidez sejam alertados e despertem de seu sono maniqueísta para encarar a realidade.

A campanha pelo desarmamento civil, tão entusiasticamente recebida, esmoreceu. E pode morrer, porque foi mal compreendida. Ou mal vendida. Na sei. E então, é preciso que se recomece tudo. Desde o começo.

Então, vamos explicar e tentar entender. Bandido é bandido, e não vai entregar arma para ninguém. Porque bandido é problema da polícia. E só vai deixar de haver bandido, assaltante, ladrão, traficante, estuprador, quando a humanidade deixar de ser humanidade. Pode-se diminuir o índice de violência, da bandidagem, controlar, através de medidas como mais polícia, mais investigação, certeza da punição, controle do contrabando de armas etc. Mas, acabar, mesmo... só se boi voar.
Então, para que o desarmamento civil? Afinal, não temos o direito de nos defender?

Muito bem, temos, sim, o direito de nos defender. Através de instrumentos legais, ou seja, exigindo mais policiamento, mais iluminação, mais segurança, enfim. Afinal, pagamos impostos. O que não temos direito é nos defender com armas na cintura, como num bangue-bangue caboclo de idiotas atirando na própria sombra a atingindo quem não tem nada a ver com os nossos medos. O que não temos direito é armar uma sociedade que não tem nenhum preparo para andar armada, arriscando a vida de inocentes, só porque alguns acham que é seu direito se defender. Ora, defender-se de quê? Dos bandidos, que estarão muito mais armados, ou de outro idiota que bateu no seu carro? Porque todo aquele que bate no seu carro é idiota e merece morrer. Não é, mesmo? Não foi esse o maniqueísmo que você aprendeu a vida toda?

O desarmamento civil tem por objetivo evitar o crime que não é cometido por bandido, assaltante, estuprador, contrabandista, traficante, mas por cidadãos de bem, como eu e você, como seu vizinho e até mesmo pelo idiota que amassou o pára-lama de seu carro. Pessoas que, por um momento, perdem a cabeça e lançam mão de um meio muito acima do motivo que o levou a ficar furioso e arrepende-se amargamente depois, quando já não há mais como consertar a estupidez feita. Apenas porque tinha uma arma no bolso ou no porta-luva. Ou porque discutiu feio com o torcedor do outro time, no bar da esquina, quando tomava uma cervejinha de domingo.

E esse tipo de violência cai vertiginosamente quando se desarma a sociedade. Isso precisa ser divulgado. No rádio, na televisão, nos jornais e nas revistas. Para que todos entendam isto, que é muito simples: a bandidagem é outro problema. Não vai ser resolvida com o desarmamento civil. O que conta diminuir é a violência comum, fruto de uma bobagem qualquer. E ESSA ESTÁ E VAI CONTINUAR DIMINUINDO, SE A CAMPANHA DE DESARMEMENTO CIVIL CONTINUAR E TIVER APOIO DE TODAS AS PESSOAS QUE QUEREM UMA SOCIEDADE MELHOR, SEM MORTES ESTÚPIDAS E INÚTEIS!

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:38 PM


{Sábado, Fevereiro 26, 2005}


VISÕES SEVERINAS

No belo poema de João Cabral de Mello Neto, Morte e Vida Severina, temos uma visão compungida do nordestino flagelado pela seca, figura quase mítica, integrante do imaginário brasileiro, símbolo da luta pela sobrevivência e da resistência do nosso caboclo. Há, ali, uma visão severina de uma nação a tentar sobrepujar todos os obstáculos. Comove e convida à ação por um pedaço de nosso território que tem tão sofrido povo.

Não há, no poema, no entanto, as outras visões severinas do Nordeste. Ao lado do flagelo da seca, a indústria que a mantém, as articulações políticas e econômicas que enriquecem uma bem constituída e bem fornida elite de verdadeiras sanguessugas que não permitem distribuição equânime das riquezas que o Nordeste tem, mas arrebanha para si todo o lucro e deixa à míngua o caboclo que luta de sol a sol para manter com dignidade a terra de onde tira o sustento.

O migrante surrado e expulso temporariamente pela seca tornou-se um lugar-comum do Brasil severino que não consegue vencer a força das oligarquias. Do mesmo solo em que emergem os severinos que hoje habitam as sub-moradias do sul, atrás de sub-empregos e sub-salários, também temos pujantes grupos açucareiros e alcooleiros e, mais ainda, políticos de todos os naipes e todas as estirpes. Desses, no entanto, poucos se destacam na defesa dos interesses reais do povo. A maioria só se preocupa, mesmo, é com a sua sobrevivência ou com o poder que podem alcançar sobre os tapetes refrigerados dos palácios de Brasília. O rompante collorido que varreu a Nação há alguns anos é apenas uma das facetas dessa sanha corruptora que faz com que esses políticos se perpetuem no poder.

E foi o representante severino desse tipo de gente que assumiu, espertamente, a Presidência da Câmara, numa manobra que faria envergonhar ao próprio Maquiavel. Porque não se trata de assumir o poder político ou econômico, mas apenas defender a sinecura de um dos melhores empregos do País: salário alto, verbas de representação, casa, mordomias mil, enfim. Além de não obrigação de realmente trabalhar. E três meses de férias por ano!

Se pensarmos de forma objetiva, sem os ódios que nos toldam a mente estarrecida diante das propostas severinas de um aumento de 12 mil para 21 mil reais dos salários dos senhores deputados, além do aumento absurdo da verba de cada gabinete, podemos chegar a alguns pontos importantes.

Vejamos: o trabalho parlamentar é função nobre, complexa, que exige de nossos representantes, arduamente escolhidos numa eleição difícil, todo o empenho de suas capacidades. Portanto, nada demais que ganhem bem. Muito bem, aliás. É uma obrigação do povo manter da melhor forma possível a sua elite política mais importante, o Congresso Nacional. Quanto a isso, acho que ninguém discorda. Que tenham, sim, vencimentos, sei lá, de vinte ou trinta mil reais!

Mas, paremos por aí: com esse salário, que sustentem como qualquer mortal a sua família, as suas veleidades, os seus caprichos. Que não tenham verbas absurdas de gabinete para pagar dezenas de funcionários fantasmas tanto em Brasília quanto nos seus Estados (se todos os contratados de um gabinete parlamentar aparecerem para trabalhar ao mesmo tempo, não haveria espaço no Congresso para tanta gente!) Que tenham férias de 30 dias, como qualquer trabalhador desse País! Que não tenham tantas mordomias, como passagens aéreas, aluguel de casa quando moram de graça, milhares de franquias postais e tantas e tantas outras! Que tenham desconto no salário, quando não comparecerem às sessões! E finalmente, que trabalhem! Afinal, é para isso que são pagos.

Num gesto supremo de generosidade, podíamos, mesmo, aceitar tudo o que condenamos acima (mordomias, altos salários etc): se eles de fato trabalhassem! Sim, se eles de fato trabalhassem, todas as reivindicações severinas poderiam e, com certeza, seriam perdoadas! Mas isso seria uma visão severina que eles não aceitam: a visão do caboclo sofrido e trabalhador do poema de João Cabral. A visão de luta para tirar o atraso do País. A visão da derrota das oligarquias. Bem, chega de utopia... e pau no Severino Cavalcanti, que é um severino que pertence àquele tipo de gente que não queremos mais a nos governar.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:57 PM


{Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005}


TERRAS: UM QUESTÃO COMPLICADA

A questão fundiária do Brasil remonta ao descobrimento e à colonização. Um dos livros que mostra bem isso é O POVO BRASILEIRO, de Darcy Ribeiro. Enquanto, nos Estados Unidos, a terra era ocupada e depois, registrada, aqui a coisa se invertia. O cara ia ao cartório, geralmente muito distante da gleba, e se declarava dono de tais e tais porções de terra. Quando o caboclo montava seu barraco e começava sua lavoura de subsistência, o dono, com o apoio da Justiça e da Polícia (e também dos políticos) ia lá e expulsava. Muitas vezes, mandava matar, por jagunços contratados a preço de banana. E foi sempre assim. E continua do mesmo jeito. A morte da freira no Pará é só mais uma morte. Não há punição. Nessa cultura, a vida humana tem preço. E é muito barata. Porque existe um elemento a perpassar a estrutura podre: a corrupção. É como formiga. Dá em tudo e é impossível exterminar. Nenhum governo, por mais que faça, consegue acabar com isso. A Amazônia é, sim, território livre. Livre de polícia, de justiça, de qualquer possibilidade de que não seja destruída. E não o será por americanos, não. Será pela ganância do homem. Porque, ali, todos os anjos têm cara suja: desde o caboclo que desmata para viver até o grileiro que desmata para vender. A única democracia ali é a devastação da floresta. Quando surgem projetos ditos sustentáveis, há resistência de todos. Se conseguem superar a truculência dos grileiros, precisam de um longo período de convencimento para serem implantados. Enquanto isso, madeira nobre tirada a preço extorsivo continua sendo motivo de orgulho de casas e escritórios do mundo rico que se escandaliza quando uma freira é assassinada no interior do Pará. E assim caminha a humanidade.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:08 PM


{Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005}




CIDADE INFESTADA DE RATOS

Nós crescemos lendo as aventuras do Mickey e nos esquecemos de que ele é um rato. Filmes e peças, infantis ou infantilóides, têm dezenas de ratos antropomorfizados. Geralmente, personagens simpáticas. E o rato é realmente um bichinho interessante, bonitinho. Mas...

Vamos encarar a sério o problema do rato. Principalmente nas cidades e em contato com o homem. Vetor de doenças letais, torna-se um dos maiores perigos para o homem. Consome uma quantidade absurda de alimentos, principalmente grãos. É uma ameaça, no começo, invisível. No entanto, prolifera muito mais do que o coelho. De hábitos noturnos, é discreto e quase não faz barulho. Quando começamos a nos dar conta de sua presença, principalmente durante o dia, é porque a infestação já se tornou incontrolável.

E é o que está começando a acontecer em São Paulo. Ratazanas e ratos, sem contar os camundongos (muito mais invisíveis e, talvez, mais numerosos) já podem ser encontrados pelas ruas por observadores mais atentos, próximos a lugares onde há alimento abundante ou próximos a bueiros e bocas de lobo. São Paulo está-se tornando uma cidade infestada por ratos.

Isso é um problema muito sério de saúde pública. É necessário que se tomem providências urgentes. Embora seja um problema de difícil solução. Porque o tratamento com veneno, que é a primeira opção, pode combater um mal causando outro mal muito maior, por se tratar de venenos fortíssimos: degradam o meio ambiente e colocam em perigo a saúde humana. Além disso, como são muito espertos, os ratos acabam evitando os venenos. Ratoeiras e armadilhas são estratagemas que não logram alcançar grandes resultados, a não ser em locais restritos. Pedir à população que capture e venda a um órgão público os ratos pode, também, ser um tiro no pé, porque exige que a população, geralmente mais pobre e constituída principalmente de crianças, acabe entrando em contato com o bicho. Enfim, é complexa a solução.

Em conversa, algum tempo atrás, com uma sanitarista da Prefeitura, que levantava comigo alguns dos problemas listados acima, surgiu uma idéia que pode parecer um tanto maluca, mas que seria a solução, não digo ideal, mas menos agressiva no combate aos ratos.

Será que não seria possível desenvolver um anticoncepcional para ratos?

Isso mesmo: um produto inodoro e insípido para ser acrescido às iscas; um produto que não oferecesse perigo aos seres humanos, que não degradasse o ambiente e que esterilizasse as fêmeas dos ratos. Será que algum laboratório se habilita a tentar desenvolver tal produto? Com a palavra os cientistas, os sanitaristas, os médicos.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:46 PM


{Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005}


QUEM É SEVERINO CAVALCANTI?




Severino Cavalcanti, deputado do PP-PE, pertence àquela categoria de parlamentar de pouca expressividade, o chamado baixo clero. Sua biografia? Ex-prefeito de uma obscura cidade de Pernambuco, passou por inúmeras legendas e tem feito há oito anos acordos para permanecer como membro da direção da Câmara. Portanto, nada que o recomende para a presidência do segundo poder da República. Embora não seja o que pensam os trezentos colegas que o escolheram.

Derrota do PT! Crise no partido do governo! A reeleição de Lula ameaçada! São manchetes de jornais e expressões dos articulistas políticos, que adoram ver o circo pegar fogo, ainda mais com um bom palhaço no picadeiro. No entanto, eu acho que não é nada disso. A histórica armação de que o partido majoritário deve fazer o presidente se tem sido mais ou menos respeitada, tem também sido muito contestada. Inclusive pelo próprio PT. È apenas uma armação política, como todas as outras sujeitas às chuvas e trovoadas do momento. Tinha seus dias contados e, finalmente chegou ao fim. Mas não há o que comemorar. O eleito não está à altura do cargo. Mesmo que eu queime a língua e o tal Severino se torne um grande estadista.

O que está podre nesse reino e no reino da política em geral é que há lugar para todo tipo de tramóia, de negociata, de traições bizarras e esquisitices a bel prazer dos senhores deputados, e senadores também. E o que dizer das demais casas legislativas, assembléias estaduais e câmaras de vereadores espalhadas por mais de cinco mil municípios? Nosso sistema político precisa, e com urgência urgentíssima, de uma reforma total e absoluta. Que nenhum político deseja e tem a capacidade e a hombridade de defender.

Por isso, eu defendo uma tese um tanto arrojada, ou mesmo, meio louca: que a reforma política seja feita por um colegiado escolhido pelo povo, como uma espécie de assembléia constituinte, de que não possa participar nenhum político, ou seja, nenhuma pessoa que tenha sido sequer candidato a qualquer cargo político, em qualquer época, mas candidatos lançados por organizações civis como OAB, sindicatos etc. Seriam eleitos, sei lá, três ou quatro por Estado, para que esse colegiado não ficasse muito grande. Durante seis meses ou um ano, esse colegiado ouviria a opinião pública, através de grandes reuniões e debates e apresentaria uma proposta de reforma que seria submetida ao referendo popular.

E no bojo dessa reforma, eu ficaria torcendo para que o tal colegiado e o povo aprovassem teses como:

1. MANDATO: acredito que 4 anos seja pouco e 8 (com reeleição) seja muito. Ficaria com um mandato de 6 anos, para todos os cargos políticos, desde presidente da república até vereador. Talvez com mecanismos que permitam o ¿impeachment¿ (de forma mais acessível ao povo, para todos os cargos) ao longo do terceiro ano.

2. REELEIÇÃO: fica proibida para o mesmo cargo. Ou seja, se o cidadão foi eleito vereador, ou ele se candidata a outra coisa ou fica em casa pelos seis anos seguintes. Fica em aberto, para discussão se essa regra vale só para cima ou também para baixo, ou seja, um senador se candidatar a deputado, etc.

3. COINCIDÊNCIA DE MANDATOS: eleição coincidente (na mesma data), para todos os cargos.

4. VOTO DISTRITAL MISTO para cargos proporcionais: deputados (estaduais e federais), vereadores etc.

5. FIDELIDADE PARTIDÁRIA: o mandato deve pertencer ao partido. Se um político mudar se desligar ou for desligado do partido que o elegeu durante o exercício de qualquer cargo político, perde o mandato.

6. PRESIDÊNCIA DAS ASSEMBLÉIAS LEGISLATIVAS (câmara de vereadores, assembléias estaduais, câmara federal e senado): mandato de três anos, exercido, na primeira legislatura (de três anos), pelo candidato mais bem votado do partido majoritário e, na segunda legislatura, pelo segundo mais votado do partido majoritário. Ou mandato de dois anos, com três períodos, exercidos respectivamente pelos três mais votados, relativamente, independente do partido. Os demais cargos da mesa diretora podem ser preenchidos pelos critérios atuais de proporcionalidade. Enfim, a idéia básica é que o povo, dessa forma, já escolha naturalmente os chefes dos poderes legislativos, sem as maracutais e desgastes políticos de uma escolha interna. Se é um poder outorgado pelo povo, que o povo tenha o direito de escolher, também, seus presidentes.

7. RECESSO PARLAMENTAR: somente de trinta dias por ano, em época a ser determinada pela lei.

8. REMUNERAÇÃO DOS PARLAMENTARES: estabelecer regras precisas de remuneração. Advogo que essa remuneração seja bastante razoável, pois acho que são cargos de responsabilidade que devem ser bem remunerados, mas sem os penduricalhos que eles, os políticos, acabam incorporando.

9. CONTROLE DOS GASTOS PARTIDÁRIOS: ou se estabelece o sistema de uso de verba pública para as candidaturas ou se busquem regras claras de captação de recursos, com transparência e total controle público.

Enfim, um sistema que torne o processo político o mais democrático possível, através leis e regras claras e transparentes, de conteúdo profundamente ético, que permitam ao povo escolher e controlar melhor os seus políticos e suas ações. Só assim, poderemos evitar certas crises artificiais, certos desmandos e falcatruas e certos vexames como o ocorrido na eleição do atual presidente da Câmara Federal, o deputado Severino Cavalcanti, que pode, de repente, vir a ocupar até mesmo a Presidência da República. E quem é mesmo Severino Cavalcanti?



posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:44 PM


{Terça-feira, Fevereiro 15, 2005}


JABOR E A RENOVAÇÃO DA CARTEIRA DE MOTORISTA

Minha carteira de motorista venceu em janeiro. Fui renová-la no POUPATEMPO, seguramente o melhor local de prestação de serviço público já inventado. Seguem a melhor cartilha de atendimento ao público. Ninguém é mal-tratado. Não há mau humor. Enfim, primeiro mundo. No entanto...

Por obra e graça de uma famigerada resolução do CONTRAN, que determinou que, a partir de março, todos os motoristas deverão se submeter a um teste escrito ou fazer cursinho em auto-escola, para renovar sua carteira de habilitação, o DETRAN do POUPATEMPO virou um verdadeiro inferno: no mínimo CINCO HORAS DE FILA, para conseguir vencer a burocracia e ainda com o desconforto de voltar num outro dia para buscar a carteira renovada...

Bem, durante essas cinco horas, aproveitei para ler todas as crônicas do Arnaldo Jabor no livro Amor É Prosa, Sexo É Poesia e ainda sobrou tempo... Tempo que eu usei para pensar no absurdo da situação de ter de renovar uma carteira de motorista...

Pois, pense um pouco: primeiro, ninguém desaprende a dirigir. Segundo: se não tenho condições físicas, não vou dirigir, pois estaria colocando em risco a minha própria vida (além da dos outros, é claro). Então, com que finalidade os motoristas têm de renovar esse documento a cada cinco anos? Só para alimentar uma burocracia estúpida e inútil, pois são muito poucos os que são reprovados nessa renovação que consiste, basicamente, em exame de vista.

Acho que algum deputado devia debruçar-se um instante sobre esse problema e propor uma lei que acabasse com essa bobagem. Para isso, bastam alguns cuidados, ou seja, só devem renovar a carteira de habilitação os motoristas que, por exemplo:
- desejarem mudar de categoria;
- se envolverem em acidente com vítimas (fatais ou não);
- tiverem a carta suspensa por multas ou outro motivo qualquer.

Nestes casos, o exame podia até mesmo ser mais rigoroso em conformidade com o motivo: motoristas que se envolveram em acidentes com vítimas fatais deveriam passar por um exame psicotécnico e de saúde mais minuciosos. Mas, que se acabasse definitivamente com essa bobagem que é a renovação periódica desse documento, eliminando mais um gargalo burocrático e uma forma inócua e iníqua de tirar dinheiro do bolso do contribuinte. Porque a brincadeirinha de renovação não sai por menos de sessenta reais, em São Paulo! Além, é claro, do tempo desperdiçado, ou não, mas não o desperdiçam somente as pessoas que, como eu, mergulham nas crônicas do Arnaldo Jabor, que fala de sexo, deamor e... desse Brasil em que vivemos, com suas leis ultrapassadas e sua burocracia... bem, deixa pra lá, porque esse texto vai acabar ficando um samba do crioulo doido, já que Jabor já entrou nele como o Pilatos no credo...

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:55 PM


{Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005}


MON COEUR BALANCE


Por que não gosto do Woytila: é um papa atrasado em idéias e atos. Sob uma aparência de evangelizador, falsa como uma nota de quinze, jogou a igreja de volta às idéias medievais. Só não ressuscita a inquisição, porque não se fazem mais fogueiras como antigamente, nem as bruxas de hoje... bem, deixa pra lá.

Por que não torço mais por sua morte: Nietzsche teve, uma vez, uma visão fantástica, com César Bórgia, filho do papa Alexandre VI. Cito-o textualmente:

Vejo diante de mim a possibilidade de um encantamento supraterreno: parece-me que cintila com todas vibrações de uma beleza sutil e refinada, dentro da qual há uma arte tão divina, tão diabolicamente divina, que em vão se procuraria através dos milênios por semelhante possibilidade; vejo um espetáculo tão rico em significância e ao mesmo tempo tão maravilhosamente paradoxal que daria a todas as divindades do Olimpo o ensejo de irromper numa imortal gargalhada: César Bórgia como Papa!... Compreendem-me?... Pois bem, essa teria sido a espécie de vitória que hoje somente eu desejo: com ela o cristianismo teria sido abolido!

Pois, é: tenho a mesma sensação de Nietzsche, agora com um papa concreto, de carne e osso, já que César Bórgia não chegou a papa. Woytila pode destruir a igreja, com mais uns vinte anos de papado. Pena que não vai durar tanto. Seu conservadorismo iria trancar a igreja num beco cada vez mais sem saída. O único problema é que fortaleceria, por outro lado, os fundamentalismos pentecostais e as igrejinhas voltadas para o lucro, como a Universal. O problema está nas sinceramente fundamentalistas, que teriam fôlego para uma existência mais longa. E as conseqüências disso poderiam ser funestas para o mundo. Essas igrejinhas de logro e lucro, como tantas que surgem por aí, não representam perigo, a não ser para o bolso dos idiotas que as seguem. Perecem assim que o mentor principal morre, na partilha dos bens, ou se afogam em escândalos que as inviabilizam. Têm fôlego curto, em termos relativos.

Mas voltemos ao Woytila: se a igreja eleger um sucessor com a mesma cabeça desse idiota, o que é muito provável, então teremos a esperança de que essa instituição que, sobrevive há dois mil anos com o mesmo obscurantismo de sua fundação, possa estar enfim no começo de sua total decadência. Os tempos que virão não mais conseguirão conviver com a estupidez criacionista e conservadora desse cristianismo torto que é a igreja católica, que voltará, então, para as catacumbas de sua origem, de onde nunca deveria ter saído.

Por isso, meu coração balança entre o júbilo por uma morte próxima do Woytila e a esperança de que suas idéias permaneçam como um farol apagado que leve a nau do catolicismo definitivamente para os abrolhos.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:40 PM


{Segunda-feira, Fevereiro 07, 2005}


ANOTAÇÕES VENENOSAS DE UMA SEGUNDA DE CARNAVAL


1. A MORTE ESPERADA E DESEJADA: Woytila subiu no telhado. Se for, já vai muito, muito tarde. Mas tenho revisto minha opinião sobre ele: contribuiu para o começo da decadência da igreja católica e isso é muito bom. Tomara que seu sucessor continue essa obra magnífica. Por outro lado, destruído o catolicismo, sobrarão mais fiéis para os fundamentalismos de milhares de outras pequenas igrejas cujo objetivo é só arrancar dinheiro de seus fiéis. MON COEUR BALANCE!

2. SERRA, SERRA, SERRADOR: o novo prefeito de São Paulo continua só jogando para a arquibancada, enquanto pensa o que fazer ou não fazer com a encrenca que é São Paulo. Dar chilique porque fiscal achaca contribuinte não resolve nada. Desde que inventaram a figura do fiscal, há sempre aqueles que pretendem levar vantagem e dificultam a vida do cidadão para vender impunidade. São os ladrões de sempre e devem ser postos no olho da rua a cada extorsão ou tentativa, sem dó nem piedade. Rosne menos e aja mais, senhor Serra.

3. CARNAVAL PAULISTANO: é muito bom, mas continua sendo um aperitivo frente aos desfiles do Rio. Agora, dezesseis escolas de samba no grupo especial é um despautério. Ninguém merece. São Paulo comporta, no máximo, doze grandes escolas. O resto que se enrosque nos grupos de acesso.

4. AS ARBRITRAGENS NO FUTEBOL: continuam um horror. Até quando o amante do esporte bretão (eta frasesinha horrorosa!) suportará ver os erros escandalosos dos homens de preto que não mais se vestem de preto? As federações devem botar essa gente que ganha bem por noventa minutos de trabalho para estudar as regras, para exercitar o bestunto e as pernas, para não cometerem tantos erros dentro dos campos. Estudo nessa cambada já!

5. REFORMA UNIVERSITÁRIA: se o Estadão está contra, pode-se ter uma certeza: a reforma é boa. Defender a escola privada é a maior sacanagem que se faz contra a educação no Brasil. De dez escolas particulares, só uma tem o direito de ter o nome ESCOLA em sua fachada. E essa única não precisa do governo. Servem a nichos que as merecem. As demais constituem um bando de assaltantes do dinheiro do povo: só fazem propaganda, porque ensino de qualidade, mesmo, só para quem acha, como o Estadão, que defender essa gente (os chamados empresários da educação) é defender a iniciativa privada. DEVE-SE DEFENDER COM UNHAS E DENTES O ENSINO PÚBLICO. Se não é bom, que os cidadãos se concentrem em obrigar o governo, qualquer governo, a melhorá-lo. EDUCAÇÃO É POR DEMAIS IMPORTANTE PARA UMA NAÇÃO, PARA DEIXAR NAS MÃOS DE AVENTUREIROS DA CHAMADA INICIATIVA PRIVADA. Há muitas outras coisas que podem ser deixadas para eles, mas não a EDUCAÇÃO, que é o patrimônio futuro de um povo. Ter lucro, e exorbitante, com educação é CRIME, CRIME DE LESA-PÁTRIA. E não me venham com o papo de que educação privada não dá lucro: não conheço um só dono de escola que não seja, no mínimo, milionário. Às expensas de altas mensalidades cobradas dos alunos e de baixos salários pagos aos professores.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:09 PM


{Terça-feira, Fevereiro 01, 2005}




O CANTOR DAS MULTIDÕES




Neste fim de semana, fui assistir a uma peça chamada ORLANDO SILVA, O CANTOR DAS MULTIDÕES. Tuca Andrade, um ator global, faz com competência e sensibilidade o protagonista. Não tenta imitar a voz do Orlando, mas seu estilo de cantar. Dá uma boa idéia do que foi a vida e a carreira do maior cantor brasileiro de todos os tempos, apesar de pouca gente saber disso. Não vi a peça com olhos de dramaturgo, mas com a sensibilidade aguçada para um tempo que vivi, não o do Orlando, mas muitas vezes embalado por sua voz.

Não sou propriamente contemporâneo do Orlando, pois nasci em 45, quando ele estava no auge da fama. Quando comecei a tomar consciência de música popular, lá pelos finais dos anos cinqüenta, já despontava a bossa nova, o rock, embora ainda se tocassem e se ouvissem muito bolero, valsa, rumba, chá-chá-chá e outras coisas mais. No entanto, tive o meu gosto musical despertado para a música do passado ¿ anos trinta e quarenta, principalmente ¿ por influência de meu amigo Vitório.

Conhecemo-nos no primeiro ano do Grupo Escolar Álvaro Botelho, aos sete anos. Daí para frente, crescemos juntos, como irmãos. Era ele o mais velho entre as irmãs e eu, o mais, e bem mais, novo entre três irmãos. Não tínhamos, pois, outros irmãos (homens) de idades próximas com que conviver. Completamo-nos. Nunca soube por que o Vitório gostava de música antiga, que ouvíamos, ávidos, em programas de longínquas emissoras no velho rádio de ondas curtas do meu quarto. Só sei que cultivávamos esse, no mínimo, estranho gosto pelas vozes de Vicente Celestino, Paraguaçu, Sílvio Caldas e tantos outros daquela que só mais tarde fiquei sabendo ser a era de ouro da música brasileira. Enquanto o Vitório permanecia agarrado a esses ídolos tão antigos, eu ainda consegui acompanhar um pouco do que aparecia na época: a bossa nova e o rock, com muito mais entusiasmo, porém, pela primeira, ao lado de peças clássicas que vinham pelas ondas da Nacional. Até hoje, mais de cinqüenta anos depois, ainda cultivo o prazer de ouvir os velhos seresteiros e gosto, especialmente, de Orlando Silva.

Assim, ao assistir ao espetáculo sobre a vida desse cantor, não consegui impedir que a emoção tomasse conta de mim. Primeiro, porque a peça é razoavelmente bem feita, com bons atores e, segundo, porque pontuada do princípio ao fim pelas canções mais famosas do cantor das multidões. E as canções todas me fizeram lembrar muito o meu amigo Vitório e nossos anos de meninice peralta e juventude difícil nas ruas tortas de Lavras. Não tenho saudade daqueles tempos, no sentido de desejar que eles voltassem. Meus sentimentos são muito mais de emoção, de carinho por amizades hoje tão distantes, de ternura por ter tido a oportunidade de conviver com tantos colegas e amigos e, principalmente, com o Vitório.

Hoje, estamos separados por uma cortina de silêncio por parte dele. Silêncio que respeito, mas tento quebrar com muita sutileza e delicadeza. Assim como não sei por que ele gostava tanto de músicas antigas, não sei por que mantém essa cortina tênue e, ao mesmo tempo, tão pesada entre nós. Não faz mal: a voz dos velhos seresteiros continua viva em meu toca-discos e, às vezes, numa peça de teatro como a que assisti no último fim de semana. E as canções que eles cantam, cada vez melhor, só me trazem as boas recordações de Lavras, porque as ruins, talvez mais profícuas, eu prefiro deixar num canto mais escuro e quase inacessível de minha memória.



posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:22 PM

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