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{Segunda-feira, Janeiro 31, 2005}


IDADES

Há idades míticas. Os dezoito, os vinte e um, os trinta, os quarenta, os cinqüenta, os sessenta... Aos dezoito, a sensação de nos tornarmos adultos, mas ainda irresponsáveis: tudo podemos porque tudo sonhamos, ou vice-versa. Os vinte e um, apenas o gosto de uma pretensa responsabilidade. Passam como o vento e somos civilmente adultos. Só isso. Os trinta, a maturidade. Para muitos, o sofrimento de vencer na vida. O desejo de estabilidade. Casamento e filhos são a conseqüência do instinto de sobrevivência. Os quarenta nada acrescentam, são apenas um mito bobo de que a vida começa aos quarenta. Alguns dizem que na farmácia. Nem uma coisa, nem outra. Apenas uma data no calendário, que muitas vezes nos esquecemos de comemorar porque estamos simplesmente vivendo, trabalhando, criando, crescendo ou não. Lutando, enfim. Os cinqüenta chegam assustando um pouco: afinal meio século de vida é para se pensar. Mas é apenas a chegada da maturidade, aquela que pensamos ter adquirido nos trinta, nos quarenta... Do alto da curva da vida, podemos contemplar melhor o passado e... o futuro. Ainda há futuro.

Mas os sessenta... São a idade da ecologia: convive-se com bicos-de-papagaio, com cataratas... Muitas a denominam a idade do condor: com dor aqui, com dor ali. Troca-se um ou outro chope por chá, na ânsia de recuperar o antigo vigor. O espelho não reflete, oprime. O joelho não dobra, dói. A memória vem a passos de tartaruga. E o desejo, como bicho-preguiça. Iludimo-nos com termos bonitos e vazios como terceira idade, melhor idade, mas sabemos, bem no fundo de nossa consciência, que estamos ficando velhos, mesmo que nos recusemos terminantemente a pensar que o fim se aproxima.

Assim é o bicho-homem: às vezes mais bicho do que homem. Cumprimos, aos sessenta, a trajetória do oráculo de Édipo. Não sabe? Eu conto. O monstro que habitava os penhascos próximos de Tebas propunha enigmas e devorava quem os decifrasse. A Édipo propôs: qual animal tem quatro pernas pela manhã, duas ao meio-dia e três ao anoitecer? Édipo respondeu que era o homem: engatinha quando criança, caminha com duas pernas durante a vida e usa bengala quando velho. A esfinge precipitou-se no abismo. E nós também. Com bengala e muitas outras coisas, como próteses, cadeiras de roda, mil remédios...

Não há volta, não há esperança: os sessenta, se alguma vantagem têm é a de não nos iludimos mais. Embora continuemos, teimosamente, a sonhar. E, por mais ridículo ou absurdo que possa parecer, a única esperança dos sessenta é voltar a ter os sonhos dos dezoito, com o vigor dos trinta, o denodo dos quarenta e a experiência dos cinqüenta. Com, pelo menos, um dos três pés atrás, é claro, que o homem e a mulher de sessenta, embora convivam com todos os achaques da idade, podem ser tudo, menos bobos... Embora, a essa altura do campeonato, fazer-se de bobo tem lá suas vantagens... Principalmente quando os jovens de hoje ficam cada vez mais espertos.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:45 PM


{Sexta-feira, Janeiro 14, 2005}


UMA ESMOLINHA, PELO AMOR DE DEUS...

Aqui, no bairro onde moro, Jabaquara, São Paulo, uma velhinha mendigava pelas ruas. Até que foi flagrada saindo do supermercado com um carrinho cheio de compras, com a filha, para colocar no porta-malas de um carro do ano.

Também por aqui zanzava outra senhorinha que pedia aos usuários do terminal de ônibus para o litoral que a ajudassem a completar sua passagem. Isso depois de contar uma triste história, é claro. Deve ter completado a passagem para o Japão, a julgar pelo tempo em que ficou por aqui.

Uma vez, na fila do teatro, que se alongava pela rua, no Sesc Consolação, assisti a um teatro tão bem desempenhado quanto o espetáculo que iria ver lá dentro. Um tiozinho contou para todos um história tão escabrosa (tinha Aids, seus filhos também, morava nos baixos do viaduto etc.), que metade da fila acabou se comovendo.
No metrô, de vez em quando, alguém encena um espetáculo assim, driblando a segurança e procurando tocar o sentimento das pessoas com histórias tristes ou bilhetinhos em que se resume um longo rosário de sofrimentos.

Costumamos chamar pessoas sovinas de pão-duro. A origem dessa expressão tem uma história interessante. No Rio de Janeiro, no século XIX, havia um mendigo popular que tinha esse apelido. Quando morreu, acharam sob o colchão, em seu barraco, uma enorme quantia de dinheiro, em notas miúdas, fruto de anos de mendicância.

Há muitos anos, participei de uma organização filantrópica, em minha cidade natal, Lavras (MG) e, jovem ainda, descobri naquela época o termo pobreza envergonhada. Ou seja: o verdadeiro pobre, que se esconde da sociedade, que vive e morre em buracos sujos e dos quais poucos tomam conhecimento. Para esses deve-se voltar a preocupação do assistencialismo social, seja público ou privado.

Tudo isso, para dizer que apóio incondicionalmente a campanha do novo secretário do Desenvolvimento e Assistência Social da Prefeitura de São Paulo, Floriano Pesaro, que pede o fim das esmolas.

Eu sei que muitas pessoas ficarão escandalizadas com a proposta, mas a mais pura verdade é que a esmola dada na rua não vai para as mãos de quem verdadeiramente precisa, mas em sua absoluta maioria cai na mão de golpistas e malandros.

Além disso, dar esmolas é manter na rua o menino ou a menina que, mesmo abandonados e necessitando, não procuram sair da situação em que se encontram. A rua tem liberdade, sexo, droga. E com dinheiro, também alimentação. Então, para quê a criança principalmente, vítima da situação social de pais que a abandona, vai procurar abrigo onde tem de seguir regras, estudar, manter-se limpo?

Dar esmolas é, realmente, contribuir, na maioria das vezes, para manter o indivíduo na indolência, nas drogas, na vida sem sentido das ruas.
O mais correto, sempre, deve ser buscar instituições idôneas e ajudá-las. Portanto, secretário, estou com você e não abro: NÃO DÊ ESMOLAS, NEM PELO AMOR DE DEUS.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:31 PM


{Terça-feira, Janeiro 11, 2005}


ANO NOVO


O meu realismo, muitas vezes, confunde-se com pessimismo. E o ceticismo, com cinismo. Não sou pessimista nem cínico. Apenas não compartilho com a noção de que devemos nos mover no mundo como uma tusumani humana (para usar a palavra tragicamente colocada na moda). Ou seja, tudo tem de ser feito por todos ao mesmo tempo. Comemorações, por exemplo. Quer coisa mais chata que todo mundo se apertar, se amontoar, se matar e morrer por uma bobagem de uma data que nada significa? O que é natal, ano novo, dia da pátria, dia de não sei o quê senão pretextos para todo mundo fazer a mesma coisa? Por que as pessoas precisam se juntar aos milhares, agora aos milhões, para provocar, quase sempre, tragédias e comoções que poderiam ser evitadas, se houvesse um mínimo de respeito por quem comete essas loucuras?

Verão. Então, corre todo mundo para a mesma praia, para fazer as mesmas coisas, congestionando estradas, provocando acidentes, como se fosse obrigação ser feliz porque é verão. E muitos exageram, comem demais, bebem demais, tomam sol demais e... morrem demais!

A vida fica dividida em ser feliz no verão e tocar as obrigações no resto do tempo. E o tempo, que o homem dividiu tão bem dividido, só tem seqüência real no lento girar do planeta em torno do Sol, a marcar dias e estações, nada mais. Os anos são subcategorias de uma divisão arbitrária de um calendário que nos obriga a renovar o tempo a cada primeiro de janeiro, como se um novo tempo começasse. E não há tempo novo nenhum. Há apenas dias, há apenas estações, há apenas o lento e imponderável movimento que nos permite noções primitivas de passado, presente e futuro. Sonhamos por um novo tempo apenas porque precisamos recarregar nossos anseios por algo que não sabemos bem o que é e que denominamos felicidade.

E ficamos presos nesse conceito. Felicidade que desejamos aos outros e a nós mesmos. Felicidade que procuramos nos instantes, breves, de alegria. E nunca encontramos essa tal de felicidade. Porque o homem existe apenas para viver, não para algo além disso. E viver significa o quê? Não sabemos muito bem, por isso nos achamos infelizes ou morremos tentando encontrar o motivo por que estamos aqui. Não nos conformamos com a vida e queremos mais, como se a vida não fosse o bem supremo. Viver é o bem supremo do homem. Nada mais.

Viver é ser feliz e ser feliz é viver. Não há metafísica nenhuma na vida. Como não há metafísica nenhuma na natureza. E somos apenas parte dessa natureza. E esse apenas é muito, diria, mesmo, que é o tudo que o homem pode almejar. Por isso, valorizar a vida ao extremo, viver, disso é que o homem precisa tomar consciência, sem culpa, sem deuses, sem metafísica, para que o ano novo seja apenas uma categoria inútil de um tempo que se conta pelo girar das estrelas no infinito, levando de roldão um mundinho perdido entre o nada e o tudo de que é feito o universo.


iesidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:58 PM


{Sexta-feira, Janeiro 07, 2005}


REFORMA POLÍTICA


Sei que o assunto é complexo e polêmico e não caberia discuti-lo aqui em toda a sua profundidade. No entanto, é necessário, dentre outras tantas necessidades, que comecemos a colocar na agenda da opinião pública tal tema, antes que os nossos políticos sentem sobre as suas respectivas e bem nutridas bundas e consigam parir, mais uma vez, uma reforma meia-boca.

Houve alguns avanços políticos, é claro. Mas o preço a pagar por um regime democrático está ligado fundamentalmente no aperfeiçoamento constante das instituições. E quando se fala em reforma política, está-se falando especificamente em perda de privilégios de alguns em benefício de todos. O problema é que esses alguns são os que decidem e, apegados ao osso conquistado, não querem de forma alguma ouvir falar em uma reforma séria, que acabe com muitas das sacanagens que eles, os políticos, costumam fazer para manterem suas boquinhas.

Então, minha sugestão é que veículos democráticos de comunicação comecem a discutir o assunto, colhendo opiniões, ouvindo as pessoas que realmente desejam um País melhor, para que se chegue a uma reforma que acabe com privilégios e contribua realmente para o aperfeiçoamento de nossa democracia.

Assim, para apimentar o debate, algumas idéias, para serem devidamente debatidas e aprofundadas, com prós e contras, numa troca saudável de opiniões:

1. MANDATO: acredito que 4 anos seja pouco e 8 (com reeleição) seja muito. Ficaria com um mandato de 6 anos, para todos os cargos políticos, desde presidente da república até vereador. Talvez com mecanismos que permitam o ¿impeachment¿ (de forma mais acessível ao povo, para todos os cargos) ao longo do terceiro ano.

2. REELEIÇÃO: fica proibida para o mesmo cargo. Ou seja, se o cidadão foi eleito vereador, ou ele se candidata a outra coisa ou fica em casa pelos seis anos seguintes. Fica em aberto, para discussão se essa regra vale só para cima ou também para baixo, ou seja, um senador se candidatar a deputado, etc.

3. COINCIDÊNCIA DE MANDATOS: eleição coincidente (no mesmo dia), para todos os cargos.

4. VOTO DISTRITAL MISTO para cargos proporcionais: deputados (estaduais e federais), vereadores etc.

5. FIDELIDADE PARTIDÁRIA: o mandato deve pertencer ao partido. Se um político mudar se desligar ou for desligado do partido que o elegeu durante o exercício de qualquer cargo político, perde o mandato.

6. PRESIDÊNCIA DAS ASSEMBLÉIAS LEGISLATIVAS (câmara de vereadores, estaduais, câmara federal e senado): mandato de três anos, exercido, no primeiro período, pelo candidato mais bem votado e, no segundo, pelo segundo mais votado, independente do partido. Ou mandato de dois anos, com três períodos, exercido respectivamente pelos três mais votados. Os demais cargos da mesa diretora devem ser preenchido pelos critérios atuais de proporcionalidade. A idéia é que o povo, dessa forma, já escolhe naturalmente os chefes dos poderes legislativos.

7. RECESSO PARLAMENTAR: somente de trinta dias por ano, em época a ser determinada pela lei.

Mais uma coisa: qualquer que seja a reforma a ser feita, ela deve entrar em vigor dentro de seis anos, quando houver terminado um possível segundo mandato dos atuais ocupantes de cargos executivos, para que se evitem casuísmos e se tenha tempo para pensar em formas de transição, como mandato-tampão para coincidir todas as datas.

Bem, são algumas idéias colocadas de forma meio simplista (diria, mesmo, meio simplórias) que eu, como cidadão, gostaria de ver postas em práticas, depois de devidamente discutidas por todos. Para isso, sugiro que as pessoas que lerem esse artigo, contribuam com suas opiniões e divulguem as idéias acima, seguidas ou não de opiniões contrárias ou favoráveis. Só assim poderemos contribuir para que tenhamos uma democracia mais sólida.


iesidney@uol.com.br

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:59 PM


{Domingo, Janeiro 02, 2005}


O AVIÃO DO LULA E A CABEÇA DE MERDA DE MUITOS JORNALISTAS
Respeito a imprensa. Liberdade total. Falem o que quiserem, mas agüentem o tranco, depois. E o tranco pode ser chamar de cabeça de merda os jornalistas imbecis (que os há, e muitos!) que reclamam que o Governo está comprando um avião para a Presidência.

Vejam: antes, apelidaram o antigo avião presidencial de SUCATÃO! Velho, perigoso, já não atende às necessidades do Governo. É mesmo um sucatão. Agora, porque o Governo resolveu comprar um avião mais moderno, mais de acordo com suas necessidades, acham que o avião é do Lula. Ou, pelo menos, levam os seus leitores a acreditar que assim é.

São uns imbecis. É o mínimo que se pode dizer. O avião já devia ter sido comprado há muito tempo e ele servirá à Presidência da República, uma instituição, se é que vocês me entendem. Não é uma aeronave do Presidente, mas da Presidência. Não importa quem ocupe o cargo. O Lula não vai levar o avião para casa, quando deixar de ser presidente. Ele não tem vaga na garagem de seu apartamento, em São Bernardo, para um avião.

Então, que não se misturem as coisas: dizer que com o valor do avião pode-se construir tantas casas populares ou abrir tantos leitos ou fazer tal ou tal coisa é estupidez de quem sabe o que faz e faz bem, ou seja, INTRIGA. E intriga é coisa de jornalistinha de cabeça de merda, que não sabe o que diz, que usa a imprensa para divulgar dor de cotovelo de perdedores, que não tem o mínimo de ética. Porque uma coisa é verba aprovada para projetos do Governo e outra, muito diferente, é verba aprovada para que o Governo funcione ou adquire patrimônio de Estado. Não, não vou ficar chovendo no molhado. Esses jornalistinhas sabem muito bem do que estou falando. A eles não interessa a verdade, apenas atendem a interesses mesquinhos e imbecis.

Felizmente, se são muitos os que entram nesse tipo de jogo, não são a maioria. Mas como incomodam e enchem o saco! Têm, realmente, merda na cabeça e, mais do que isso, merda com intenções nada, nada democráticas.


iesidney@uol.com.br

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:32 PM

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