{Veneno de Cobra } spacer
spacer
spacer
 

{Quinta-feira, Novembro 25, 2004}


NOSTALGIA:

Um tempo, um tempo que se foi... e uma música:

La Bohème.

(Jacques Plante, gravação de Charles Aznavour)

Je vous parle d'un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaître
Montmartre en ce temps-là
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenêtres
Et si l'humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C'est là qu'on s'est connu
Moi qui criait famine
Et toi qui posais nue.

La bohème, la bohème
Ça voulait dire on est heureux
La bohème, la bohème
Nous ne mangions qu'un jour sur deux

Dans les cafés voisins
Nous étions quelques-uns
Qui attendions la gloire
Et bien que miséreux
Avec le ventre creux
Nous ne cessions d'y croire
Et quand quelque bistro
Contre un bon repas chaud
Nous prenait une toile
Nous récitions des vers
Groupés autour du poêle
En oubliant l'hiver.

La bohème, la bohème
Ça voulait dire tu es jolie
La bohème, la bohème
Et nous avions tous du génie.

Souvent il m'arrivait
Devant mon chevalet
De passer des nuits blanches
Retouchant le dessin
De la ligne d'un sein
Du galbe d'une hanche
Et ce n'est qu'au matin
Qu'on s'asseyait enfin
Devant un café-crème
Epuisés mais ravis
Fallait-il que l'on s'aime
Et qu'on aime la vie.

La bohème, la bohème
Ça voulait dire on a vingt ans
La bohème, la bohème
Et nous vivions de l'air du temps

Quand au hasard des jours
Je m'en vais faire un tour
A mon ancienne adresse
Je ne reconnais plus
Ni les murs, ni les rues
Qui ont vu ma jeunesse
En haut d'un escalier
Je cherche l'atelier
Dont plus rien ne subsiste
Dans son nouveau décor
Montmartre semble triste
Et les lilas sont morts.

La bohème, la bohème
On était jeunes, on était fous
La bohème, la bohème
Ça ne veut plus rien dire du tout.


Para ouvir a música:
http://www.magossi9.hpg.ig.com.br/charles.htm


posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:57 AM


{Quarta-feira, Novembro 17, 2004}



Íncubo: Heinrich Füssli, 1741 a 1825

De como as Bruxas nos Tempos Modernos praticam o Ato Carnal com Íncubos, e de como se Multiplicam através Dele.

Ora, pelo que já explicamos, não vamos encontrar maior dificuldade em esclarecer o assunto principal, qual seja, o do ato carnal praticado pelos Íncubos, na sua forma criatural, com as bruxas. Salvo se o leitor duvidar que as bruxas de nossos tempos pratiquem tal coito abominável e que sejam geradas através dessa monstruosidade.
Havemos de contar, para esclarecer essas duas dúvidas, alguma coisa a respeito da atividade das bruxas que viveram em tempos mais remotos, por volta de 1.400 anos da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não se sabe, por exemplo, se eram dadas a essas práticas obscenas como o são as bruxas modernas desde então; a história, ao que sabemos, nada revela a respeito desse assunto. Mas ninguém há de duvidar que sempre tenham existido as bruxas e que, pelas suas obras maléficas, muitos males já tenham causado aos homens, aos animais e aos frutos da terra. E mais: que tenham sempre existido os Íncubos e os Súcubos. Pois que a tradição canônica e a tradição dos Doutores da Igreja têm-nos legado muitas informações a seu respeito, durante centenas de anos. No entanto, há uma diferença importante: nos tempos mais remotos, os Íncubos costumavam molestar as mulheres contra a sua vontade, conforme nos faz saber Nider em seu Formicarius, e Tomás de Brabante, no seu livro sobre o Deus Universal e no outro livro, Sobre as Abelhas.

Mas a teoria de que as bruxas modernas se acham contaminadas por essa espécie de lascívia diabólica não está consubstanciada apenas em nossa opinião; tal crédito há de ser atribuído ao testemunho abalizado das próprias bruxas. Hoje, pelo que nos contam, entregam-se a essas práticas não mais involuntariamente, como em épocas distantes, mais sim voluntariamente, revelando a servidão mais abjeta e miserável. Quantas mulheres não deixamos de punir pelas leis seculares em várias dioceses, mormente em Constância e na cidade de Ratisbon, onde as bruxas se entregavam a tais abominações, algumas desde os vinte anos, outras desde os doze ou treze anos, e sempre com uma negação, total ou parcial, da Fé? Todos os habitantes desses lugares são testemunhas desse fato. Pois sem contar as que se arrependeram em sigilo e as que retornaram ao caminho da Fé, não menos que quarenta e oito foram queimadas em cinco anos. E não há por que duvidar da veracidade de suas histórias, pois que livremente mostraram-se arrependidas. Todas concordam num ponto: foram levadas e entregaram-se a tais práticas obscenas para engrossas as fileiras daquelas hostes perversas. Trataremos no entanto de cada caso, individualmente, na Segunda Parte deste trabalho, descrevendo em particular cada um de seus atos. Omitiremos apenas os caso que chegaram ao conhecimento do Inquisidor de Como, no Condado de Búrbia, e que, no espaço de um ano (o ano da graça de 1485) levou à fogueira quarenta e uma bruxas. Todas as bruxas afirmaram publicamente que praticavam tais abominações com demônios. Portanto, a matéria se acha perfeitamente consubstanciada por testemunhas oculares e também por outras testemunhas dignas de todo crédito.

Quanto à segunda dúvida (se as bruxas são geradas durante a prática dessas abominações) podemos acompanhar o que diz S. Agostinho: não há dúvida de que todas as artes supersticiosas tiveram sua origem no vínculo carnal pestilento entre homens e demônios. Diz-nos esse autor textualmente em seu De Doctrina Christiana: Todas as práticas dessa natureza, sejam inócuas, sejam nocivas, originaram-se da união pestífera entre homens e demônios, como se entre eles se tivesse firmado um pacto da amizade infiel e pérfida, pelo que todos hão de ser completamente repudiados. Explicita o autor nessa passagem já a existência de várias espécies de superstições ou de artes mágicas, várias sociedades dos que as praticam; e com dentre as quatorze espécies a pior é a das bruxas (pois que têm firmado um pacto tácito e explícito como demônio e, mais do que isso, têm se entregado a uma espécie de adoração do diabo ao abjurarem a Fé), conclui-se que as bruxas mantêm o vínculo de pior espécie com os demônios, mormente pelo seu comportamento como mulheres que, como todas as outras, se deleitam com coisas fúteis e vãs.
Reparar também na passagem do Segundo Livro das Sentenças (dist .4, art. 4) em que S. Tomás, ao dar a solução de um argumento, indaga se as bruxas que se entregam dessa forma aos demônios não seriam mais poderosas do que os homens. Pois responde que essa é a verdade. Esteia o seu ponto de vista no texto das Escrituras, Gênese, VI: Naquele tempo viviam gigantes na terra. E esteia-o também no seguinte motivo. Os demônios sabem de que modo avaliar as virtudes do sêmen: primeiro pelo temperamento de quem o sêmen é obtido; segundo, sabendo qual mulher é mais adequada para recebê-lo; terceiro, sabendo qual a constelação astral ideal para o efeito corpóreo almejado; e podemos acrescentar, em quanto lugar, que os gerados pelos demônios são os de melhor disposição para as obras diabólicas. Ao concorrerem todas essas causas, concluímos que os homens assim concebidos são fortes e de corpo avantajado.

Portanto, voltando à pergunta sobre a origem das bruxas, devemos dizer que tal origem se encontra na mútua associação pestífera com os demônios, como já ficou claro pelo que dissemos. Mas ninguém pode afirmar com certeza que não aumentam em número e se multiplicam através dessas práticas abjetas, embora os demônios cometam tais atos não por prazer, mas para a perdição das almas. Eis como se dá tal processo, sucessivamente. Um Súcubo recolhe o sêmen de um homem perverso e, se for ele o demônio próprio daquele homem e não desejar transformar-se em Íncubo para uma bruxa, passa o sêmen para outro demônio delegado a uma mulher ou bruxa; este então, sob os auspícios de uma constelação que favoreça os seus propósitos (de gerar um homem ou uma mulher vigorosos na prática da bruxaria), transforma-se no Íncubo para uma outra bruxa.

Dizer que os gigantes dos primeiros tempos não eram dedicados à bruxaria não se constitui objeção aos nossos argumentos: as bruxarias não eram realizadas àquela época dada a lembrança recente da Criação do Mundo, que não deixava margem para a Idolatria. Mas à medida que crescia a perversidade no seio da humanidade, o diabo ia encontrando mais oportunidades para disseminar essa espécie de perfídia. No entanto, os que naquele tempo eram chamados de prodigiosos e de poderosos não necessariamente o eram por causa de suas boas virtudes.


O MARTELO DAS FEITICEIRAS / Heinrich Kramer e James Spengler; introdução histórica. Rose Marie Muraro; prefácio, Carlos Beynton; tradução Paulo Froes, 11ª ed., Rio de Janeiro: Record : Rosa dos Tempos. 1995. Tradução de: Malleus Maleficarum, publicado em 1489.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:59 PM


{Quinta-feira, Novembro 11, 2004}


MAIS UM CONTO...


Nesta tarde de chuva, recordo a reunião do Grupo de Contistas de São Paulo, em casa de minha amiga Carmen Rocha (por cuja recuperação torço muito), há um ano, quando o tema para se escrever um conto era um copo de vinho. Aí está o que eu perpetrei, para a ocasião, um conto circular:

UM COPO DE VINHO


... embora minha língua já esteja roxa e grossa; do outro lado da mesinha redonda do bar, os sons (música, conversa, talheres ) não impedem que eu ouça apenas um marulhar de ondas vindo de sua boca carnuda e vermelha a queimar por dentro o meu peito, e o meu estômago roda em ânsias de querer sair dali e ao mesmo tempo o cérebro lateja e o coração aperta e comprime o peito, arrebentando o botão de meu colarinho e ela ri e eu a desejo mais que tudo naquele bar no centro da cidade, a cidade que pulsa lá fora e aqui dentro eu quero um beijo, apenas um beijo que redima o fato de estar aqui, eu sei, não posso, não posso, e ela é encarnação de sonhos de toda uma vida, uma voz a marulhar em meus ouvidos, leve perfume de narcisos e o toque suave de sua mão sobre a minha ao desvelar com graça mais um pequeno detalhe de sua vida, o decote do vestido a revelar uma curva leitosa de caminhos que não ouso imaginar, eu , tensão e tesão, amor e desejo e não posso, não posso, o sonho impossibilita-se ao ser sonhado, quero acordar, mas os sons do centro da cidade não me deixam senão mais alerta e meus sentidos se voltam mais uma vez para o perfume de seus cabelos, trigal de delícias a dissolverem-se em minha boca em brioches e croissants, em cremes e recheios de nozes e passas, e o pão que assa o meu ventre, fermento de paixão a latejar em meu ventre, sua mão, longos dedos a percorrer o espaço e descrever algo que não sei bem o que é e sua voz pianíssima a bater em meus tímpanos e o sonho de estar com ela em algum colchão de nuvens, a ouvir anjos risonhos de igrejas barrocas, a tocar sua pele em suavidades de narcisos, e o bar segue um ritmo que eu não acompanho e o sonho se dissolve quando o pensamento voa para longe, para longe, e eu quero voltar e eu quero voltar ao bar, ao sonho, ao bar, ao sonho e eu quero voltar, o pensamento se fixa no som da música e no som entrecortado das conversas e dos talheres, no cheiro de pães, de doces, de fermento, no calor de seus dedos sobre o meu braço, no sabor da bebida a refletir na taça o vermelho suave de uma mal entrevista lingerie, e o pensamento se prende e luta para não voar, o olho que se desvia e se prende a outros olhos ali fora, não, não posso, não quero, mas o olho se volta, se volta e se prende a outros olhos além do vidro, na calçada lá fora tão longe do bar, ali tão perto, não mais que a extensão de meu braço, tão longe quanto os caminhos que sigo para voltar, ali, dois olhos me olham e me lembram, dois olhos pequenos e ávidos, apenas um menino curioso, logo puxado pela mão tensa de um braço solto no ar, apenas uma criança e talvez sua mãe, e meu pensamento se desprende e voa, enfim, para onde está meu filho, a sofrer numa cama de hospital e eu não posso continuar aqui e a sonhar este sonho de narcisos e trigais, de sedas e arminhos, e então eu só quero mais um copo, só mais um copo de vinho...


quinta-feira, 11 de novembro de 2004

ISAIAS EDSON SIDNEY
Grupo de Contistas de São Paulo

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:40 PM


{Quarta-feira, Novembro 10, 2004}




PAVANA PARA BAGDÁ


Nos meus tempos de ginásio, lá em Lavras, no velho Colégio Nossa Senhora Aparecida, as aulas de História abriam sonhos impossíveis. Aprendíamos que Mesopotâmia significava região entre rios e designava um dos berços da civilização, ali, entre o Tigre e o Eufrates. E Bagdá era a cidade misteriosa, uma espécie de capital retrô de um passado de lutas, conquistas, mas também de beleza e civilização. Suas torres e minaretes desenhavam em nossa imaginação uma civilização estranha, de homens de turbante e mulheres que entremostravam olhos de sonho sob véus melífluos a cobrir-lhes o rosto. Bagdá tinha o encanto de mundos proibidos, um leve sopro de libido a varrer o deserto. Mítica e mística.

Só muito mais tarde soubemos das privações e da verdadeira cultura de um povo tão antigo. Só muito mais tarde soubemos de Saddam Husseim. Só muito mais tarde soubemos das divisões internas, das tribos envolvidas em profundas disputas, da riqueza do petróleo e da pobreza do povo. Mesmo assim, Bagdá ainda era a virgem intocada no deserto, a guardar tesouros de antigas civilizações.

Mesmo que suas torres e minaretes dourados mostrassem já o deslustre do tempo e a ferrugem da fumaça do petróleo queimado nos motores de automóveis luxuosos a percorrer suas praças, avenidas e becos, Bagdá estava lá, imponente, à espera de dias melhores, ciosa de seus tesouros, uma deusa envolta em sonhos à espera de cultores de sua majestade, homens e mulheres cultos e belos o suficiente para entender o seu ar vetusto e, ao mesmo tempo, maroto de jovem donzela de centenas de anos.

E então, eis que a captura de um único homem, não o Aladim e seus quarenta ladrões, mas o tirano e seus milhares de assassinos, transforma a mítica e mística Bagdá num pesadelo de bombas, de escombros, de sujeira e sofrimento. E a Bagdá dos meus livros de História desmancha-se no ar pesado de rolos de fumaça, deixando em minhas retinas a foto de uma cidade aonde nunca fui, aonde nunca irei, uma cidade que não existe mais.


Isaias Edson Sidney
iesidney@uol.com.br

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:58 AM


{Sexta-feira, Novembro 05, 2004}


BUSH E O LEÃO

Um homem foi atacado por um leão nesta quarta-feira, 3.11.2004, no zoológico de Taipé (capital de Taiwan), ao tentar converter o animal ao cristianismo. Ele foi mordido no braço e na perna. Jesus vai salvá-lo! gritava o homem de 46 anos a dois leões africanos que estavam deitados sob uma árvores, a alguns metros dele.
A notícia acima foi publicada em todas as mídias do mundo. Enquanto isso, Bush era eleito presidente da maior potência do mundo, para mais quatro anos. E o mundo, estupefato, pergunta: quem elegeu Bush?

Bem, o homem que entrou na jaula do leão para salvá-lo para Jesus não era americano. Mas podia ser. E se fosse, votaria no Bush. Porque foi gente como ele quem elegeu o Bush. Gente que pretende salvar até as feras dos males do materialismo ateu que ameaçava a família norte-americana com leis mais liberais sobre aborto, casamento gay etc.

Bush não foi eleito porque enfrentou o terrorismo ou invadiu o Iraque. Bin Laden continua vivo e ameaçador; a invasão, um fracasso anunciado, transforma-se em tragédia.
Bush não foi eleito porque baixou impostos ou melhorou a economia. O desemprego cresce e o déficit orçamentário alcança as nuvens. Os Estados Unidos que Clinton (o come-quieto não tão quieto assim) deixou parece, sob o comando de Bush, caminhar para o desastre financeiro e econômico, ampliado pelos gastos com a guerra atual e com as que ele ainda pretende inventar.

Bush não foi eleito porque conduziu a nação americana a uma política internacional de respeito às demais nações, de colaboração com a ONU e de luta pela paz. Nunca o mundo olhou com tanta desconfiança para uma nação, como a que Bush governa. Nunca tantos odiaram tanto os norte-americanos, por seu desrespeito às Nações Unidas e aos demais povos do globo, com a exacerbação de sua mania de ser a polícia do mundo.

Bush não foi eleito porque defende o meio-ambiente. As florestas norte-americanas devem tremer ao nome de Bush. E, por extensão, as do mundo inteiro também. Além de não ter assinado o protocolo de Kyoto, Bush cuspiu na cara dos cientistas que querem salvar o planeta da poluição.

Bush foi eleito, fundamentalmente, pelos grotões moralistas encravados em cada estado norte-americano. Gente que reza várias vezes por dia, como Bush. Gente que vai ao templo quase todos os dias, como Bush. Gente que tem horror de sexo e de leis liberais, como Bush. Gente que odeia homossexuais, por serem diferentes deles, como Bush. Gente que não quer nem ouvir falar em aborto, como Bush (mesmo que a gravidez seja fruto de estupro ou ponha em risco a vida da mulher, enfim, os casos que todos sabem). Gente que teme a destruição do casamento, se se legalizar a união civil, como Bush. Gente, enfim, que gostaria de entrar na jaula do leão, para levar a fera a amar Jesus, como Bush, que entrou na jaula do Iraque para salvar o povo iraquiano das garras do demônio Saddam.

Há uma onda fundamentalista no ar.

Mais do que isso: há um cheiro de novas cruzadas no ar. Uma nova inquisição, agora comandada por milhares de pastores imbecis e incultos, empesteia o ar do mundo e promete acabar com todos os infiéis, todos os que não rezam por seu culto, por seu fanatismo, por seu Cristo morto numa cruz podre de dois mil anos.

E Bush é o profeta apocalíptico dessa nova cruzada, dessa nova inquisição.

Por isso, Bush foi eleito.

Saíram dos grotões, para votar no Bush, os milhares e milhões de fanáticos moralistas do neo-cristianismo excludente e fundamentalista. Emergiram das catacumbas os novos cristãos, agora fortalecidos pelo discurso bélico de um profeta que detém o poder de dominar o mundo. De detonar todos os malditos hereges e imorais que ameaçam a crença no deus morto há dois mil anos. Nunca houve uma oportunidade como esta, de saciar a sede de sangue de todos os fanáticos fundamentalistas.

Emergiram das catacumbas com suas roupas de plástico, com suas bíblias ensebadas e suas winchesters engatilhadas. Para votar no profeta de um mundo que não haverá deus que o salve, o mundo de Bush.


Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:02 PM


{Quinta-feira, Novembro 04, 2004}


RESCALDOS DA ELEIÇÃO EM SÃO PAULO

1. PROMESSAS DE CAMPANHA

O prefeito eleito, José Serra, não tem projeto para São Paulo. Isso ficou claro em toda a sua campanha. Portanto, não tem promessas a cumprir. Mas, por tudo quanto disse e falou, podemos esperar de imediato uma administração voltada para o equilíbrio orçamentário a qualquer custo. Filhos do monetarismo do governo FHC, aos tucanos só importa o controle do fluxo de caixa, coisa que eles perseguem com sofreguidão assustadora, embora nem sempre consigam obter. Por isso, não espere o contribuinte paulistano nenhum refresco quanto à diminuição de impostos. Muito ao contrário: ainda terão saudades das taxas da Marta.
Pode não ter sido muito hábil o presidente da Câmara, ao dizer que convocaria a bancada do PT para modificar o orçamento e eliminar as taxas criadas pela prefeitura, para adequá-lo às promessas de campanha dos tucanos e à sinalização da população contra sua cobrança, mas foi um interessante balão de ensaio. A tucanada inteira já se manifestou contra tal medida, assustada e desarvorada com a possível queda da arrecadação. Já tem tucano de bico roxo de tanto se coçar. Portanto, paulistanos e paulistanas que votaram no PSDB e paulistanos e paulistanas que não votaram no PSDB: estaremos todos no mesmo barco a proteger nossos bolsos contra o que vem por aí. As taxas da Marta foram ingênuas e transparentes. As do Serra serão de gente que sabe o que faz. Afinal, são profissionais no ato de aumentar a carga tributária. É só lembrar o governo FHC e os impostos que ele criou e deixou para o Lula administrar. Pois é: tucano come milho, PT leva a fama. Quem viver verá.
2. PROJETO POLÍTICO TUCANO
Ainda não sei o que fará o ninho tucano, quando se aproximarem as eleições para Governador. Ou melhor: sei, sim. Apenas ninguém, ainda no ardor das comemorações da vitória, ousa pensar e concordar comigo.
Vejamos: alguém conhece algum tucano com cacife para se eleger governador de São Paulo, em 2006? Unzinho só? Lembre-se de que o atual governador não pode ser reeleito. Ao que parece, será candidato à presidência. O seu apoio entusiasta ao Serra tem este outro lado: uniu o útil ao mais do que agradável, ou seja, tirou do caminho um possível postulante à indicação do partido. Se Lula concorreu três vezes, até se eleger, por que o Serra não podia fazer o mesmo? Mas, aí vem um tiro no pé: e o Governo do Estado? Por isso, minha teoria é que o Serra não vai ficar na Prefeitura de São Paulo. Em dois anos, faz o diabo para se projetar como administrador e, depois, vai deixar os paulistanos nas mãos do Kassab, o Pitta branco do PSDB, ou melhor, do PFL que, assim, passa a governar as duas maiores cidades do País. Ou alguém acha que o PFL, que levou uma grande lavada nas urnas, ficou quietinho à-toa? Mais uma vez: quem viver verá.

3. OS ERROS DO PT

Sim, o PT errou bastante na atual campanha, mas se acertasse tudo, mesmo assim não lograria reeleger a Marta. Era uma derrota há muito anunciada e preparada ao longo de mais de três anos de campanha contra sua administração. O fato de encontrar São Paulo semi-destruída pelo Pitta só comoveu alguns corações dos chamados formadores de opinião por uns seis meses, quando muito. A partir daí, basta recordar tudo quanto se falou em rádio e televisão e tudo quanto se publicou em jornais em São Paulo, para perceber que havia sempre um ar de cobrança, que foi aumentando de tom, até o paroxismo dos últimos meses, quando essa cobrança buscou desqualificar toda e qualquer iniciativa da prefeita, toda e qualquer obra realizada. A gota d¿águia foram os túneis da Rebouças: o que deveria ser uma obra de melhoria do trânsito para quem mora na Zona Oeste transformou-se, na imprensa comprometida com o projeto tucano de poder, numa tragédia dos moradores dos Jardins. E isso repercutiu, e muito, entre a classe média paulistana. Basta olhar os mapas de votação, para comprovar: Marta teve votação expressiva na periferia, para quem trabalhou nos quatro anos, mas teve votação pífia nos bairros de classe média, mais influenciados pela choradeira dos Jardins, repercutida à exaustão na mídia. Portanto, não adianta o PT fazer mea-culpa e caçar culpados por sua derrota. Há que buscar, sim, corrigir os erros cometidos, que não foram poucos, mas sabendo que esses erros apenas tornaram mais fácil a vida dos tucanos, não tendo sido o fator principal da vitória do Serra.

4. TEORIAS CONSPIRATÓRIAS

Não, não creio em teorias conspiratórias, em grandes planos para dominar o universo. O que eu quero dizer é que houve, sim, um projeto de conquista da Prefeitura, por parte dos tucanos, que souberam se aproveitar muito bem das circunstâncias. As peças se encaixaram, às vezes meio tortas, mas o suficiente para atingir o resultado final. Deve ter havido momentos tensos e obstáculos: a resistência do Serra em concorrer à Prefeitura (por que será, hem? Terá ele percebido que estava, também, sendo usado e acabou convencido pelo discurso de amor à legenda ou percebeu que é melhor esperar o momento certo para um passo maior?), a grande aceitação dos CÉUS por parte da periferia, a melhoria das condições econômicas do País e a entrada do Lula na campanha... Enfim, nada que, afinal, impedisse o bem urdido projeto há longo tempo sendo executado com o auxílio da grande mídia paulistana. Sim, a grande mídia paulistana sempre foi de direita, a despeito de inúmeros e honrados jornalistas de posição, vamos dizer, mais isenta. Um exemplo: quando Jânio Quadros era prefeito, ele mandava pintar as guias da calçada e isso dava manchete de primeira página; se ele parava em algum bar pé sujo e multava o proprietário, isso dava manchete de primeira página. Não preciso citar Maluf e seu marketing. E quantas obras da Marta deram manchete de primeira página? Quando era impossível não destacar alguma de suas realizações, basta ler com cuidado para encontrar, depois de alguns inevitáveis elogios, os correspondentes lados negativos muito bem alinhavados, assim como quem não quer nada, como se fosse obrigação da imprensa alertar os leitores para o outro lado da notícia (o que devia ser uma prática saudável, mas só é feito quando é conveniente). No entanto, qualquer deslize e pronto! Lá estava, em letras garrafais, na primeira pagina. E não era só a imprensa, não: rádios noticiosas (não vou citar nomes, por serem óbvias) tinham orientação clara de martelar sistematicamente todo e qualquer problema que envolvesse a prefeitura; programas televisivos da tarde deitaram e rolaram em cima de dramas pessoais que pudessem atingir a Marta. Houve até um certo apresentador que se aproveitou da multa recebida por um certo cantor, na praça da Sé, por estar vendendo seus discos, como camelô, para atacar pesadamente a prefeita. E, por incrível que possa parecer, esse tal cantor foi eleito vereador, apesar de não morar em São Paulo!

Enfim, não há choro nem vela no que estou tentado dizer. Como em toda façanha, quando um perde o outro ganha, já cantava Noel Rosa. E perder faz parte do jogo da democracia. Mas, estar consciente dos fatos ajuda a que não nos façam de bobos, durante o jogo. Marcar gol com a mão, como Maradona fez no famoso jogo contra a Inglaterra, pode ser divertido quando é apenas um jogo de futebol, mas quando se trata do futuro de milhões de pessoas, o bicho pega. Não acho que o Serra seja incompetente ou que vá ser um novo Pitta. Longe disso. Mas que sua vitória tem lances rocambolescos muito além do que sonha, em vão, os paulistanos que odiavam as taxas da Marta, isso tem de ficar claro, para não chorarem as pitangas depois. Pitangas que, por sinal, podem estar verdes ou bichadas. Quem viver verá.


Isaias Edson Sidney
iesidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:21 PM

spacer