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{Sexta-feira, Outubro 29, 2004}


POR UM FIO (*)

Dráuzio Varella. Doutor Dráuzio Varella. Sempre o vejo na televisão. Gestos contidos. Fala mansa. Bom papo. Suas lições, interessantes, vívidas. Não li o Estação Carandiru. Não por falta de interesse, mas para me poupar de um assunto que mexe comigo. Estive lá, uma ou duas vezes, em visita a um amigo, há mais de trinta anos. Já era um inferno e virou o que todos sabem.

Então, sai outro livro de sua autoria, POR UM FIO. Trata da relação entre o médico que se ocupa de doenças terminais (câncer e AIDS) com seus pacientes. Podia ter caído no sentimentalismo idiotizante de quantos costumam tratar o tema da morte. No entanto, o doutor Dráuzio nos dá uma lição de humanidade a cada capítulo. Sem concessões às crenças absurdas do deísmo ou da vida depois da morte. Apenas lições de vida, mesmo diante da morte.

A história da medicina é uma história de erros e acertos que a transforma, às vezes, num festival de horrores. Ao longo do tempo, muitos médicos se dedicaram à tarefa de parecerem senhores da vida e da morte. A imagem da frieza do médico diante do sofrimento humano, para melhor diagnosticar, foi vendida como um paradigma: médico que se envolve com os sentimentos do paciente não consegue curá-lo. Então, os objetivos da medicina se voltam, apenas, para a cura. Mas há tantas doenças incuráveis! O dilema terrível: se não se pode curar, qual o papel do médico?

E então, com toda a simplicidade e sinceridade, Doutor Dráuzio alerta: na sua opinião, o primeiro objetivo do médico é aliviar a dor dos que sofrem. E prescreve a medicina do conforto. Ver o paciente como um ser que busca no médico não apenas a cura para seus males físicos, mas também amparo nos momentos de sofrimento. Sem enganações e falsas promessas, mas sobretudo com compreensão, que é o que todos querem.

Durante a leitura, muitas vezes me emocionei, não apenas com os casos ali relatados, mas com a forma como o autor revela os pequenos dramas cotidianos que a presença da morte exacerba. E a compreensão de que a vida, o bem mais precioso, um dia se acaba e tudo o que se pode fazer é lutar para prolongá-la o máximo possível e, principalmente, evitar o sofrimento. De quem está indo e de quem fica.


(*) VARELLA, Dráuzio: Por um fio; São Paulo, Companhia das Letras, 2004.

Isaias Edson Sidney
iesidney@uol.com.br

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:11 PM


{Terça-feira, Outubro 26, 2004}


FOME ZERO: A IMPORTÂNCIA DAS TROMBETAS

Um governo se faz com programas e trombetas.

Programas são as intenções e realizações. Ou seja, é preciso dizer o que se vai fazer, explicar com todos os detalhes, convencer o Congresso Nacional, a opinião pública, as cortes de justiça, dar muitas entrevistas, estabelecer metas, mobilizar as pessoas que vão implantar o programa, enfim, uma série infinita de tarefas que ocupa por um certo tempo a mídia. Jornais, rádios, televisões, Internet, todo mundo só fala nisso. São dadas milhares de entrevistas, especialistas são chamados a depor, gente do povo dá opinião, há debates, mesas-redondas, conferências, palestras, prós e contras, enfim, fala-se de tudo e ouve-se de tudo.

Então, vem a segunda etapa do projeto: a implantação. E começa a minguar o noticiário na mídia, pouco a pouco, até sumir de vez. Ou seja, a implantação não interessa a ninguém, durante um bom tempo. Mas há sempre alguém procurando pêlo em ovo. E há sempre alguém que encontra o pêlo no ovo. E todo o projeto começa, de novo, a ser jogado na mídia, a ser questionado. Aparecem de novo mil especialistas, mil investigadores, mil detratores e mil defensores. São as trombetas a anunciar o fim do mundo, ou seja, o fracasso.

Quando o Presidente Lula lançou o Fome Zero, o processo foi exatamente como descrito acima. Um programa ambicioso: dar um pouco de sobrevivência àqueles que estavam nos limites do esgotamento vital, até que a economia pudesse melhorar e o País voltasse a crescer e desse emprego a parcelas cada vez mais significativas da população. Qualquer ser humano com um mínimo de sensibilidade e dois neurônios compreenderia que o programa Fome Zero, uma marca forte, bem trombeteada, se constituiria num programa emergencial e de efeito elástico, ou seja, seria esticado a um número cada vez maior de cidadãos e depois começaria a diminuir até atingir patamares mínimos, ao melhorar a situação do País.

Com quase dois anos, o Fome Zero tem erros e acertos, como qualquer programa com tal dimensão. Houve avanços significativos e recuos táticos. Houve permanência de objetivos e modificações básicas em sua estrutura e implantação, no confronto com a realidade. Porque é assim que as coisas funcionam. Com cinco milhões de famílias atendidas, nesses dois anos, tendo por meta chegar a 10 ou 12 milhões, não se pode negar ambição de propósitos e legitimidade à sua atuação contra a fome.
O País é imenso; o desafio do Fome Zero, tão grande quanto o País. Não dá para controlar cem por cento todas as ações decorrentes da distribuição de dinheiro do contribuinte, de mim, de você, de todos os que pagam impostos nesse País, a uma enorme população que precisa ter o de comer mais um dia, mais um mês, para sobreviver até que...

Cinco milhões de famílias! Se um por cento, apenas um por cento desses cartões forem fraudados, ou falharem, ou não forem entregues... Faça as contas: já será um número expressivo de pessoas que deixarão de comer para que um número semelhante de imbecis queiram levar vantagem de noventa reais às nossas custas. Quando a imprensa noticiou as fraudes, com pessoas de classe média, com casa própria e carro na garagem, surrupiando noventa reais por mês de nosso dinheiro, do dinheiro do contribuinte, arriscando-se a levar um processo criminal e ir para a cadeia, que é o que devia acontecer, por, repito, noventa reais por mês, eu fico pensando nas trombetas e no quão úteis elas são. E fico pensando, também, que as trombetas não precisam anunciar o fim do mundo a qualquer percalço, que o seu troar pode e deve trazer benefícios para o próprio programa e para o Governo e para toda a população que paga seus impostos e deseja ver chegar o seu dinheiro àqueles que realmente precisam.

Fantástico o Programa Fome Zero, sem dúvida nenhuma, mas fantásticas também e dignas de louvor as trombetas que denunciam os miseráveis (mas não famintos) que fraudam a imensa quantia de noventa reais (que é o máximo por pessoa que o programa distribui) de nosso dinheiro, para levar e contar vantagem... São, sem dúvida, mais miseráveis que os famintos e desabrigados desse País. Pobre País, que tem gente assim...


Isaias Edson Sidney

iesidney@uol.com.br

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:04 PM


{Segunda-feira, Outubro 25, 2004}


DIREITO À INFORMAÇÃO: OS ARQUIVOS SECRETOS DA DITADURA

Tivemos quase 25 anos de ditadura militar. A truculência dos milicos só não foi maior, mais tenebrosa, porque não eram tantos a assim os opositores a eles. Exagerou-se o perigo para melhor justificar os atos de tortura e morte, perpetrados por bárbaros sanguinários à revelia ou não de seus chefes estrelados à frente do governo. Que os generais não soubessem que havia tortura é cantilena de enganar trouxa. Que fizessem vista grossa e até incentivassem não há nenhuma dúvida, embora não se possa provar. Sempre posaram de bonzinhos os vampiros de plantão, em todas as parte do mundo. Faz parte da tradição dessa raça.

Que os fatos tenebrosos ocorridos nos porões da ditadura não devam ser esquecidos e, pelo contrário, no devido tempo devam, mesmo, ser trazidos a público, para conhecimento das gerações que não viveram os chamados anos de chumbo, isso não se discute.

Mas pode-se e deve-se discutir a forma como trazer à luz acontecimentos que ainda chocam familiares e descendentes dos torturados e mortos nos porões da ditadura. Ainda há feridas que não cicatrizaram. Ainda há melindres e dores que o tempo não fez esquecer. Abrir os arquivos da ditadura e despejar, sem nenhum critério ético, sobre a população mal preparada, um punhado de fotos, depoimentos, textos e outras coisas mais, envolvendo presos políticos em situação degradante, em vez de benefício à democracia, pode acirrar discussões inúteis, o que só acenderá o mal estar tanto de parentes dos torturados quanto dos próprios torturadores e militares envolvidos.

Não me parece certo que esse material, cujo conteúdo ainda se desconhece, seja revelado sem nenhum critério historiográfico ou sem um cuidadoso tratamento ético. Não se trata de censura, mas de preocupação com as pessoas, com seus sentimentos, com o fato de não se fazer mais injustiças do que as que já foram feitas.
Pisar em ovos talvez não seja a expressão correta. Mas, se tivesse tido algum parente torturado pela ditadura, não me agradaria, de forma nenhuma, encontrar no jornal da manhã uma foto sua em situação degradante. Pior do que saber o resultado fatal da tortura, é conhecer detalhes de sadismo e dor.

Assim, que os movimentos de direitos humanos, as associações que sempre defenderam a democracia, políticos e juristas não se açodem na intenção de escancarar, sob o pretexto do direito à informação, os arquivos da ditadura, sem que se estabeleçam critérios historiográficos e, principalmente, éticos quanto à sua divulgação. Informar, sim. Abrir, sim, os arquivos secretos. Mas divulgá-los de modo que não ofereçam ofensa à memória dos mortos e, principalmente, com o devido cuidado para com os amigos e familiares dos envolvidos. É essa a minha opinião.


Isaias Edson Sidney
iesidney@uol.com.br

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:33 AM


{Terça-feira, Outubro 19, 2004}


POLÍTICA I: DE ALIANÇAS E ALIADOS

No tempo da ditadura, havia dois partidos, e era fácil escolher: a Arena era o mal e o MDB, o bem. Ou vice-versa. Agora, com o sistema de múltiplos partidos e alianças, não há mais o bem e o mal que, aliás, nunca houve. Existem melhores e piores. E existem bons e maus políticos em todos os partidos.

Nesse amplo espectro de escolhas e preferências, considero o PFL não o pior, ou o mal, mas o partido onde se abrigam as forças mais retrógradas do País, as mesmas que patrocinaram e legitimaram o golpe militar. Se há bons políticos no PFL, não se pode negar. Mas, se isto é ideologia, a filosofia do PFL é a do patrão, do latifundiário, do mais deslavado capitalismo hoje travestido em liberalismo ou economia (leia-se ditadura) do mercado, o deus ex-machina.

Quando surgiu como filhote promissor do PMDB, agregando aparentemente as melhores cabeças pensantes de um meio em que pensar já é um diferencial, o PSDB parecia que se tornaria uma espécie de PT das elites intelectuais. Vã pretensão! Tornou-se o partido das elites, sim, mas das elites que comandam a classe média alta, a burguesia (palavra antiga, mas ainda não inventaram outra melhor!) mais conservadora, apesar de ter em suas fileiras eminentes homens de uma outrora possível esquerda. E essa tendência se acentuou, quando o PSDB escolheu (ou foi escolhido?) como parceiro de votos o PFL.

Esse o momento de ruptura de uma possível aliança verdadeiramente modernizadora do Estado Brasileiro, rumo à construção de uma nação mais igualitária e poderosa. No entanto, o PSDB não teve engulhos em se aliar às forças conservadoras (PFL à frente) e o PT não teve humildade e competência para ver que era o PSDB o primo rico (de tutano, pelo menos) no qual depositar suas fichas e realmente mudar o País. Hoje, são inimigos aqueles que deviam ter sido aliados e parceiros num projeto que se completaria, se aliados fossem, com a modernização do PT e com um banho de realidade política do PSDB.

Primos que se detestam. A História tem milhões de exemplos. E continua a produzi-los, apesar de todos saberem que esse ódio, no qual se esconde o amor, só pode levar a desastres. E quem paga o prejuízo é sempre o povo. E o Brasil está pagando e ainda vai pagar muito caro pela estupidez de PSDB e PT não terem tido a humildade de, num determinado momento histórico, juntado suas forças e trilhado um caminho comum, sem necessidade de renunciarem a suas ideologias. Uma pena.

POLÍTICA II: AINDA OS ALIADOS

Situação completamente esdrúxula em São Paulo: Maluf manifesta apoio a Marta, apesar dos malufistas históricos votarem em Serra; Partido Verde apóia Serra, enquanto o seu Ministro no Governo Federal apóia Marta; PSB vai de Marta, mas Erundina, sua candidata derrotada, amua e se diz independente... Um verdadeiro balaio de gatos.

Pode-se falar, ainda, em mal e bem? Em bons e maus, no sentido mais absoluto dos termos?

Vamos tentar esclarecer: dividir as forças que conduzem a humanidade entre deus e o diabo é o conceito que tem prevalecido historicamente. Endeusar a uns significa demonizar a outros. No entanto, não há forças do mal ou forças do bem. Há apenas interesses. E meios mais ou menos absurdos para defendê-los. Para uma grande parte de mulçumanos, Bin Laden é o santo guerreiro de uma poderosa força do bem. Bush é o mal para o mundo e o bem para os americanos que o elegeram e, provavelmente, o reelegerão. Mas as idéias de Bin Laden ou as idéias de Bush, por mais estapafúrdio que isso possa parecer, não estão erradas, em seu sentido absoluto. Só representam visões diferentes de mundo. O erro está no modo como cada um deles lida com a sua verdade, os meios que empregam para impor a sua vontade ao outro. E, num mundo que fosse realmente mais justo, não podia haver esse conceito de imposição de um sobre o outro. Devia haver, sim, respeito de um pelo outro, de modo a que ambos pudessem co-existir, se não harmoniosamente, pelo menos sem a necessidade de agressão.

De que lado está a verdade, entre judeus e palestinos? De que lado está a verdade, entre China e Estados Unidos? De que lado está a verdade, entre brancos e negros? Ou entre o PSDB e o PT?

Não é por meio da demonização do malufismo ou do endeusamento de determinado candidato que poderemos compreender um processo histórico que, por ser processo, modifica-se a cada momento e tem nuances que fogem à nossa vã tentativa de compreendê-lo. Não há bonzinhos ou mauzinhos, em termos absolutos. Há, apenas, meios mais ou menos errados ou certos de se conduzir a política, que tem surpresas a cada esquina a que o processo nos leva.

POLÍTICA III JOGANDO A TOALHA

Em São Paulo, o processo eleitoral de segundo turno radicaliza-se entre Marta Suplicy (PT) e José Serra (PSDB).

Primeiro, não gosto do Serra, não lhe tenho nenhuma simpatia. Por isso não voto nele. È meu direito não gostar de alguém, assim como parece ser o direito da maioria dos paulistanos de não simpatizar com Marta Suplicy. O que a levará, quase com certeza, a perder as eleições. O que será uma pena, a meu ver. Mas isso vou analisar depois.

O que eu quero dizer agora, no entanto, é: se não nutro simpatia pelo Serra, não o considero um mau candidato. Tem competência para ser um bom prefeito. Mas há outras razões, mais racionais, digamos assim, para não desejar sua vitória.

Está certa, em parte, a campanha do PT contra o seu vice, o tal do Kassab, isso mesmo, o tal do Kassab. Não há outra forma de se referir a tal indivíduo. Porque é nele que representa o problema da vitória do Serra.

Por quê? Por um motivo bastante simples: Serra não terminará o mandato, com certeza. Ficará apenas dois anos na Prefeitura.

Por que tanta certeza?

Basta analisar os quadros do PSDB: tem cacife (candidatos) de sobra para disputar a presidência. FHC (o menos provável), Tasso Jereissati, Alkmin, Aécio e, se quiser, há vários outros políticos de renome aptos para isso.

Mas... e o governo de São Paulo? Não há, absolutamente, ninguém... Exceto o Serra. Que, por seu turno, não queria ser Prefeito de São Paulo. Não queria porque tinha outras ambições. Foi convencido à última hora para entrar na disputa pela prefeitura, como um trampolim para o Governo do Estado e porque o PSDB não tem quadros (cacife) para grandes vôos em São Paulo.

O que atrapalhou foram as alianças. Esperto, o PFL impôs os vice, de olho, é claro, na Prefeitura. E teremos, por dois anos, mais uma experiência aventureira na Prefeitura de São Paulo, como foi o famigerado Pitta. Com um indivíduo, esse tal de Kassab, saído das hostes malignas do indigitado Pitta. E isso o eleitorado paulistano não tem tido possibilidade de tomar consciência, a não ser pela campanha do PT, que não estão sendo bem conduzida para realmente esclarecer o povo do risco que a cidade está correndo.

POLÍTICA IV: POR QUE MARTA DEVIA SER REELEITA

Além do risco que corre a cidade de cair nas mãos de mais um aventureiro, esse tal de Kassab, que assumirá o cargo daqui a dois anos, para completar o mandato do Serra, que vai sair candidato ao Governo do Estado, há outros motivos que, na minha opinião, deveriam levar à reeleição de Marta Suplicy.

Antes, uma palavrinha sobre a candidata. Realmente ela pode não ser muito simpática a um grande segmento da população, por às vezes parecer arrogante; por ter cometido alguns erros de afoiteza política em querer inaugurar muitas obras no último ano; por não ter tido clareza de comunicação em alguns aspectos polêmicos da administração, como as taxas do lixo, da luz etc.

No entanto, não se pode negar à administração de Marta o fato de que São Paulo está muito melhor do que quando ela entrou na Prefeitura.

E, para avaliar isso, é preciso lembrar o estado em que ela encontrou esta cidade depois do malfado período Maluf e Pitta. O primeiro, com sua proverbial forma de administrar construindo obras caras, exauriu os cofres do Município, não só com o superfaturamento e o desvio de dinheiro para paraísos fiscais, mas também com a escalação de um verdadeiro exército de corruptos e incompetentes na administração pública, a começar por seu sucessor, o famigerado Pitta, cuja obra de destruição da cidade deve passar à história como, talvez, o pior período de deterioração por que passou o município.

Deplorável, é talvez a palavra mais suave para descrever São Paulo, quando Marta assumiu. Nada funcionava. A cidade estava imunda, invadida por máfias de camelôs, por máfias de fiscais corruptos, por máfias sindicais aliadas às máfias patronais no transporte público... Enfim, era uma cidade retalhada por esquemas de corrupção. Quando resolveu, por exemplo, enfrentar o problema crônico de transporte urbano, com sua frota de dez anos para mais, com ônibus usados comprados no Rio de Janeiro, com a evasão de passageiros provocada pela invasão dos perueiros, Marta e os seus secretários tiveram que andar com coletes à prova de bala, tal o nível de ameaças e de comprometimento encontrado num meio marcado por disputas e por inúmeras mortes de motoristas e sindicalistas, assassinados por uma das mais perigosas máfias do município.

Depois de dois anos, a cidade parou de piorar. E deter esse processo de ida para o fundo do poço custou à administração da Marta um alto preço: a aparência de inércia. Quando, afinal, pôde apresentar à população o resultado desse gigantesco esforço e realmente começar a construir obras, a população já estava contaminada pela campanha da sucessão que se avizinhava e pela campanha de meia dúzia de formadores de opinião ligados ao PSDB contra sua administração. E a imprensa paulistana, tomada em sua maioria por essa gente, entrou firme na onda de críticas, muitas vezes infundadas, à administração do PT. Em vez de esclarecer, aliava-se ao coro de meia dúzia de indivíduos devidamente orientados a preparar o caminho para o PSDB que, àquela altura, com o Serra relutante, não tinha cacife (candidato) à altura para enfrentar a reeleição da Marta.

No entanto, sua obra é, com certeza, memorável, em muitos aspectos. E precisa ser continuada. No entanto, vamos perder um momento histórico de dar continuidade a um processo de revitalização da cidade, que precisa de, pelo menos, mais dois anos de uma mesma administração coerente para voltar a ser uma cidade civilizada. Mesmo que o Serra, possível eleito, seja competente para administrar, ele poderá cometer o erro (e, provavelmente o fará, por puro orgulho) de redefinir prioridades e estancar um processo que parece correto para recomeçar outro que pode, até, estar correto, mas custará à cidade mais gastos desnecessários.

Felizmente, se São Paulo sobreviveu (embora às duras penas) ao Pitta, irá, certamente, sobreviver ao Serra e, principalmente, ao tal do Kassab que vem por aí.


Isaias Edson Sidney

iesidney@uol.com.br
19.10.2004

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:51 PM


{Quarta-feira, Outubro 13, 2004}


A VIOLÊNCIA NO RIO

Um jornal inglês, THE INDEPENDENT, chama o Rio de cidade da cocaína e da carnificina. Excluídos os exageros desse tipo de reportagem, não se pode negar que a cidade maravilhosa há muito está mergulhada numa espiral de violência e exclusão sem precedentes em sua história. Há, sim, muitos traficantes no Rio e, se há tantos traficantes, muitos deles endeusados por alguns segmentos sociais, é porque há também muitos, e põe muitos nisso, consumidores de cocaína e outras drogas.

Quem consome droga financia o crime. Essa é uma lógica contra a qual não há argumentos. No entanto, se botamos a boca no trombone contra os viciados, os maconheiros, os cheiradores e injetadores de tudo quanto existe de substâncias que prometem um mínimo de barato possível, logo aparecem muitos engraçadinhos a nos taxar de moralistas e a defender a legalização da droga.

Ora, se droga fosse bom, não seria proibida. Isso a sociedade já resolveu, através da ciência. Nenhuma droga, seja álcool, fumo, maconha, cocaína, heroína, LSD ou quantas mais forem descobertas ou inventadas, nenhuma droga tem o poder de aumentar um centésimo sequer qualquer capacidade humana, seja a imaginação ou a inteligência. Destroem, isto sim, as capacidades humanas de raciocínio e de criação, além das óbvias desgraças físicas que provocam.

Portanto, não há moralismo em condenar as drogas. Há, sim, estupidez em não perceber que não basta combater o tráfico, mas que é preciso também que a sociedade reaja contra os seus próprios membros que caíram na desgraça do uso da droga, através de ações positivas de livramento dessas pessoas do vício, buscando formas de controlar o uso por parte desses indivíduos com tratamentos que possam ser desenvolvidos por médicos, psicólogos, psiquiatras, químicos, farmacêuticos, sociólogos etc.

O Rio é, sim, uma cidade tocada pela maldição do consumo de drogas e do tráfico. Disso, no entanto, não está livre nenhuma outra cidade do planeta, com as formas modernas de comunicação e transporte. A droga espalha-se pelo mundo, como um dos flagelos mais terríveis da humanidade. Maior, até, que as pestes e as doenças infecciosas que grassam, de vez em quando, no mundo, dizimando milhões de pessoas.

E a violência do Rio, fruto do tráfico e da exclusão social, torna-se, sem dúvida, incontrolável, enquanto não houver políticas seguras não apenas de repressão, mas de inclusão social, de combate à miséria, de conscientização das classes médias e mais abastadas sobre o consumo das drogas, de educação para uma cidadania mais responsável. Essa violência endêmica, no entanto, também não é um triste privilégio apenas do Rio, mas acomete as sociedades ditas mais evoluídas em todos os cantos do mundo, seja através de grupos de descontentes e excluídos, seja através de guerras fratricidas que explodem em todo o globo.

O Rio chama a atenção, sim, por seu caráter de cidade turística, por não saber estabelecer políticas de segurança, mergulhado em disputas políticas e na corrupção e incompetência de suas forças policiais, de seus dirigentes e, até mesmo, na insensibilidade da maioria da população, que só agora, através de alguns movimentos sérios, dos quais não preciso dar exemplos, começa a esboçar uma reação de cidadania que, se não resolve o problema, pelo menos chama a atenção das autoridades, discute sem falácias a situação e exige soluções.

Portanto, em vez de as autoridades cariocas virem a público reclamar da matéria publicada pelo jornal inglês, deviam essas autoridades enterrar o capuz até o pescoço, arregaçar as mangas e trabalhar para que o Rio deixe de ser o alvo de publicações que são, sim, preconceituosas e exageradas, mas que têm motivo para isso, dado pela situação de quase guerra civil em que vive a sofrida população de uma das mais belas cidades do mundo.


iesidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 5:33 PM


{Terça-feira, Outubro 12, 2004}






XXVI BIENAL DE SÃO PAULO, 2004

As Bienais de São Paulo são sempre um acontecimento. E cada Bienal tem uma cara. É como se artes plásticas, a cada Bienal refletissem o momento do mundo, registrassem o pensamento e as angústias do momento por que passam os homens. Porque é assim que costuma acontecer com exposições gigantescas no Pavilhão projetado por Niemayer, no Ibirapuera.

E que tempos são os atuais, projetados nos trabalhos dos artistas de 2004?

Vivemos tempos bicudos. O século vinte e um, início do terceiro milênio na contagem das eras a partir do nascimento do deus cristão, começou mal, muito mal. Há um gosto de sangue no ar, há um certo mal estar geral, numa era marcada pela incerteza. O mundo está cada vez menor e o homem, também. A mediocridade impera. O cotidiano se alarga e toma de assalto o que a economia pensara ter globalizado. Sim, o mundo global não passa de uma aldeia multiplicada por milhões e compartilhada por bilhões de seres em cada canto do planeta.

E a mediocridade impera na Bienal de 2004, a Bienal do cotidiano que esconde o terror, o temor, a angústia. Não há grandes obras, apenas obras grandes. Enormes. Instalações. Muitas instalações. E fotografias. E vídeos. E mesmo quando há detalhes, minimalismos, esses se multiplicam e se desdobram quase ao infinito. Não há grandes artistas. Todas as obras traduzem a consciência medíocre do homem do novo milênio, pelo menos nesse começo.

Se vale a pena visitar a Bienal? É lógico que vale. Ali, a alma pequena do homem contemporâneo se encontra e talvez possa, ao contemplar-se ali refletida, engrandecer-se um pouco mais e tentar voar um pouco mais alto, nem que seja em aeroplanos de juta e tesouras ou em fuscas suspensos por cordas coloridas.

12.10.2004
isasidney@uol.com.br


posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 5:41 PM


{Quarta-feira, Outubro 06, 2004}


QUEM TEM MEDO DE GEORGE W. BUSH?

O mundo teme Bush. O mundo odeia Bush. O mundo torce contra Bush. Só os norte-americanos o amam e o escolherão para um novo mandato, a confiar nas pesquisas.
Bush mente, trapaceia, põe o mundo em perigo. Bush invadiu o Iraque, em vez de pegar Bin Laden. Bush diz que implantou a democracia no Iraque, e lá morrem todos os dias dezenas de pessoas, inclusive soldados americanos, numa guerra sem fim.

O Iraque não é o Vietnã. É pior. No Vietnã, havia uma população unida contra um invasor. No Iraque, uma população dividida luta contra o invasor e entre si, numa luta suicida e fratricida. No Vietnã, expulsar o invasor tinha motivação patriótica. No Iraque, há também motivação religiosa. E o fanatismo explode em cada esquina, enriquecido com as ações dos aproveitadores e facínoras de plantão.

O povo vietnamita amava a pátria e a vida, mas se sacrificava. Os iraquianos não dão valor à vida, obcecados por sua fé, e não se importam de morrer para matar.
E Bush não sabe o que foi fazer no Iraque e não sabe como vai sair do Iraque. No seu delírio de poder, embrutecido pelo fervor fundamentalista de republicanos da direita hidrofóbica, Bush constrói um mundo que não tem futuro, apenas guerra.

E os norte-americanos o amam. Vibram com suas bravatas infantis, sem perceber que as armas com que ele brinca são verdadeiras e podem destruir o mundo. Há uma clara dicotomia entre a realidade do mundo e a fantasia de Bush na mente dos norte-americanos. Eles, os norte-americanos que votam no Bush, estão tomados de um infantilismo bélico ou de uma belicosidade infantil sem precedentes na história do mundo.

Eles, os norte-americanos que votam no Bush, não sabem e não querem saber o que se passa no mundo. Para eles, o mundo é um território distante, talvez num outro planeta, sem nenhuma ligação com o quintal de suas casas ou com a sacada de seus apartamentos.

E então, o que são iraquianos senão bárbaros a alimentar terroristas que explodem torres em Manhattam? Bush está certo. É preciso exterminá-los onde estiverem. Barbudos que rezam de bunda para cima para um deus estranho só podem querer a destruição da América. Não os reconhecem como humanos, os que votam em Bush.

E então, Bush pode ganhar mais quatro anos, por conta daqueles estranham que haja vida inteligente além das fronteiras dos Estados Unidos da América.

E o mundo? Quantos anos mais vai ganhar, com a vitória de Bush?

6.10.2004
Isaias Edson Sidney
iesidney@uol.com.br


posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 5:13 PM


{Terça-feira, Outubro 05, 2004}


Em tempos de eleições, Carlos Drummond de Andrade:

"O poeta municipal

discute com o poeta estadual

qual deles é capaz de bater o poeta federal.

Enquanto isso o poeta federal

tira ouro do nariz".


isasidney@uol.com.br
5.10.2004

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:44 PM


{Sexta-feira, Outubro 01, 2004}


DEBATE DOS CANDIDATOS À PREFEITURA DE SÃO PAULO

Ontem, 30 de setembro de 2004, a Globo reuniu seis candidatos à Prefeitura de São Paulo para um debate sobre suas propostas. Aqui vão algumas pérolas ditas no ar:

1. MALUF: Vou botar a ronda na rua.

RONDA? Então, vamos todos cantar Vanzolini: À noite, eu rondo a cidade / a te procurar... ou vamos de Noches de ronda, que triste va... E assim, espantar todos os criminosos numa boa!

2. ERUNDINA: Turismo ecológico em São Paulo...

TURISMO ECOLÓGICO? Quem sabe, um belo mergulho no Tietê, em noite de lua cheia? Ou convidar os estrangeiros para, durante o inverno, contemplar e se intoxicar com uma maravilhosa inversão térmica? Ou ainda, visitar os lixões da Prefeitura, em dias de calor intenso? Também podia ser um tour pelas enfumaçadas ruas do centro, na hora do rush... MUITAS, MUITAS POSSSIBILIDADES!

3. CIRO: Redespavimentar São Paulo!

Bela proposta para resolver os problemas de enchentes! REDESPAVIMENTAR a cidade. Ou seja, pavimenta tudo, depois despavimenta e, em seguida, se redespavimenta! É ISSO MESMO, OU ESTOU MALUCO?

Além dessas pérolas, algumas observações merecem ser feitas:

Por que O TOLINHO DA FORÇA, ou melhor, PAULINHO colocou os cabelos sobre as orelhas? Era para ficar parecendo um capacete ou era só para esconder o orelhão? RIDÍCULO!

O MALUF! AH! O MALUF: Só faltou dizer, sobre as suas famosas obras: E SÓ DESCANSEI NO SÉTIMO DIA!

Ufa! Que ninguém é de ferro, e o Maluf bem que merece um descanso no sétimo dia. DESCANSO ETERNO, é claro!

Mais uma do Maluf: deseja ressuscitar o MÃO-LEVE-LEITE! Lembram? Um programa que deu leite à beça para as crianças das escolas públicas... e muita viagem para a Suíça, para Ilhas Cayman...

A HAVANIR (QUE PENA!) não participou do debate, coitada! Tinha muito a acrescentar ao aprofundamento das propostas. Por exemplo, esclarecer melhor um tal de TÚNEL SUBTERRÂNEO! Deve ser para contrapor ao TÚNEL AÉREO do Maluf, ou seja, O HORROROSO MINHOCÃO que nossa brava candidata (e põe brava nisso) soltou essa pérola num debate anterior... Merecia ou não um aprofundamento?

Enfim, poupei a Marta e o Serra... Mas o que eu desejo, mesmo, é que o SERRA-SERRA-SERRADOR, bom, deixa pra lá... O lugar para onde eu o mandaria não merece tê-lo por lá...


Isaias Edson Sidney
iesidney@uol.com.br


PS: Tudo isso aí em cima parece engraçado, mas não podia ser mais trágico...



1.10.2004

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:17 PM

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