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Quarta-feira, Setembro 29, 2004
DESARMAMENTO CIVIL
Ainda existem críticos ao desarmamento civil. Alegam que bandido não entregará a arma à polícia e, por isso, a criminalidade continuará em níveis elevados.
Há um engano nesse argumento. Desarmamento civil não visa, essencialmente, à diminuição da criminalidade, embora isso até possa e deva ocorrer. Quando uma sociedade, através de seus representantes legais, opta pelo desarmamento dos cidadãos, está defendendo a si mesma contra o abuso da arma de fogo. Ou seja, está prevenindo principalmente catástrofes como assassinatos por motivos fúteis (em brigas de bares ou no trânsito, por exemplo) e acidentes domésticos (principalmente com crianças e jovens).
Bandido é problema da polícia. No entanto, uma lei mais restritiva ao porte de armas contribui para maior clareza das ações da polícia: se porta arma é suspeito. Além disso, a restrição à venda eleva o preço do armamento, o que contribui para a diminuir o poder de ação de bandidos pés-de-chinelo, que são, quase sempre, os mais perigosos para o cidadão comum: não hesitam em puxar o gatilho a qualquer pretensa reação da vítima, num assalto, por exemplo.
Não há por que um cidadão tenha uma arma em casa ou desfile por aí com um revólver na cintura, como nos antigos filmes americanos do faroeste. O risco é sempre muito grande, para si e para os outros e a possível proteção que uma arma representa não compensa esse risco.
O fato de milhares de pessoas estarem entregando suas armas à polícia prova que o cidadão compreende a inutilidade e o perigo de uma arma de fogo em mãos de quem não tem preparo para usá-la. Muitas vidas podem ser poupadas com essa simples medida. O que é bom para os Estados Unidos (lá, a Constituição garante o direito de qualquer um possuir uma arma de fogo) pode ser péssimo para nós, embora eu ache que é péssimo para eles também. É só conferir o número de assassinatos por motivos fúteis ou em série cometidos por idiotas à procura de publicidade ou loucos que resolvem vingar-se da sociedade como um todo, que fica evidente o equívoco da lei americana que muitos querem adotar no Brasil.
Portanto, é preciso que todo cidadão consciente apóie a campanha pelo desarmamento civil, a despeito de todo o lobby da indústria armamentista.
Isaias Edson Sidney (29.9.04)
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:51 AM
Domingo, Setembro 26, 2004
QUEM SABE O QUE É BOQUIRROTO?
Lembrei-me de um livro do Fernando Sabino, chamado Deixa o Alfredo Falar... Mas não é sobre o velho mestre da crônica que eu vou escrever... o qual, por acaso também andou cometendo a bobagem de lançar um biografia da Zélia (arrrghhh!), aquela mesma que tungou nossa grana e depois casou com o Chico Anysio e agora vive de pensão do humorista (que não deve estar achando graça nenhuma) em Nova Iorque...
Fico pensando no Lula, lá... como presidente.
Um homem que teve sua trajetória de homem público no sindicato dos metalúrgicos do ABC. Formado, portanto, nas incontáveis e extensas (e bota extensa nisso!) reuniões de sindicato, fazendo o quê? Falando, falando e falando... Que é o que mais se faz nessas reuniões. Falando para se convencer. Falando para convencer os outros. Falando para insuflar. Falando para pôr panos quentes. Falou tanto, que virou diretor do sindicato e continuou falando para levar os operários às famosas greves que eram um espinho no pé dos ditadores de plantão. E continuou falando para convencer os companheiros a fundar o PT e falando para formar o PT e falando para torná-lo um partido viável... E depois, dirigente maior do partido, candidato quase perpétuo à presidência, o quanto falou o nosso Lula... E falou tanto, que chegou lá!
Falar é o que sempre fez e continua fazendo o nosso Lula.
Pensar alguém em calá-lo é o mesmo que cortar a raiz de uma planta: morre. E como presidente, continua falando para todas as platéias possíveis e continuará falando até que o mundo o ouça e concorde com ele, na sua luta contra a fome.
Por isso, a cada vez que ligo o rádio, lá está o Lula falando... É falando que ele governa... É falando que ele começa a pôr o País nos trilhos... a fazer surgir empregos... Enfim, por mais que se goste ou não se goste do Lula, há que se reconhecer que ele é assim, aldeaga, bacharel, bocarela, boca-rota, boquirroto, chocalheiro, conversador, espanta-lobos, falador, francelho, galrão, golelheiro, gralhador, grazina, linguaraz, linguareiro, loquaz, palavroso, palrador, pararaca, tarambela, taramela, tarameleiro, tarela, tarelo, tartalha, terlinta, traga-malha, tramela e tantos mais outros termos que a língua tenha para designar quem fala muito...
Então, como o País vai bem (apesar das cassandras), como ele não fez as loucuras que dele esperavam os inimigos, muito pelo contrário, seu governo é o mais competente desde Juscelino, o que podemos dizer é, parafraseando o Sabino, DEIXA O LULA FALAR!
Enquanto ele fala, o PIB cresce, a economia melhora, os empregos começam a aparecer, as contas públicas se equacionam, o prestígio do País melhora... e os cães ladram!
Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br
25.9.2004
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:08 PM
Terça-feira, Setembro 21, 2004
Karl Heffner, vista do lago.
PENSAMENTOS ATEUS
Deus só existe para quem acredita nele.
Ser ateu significa olhar para trás e seguir a ordem natural das coisas.
O pensamento deísta nasceu da ignorância das leis da natureza e se tornou complexo com a invenção da metafísica. É, no entanto, antinatural.
Não se deve pregar o ateísmo: é inútil. O que se deve é tentar convencer as pessoas de elas não precisam de deus e que o universo não precisa de criador. Nada mais simples e, ao mesmo tempo, mais complexo.
O deísmo não é sinal de falta de conhecimento científico. Muitos cientistas creram e crêem em deus. O deísmo pode estar apenas numa palavra mágica: fé. E ter fé implica o mais alto grau de falta de vontade de pensar não-metafisicamente.
Nada há nada mais anti-metafísico do que a ciência. No entanto, muitos cientistas, por causa da fé, não abandonam a metafísica.
Deus precisa desesperadamente dos homens, para não fechar as portas do céu.
Não faça pregação ateísta. É inútil. Tente apenas convencer os homens de que eles não precisam de deus e de que o universo não precisa de um criador. Difícil? Como dizem, os deístas, a fé remove montanhas.
21.9.2004
Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:53 PM
Segunda-feira, Setembro 20, 2004
RACISMO
Leio, ao mesmo tempo estupefato e encantado, a volta por cima que o jogador brasileiro Adauto está dando na República Checa.
Hostilizado pelos torcedores, por ser negro, foi convidado pelo governo desse país a protagonizar campanha nacional contra o racismo, por seu fair-play, por sua capacidade de ignorar a imbecilidade das torcidas e tornar-se o homem mais cobiçado pelas mulheres checas.
Uma grande volta na estupidez do racismo, sem dúvida nenhuma.
Ver no diferente o feio, o horror, o monstruoso, o inimigo é, talvez, uma das maiores covardias que o ser humano faz consigo mesmo. Todas as formas de discriminação baseadas em juízos subjetivos levam ao mais odioso fascismo.
E isso (a discriminação, o racismo ) não é privilégio do povo checo, não. Infelizmente, existe em toda sociedade. É um mal que somente a educação e o conhecimento científico podem um dia, talvez, erradicar da mente humana.
Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:01 PM
Terça-feira, Setembro 14, 2004
(clochard)
JABAQUARA, TERMINAL
Desceu do ônibus no Jabaquara, sem um puto no bolso. Puto da vida, sonhava com uma puta vida, mas até agora só a putaria do cais de Santos. Ficou sem os últimos tostões. Só a quantia certa para o ônibus. Olhou para todos os lados, ainda tonto da subida da serra. Do outro lado da rua, vários bares. Tentou negociar com alguns fregueses o dinheirinho do metrô. Escorraçado, desceu a Rua dos Jequitibás e virou à esquerda na Avenida George Corbisier. No escritório do deputado, também não conseguiu nada. Com aquelas roupas e aquelas olheiras... Viu um fantasma no vidro da loja. Sentou em frente à igreja dos crentes e tentou esmolar. O sol a pino turvava-lhe o olho faminto. Nada. Precisava ir embora do Jabaquara, mas sem dinheiro... Desespera-se. Tenta descolar uma coxinha na padaria. Nada. O sol desce pelo seu estômago e provoca ânsias de anoitecer. Quase. Um sopro na tarde e só. Senta. Levanta. Pede. Povo filho-da-puta. Refaz o caminho. Torce a esquina e vê. Acha que pirou. Não. Está lá. Uma carteira no canto do muro. Dentro, uma nota de cinco e um bilhete do metrô. Entra na pastelaria e torra a nota em pastel e caldo de cana. O bilhete, uma preciosidade fechada na mão. Na descida para o metrô, pára. Vira-se. De punho cerrado, uma banana pro Jabaquara, povo pão-duro e filho-da-puta, vão se foder. Enfia o bilhete na catraca, que não se abre e ainda apita. Bilhete inválido. Solta um palavrão. Na bilheteria, a moça, autoritária: falso. Não pode trocar, não. Dá escândalo e quase vai preso. Na porta da igreja dos crentes, música e muitas aleluias. Fim do culto. Todos saem apressados, sem se dar conta do corpo encostado no muro.
(Escrito na sexta-feira do dia 7 de março de 2003).
Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:28 PM
Segunda-feira, Setembro 13, 2004
SOB OS BIGODES DE NIETZSCHE
Uma caverna se esconde
sob os bigodes de Nietzsche:
nela cabem destinos,
nela cabem desdouros.
Um sonho também ali se esconde,
sob os bigodes de Nietzsche:
sorri, sozinho, como um louco
mas sonha sonhos de homens livres.
Não há na caverna de Nietzsche,
ali escondida sob os bigodes,
nem mistérios de Platão
que, coitado, na sua idiotia
expulsou toda a poesia
que podia haver no mundo;
nem há também nesta caverna
as socráticas falsidades,
nem deuses de fachada,
nem cristianismos rastejadores
ou quaisquer crenças de vento e dor,
porque, da caverna sob os bigodes,
um trovão de liberdade
levou para o alto o ser humano,
como um vôo de águia em céu de abril.
Dos bigodes de Nietzsche
à caverna que se desenha embaixo,
limpa o vento todo o podre
de fraquezas ancestrais
que não podem ficar guardadas
por mais tempo dentro do homem:
nessa caverna, não se matam deuses,
que estão mortos desde sempre,
mas destrói seus altares
todo o vento que sai dali.
Universos para além do homem
cria o sábio na montanha:
palavras em dardos transformadas,
dali de dentro jorradas,
não palavras melindradas
de um sábio louco a ditar
à irmã mais idiota
um mar de símbolos que ela comeu
e aos pés de Hitler devolveu
em diarréia colossal:
os pêlos do bigode pensador
eram muito mais indigestos
que os pêlos do bigode ditador.
Dali bem de dentro,
da caverna que se esconde
sob os duros pêlos dos bigodes
(tão plurais, tão magistrais)
nova aurora (ou um novo espanto)
fez o homem mais completo,
destronou o padre eterno,
e fez nascer um novo canto;
e esse homem renovado
constrói em cada passo
os mundos que hoje enlaço
e envio via Internet
a cada canto e a cada mente
que celebre, enfim, o novo tempo
do homem livre como o vento
que sai como um lampejo
da caverna que troveja
sob os bigodes de Nietzsche.
Isaias Edson Sidney
iesidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:41 PM
Terça-feira, Setembro 07, 2004
ELEIÇÕES EM SÃO PAULO: TOMANDO POSIÇÃO
A dupla Maluf-Pita, durante os oito anos que mandaram em São Paulo, tornaram essa cidade quase inabitável.
O centro deteriorou-se com a invasão dos camelôs (iniciada na administração Erundina, diga-se de passagem); as gangues dos transporte público deitavam e rolavam com os subsídios da Prefeitura e um péssimo serviço à população, com uma frota constituída de veículos velhos comprados do Rio de Janeiro; perueiros clandestinos colocavam em riso a vida das pessoas; obras faraônicas e intermináveis sangravam os cofres públicos; a saúde deixara de receber dinheiro do Governo Federal por causa do famigerado PAS, que não funcionava e era um antro de roubalheira; enfim, São Paulo era uma cidade sitiada.
Para tudo, havia um esquema: para montar barraca na rua, para dirigir uma perua, para obter uma guia de construção... Desvio de dinheiro e corrupção foram as marcas da dupla que me levaram a pensar que o fundo do poço para a deterioração da vida aqui estava ainda muito longe.
Quando Marta Suplicy assumiu a Prefeitura, lançou projetos polêmicos e, às vezes, discutíveis. Mas, nos dois primeiros anos, a cidade parou de piorar. E nesses dois últimos, começou a se recuperar. Operações de impacto no centro e em várias regiões acabaram por restituir um pouco do orgulho de morar nessa que é a cidade mais complexa do Brasil.
Pode-se discutir que os CÉUs custam caro, que as obras viárias atrapalham o trânsito, que os Passa-rápido ainda têm problemas, que o bilhete único não atingiu todos os transportes... Mas é indiscutível que a cidade melhorou e que esses projetos começam a dar um pouco de qualidade vida aos paulistanos. Ainda há muito por fazer. E Marta sabe disso.
Se, na campanha para a reeleição, promete melhorar a saúde (que reconhece não ter sido a melhor face de seu governo) com um projeto audacioso, isso pode até ser tomado como marketing, mas há de se reconhecer que sua capacidade de trabalho superou em muito as mais pessimistas perspectivas. Além disso, os demais candidatos fazem, todos eles, promessas e mais promessas que não conseguirão cumprir.
Há uma única exceção, nessas promessas de grandes realizações: a de um candidato cuja plataforma é passar óleo de peroba na cara de pau dos políticos (vai ser preciso criar a taxa do óleo de peroba!).
E por falar em taxa: há, no mínimo, desconhecimento e falta de cidadania em criticar as taxas criadas pela Marta. São Paulo é uma cidade cara. Cara para se morar. São Paulo teve seus cofres saqueados pela quadrilha que a antecedeu. São Paulo tem problemas que se armam como uma bomba para daqui a poucos anos. Então, por exemplo, o lixo: exige coragem para ser equacionado agora, antes que mergulhemos todos na imundície, quando não houver mais onde colocar os dejetos que produzimos diariamente. Marta se desgastou politicamente, mas teve coragem de enfrentar esse problema.
Portanto, é demagogia pensar que se pode eliminar impunemente um tributo municipal que tem por objetivo melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Enfim, não sou petista, isto é, não sou filiado ao PT, mas votei em Marta Suplicy e tornarei a votar nela, porque acho que é uma pessoa honesta que merece a oportunidade de continuar um trabalho que conseguiu tirar São Paulo do fundo do poço.
7.9.2004
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:09 PM
Segunda-feira, Setembro 06, 2004
UM CONTO: LIÇÃO DE PINTURA
... foi quando na pele o fogo senti de uns olhos negros, mal esboçado o desenho num toque mais sutil do carvão, num movimento mais lento da mão a tentar mais uma vez transpor da tela para a prancheta a curva da anca, de repente me dei conta, era perfeito, adônis em estado de graça, ali na minha frente, músculos e nervos, tendões e pêlos, mistura diabólica de tensão e graça, como nunca imaginara poder existir, o bafo quente em minha nuca, o arrepio, a voz ligeiramente rouca e sensual, e eu girei a cabeça lentamente, e lentamente me entreguei à masculinidade serena daquele corpo, um sansão de rubens ainda cheirando a tinta, num estado de ansiedade que fez vibrar cada pulso de meu ser, nunca sentira algo assim, como tremor de terra cujo epicentro estava em meu cérebro a esparramar vibrações de intensidades variadas em cada camada de minha pele, de meus nervos, de meu sexo, até o lamento final de um lobo a uivar para a lua cheia, em noite de nevasca numa estepe russa, e eu era, afinal, a mulher que sempre sonhara, plena em minha sexualidade lentamente acalentada em dissabores de amores mal passados, ali, naquela sala fria de tantas artes mal iniciadas e mal acabadas, de afrescos e modelos de todas as eras e todas as épocas, num final de agosto, interior de acalantos e sonhos e agora o cenário de meu renascer, o adônis semi-adormecido, o sexo murcho a pender de lado e a pedir novos ardores, as telas cobertas de panos brancos, tudo muito frio e ao mesmo tempo muito doce, como se bombons e anilinas perfumassem o ar cortante, e eu cobri meus seios lentos, inútil instinto de defesa e nojo, pudesse eu migrar para o pejo o desejo e o ensejo que aquele momento trouxera para as fibras de meu corpo que ameaçava virar de novo chumbo, misto de cores e nuances, e contive o riso que antecede o pranto para me aconchegar ainda uma vez àquele ventre liso e fazer vibrar mais uma vez, num derradeiro lance, o lanceiro em seu festim de caça e mais uma vez sentir tremer as camadas adormecidas de meu ser, ele era meu porque o desejara e eu era dele porque me sentia afinal protegida de todas as possíveis mortes, ali naquela sala de pintura cheirando a tintas e condimentos, os quadros todos cobertos de linho, o ar pesado de ausências e sonhos, e eu fora a escolhida, a amada de muitas eras já passadas, o instante recompensado de tantas e tantas noites solitárias, de transportes por tantas outras possibilidades que já me esquecera quem eu era, apenas o meu corpo trazia o pigmento das idades transcendentais e inauditas de museus e saraus, o ventre seco de tempestades de areias e o seios arrepiados de tantas noites frígidas, e agora o ardor daquele adônis tão esperado e tão desejado, e eis que ele acorda e se veste e se vai e me deixa mais uma vez ali na prancheta, apenas esboçada, nua e fria, sem ao menos me cobrir com o linho do tempo ou sussurrar em meus ouvidos qualquer pesar pelo seu agora para sempre adiado sonho de pintor...
Isaias Edson Sidney
17/6/03
quinta-feira, 3 de julho de 2003
GRUPO DE CONTISTAS DE SÃO PAULO
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 5:12 PM
Sexta-feira, Setembro 03, 2004
A MORTE DE VLADIMIR HERZOG
O programa Linha Direta, da Rede Globo, trouxe à tona a morte do jornalista Vladimir Herzog. A emoção é a mesma da época dos acontecimentos. A pergunta engasgada: por que morreu Vlado? Por quê?
Muitos foram os mortos nos porões da ditadura. Sem explicação. Sem justificativa. Cada ser humano torturado e morto pelos monstros subterrâneos do DOI-CODI tem de merecer nosso sentimento de horror e nojo.
Mas vou falar de Valdimir Herzog, para mim um caso mais emblemático do que imaginam nossos piores pesadelos.
O ditador de plantão, Geisel, o alemão, pertencia à linha mais nacional-socialista dentre os golpistas de 64. Sua xenofobia, com certeza, contaminava o tecido governamental. Por outro lado, Vlado, estrangeiro, judeu, tinha tudo para atrair para si o ódio desse tipo de gente.
Seu torturador e assassino (cujo nome me recuso a escrever) declarou mais tarde que se fosse preciso, faria tudo de novo.
Quando, durante o processo de tortura, prevalece no prisioneiro o princípio ético de não dedurar, de não compactuar com a safadeza que se armava, os torturadores perdem o controle e o matam. Por quê?
Porque não podiam admitir que um judeu estrangeiro pudesse desmoralizá-los, mostrar-se superior à canalha que o torturava. Outros morreram por vários outros motivos, por vários outros ódios, mas o ódio que matou Vlado é aquele que não quer calar.Acredito que, entre várias razões, Vladimir Herzog morreu porque atraiu o ódio xenófobo e racista de seus torturadores, inspirados pelo pior dos horrores que já passou pela história do homem, o nazismo.
Por isso, talvez, seu martírio é tão emblemático. E provoca um engasgo no peito, um sentimento maior que o da revolta e indignação pela dor da perda de tantas vidas, nos porões da ditadura: o sentimento de nojo.
Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br
3.9.2004
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:52 PM
Quinta-feira, Setembro 02, 2004
É PRECISO DESTRUIR TODOS OS ALTARES
È preciso destruir
Todos os altares, todas as piras, todos os templos
No coração dos homens.
Há cheiro podre de cadáver putrefato no ar e
No coração dos homens.
É preciso destruir altares de um deus morto
No coração dos homens.
É preciso que todas as piras não mais exalem
No coração dos homens
O cheiro putrefato do deus morto.
Templos de ódio, templos de dor, onde jazem
Como se fossem no coração dos homens
Deuses mortos, fétidos por estarem podres.
Da carne suja dos deuses mortos
No coração dos homens
Gases exalam rancores e ódios e trevas.
Do coração dos homens
O tóxico de opiários espirituais enlouquece
E destrói e mata e mutila e rompe
A carne vermelha de corações em chamas.
Não mais templos, não mais piras, não mais sacrifícios.
Matar os deuses dos corações dos homens
Seja da paz o gesto final.
(terça-feira, 18 de setembro de 2001)
Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 11:54 AM
Quarta-feira, Setembro 01, 2004
O DESTINO DO HOMEM
Já se usaram inúmeras metáforas para definir o homem e distingui-lo dos outros animais: o único animal que ri; o único animal que chora etc. Mas, na verdade, a única distinção realmente significativa entre o homem e seus parentes bichos, eu acredito, é aquela que diz que ele, o homem, é o único animal que pode evitar sua extinção. A história da evolução é clara: todos os seres vivos surgem, evoluem, modificam-se, adaptam-se ao meio, e depois entram em processo de extinção. O homem tem consciência disso e pode, até certo ponto, evitar ou prorrogar o seu processo de extinção. Assim como os animais, nós, os homens, surgimos, evoluímos, modificamos nossas características e adaptamo-nos ao meio. Assim como os animais, surgem em todas as gerações experimentos genéticos que não dão resultado. São seres inadaptados, a que faltam certas características ou sobram aspectos ou órgãos; são seres que nascem monstruosos, com deformidades que provocavam espanto e admiração no passado e condenavam esses seres a viverem de sua monstruosidade, em circos e aparições públicas para derrisão do populacho ignorante. Ainda hoje, em pleno século vinte e um, ainda há pessoas que rejeitam com nojo o aparecimento desses seres, que nada mais são do que erros ou experiências da natureza, fruto de um processo aleatório de idas e vindas de nossos genes em busca da melhor adaptação. Não há monstruosidade nenhuma. São seres que merecem ou deviam merecer o mesmo respeito que qualquer outro que tenha nascido saudável, de acordo com as convenções vigentes. Na maioria das vezes, esses seres têm vida curta e, mesmo diante de toda a tecnologia disponível para tentar salvá-los, são como passarinhos que caem do ninho ¿ tentamos prolongar-lhes a vida com alguns cuidados, mas eles quase sempre acabam morrendo prematuramente. Por outro lado, a evolução privilegia os seres mais bem adaptados, os mais perfeitos (dentro de um conceito bastante relativo de perfeição), e esses acabam prevalecendo, por algum tempo, até que também eles não tenham mais para onde evoluir e entram em processo de extinção. Os dinossauros são, provavelmente, o exemplo mais dramático desse tipo de evolução: tomaram o caminho errado, o crescimento exagerado, e a natureza não acompanhou a demanda de alimentos de que necessitavam e eles entraram em rápido processo de extinção, independentemente de qualquer catástrofe natural, como a propalada queda de um asteróide. Temos o maior respeito pelas baleias. São seres fantásticos. Mas a proliferação exagerada desses mamíferos marinhos pode levar à extinção inúmeras outras espécies de peixes, de que elas se alimentam, tendo como resultado sua própria extinção. Embora belos, são seres condenados pela ordem da natureza. Também o homem, se não obtiver uma clara noção de seu processo evolutivo (e temos essa noção: só não sabemos ainda o que fazer), poderá, dentro de alguns milhares de anos, tomar iniciativas que evitem a sua extinção, se a natureza não nos pregar uma peça como fez com os dinossauros e as baleias. No entanto, acredito que o conhecimento que se abre com o descobrimento da cadeia genética poderá tornar o homem o criador de seus caminhos, concluindo, afinal, que é ele, o homem, a criatura mais importante da natureza e só ele pode salvar essa mesma natureza e salvar a si mesmo.
Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:10 PM
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