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Terça-feira, Agosto 31, 2004
MENDIGOS... AH! OS MENDIGOS!
Chamam-nos, agora, população da rua. Sempre existiram. Em todas as cidades e em todos os tempos. Muitos moram na rua por necessidade: desemprego, expulsos de casa, perdidos na cidade... Mas muitos o fazem por opção: querem a liberdade de beber sua cachaça, de não trabalhar, de curtir a vida, de serem alienados em paz... Enfim, querem liberdade. Mas são prisioneiros de suas manias, de seu cão, de sua carroça, da luta por achar o que comer... Incomodam, sempre incomodaram. Mas é aquele incômodo assim: quando sujam a calçada perto de quem não gosta; quando encostam pedindo um pastel, na hora do cafezinho; quando tocam insistentemente a campainha para pedir alguma coisa... Enfim, aquele incômodo que vem e passa... Pois, na maioria das vezes, são invisíveis. Quando morrem, quase sempre ninguém lhes chora a ausência. O rabecão recolhe o corpo e a curiosidade dura o tempo de a rodinha se desfazer. Não há boletim de ocorrência, quando se matam, a si mesmos ou uns aos outros. Apenas morrem. Como pombos. Como cães. Passam pela vida e algumas pessoas até os notam, com um prato de comida de vez em quando; com uma roupa mais quente, quando esfria; com a proposta (recusada, sempre) de um pequeno trabalho. São seres humanos, mas a sociedade dita produtiva quase não os classifica como tais. Afinal, o que produzem? Esquecem que são produtos e não produtores. São produto do gênero humano, que os faz assim: alienados, meio loucos, sofridos, felizes, livres... Agora, estão matando esses quase seres humanos... E, de repente, eles ficaram visíveis. Visíveis, porque estão sendo mortos. Por quem? Não importa muito se por esses ou aqueles grupos de raivosos: importa é que a morte de muitos (e foi preciso ser por atacado!) tornou-os visíveis. E então, tome crítica ao governo, à polícia... E tome manchete de jornal... E tome essa ou aquela ong a querer protegê-los... E eu pergunto: por que matá-los? Eles estão ali apenas para nos dizerem algo sobre nós mesmos: o quanto o ser humano é frágil e o quanto nós nada sabemos sobre nós mesmos... Deixem os mendigos em paz! São apenas seres que nós produzimos com nossas regras, com nossas fábricas, com nossos escritórios, com nossos genes... Podia ser você, ali... Podia ser eu, ali... Deixem em paz nosso povo da rua... Eles já se matam todos os dias, não é preciso que alguém bem nutrido, forte, a mando ou não de pessoas que são muito, mas muito piores do que eles, faça o serviço por eles... Deixem que eles voltem a ser invisíveis e incomodem a nós como sempre incomodaram, o que é tão pouco para mortes tão violentas! E eu só posso dizer uma coisa: é muito triste consigo mesmo quem odeia e mata por tão pouco! E fico aqui a pensar alguma coisa que possa fazer, mas não há nada a fazer. Apenas, perguntar, para nunca saber a resposta: por quê?
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:55 AM
Sexta-feira, Agosto 27, 2004
OLIMPÍADAS
Merece uma nota à parte o item Olimpídadas, já que a imprensa e parte da população brasileira é tomada de euforia e, depois, frustração à medida que se desenrolam os jogos olímpicos de Atenas.
O ideal olímpico de Cupertin há muito foi para o saco. A idéia que prevalece é: se não for para vencer, para que competir? Assim, nações poderosas economicamente são sempre as campeãs em número de medalhas conquistadas, e as que desejam alcançar o pódio investem milhões de dólares na preparação de seus atletas e, até mesmo, na ¿compra¿ de atletas.
Para quê tudo isso? Para mostrar superioridade nacional. O nefasto nacionalismo (que Hitler tão bem soube demonstrar na Olimpída de Munique) continua cada vez mais exacerbado. As nações se engalfinham para mostrar uma superioridade que, muitas vezes, não resiste a uma análise mais aprofundada. E tudo se torna artificial, resultado apenas da vontade econômica do poder de investimento.
Na verdade, nenhum atleta representa nação nenhuma, a não ser a sua própria capacidade de atrair investidores e sua tenacidade em treinar e se aperfeiçoar. Podemos torcer por nossos times e nossos atletas, apenas porque os conhecemos um pouco melhor (e às vezes, só durante os tais jogos), mas, na minha opinião, é extrema bobagem relacionar suas conquistas ou suas derrotas à imagem do país, seja ele qual for.
Sou patriota, mas não sou nacionalista. Adoro a terra em que nasci, mas sou cidadão do mundo. Não preciso que fulano ou beltrano me represente em Atenas. Se admiro suas conquistas, faço-o apenas por sua capacidade e não porque é brasileiro. Não vou, por isso, execrar suas derrotas como se fossem uma perda nacional.
Recuso a idiotice do dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues que, diante do fracasso futebolístico da Seleção de 1950, escreveu que o brasileiro tem complexo de vira-lata. Na sua lata virada cheia de lixo é que deve ser lançada semelhante bobagem. Quando um grupo de homens ou mulheres, atletas ou de qualquer outra atividade humana, fracassa, é esse grupo quem fracassa e não o seu país. Se esse mesmo grupo se sai vitorioso, deve ser festejado e admirado por sua vitória como conquista desse grupo e não seu país.
É preciso detonar as fronteiras, acabar com todos os nacionalismos imbecis.
Os jogos olímpicos seriam mais olímpicos se privilegiassem o indivíduo e não suas nações. O quadro de medalhas devia vir com o nome do atleta e não em nome de nações. Só assim, o tal ideal olímpico podia, talvez, começar a ser praticado.
Mais uma utopia, mas não patônica. Que Platão repouse em paz!
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:43 PM
Quarta-feira, Agosto 25, 2004
COISAS QUE INCOMODAM
A vida moderna, os rápidos meios de comunicação e até mesmo a globalização trouxeram para o no nosso convívio, sem que nos déssemos conta ou pudéssemos impedir, mil coisas que incomodam e contribuem para piorar a nossa qualidade de vida. Naturalmente, cada um terá a sua lista, mas aqui vão algumas sugestões de coisas e fatos desagradáveis ou absurdos que pululam diante de nós a todo momento:
1. propagandas de emagrecedores ¿ remédios milagrosos, máquinas de fazer sarados, geringonças de ginástica passiva etc. ¿ com mulheres e homens a matraquear sobre as fantásticas qualidades de seus produtos que não emagrecem e ainda podem fazer mal à saúde;
2. programas de pegadinhas: todas elas devidamente combinadas, com brincadeiras estúpidas e pessoas idiotas fazendo-se enganar por atores ainda mais idiotas, com um imbecil em áudio a rir e comentar aquilo como se fosse... bom, deixa pra lá;
3. programas religiosos: sejam de que religião for, os caras são muito chatos!
4. duplas caipiras de cidade grande: com sua música pasteurizada, sempre igual, com aqueles desafinados horríveis... arre!
5. rap: quer coisa mais chata do que essa coisa que dizem ser música, com um negão ou neguinho falando um monte de não sei o quê, enchendo o rabo de grana para ser contestatório de uma realidade que seu status de pop star renega?
6. buzina de moto, aliás, motoqueiro em geral (com todas as devidas exceções): os caras são muito chatos; além disso, querem que os motoristas tenham cuidado com eles, quando não têm o mínimo cuidado com sua própria vida: fazem mil estripulias e aumentam diariamente as estatísticas de mortes no trânsito;
7. propaganda eleitoral gratuita: sem comentários;
8. luz amarela nas cidades: inventaram que a luz amarela é mais econômica (o que é mentira!) e tornam tudo mortiço, depressivo, parecendo velório;
9. reality shows: fazedores de famosos instantâneos, como leite em pó (você bate, bebe e tem dor de barriga em seguida);
10. peito siliconado: quando é que as mulheres vão se tocar que tocar um peito de silicone é o mesmo que apertar bexiga de gás?
11. garota de ipanema (ou é a bisavó de ipanema?): a mãe é chata, as filhas são chatas e ainda saem nuas juntas em revista masculina, não é o fim?
12. a cara de pau do Bush: sem comentários;
13. tucanos com saudade do FHC: ser oposição, tudo bem, mas ser eterna viúva do Fenandenrique é o fim da picada! (Até as viúvas mais renitentes um dia tiram o luto!)
14. sandy e júnior: a virgem (!) e o pateta ¿ com aquelas musiquinhas... que porre! (aliás, filho/a de dupla caipira devia nascer sem cordas vocais!);
15. concurso de miss: e tem emissora de tevê que pretende ressuscitar essa droga!
16. bin laden: por onde anda o barbudo com olho de peixe morto?
17. saddam husseim: e quando começarem a julgar o homem? Vai ser um festival de absurdos!
18. papa : por que não se aposenta e pára de falar bobagem? É contra o uso de camisinha (e a Aids está aí!), tem preconceito contra homossexual (é doença, gente!) e cada rosnado seu joga a igreja (que já não é lá muito progressista) mais cem anos para trás;
19. novela mexicana: mais brega, só novela colombiana, venezuelana...;
20. qualquer novela em qualquer canal: sem comentários;
21. sitcom: coisa feita por americano e que só americano consegue gostar (e ainda colocam uma claque para rir das piadas!);
22. festa do oscar e o próprio: brega, chato, inútil, repetitivo (coisa de americano caipira para americano idiota);
23. brasileiro em festa do oscar: se a festa é deles, feita para eles, com tudo aquilo que eles acham que têm direito, o que brasileiro tem que fazer lá? (só se for para pagar mico);
24. programas de denúncia na televisão: pagam fortunas para um imbecil ficar falando asneiras diante de reportagens sensacionalistas (outro dia, um desses soltou a seguinte pérola, diante das imagens de um motoqueiro se estrebuchando depois de um acidente: ei, não me vá morrer ao vivo! Pode?);
25. gente comendo pipoca, bebendo refrigerante e falando alto no cinema: ô povinho!
26. rios poluídos: quando vão parar de matar os rios? quando todo mundo tiver morrido de sede? isso não é nem mais irritante, é sacanagem mesmo, e das piores!
27. correntes de internet: receber a mesma corrente de pelo menos 5 pessoas no mesmo dia, só se for para deletar todas sem ler, aliás, é melhor deletar mesmo! (é tudo besteira, ou alguém acredita em praga por computador?);
28. consultorias de recrutamento: quando as autoridades vão tomar atitude contra a indústria de exploração de desempregados? pode alguém pagar para conseguir emprego? que sacanagem é esta? que povo é esse que não tem um mínimo de princípio ético? cadeia neles!
29. produtos vencidos em gôndolas de supermercados: os gerentes ¿esquecem¿ de retirar produtos com data de validade vencida e o consumidor distraído se ferra; vamos denunciar, gente! vamos ler rótulo, gente!
30. brasileiro em olimpíada: pô! Será que ninguém se toca que ganhar ouro em jogos olímpicos é coisa para quem põe muita, mas muita mesmo, grana nos esportes? Só ganha ouro quem tem muito ouro, com as devidas exceções, é claro, que de vez em quando aparecem os que gostam de estragar a festa alheia. Deixem os nossos atletas em paz! Ninguém tem obrigação de trazer medalha nenhuma: já são heróis só no fato de participarem!
31. histeria da imprensa: só porque alguém resolveu pôr o dedo em questões éticas que muitos jornalistas não respeitam, há uma enxurrada de depoimentos de gente que nem sabe o que está falando. Imprensa livre não quer dizer irresponsável. E dizer que cada um cuida de si é ser muito ingênuo. A propaganda, por exemplo, pode ter um conselho auto-regulador, mas os intocáveis dos jornalistas, não! Se o projeto é ruim, basta melhorá-lo ou levar o Congresso a rejeitá-lo, mas ficar chorando em letra de forma e acusando o Governo de autoritarismo por isso é, no mínimo, querer manter a imprensa livre de qualquer responsabilidade, e isso não é, definitivamente, liberdade. Dizer que há leis para punir quem publica falsidades também não vale: os responsáveis pela execração pública dos donos da escola Base de São Paulo nunca foram e nunca serão punidos! E o caso Ibsen Pinheiro, hem, hem?
32. elaborar lista de coisas que incomodam: haja saco!
Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:27 PM
Quinta-feira, Agosto 05, 2004
PROPAGANDA POLÍTICA: TÔ FORA!
Por que não assisto à propaganda política? Há muitas razões para isso, mas vou me deter naquela que eu acho ser a mais importante.
Uma vez, quase crucificaram o Pelé, porque ele teria dito que o povo não sabe votar. No contexto de ditadura em que estávamos, a frase, é claro, soou mal, muito mal: justificava as eleições indiretas e toda a patifaria política dos milicos.
Hoje, no entanto, quando nossa democracia já começa a dar ares de amadurecimento, volto ao assunto para dizer que, infelizmente, o povo não sabe votar. Ainda. Aliás, não é privilégio do povo brasileiro, não. Em todo o mundo, as eleições provam que ainda falta muita politização para o povo votar com seriedade. Haja vista o Bush, nos Estados Unidos, só para citar um exemplo mais do que evidente, sem provocar nuestros hermanos argentinos, que há anos só elegem cacarecos, sem contar sua enraizada predileção pelo caudilhismo populista chamado peronismo (nenhuma nação séria pode ser peronista: seria o mesmo que, aqui no Brasil, ressuscitássemos o getulismo!)
E porque o povo não sabe votar, vamos eliminar as eleições? É claro que não! Porque é votando que se aprende.
Então, vamos aos fatos. Quantas vezes foi o povo enganado em eleições no Brasil? De 1960, para cá, podemos citar, apenas nas eleições presidenciais, dois grandes, imensos, engodos: Jânio Quadros e Collor de Mello. Isso, porque durante esse tempo todo, tivemos muito poucas eleições presidenciais! Em governos estaduais, então, a lista seria muito maior. E imensa, se formos buscar os prefeitos que se elegeram nos mais de cinco mil municípios apenas por interesse, politicagem e roubalheira! E não teria fim, se incluirmos os vereadores, deputados (estaduais e federais) e senadores que se revelarem grandes picaretas no exercício de seus mandatos. Ou seja, de enganadores as nossas urnas andam cheias.
Por quê?
Primeiro, porque realmente o povo sempre se iludiu com falsas promessas, com presentes de ocasião, com palavras bonitas e outras bobagens mais. Políticos sacanas, em geral, são bons comunicadores. Sabem manipular a verdade e engabelar os eleitores. E isso está na natureza desses picaretas: não há muito o que fazer. Elegem-se, aprontam e, às vezes, até permanecem por várias eleições, sempre com a mesma cara de pau e os mesmos idiotas a votarem neles, na falsa esperança de que eles vão resolver alguma coisa a mais que a sua própria vida e sua conta bancária, geralmente no exterior.
Segundo, porque, de há algum tempo para cá, existe um dado novo: o marqueteiro. Ou seja, político que quer se eleger, seja ou não um picareta, tem de ter um marqueteiro. É esse indivíduo (e sua assessoria) que planeja o que o cara tem de falar, de prometer, de agir em cada situação. Eles ¿ os maqueteiros ¿ engessam seu cliente, embalam-no em papel celefone colorido, com flores e laços de fita, e oferecem-no ao pobre eleitor como um produto a ser admirado, cobiçado e consumido, isto é, votado.
Não são seres de verdade, esses sub-produtos do marketing. São bonecos de ventríloquo que prometem tudo aquilo que eles sabem que não vão poder cumprir, mas têm de prometer porque o marqueteiro obriga e, pior, o povo quer ouvir essas promessas, por mais absurdas que sejam (para isso, há as famigeradas pesquisas de opinião, onde cada um cria a sua utopia). Fernando Henrique foi um produto do marketing e Lula é um produto do marketing. FHC fez o governo que podia fazer e não o que prometeu. Se foi bom ou não, não o estou julgando neste artigo. Lula está fazendo o governo possível, não o que prometeu. Se está bom ou não, também não é finalidade desse artigo julgar o seu governo.
O que eu quero dizer é que nenhum político é aquilo que diz ser, mas o povo não percebe e vota na promessa mais mirabolante, no plano mais inexeqüível, nas palavras mais bem entoadas e cantadas. É só ver o que acontece, agora, nas eleições municipais. Prefeito tem restrições constitucionais de governo que nenhum candidato respeita: prometem fazer coisas que nem o papa teria poder de fazer. No entanto, são essas promessas que seduzem. E a mídia se cala diante de candidato que promete obras e feitos que extrapolam em muito a sua competência como possível futuro prefeito.
Portanto, se eu sei disso tudo, se conheço o histórico dos candidatos, se leio os princípios que norteiam o seu partido político, se observo a situação em que está a prefeitura de minha cidade e as reais demandas da população, saberei muito bem como o candidato x irá governar, independente de suas promessas para boi dormir, de seu mirabolante plano de governo para enganar trouxas. Então, não preciso perder tempo com a propaganda eleitoral gratuita, com programas produzidos pelos marqueteiros de plantão nas pegadas de meu candidato. E não me frustrarei quando, eleito, não cumprir todas as bobagens que prometera.
E tem mais uma coisa: não sou contra a propaganda eleitoral gratuita, não. Só não concordo com o modo como ela é conduzida, embora creia que não há mais jeito de ser modificada, porque qualquer imposição de regras que queiram engessá-la só faria o jogo dos que não gostam de eleições e, por conseguinte, não gostam de democracia. Que sejam eleitos, então, os cacarecos, os picaretas, até que, um dia, quem sabe, o povo aprenda realmente a votar e consiga banir aqueles que não têm competência nem um pingo sequer de ética nas fuças.
5.8.2004
Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:13 PM
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