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{Sexta-feira, Maio 21, 2004}

 
EDUCAÇÃO: SISTEMA DE QUOTAS

O governo está propondo que 50% das vagas das universidades públicas sejam disputadas por alunos oriundos de escolas públicas.

Está aí a solução para o problema de quotas. Não pode haver, nas circunstâncias, idéia melhor. Digo, nas circunstâncias, porque não adianta os teóricos virem com idéias mirabolantes e complexas, que a realidade é uma só e a história está aí, acontecendo agora. Não se pode mais esperar.

Quando se discutem quotas para negros, por exemplo, a idéia pode ser justa, mas complexa na sua aplicação. Quem é negro no Brasil? Uma grande porcentagem de pessoas aparentemente brancas tem sangue negro nas veias, em virtude da miscigenação. Então, teoricamente, qualquer um pode se declarar negro.

No entanto, a segregação racial no Brasil tem um lado muito mais perverso: é a segregação social. O negro não tem vez na escola superior porque é pobre, e não apenas por ser negro. O que não quer dizer que eu esteja negando a ausência de preconceito racial no Brasil. Mas a verdade é que a maioria da população parda e negra estuda em escola pública. E escola pública tem sido sinônimo de escola para pobre. E aí reside a sua tragédia. No passado, não muito distante, há apenas uns cinqüenta anos, a escola pública era freqüentada por nossas elites. Sua deterioração tem muito a ver com o fortalecimento da escola particular, cujo nível de ensino tem muito de perfumaria e pouco de real qualidade, a que tanto lhe atribuem, em termos de educação. Há poucas, muito poucas, escolas particulares de qualidade no Brasil. A quase totalidade delas ensina, e muito bem, o aluno a decorar conteúdos e não o educa efetivamente. Isso faz o encanto de nossa classe média que, assim, consegue meninos e meninas de bom nível intelectual que não pensam ou, se o fazem, colocam seu talento a serviço da ideologia dominante, seja ela qual for. Preparar semi-robôs para vencer concursos vestibulares, esse o objetivo da maioria das escolas particulares. Já a escola pública, com seus pobres e párias sociais, tenta convencê-los, inutilmente, das possibilidades de uma boa educação, mas como todos sabem que, se quiserem continuar os estudos, terão de ir para uma escola particular, que continuará lhe dando ensino de segunda com preço de primeiro mundo, só colhe desânimo e angústia e a maioria de seus bons alunos se perde no meio do caminho.

Como melhorar a escola pública?

Essa é uma questão que não depende de pedagogos, de professores e de intelectuais. Depende de vontade política. E de pressão. Aqui, quem fala mais alto consegue o que quer. A classe média tem acesso à mídia. E bota a boca no trombone, sempre que lhe interessa. Já o pobre só consegue ser ouvido fechando avenidas ou estradas e fazendo passeata. E isso quando há fatos muito graves. E ensino, diante de tantas mazelas a que estão sujeitos, não está, infelizmente, entre as suas preocupações mais imediatas. Então, como a clientela da escola pública é pobre e não tem força política, a não ser na hora das eleições e, assim mesmo, quase sempre é enganada pelos demagogos de plantão, a escola pública só pode tornar-se melhor se houver pressão da comunidade para isso. Porque há bons professores, há bons métodos de ensino e há, entre os educadores, propostas muito interessantes de trabalho que, muitas vezes se perdem ou não ganham o destaque necessário justamente porque há preconceito contra o ensino público, resultado de dezenas de anos de sucateamento. E há, ainda, dinheiro para a melhoria. A Constituição reserva para a educação uma quantidade suficiente de verba para que a escola pública tenha qualidade e, até mesmo, pague bem aos seus professores. Falta, apenas, repito, vontade política para melhor aplicação dessas verbas. E isso só será feito, se houver pressão da comunidade e, para que essa pressão tenha resultado, essa comunidade deve ter voz. Como os pobres não têm voz, fica difícil, e entramos num círculo vicioso.

E é aí que entra o sistema de quotas. Se 50% das vagas das universidades públicas, que são as melhores, apesar de tudo, forem disputadas pelos alunos oriundos da escola pública, esta irá atrair de novo, pouco a pouco, o interesse da classe média, que passará a colocar os seus filhos também na escola pública. Com isso, a clientela da escola pública se fortalecerá, deixando de ser apenas ¿escola para pobre¿ e essa clientela, que tem maior poder de pressão, irá, com certeza fazer uso desse poder para melhorar o nível da escola pública. Além disso, a integração entre os jovens que, geralmente, não têm ainda os vícios dos pais, fará com que o preconceito diminua. O encontro com o outro, em sala de aula, fará bem a todos, ao se reconhecerem semelhantes.

Na outra ponta, a universidade pública, na qual só estudam jovens oriundos das classes média e alta, ganhará uma mescla altamente saudável de outras visões de mundo. Deixará, possivelmente, seu elitismo, para prestar mais serviços à comunidade. E não me venham dizer que seu nível cairá, porque isso é uma tremenda bobagem. Os alunos da escola pública que conseguirem entrar na universidade, vencendo a barreira do vestibular ou de qualquer outro sistema de avaliação, serão os melhores dentre os seus pares e, se não têm, talvez, a mesma quantidade de conteúdos que têm os de escolas particulares, têm em sua formação, com certeza, outros conteúdos de educação que compensarão possíveis diferenças. Diferenças nas quais eu, pessoalmente, não acredito muito. E também aqui, o encontro com o outro, num ambiente universitário, exercitará o respeito e contribuirá para a diminuição do preconceito.

É claro que tudo isso são teorias. Mas creio firmemente que a realidade seguirá exatamente esse curso. Portanto, não há motivos para ser contra, nesse momento, o sistema de reserva de 50% por cento das vagas das universidades e faculdades públicas para jovens oriundos das escolas secundárias públicas. Esse sistema será, no mínimo, uma forma de justiça social e de promoção do encontro, agora mais do que nunca necessário, das diversas classes que constituem o nosso roto e quase rompido tecido social. Até que um dia não precisemos mais de nada disso.

Se os jovens dos colégios particulares se sentirem discriminados, que pressionem para que se aprove, também, uma lei que reserve para eles 50% das vagas das faculdades e universidades particulares.

E maior justiça será feita.

Isaias Edson Sidney
21.5.2004

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:11 PM


{Segunda-feira, Maio 17, 2004}

 


POR QUE SÃO TÃO BÁRBAROS OS MENINOS AMERICANOS?


Há espanto e indignação no ar. O mundo vê, com apreensão, a escalada de violência no Iraque. Batalhas que envolvem e matam centenas de civis. Bombas que destroçam núcleos de poder. Soldados que sofrem emboscadas, sejam americanos ou ingleses. Pessoas decapitadas diante das câmaras de televisão. E tortura. Com soldados americanos e ingleses sorridentes diante de corpos nus ou em situação degradante.

Barbárie!

E por que tudo isso? Por que agem assim os americanos? Afinal, vale tudo na guerra? Por que as pessoas se tornam monstros, numa guerra? Por que afloram tantos instintos primordiais, diante do outro?

Não pretendo provar nada, mas apenas levantar uma tese, buscar uma explicação. Não uma justificativa. Mas tentar entender por que o ser humano e, em especial, o ser humano, branco ou negro ou latino, nascido nos Estados Unidos, age como verdadeiro monstro em situação de nítida superioridade diante do outro, um inimigo apenas político e não pessoal de cada um deles.

Quando Cortez chegou ao México, no século XVI, houve um grande choque entre duas civilizações completamente diferentes. Desse estranhamento, resultou o massacre dos astecas, numa das maiores chacinas de todos os tempos. A civilização culta, cristã e européia, não podia conviver, naqueles idos dos quinhentos, com o diferente, o inculto, o não-cristão. E como era superior em armas e estava escudada pela filosofia vigente na época, de que se tratava apenas de seres sem alma, não teve dúvidas em dizimar os exércitos de Montezuma e passar a fio de espada mulheres, crianças, velhos ou quem encontrasse em seu caminho. Há um livro magnífico sobre isso: A conquista da América, a questão do outro, de Tzvetan Todorov (Martins Fontes, São Paulo, trad. de Beatriz Perrone Moisés).

Nesses quinhentos anos, muitos outros encontros como esse foram realizados. E em quase todos, o mesmo estranhamento levou o branco dito civilizado a quase dizimar inúmeras outras populações, na América, na África e na Ásia. As guerras coloniais estão aí para provar.

Por outro lado, nesses quinhentos e tantos anos, o mundo evoluiu. O século XX, mesmo sendo o século das grandes guerras, mesmo sendo o século em que mais se matou e assassinou do que em qualquer outro período da história, trouxe novas perspectivas no campo da ciência, da filosofia e, até mesmo, avanços no campo da religião. Mas tudo fica na teoria, quando a prática da guerra se sobrepõe a qualquer possibilidade de entendimento ou de visão do outro.

Mesmo globalizado, o mundo se fecha em nações, em etnias, em estados auto-sustentáveis em termos de educação e cultura. Ou seja, o mundo se globalizou em termos econômicos e comerciais, para gáudio dos exploradores de sempre, mas poucos são os povos que deixam de olhar para o seu próprio umbigo, quando se trata de usos, costumes, idiossincrasias, cultura e compreensão do que acontece além de suas fronteiros, de suas regiões, de seus cantões.

E dentre todas as nações, talvez aquela em que esse viés humano, ou desumano, mais se acentuou foram, sem dúvida nenhuma, os Estados Unidos. O americano médio simplesmente desconhece o que se passa no resto do mundo. E a palavra resto, aqui, tem todas as conotações negativas possíveis. E quando falo do americano médio, falo do branco, alto, forte, bem alimentado, geralmente protestante, classe média, não importa se habitante de uma grande cidade (exceção provável: Nova Iorque) ou de pequenas localidades rurais, que olha com desconfiança negros, latinos, asiáticos ou qualquer outra etnia. E esse americano típico, quando olha o mundo, vê os outros povos com olhos de espanto, de não-entendimento, de nojo. Como os espanhóis, os portugueses e os demais europeus viam os habitantes pré-colombianos da América. Se, nos anos quinhentos e seiscentos, os índios eram seres sem alma, hoje são anódinos, sem importância, quaisquer outros habitantes de regiões que não participem diretamente do raio de ação comercial, lingüística ou cultural desse norte-americano médio.

Os Estados Unidos da América, a maior nação do mundo, hoje, incrementaram e enraizaram idelevelmente em sua população o conceito de superioridade, cultivado ao longo de mais de dois séculos de crescimento e conquistas em todos os terrenos da atividade humana. Por isso, os olhos com que os americanos olham o mundo são olhos de americanos, filtrados por um caldo cultural americano, embasados em conceitos profundos de superioridade nacional americana. E, por isso, esses olhos não vêem o outro, não o enxergam como semelhante. São todos índios, seres inferiores que têm costumes diferentes e incompreensíveis, que cultuam deuses desconhecidos, que se vestem com trajos não civilizados, que são feios e barbudos ou baixos e de olhos puxados, ou de pele de cor parda, totalmente fora dos padrões conhecidos e reconhecíveis como pertencentes a outros seres humanos.

O exército norte-americano é constituído, em sua maioria, dessas pessoas. Mesmo o negro ou latino que hoje se misturam, de forma minoritária, a esse tipo de indivíduo, com ele mantêm uma relação simbiótica e empática, fruto do aculturamento a que se submetem ao alistar-se nas forças armadas. O exército, qualquer exército, constitui-se no maior reduto de conservadorismo de uma nação, por ser o depositário da segurança dessa nação. Logo, as forças armadas americanas assimilaram e refletem, com muito maior densidade, essa visão estreita e nacionalista. E dão sinais inequívocos disso. Num depoimento, uma das soldadas envolvidas com a tortura, declarou que mais de sete mil prisioneiros iraquianos recebiam semanalmente a visita de alguns médicos que atendiam a apenas vinte prisioneiros por vez! E que esses milhares de iraquianos eram vigiados por poucos soldados americanos, ou seja, se se rebelassem ou tentassem fugir (o que, por sua condição inferior, não teriam condição de fazê-lo), seriam mortos a tiros.

A história está repleta de relatos de atrocidades americanas em todas as guerras em que eles se envolveram. Isso não é novidade. A novidade está em que a ocupação do Iraque tomou um rumo de crueldade e incompetência que tem estarrecido o mundo. Era uma tragédia anunciada, que toma proporções inimagináveis, muito diferentes e ainda mais cruéis, se isso é possível, do que aconteceu, por exemplo, no Vietnã. A própria desculpa para essa ocupação foi precedida de um tom de arrogância e intolerância jamais vistos nas anteriores tentativas de supremacia dos norte-americanos: salvar o povo iraquiano de seu tirano, já que eles não tinham competência para tanto. E encontrar as tais terríveis armas de destruição em massa, que poderiam aniquilar os Estados Unidos. Leia-se: a civilização. São de uma triste e terrível ironia essas desculpas. Seriam risíveis, se não fossem tão trágicas. Demonstraram, já, o nível de prepotência a que chegou o governo de uma nação diante do mundo. Sem precedentes na História da humanidade. E o mundo, acovardado, ainda assiste ao triste espetáculo do apoio de nações como a Inglaterra, a Itália, o Japão e a Espanha. Esta, graças a um tremendo e horripilante sistema terrorista de chantagem, acabou por se retirar da empreitada. Deixando no ar a certeza de que o terrorismo, que não é o terrorismo de estado, pretensamente praticado por Saddam Hussein, continua ativo e ameaçador como sempre esteve. Com os agradecimentos de Bin Laden.

O que eu quero dizer, afinal, que tudo isso não justifica o que têm feito os rapazes e moças de boa família do exército americano no Iraque. Apenas explica, em parte, por que razão esse tipo de barbárie continuará ocorrendo, sempre que os Estados Unidos entrarem numa guerra. Ou provocarem uma guerra. Porque os Estados Unidos, se justificam suas ações com motivos políticos (no Iraque: terrorismo e geopolítica), agem e guerreiam por motivos econômicos (no Iraque: petróleo e outras coisas mais), e acabam, mesmo, é fazendo guerras étnicas, ou seja, no dia-a-dia dos combates, está em jogo a supremacia racial e cultural (e também, por que não, econômica) americana. E, então, tudo é permitido. E seus meninos e meninas caem na barbárie incentivados por sinais claros, do governo e das forças armadas, de que o outro não merece nenhum respeito e deve ser destruído a qualquer preço porque é diferente, porque não tem os mesmos traços fisionômicos, os mesmos usos e costumes, a mesma cultura a que eles (os meninos e meninas bem alimentados de corpo e estupidificados pela ignorância) estão acostumados a conviver no seio rico e próspero da nação norte-americana.


Isaias Edson Sidney

São Paulo, 17 de maio de 2004.


posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:47 PM


{Terça-feira, Maio 04, 2004}

 

UM POEMA

PELA IGUALDADE


Nada como ser mulato, cafuzo ou mameluco,
ser índio e indiano,
ter nas veias o sangue de japonês misturado ao alemão;
ter olhos azuis e pele negra;
ser negro, branco, amarelo ou cor de rosa.
Nada como ser banco de olho puxado
ou amarelo de olho redondo.
Não pertencer a nenhuma tribo
e ter no peito o som de todos os povos.
Não ser xiita, moabita ou judeu.
Não ter por que jogar bomba
em quem não seja como eu.
Ser tudo e ser todos.
Cara-pálida em terra de viking,
usar cocar no Coliseu.
Aborígene na guarda real
das falsas majestades em todos os palácios
de Europa, França ou Bahia.
Não precisar erguer altares, nem templos,
nem catedrais nem sinagogas.
Dançar livre e solto ao som do vento
sem precisar levantar a bunda para um deus qualquer.
Nada como ser mulato em terra de branquelo
ou ser branquelo em Pequim ou Bombaim.
Não pertencer a nenhuma etnia e ter todas elas
rolando nas veias com meu sangue bem vermelho.
Não obedecer a príncipes, reis ou aiatolás,
não beijar a mão de papas, pastores ou rabinos,
todos eles inúteis na minha inocente ausência de fé.
Ser heterohomobitrissexual e amar a liberdade
de dizer desaforos nas fuças dos poderosos.
Ser catalão e beijar cada espanhol,
entrar de cabeça erguida em Israel,
mesmo sendo palestino.
Andar nu como índio no parlamento europeu,
usar gravata e paletó em terra de pigmeu,
colocar no pulso um relógio suíço
e esquecer as horas numa piroga
em pleno rio Amazonas. Ser caiçara e esquimó.
E, sobretudo, dançar livre e solto ao som do vento
em festas de casamentos de todas as raças,
andar por ruas e vielas e becos e praças
de cada taba, aldeia ou cidade
subir todas as montanhas e descer todos os vales,
caminhar sobre as areias de todas as praias e desertos
e encontrar em cada pegada do caminho
a mesma marca do mesmo pé do mesmo homem.


6.2.2004

Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:32 PM

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