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Terça-feira, Março 30, 2004
NO RASTRO DO BUDISMO
30.03.2004
A moral cristã e a moral muçulmana, que se enfrentam hoje no mundo, através de guerras de ocupação e ataques terroristas, estão definitivamente falidas, ante esse banho de sangue que promovem. Mesmo que digam que as guerras do Bush sejam de outra origem, há um componente perverso de ideologia ocidente contra oriente, de fundo moral, ou religioso. Não adianta o papa condenar isso ou aquilo. Não bastam os apelos à paz. O que está em jogo, no fundo, são visões de mundo que se opõem na aparência, mas que têm origens comuns e só chegam a esse ponto por culpa de fundamentalismos ortodoxos de parte a parte.
É preciso, pois, buscar fontes alternativas de ideologia, sem as quais o homem não consegue viver. Não são freios de conteúdo religioso, mas compreensão melhor do fenômeno da vida e da evolução do próprio ser humano. E uma dessas fontes, sem dúvida nenhuma, está no budismo, filosofia de mais dois mil e quinhentos anos, com um grande lastro de realizações, apesar de todas as tentativas de transformá-la em seita ou de ser apropriada por monges e outros tipos de seguidores, com regras e preceitos de ordem cerimonial.
Pois o budismo não é religião. Não aceita deus ou deuses. Não tem, ou não deveria ter, ordens de sacerdotes nem templos. Seus preceitos se traduzem na busca da iluminação, ou seja, do conhecimento e da busca de livrar o homem do sofrimento. Seu código de ética da vida prática resume-se a poucos ensinamentos, mas são de profundo respeito ao homem:
1. reverência pela vida - abster-se de matar
2. generosidade - abster-se de roubar
3. responsabilidade sexual - abster-se de má conduta sexual
4. escutar com profundidade e falar com amor - abster-se da mentira
5. consumo consciente - abster-se de ingerir intoxicantes.
São conceitos básicos para uma vida saudável, sem dúvida. E, o que é mais importante, são voltados para o homem e não para a obediência a deuses rancorosos e vingativos. Também sua filosofia dita reencarnacionista, se lida com um enfoque mais moderno, poderia ajudar o homem a compreender melhor a sua própria natureza e a respeitar a si mesmo. Quando Buda, ou Sidarta, prega a lei do carma, podemos entendê-la como tendo por objetivo a evolução do homem. Se as causas (comportamento ético, busca do conhecimento etc) alcançarem o objetivo de tornar uma geração humana mais sábia, mais integrada à vida e à natureza, isso fará com que as gerações seguintes (conseqüência) tenham homens mais evoluídos. Portanto, a interpretação que se pode dar à lei do carma não é a que comumente dão os seguidores do budismo: que o homem alcança a iluminação através de sucessivas reencarnações. Não é um homem que volta em outro corpo, mas a humanidade que se aperfeiçoa geneticamente. Cada geração que vier sob o signo do conhecimento e da ética receberá da anterior essa herança e, assim, o homem evoluirá para uma sociedade mais justa, ou seja, sem sofrimento.
É claro que o budismo, apenas, não é suficiente para compor um painel de preceitos éticos que visem a uma nova weltaanshaung para a humanidade. Há outros sistemas filosóficos que podem contribuir para isso. Basta que a humanidade abandone os velhos paradigmas deístas, ou pelo menos, que consiga diminuir a influência de seitas e religiões excludentes, que se julgam donas absolutas da verdade, para que a mente, livre de preceitos rígidos, busque, afinal, o respeito a si, ao próximo e à natureza. Utopia? Talvez, mas não há outra saída.
Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:15 PM
Segunda-feira, Março 29, 2004
MAIS ALGUMAS QUESTÕES SOBRE O FILME DE MR. GIBSON
29.03.04
Não sem um certo susto e constrangimento, leio no jornal de hoje (OESP, pág.D8) que as igrejas evangélicas compram sessões especiais para seus seguidores assistirem ao filme do senhor Gibson. E que as platéias choram rios de lágrimas pelo sofrimento do Cristo. Diante de tal despautério, não posso me negar a tecer mais alguns comentários a respeito desse famigerado filme.
Primeiro, devo deixar claro que sou ateu e, portanto, não pretendo fazer a apologia de qualquer seita religiosa. Segundo, as minhas diatribes são contra a ideologia que se esconde sob o manto deísta de religiões absurdas que trapaceiam a realidade e enganam as pessoas, não contra quem quer que seja que professe alguma dessas seitas. Não sou contra, portanto, a liberdade de culto. Apenas me utilizo da liberdade ( a maior de todas) de opinião, ou seja, tenho o direito inalienável de me opor aos conceitos emitidos por qualquer religião e de tecer raciocínios sobre o que acho certo e o que acho errado, como todos (e, principalmente os líderes religiosos) têm feito há tanto tempo.
Dito isso, vamos à questão principal desse artigo: as falácias da paixão e morte do Cristo.
Já escrevi algures que não há prova histórica da existência de Jesus Cristo: nenhum documento, nenhum testemunho, nada que realmente comprove a existência desse indivíduo sobre a face da terra. Todos os escritos que fazem referência a ele são muito posteriores e contraditórios. É possível que ele seja o resultado da fusão de vários pregadores que efetivamente possam ter existido naquele tempo. A igreja católica, ao longo dos séculos I , II e III, principalmente, através da reescrita sistemática dos evangelhos, forjou a figura do Cristo, baseada nas profecias de Isaias e outros escritos bíblicos. Criaram um Cristo que se ajustasse perfeitamente àquilo que se esperava de um messias.
Mas, vamos supor que Cristo tenha existido. Que seja filho de um deus e veio ao mundo para salvar humanidade. Supondo, é claro, que a humanidade necessite dessa tal salvação, em conformidade com a história bíblica. Tudo isso, é claro, não resiste a dois minutos de raciocínio lógico, mas não importa. Sobre essa crença é que se ergueram as grandes teorias cristãs ou paulínicas. Então, vamos partir dessa premissa para chegarmos ao nosso objetivo.
Se Cristo é o filho de um deus (e, para muitos, ele também é um deus, numa complexa teoria de três deuses num só), deve ser um espírito de luz, um ser tão excepcional, que deve habitar as esferas mais altas da hierarquia espiritual. Sua posição suprema, ao lado do pai, um deus onipotente e onisciente, havia de levá-lo a saber, sem sombra de dúvida, do que o esperava em sua visita à terra. Que sua mensagem não seria bem recebida, que ele teria de se sacrificar (morrer) para convencer os homens de suas intenções. Mais ainda: que sua morte, ou a morte de seu corpo físico, seria extremamente dolorosa. Então, surge um primeiro questionamento: se ele era um deus e sabia tudo isso, naturalmente não se teria surpreendido com o fato de ser torturado e morto como dizem que foi. O sacrifício era previsto e não havia nada que se pudesse fazer. Mas há uma ilogicidade no fato histórico. Na mesma época, no mesmo lugar onde dizem que ele nasceu, cresceu, pregou e foi supliciado, o povo judeu vivia sob o domínio dos romanos. E como todo povo subjugado, é lícito supor que, de vez em quando, surgisse um libertador que, de acordo com lei romana, seria preso, julgado e condenado à morte. Por uma questão política. Cristo, no entanto, de acordo com o que sobre ele escreveram, não toma partido político, não se envolve com o problema de submissão de seu povo, não lhe passa pela cabeça (de acordo com sua pregação) nenhuma revolta contra os romanos. Na única questão política abordada pelos evangelistas, ele declara que se deve dar a César o que é de César e a deus o que é de deus. Não tem, portanto, sua pregação nenhum caráter sedicioso, nenhum direcionamento político. Por que, então, seria tão barbaramente seviciado, como querem crer algumas passagens bíblicas (dos profetas, principalmente) e como quer fazer acreditar o filmeco de Mr. Gibson? Não havia, absolutamente, nenhum motivo lógico para tal atitude, nem de parte dos romanos, nem da parte dos judeus. Como ele, dezenas de outros pregadores deviam dizer a mesma coisa que ele dizia, já que sua mensagem não traz nenhuma novidade, nenhum ensinamento que contrariasse a lei judaica. Seu sacrifício físico não encontra lógica histórica que o justifique. A não ser para cumprir as palavras dos profetas.
Mas, há, ainda, uma outra trilha a ser perseguida, para o tipo de raciocínio que pretendemos desenvolver. Se ele era um ser das altas hierarquias divinas, não seria a dor física, por mais intensa que fosse, o verdadeiro fator de seu sacrifício pelos homens. Seria o seu nascimento. O verdadeiro sacrifício de um deus seria descer de muito alto, para encarnar entre os homens e voltar a ter um corpo físico, aprisionador, limitado, sujeito às mazelas humanas. No ato de nascer, portanto, consistiria a a verdadeira paixão do Cristo. Não sua morte, que seria libertadora, mesmo com dor física que, considerando-o um deus, não se constituiria em tão absurdo sofrimento, mesmo se acreditássemos que ele foi tão barbaramente torturado. Assim, o que os cristãos deveriam enaltecer, com todas as suas forças, seria o nascimento do Cristo como o sacrifício maior do deus e não a sua morte. A religião cristã ganharia mais humanidade e perderia esse tom sanguinolento e pessimista de cultuar a tortura, a dor e a morte como exemplos a serem perseguidos pelo homem para alcançar seja lá o que for. Nascer e viver seriam valores mais importantes, e não, morrer por causas absurdas, como o seu deus morreu e tantos milhares de outros homens têm feito, inutilmente.
Quando, então, leio que as torturas infligidas ao Cristo pelos homens de seu tempo, de forma tão gratuita e inútil, fazem os seguidores dessas igrejas evangélica chorar rios de lágrimas no cinema, não posso deixar de criticar o mal que esse filmeco está fazendo à cabeça das pessoas. A igreja católica, com seus dois mil anos de existência, tem uma estrutura formal e rígida. Para chegar a padre, um indivíduo passa por um processo de estudos religiosos, teológicos e filosóficos consistente com aquilo que eles pregam e acreditam. Há uma longa preparação para o exercício do sacerdócio, tem-se de reconhecer. Eles sabem muito bem o que fazem e o fizeram até agora com competência. Por isso, a igreja sobrevive. E outras igrejas seculares também seguem o seu exemplo, como os presbiterianos, os anglicanos, os ortodoxos etc. Já as seitas evangélicas fundamentalistas, que proliferam como erva daninha, não tendo tão boas escolas de formação de pastores, aceitam como tais quaisquer indivíduos mais espertos, de palavra solta, cuja formação restringe-se à leitura e interpretação literal da bíblia, um livro eivado de erros e incongruências. São o lado mais obtuso do cristianismo. E tendem, então, a levar seus seguidores a reinventar mais uma vez o cristianismo, com a aceitação de inverdades e ilogicidades mais profundas que as da crença original. Assim, ao assistirem a um filme tendencioso e anti-ético de um fundamentalista católico (e esse paradoxo demonstra a minha tese de maior esperteza dos católicos e maior ingenuidade desses crentes), os tais pastores, por não terem uma formação mais sólida, levam seus fiéis a conceitos perigosos de exclusão (só nós temos a verdade) e de preconceito (contra o povo que matou o nosso deus de forma tão cruel), contribuindo para tornar esse mundo um pouco pior do que ele já é.
Por isso, e não pretendendo mais voltar ao assunto, reafirmo ser o filme de Mr. Gibson um desserviço à humanidade, ao defender ideologias absurdas e preconceituosas, mais do que sua condição de caça-níqueis da indústria norte-americana de entretenimento.
Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:26 PM
Quinta-feira, Março 25, 2004
O QUE É FELICIDADE
Por causa de alguns artigos em que me confesso ateu e traço comentários sobre a inexistência histórica do Cristo, recebi um e-mail interessante. O remetente deve ser crente, seguidor dessas igrejas que abundam por aí e colocam o nome de Cristo na boca de seus seguidores como chiclete. Eles mascam, mascam e o cospem em qualquer lugar, a qualquer hora, sem pensar no que estão falando. Pois bem, nas entrelinhas, esse indivíduo me acusa de ser infeliz porque não creio no Cristo dele ou deles. E diz que, independente de sermos isso ou aquilo, o Cristo nos ama. Bem, isto é problema do Cristo: se ele me ama ou não. Absolutamente não interfere ¿ esse pretenso amor do pretenso Cristo ¿ nem um átimo em minha vida. Em segundo lugar, e isso é realmente o que interessa, tal assertiva me levou a pensar no que seja felicidade.
O missivista acha que sou infeliz e credita a felicidade à crença em algo que ele não sabe muito bem o que é e que ele chama de amor do Cristo pela humanidade. Ou seja, só é feliz o indivíduo que acredita nisso. Num valor que não precisa ser provado. Basta que se creia nele. Portanto, a felicidade está em algo absolutamente abstrato. É como achar que só é feliz quem acredita em saci-pererê ou na luz das estrelas, tanto faz. Com a diferença de que a luz das estrelas, embora captada com milhões de anos luz de atraso, existe. O que eu quero dizer que o homem se apega a crenças, em qualquer tipo de crenças, com o intuito de ser feliz. Coloca a felicidade como um bem que depende de outras coisas. De um bem que não está no homem, mas fora dele. Busca-o, principalmente, no abstrato ou, como o fez o homem primitivo, na crença em forças sobrenaturais, em deuses. Deuses que foram criados pelo homem com o intuito de explicar aquilo que ele não sabia. Logo, o homem continua na ignorância do que seja a felicidade.
Realmente, o conceito de felicidade não se acha registrado em nenhum dicionário e não está efetivamente explicado em nenhum compêndio de filosofia, por mais tinta tenham gastado filósofos, religiosos e outros na tentativa de explicá-lo. Voltaire, por exemplo, com seu Cândido, comete uma daquelas besteiras históricas ¿ besteiras que se arraigam para sempre no imaginário do homem e se tornam paradigma ¿ quando coloca na aceitação e numa pretensa pureza a origem da felicidade. Antes dele, a bíblia dos judeus já nos dera a história de Jó, também um paradigma equivocado de aceitação de todas as mazelas para agradar a um deus e alcançar a felicidade. Todas essas tentativas de metaforizar a felicidade através de exemplos morais e edificantes só serviram, mesmo, para estupidificar ainda mais a inteligência humana e reduzir uma das mais angustiantes buscas do homem a questiúnculas infantis e absurdas.
Na verdade, a felicidade não é um estado a que o homem possa chegar, como um lugar, ou um paraíso. Também não é um estado de espírito, ou seja, um sentimento que brota de uma motivação interior ou exterior. Porque simplesmente não existe o que se chama comumente felicidade. Ao dar um signo a um sentimento que decorre de um momento de adequação entre uma expectativa e sua realização, o homem criou o mito mais cruel de toda a sua existência ¿ o mito da felicidade. Cruel, porque não se cumprirá: o homem, como entidade, jamais terá felicidade. Ou seja, não é um bem que possa ser alcançado pela humanidade. Não se coletiviza nem se corporifica no indivíduo. Nem a humanidade nem o homem individualizado, portanto, atingirão a felicidade. Simplesmente porque é um mito, algo inventado, transformado em moeda de troca por filosofias rudes que pretendem ver na busca da felicidade uma forma de escravizar o homem e explorá-lo politicamente e economicamente.
Se desmistificarmos esse mito, se compreendermos que o homem tem um destino muito mais nobre na terra, do que buscar utopias, muitas crenças sociais, políticas e religiosas desmoronam como um castelo de cartas. E o emprego de muita gente vai para o ralo. Fortunas deixarão de ser amealhadas. Deuses serão derrubados de seus pórticos. Líderes perderão seu poder sobre a multidão. Em compensação, livres de entraves escravocráticos, o homem poderá ganhar o respeito a si mesmo e ao outro e buscar valores mais palpáveis e necessários à sua sobrevivência no universo: a adequação à natureza, a busca de melhores condições de vida, o equilíbrio entre o ter e o ser, a evolução do conhecimento e sua utilização para a vida e não para a morte. E, acima de tudo, deixar de lado o culto da morte, apanágio de crenças primitivas, que serão banidas para sempre do imaginário humano.
Mas isso também é uma utopia. Infelizmente...
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:26 PM
Terça-feira, Março 23, 2004
IGREJA UNIVERSAL CONDENADA POR OFENSAS AO CANDOMBLÉ
OU:
UMA DEFESA DA RACIONALIDADE
Quando condeno veementemente a moral deísta, com toda a sua ideologia falsa, seus deuses vingadores, sua interferência na vida diária das pessoas, a exploração da ignorância e tantas outras mazelas, estou, é claro, no terreno da filosofia e da lógica.
Filosoficamente, não acredito que o homem necessite de crenças absurdas para superar os problemas da vida. Além disso, as crenças deístas são obscurantistas e condenam o homem a pensar de forma unilateral, não o deixando interpretar a vida e a natureza de forma racional ou, pelo menos, razoável, não lhe permitindo ir além de seus horizontes em busca de uma vida melhor aqui, na Terra, ao pregar uma impossível salvação eterna.
Sob o aspecto lógico, nada leva o homem a crer em milagres, que nunca foram provados, a não ser com pirotecnias de prestidigitação; nada leva o homem a crer em vidas passadas ou extraterrenas; nada prova a existência de alma ou de uma outra dimensão. Ou seja, a única lógica da crença deísta é que cada um crê apenas porque crê, sem nenhuma ligação com a realidade prática.
Mas, quando entramos na realidade da vida prática, não se pode negar a religiosidade como um fenômeno cultural que não pode ser perseguido ou impedido. Isto seria o mesmo que querer que as pessoas deixem de comemorar aniversários ou não festejem a vitória de seus times de futebol. São práticas inerentes ao homem que, provavelmente, nunca desaparecerão da face da terra, mesmo que predominasse a filosofia e a lógica ateísta. Não prego a destruição das religiões. Não concordaria, jamais, com a perseguição a quem quer que fosse, por motivos religiosos. Deve haver algo fundamental na relação entre os homens: o reconhecimento das diferenças e, principalmente, respeito.
Acredito mais ainda: que fé é problema de foro íntimo e a religião, embora seja uma prática coletiva, deve restringir os seus cultos a templos, igrejas, terreiros ou quaisquer outros ambientes propícios a isso e devidamente preparados para tal, sem perturbar a ordem pública ou a quem que seja. Praticar o seu culto com respeito, essa a primeira lei de qualquer religião. Não querer impingir, pela força ou constrangimento, a ideologia de seu culto a outros deve ser a segunda. E poderíamos citar vários outros sinais civilizatórios de comportamentos exigidos por qualquer sociedade governada por um estado que se queira realmente laico. Mas todos desembocam na palavra-chave: respeito.
Portanto, não posso ficar indiferente a práticas abusivas, como as cometidas por cultos que não respeitam as outras religiões, que não respeitam a sociedade em que vivem e cometem absurdos contra todos os que se opõem aos seus princípios. Isso acontece com inúmeras igrejas-bingo, que têm imensos templos arrecadadores espalhados por grandes cidades e capitais, e com igrejas caça-níqueis, que abrem portinhas e portinholas em galpões inseguros para tirar de quase-mendigos o pouco que eles têm. São ambas modalidades de religiões que existem com o único propósito de enriquecimento de seus líderes, como outras, mais tradicionais, já o fizeram ao longo do tempo. Nada se pode fazer contra elas: afinal, as pessoas que ali comparecem, fazem-no de vontade própria e, se doam seus bens em troca de preces, orações e um lugar no céu, é também problema delas. Ou não? Mas esse já é um problema legal, ou seja, devia ser investigado pelas autoridades competentes, pois pode haver, aí, crime contra a economia popular, praticado com artes de estelionato.
O que eu queria, mesmo, comentar é a falta de respeito da Igreja Universal do Reino de Deus para com os cultos afros. Falo dessa organização porque saiu matéria em jornal (OESP, 23.03.04, página A10), sobre sua condenação por ofensas ao candomblé, na cidade de Salvador, BA. Vejo em suas diatribes contra as religiões afros dois crimes, além da falta de respeito: crime de racismo e crime de lesa-cultura. Racismo, por desqualificar uma raça, a negra, por motivos de práticas religiosas. De lesa-cultura, por atingir cultos ancestrais, ligados à própria história de um povo, enraizados em sua cultura. A intolerância dessa Igreja Universal do Reino de Deus deve ser severamente punida, sim, mas principalmente deve servir de alerta às autoridades para que atentem para um problema que se generaliza no mundo: a invasão da vida secular pela ideologia excludente de cultos que, em vez de praticar seus princípios dentro da lei e do respeito ao outro, buscam avançar seus tentáculos sobre todas as pessoas, como se fossem únicas donas da verdade.
As pessoas inteligentes e preocupadas com a harmonia do tecido social, independente de suas crenças, devem pressionar os governos, os tribunais e os legislativos para que as leis sejam respeitadas por todos, para que não haja exceções de cunho filosófico, político ou religioso, e para que tenhamos um estado laico, sem compromissos ou vínculos com quaisquer religiões e seitas. Repito: crença é algo de foro íntimo, que só interessa ao cidadão que a possui, não podendo ser confundida e misturada com a vida diária, ao levar para o dia-a-dia toda uma gama de preconceitos baseados na diferença de culto e de ideologia.
Por isso, defendo tanto meu direito de pregar a inutilidade das religiões, em termos lógicos e filosóficos, quanto o direito de qualquer cidadão de praticar o seu culto e ter opiniões completamente opostas a mim ou a qualquer outra pessoa. O que não vou admitir, e ninguém deve fazê-lo, é o desrespeito, a perseguição a qualquer um por motivos ideológicos, políticos e, principalmente, religiosos. No terreno das idéias, a divergência , a troca de opiniões, a discussão e o debate são sempre bem-vindos. São o alimento da inteligência e a luz da racionalidade. Mas só no terreno das idéias. Ainda está no ar o cheiro de carne queimada nas fogueiras da intolerância inquisitorial. Não podemos permitir que o mundo embarque, de novo, nesse tipo de regime. E há muitos pastores, rabinos, aiatolás, padres e tantas outras denominações que recebam de olho na tocha e prontos para arrebatá-la e acender de novo o fogo da perseguição aos inimigos de sua fé. Por isso o alerta a todos que se preocupam verdadeiramente com a paz e a utópica harmonia entre os homens: não podemos permitir que a história se repita como uma trágica farsa de conseqüências incontroláveis.
Respeito é fundamental e todos o merecem!
Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:13 PM
Segunda-feira, Março 22, 2004
SER ATEU
Sou ateu. E não preciso nem gosto de justificar os motivos. Há tanta loucura nas religiões e na crença num deus, que basta estudar um pouco de História, uma pitada de Filosofia e outro tanto de Ciência para perceber que o Homem entrou num beco sem saída com suas crendices absurdas.
Que tipo de Homem é esse que valoriza a morte e prega a destruição do semelhante com decretos obtusos de assassínio em massa, apenas porque há um livro entre ele e o outro ¿ seja esse livro a bíblia ou o corão?
Que religião é essa que adora um deus morto pregado ao madeiro, considerando-o o maior de todos os filósofos, quando suas palavras nada mais eram que repetições edulcoradas de velhos valores?
Que crença é essa que mistura a vida diária com preceitos antigos ditos por um profeta que buscava apenas dar um pouco de ordem ao seu tempo, à sua tribo, enfatizando regras absurdas de comportamento saídas de seu preconceito e de suas limitações?
A velha ordem deística já deu o que tinha de dar: desrespeito ao ser humano: a si próprio e ao outro; guerras e desunião; estupidez e assassinatos; perseguições; desvalorização da vida; atraso científico; humilhações; construções de templos majestosos e cobertos de ouro enquanto os pobres que os construíam morriam de fome; mentiras em troca de bônus na eternidade; escravismo; bestialidades; genocídio de povos que professavam outras crenças; preconceitos; desrespeito à natureza e, sobretudo, obscurantismo quanto à própria sobrevivência do homem sobre a Terra.
Portanto, não são necessários argumentos científicos (que abundam em profusão!) para ser um ateu. Basta um olhar para a história do homem até os dias de hoje, com todas as mazelas que o jogaram num beco sem saída de violência individual e coletiva.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 5:36 PM
Sábado, Março 20, 2004
BUSH, O PENTELHO
É claro que, quando se trata de política norte-americana, democratas e republicanos são farinha do mesmo saco, em se tratando de defender os interesses econômicos e políticos de seus cidadãos e da própria nação em todo o mundo. Para eles, o mundo é resto e pode danar-se, que eles não estão nem um pouco preocupados. Toda a política externa deles é voltada exclusivamente para os seus interesses. Qualquer outra conversa, como a de Bush, de implantar democracia no Iraque, é pura enganação, é para boi dormir. Não há democracia no mundo sob o tacão norte-americano. Por uma razão muito simples: os interesses econômicos sobrepõem-se a qualquer ideologia. E o fazem de forma total, completa e ditatorial. Nenhum homem, mulher ou criança podem ser livres, se dependem dos investimentos, dos lucros e da produção das grandes corporações. E para defender as grandes corporações, há um grande poderio político e militar, representado pelos Estados Unidos da América. Portanto, não nos rejubilemos muito com a possível eleição de um democrata para a Casa Branca. Pouca coisa mudará. Mas o pouco que mudar já poderá tornar melhor o mundo em que vivemos, por mais paradoxal que isso possa parecer. Porque, se houver um pouco de racionalismo e de vergonha na cara dos norte-americanos, Bush deverá ser defenestrado do governo, juntamente com tudo aquilo que ele representa, até mesmo à revelia do Partido Republicano: visão estreita do mundo, fundamentalismo religioso, fundamentalismo capitalista, belicismo e incompetência diante das grandes crises mundiais.
Portanto, se Bush perder as eleições, principalmente nós, aqui desse nosso mísero terceiro-mundismo, não deveremos comemorar a vitória dos democratas, mas soltar vivas e muitos fogos pela derrota de George W. Bush, the bush, o pentelho do mundo, o arbusto, a moita, a erva daninha que nunca chegará ao porte de uma árvore (*).
(*)BUSH
n 1: a low woody perennial plant usually having several major branches [syn: shrub] 2: a large wilderness area 3: dense vegetation consisting of stunted trees or bushes [syn: scrub, chaparral] 4: Vice President under Reagan and 41st President of the United States (1924- ) [syn: Bush, George Bush, George Herbert Walker Bush] 5: hair growing in the pubic area [syn: pubic hair] v : provide with a bushing
Source: WordNet ® 1.6, © 1997 Princeton University
Isaias Edson Sidney
isasidney@uol.com.br
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:16 PM
Sexta-feira, Março 19, 2004
O CRISTO DE Mr. GIBSON
Os cristãos podem espernear, protestar, ameaçar, fazer o que quiserem. Mas a verdade mais verdadeira é: não existe prova histórica da existência de Jesus Cristo. Não há documentos, não há testemunhos, não há nada! Muitos fatos de sua vida não batem com o momento histórico, mesmo descontados o seis anos de erro do calendário. Muito, mas muito mesmo, provavelmente, nunca existiu uma pessoa física chamada Jesus Cristo. Mesmo assim, ele constitui o mito mais poderoso da história da humanidade. A seita cristã, inventada por Paulo de Tarso, aí representando os evangelistas, que foram centenas, espalhou-se pelo mundo graças ao imperador Constantino que, ao adotá-la, pretendia com isso unir os seus exércitos e vencer os inimigos, mantendo a grandeza do Império Romano.
Nos séculos seguintes, a Igreja Romana tratou de construir o mito do Cristo da forma mais descarada e torpe possível, inventando mil histórias a respeito de sua existência e fixando-as, em suas pregações, na mente necessitada do povo mais humilde. Há de se ressaltar que o mito foi desenvolvido com perfeição. Até o Cristo, os deuses que cativavam as mentes humanas não tinham as características impressionantes que atribuíram a Jesus: ser homem e deus ao mesmo tempo e, principalmente, dar a vida pela salvação da humanidade. Dos deuses anteriores, herdou muitas outras características, como ser filho de virgem, fazer milagres etc. Mas essas duas o tornaram mais próximo do homem e atraíram uma legião de seguidores fiéis que se dispuseram a construí-lo e a divulgar sua pretensa doutrina (que não traz nenhuma novidade, em relação às crenças anteriores) ao mundo ocidental.
Por isso, a Igreja sempre destacou de forma absoluta a chamada vida, paixão e morte de Cristo, ou seja, procurou fixar na mente das pessoas o sofrimento e o sacrifício que Jesus dedicou ao homem, como se somente ele (e aí está a grande sacada do cristianismo), por ser ao mesmo tempo deus e homem, pudesse fazer. As cerimônias da Semana Santa estão aí para não deixar ninguém esquecer esse lado sacrificial da figura do deus do madeiro.
Mas, ao dar ao Cristo uma vida, uma existência histórica física, a Igreja criou um grande problema: se Jesus foi morto, quem o matou? Se era um deus, quem o fez cometeu deicídio, um crime brutal. Lógico que, nascido em terras palestinas, dominadas pelos romanos, a culpa pela prisão, julgamento e execução do Cristo só podia caber ou aos romanos ou aos judeus. E essa história ficou meio enrolada, nesses dois mil anos, sempre com a chamada culpa atribuída, de forma mais ou menos enfática, dependendo do período histórico, aos judeus. Até que, oficialmente, a Igreja isentou os judeus desse crime. Sobrou para quem, então? Bem, romanos são uma categoria meio indefinida. Não há um povo romano. Ficamos assim: não foram os judeus, foram... bem, devem ter sido... Bem, deixa para lá. Não foram os judeus, e ponto final.
No entanto, quando se conta a história da existência do Cristo, sua paixão e morte, é preciso situá-lo historicamente, dentro do mito criado, ou seja, envolvendo todas as personagens que os evangelistas disseram que tinham participado dos acontecimentos. E aí, o bicho pega: eram quase todos judeus. Pelo evangelho, os romanos lavaram as mãos. Pode-se, então, contar essa história através de livros, filmes, pinturas etc., de várias maneiras, acentuando tal e tal aspecto, imaginando gestos e atitudes, exagerando um milagre aqui, passando por cima de um fato acolá, enfim, quem reconstrói a possível trajetória do Cristo pode dar asas à imaginação. Não é à toa que os pintores clássicos o retratavam loiro e de olhos azuis. Um judeu quase negro da palestina dos primeiros tempos!
Bem, a sensibilidade do artista e sua capacidade de tocar as pessoas é que vão, afinal, fazer sua obra ganhar aplausos calorosos, ser recebida com uma fria indiferença ou despertar polêmicas e, eventualmente, ressentimentos e ódios. Isso acontece principalmente quando o obra é um filme produzido por Holywood, quando entram em jogo milhões de dólares com produção e propaganda. Mas o bicho pega, mesmo, quando um fundamentalista católico imbecil, como Mr. Mel Gibson, resolve dar sua versão estética dos últimos momentos do Cristo. E, com toda a tecnologia de efeitos especiais, exagera na violência e nos closes das chagas do homem supliciado até o limite de suas forças por... judeus, é claro! E isso é suficiente para despertar a polêmica (que lhe vai render mais dólares, ainda!) e aprofundar a divergência entre cristãos e judeus, num mundo já tão cheio de diferenças que produzem guerras, que produzem invasões, que produzem destruição, que produzem terrorismo.
Só pode ser, mesmo, um grande imbecil, esse Mr. Gibson. Se as pessoas fossem um pouco mais racionais, independente de serem cristãos ou não (embora ache difícil ser cristão e racional, quando o assunto é a vida, paixão e morte de seu deus), seria um filme para se dizer: não vi, não verei e já detestei!
sexta-feira, 19 de março de 2004
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 5:51 PM
Quinta-feira, Março 18, 2004
UM POEMA PARA TODAS AS VÍTIMAS DO TERROR QUE ASSOLA O MUNDO
É PRECISO DESTRUIR TODOS OS ALTARES
È preciso destruir
Todos os altares, todas as piras, todos os templos
No coração dos homens.
Há cheiro podre de cadáver putrefato no ar e
No coração dos homens.
É preciso destruir altares de um deus morto
No coração dos homens.
É preciso que todas as piras não mais exalem
No coração dos homens
O cheiro putrefato do deus morto.
Templos de ódio, templos de dor, onde jazem
Como se fossem no coração dos homens
Deuses mortos, fétidos por estarem podres.
Da carne suja dos deuses mortos
No coração dos homens
Gases exalam rancores e ódios e trevas.
Do coração dos homens
O tóxico de opiários espirituais enlouquece
E destrói e mata e mutila e rompe
A carne vermelha de corações em chamas.
Não mais templos, não mais piras, não mais sacrifícios.
Matar os deuses dos corações dos homens
Seja da paz o gesto final.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:21 PM
Quarta-feira, Março 17, 2004
PEQUENOS MELODRAMAS DE CADA DIA
1. Atração
Na rua, o buraco. O homem veio, despreocupado. Ia cair, mas deteve-se. Olhou ao redor, olhou para frente, bem além do buraco, olhou para o próprio buraco. Alguém gritou era perigoso, que ele se afastasse. Mas a hipnótica escuridão que vinha em ondas lá de dentro já tinha arrebatado o seu olhar.
2. Viagem
Havia uma lua redonda lá em cima. Mas a poça d¿água não a refletia. O menino veio com seu barquinho de papel e navegou ali para sempre em busca do silêncio.
3. Esmagando rosas
Trazia uma pasta sob o braço. O paletó puído nos ombros, o olhar parado e triste, o sapato rugoso, a calça sem vinco, nada nele indicava ser o que era. Todos o temiam, quando passava. Só ele não sabia que era tão poderoso e seguia adiante sem olhar para os lados.
4. Iluminação
Ela gosta de cantar e trançar os cabelos. Só isso. Um dia, chegou à janela, olhou para o oriente e seus olhos se iluminaram. Quando a encontraram, o corpo rijo dobrado no parapeito, ninguém percebeu em seus lábios o riso envergonhado.
5. Ócio
Eram já cinco horas da tarde. Havia uma leve sombra a esmaecer o sol. Contou as badaladas do relógio da igreja e atirou uma pedra no bem-te-vi onomatopaico. Algumas folhas da árvore se desprenderam com o baque da pedra e a Terra continuou girando inapelavelmente em torno do Sol.
6. O amor é uma canção
Dulce tinha um namorado. Vinha vê-la à noitinha e saía sempre assobiando uma velha canção. Uma noite, os vizinhos ouviram-lhe os passos de sempre, mas não se registrou qualquer outro ruído. Chegaram às janelas, perscrutaram o silêncio e, depois de meia hora de inúteis conjeturas, viram Dulce sair pelo portão e subir a ladeira, no sentido oposto ao do namorado. Durante muitos dias, esperaram que ela voltasse. Quando já se haviam esquecido do incidente, um dia Dulce voltou. Estava abatida e puxava pela mão um menino muito loiro que tentava inutilmente assobiar uma canção.
7. Curiosidade
Não havia nada de estranho com ele: seu rosto se confundia na multidão, sua voz quase nunca era ouvida quando reclamava, suas vestes eram compradas em lojas de liquidação e seus gestos eram sempre muito comedidos. Mas o que ninguém sabia é que Augusto tinha um segredo. Mesmo os vizinhos mais curiosos nunca atinaram que o segredo que ele guardava ciosamente poderia comprometer a todos eles. Por isso, ao velório de Augusto só compareceu o padre, a quem ele odiava, e o coveiro, que ele não conhecia.
8. O mundo lá fora
A forma como ele abotoou o paletó quando se levantou para ir ao banheiro chamou-lhe a atenção. A sala de espera daquele consultório era abafada e, além do homem de gestos delicados e paletó cinza que acabara de levantar-se, abotoar o paletó e ir ao banheiro, só havia uma senhora gorda que usava uma daquelas velhas revistas de consultório para abanar-se. Luísa então percebeu que o mundo lá fora podia ser bem mais interessante do que maravilhar-se com um gesto tão fino quanto estranho de um homem alto e pálido que se levanta, abotoa o paletó e dirige-se ao banheiro de um consultório quase deserto em plena manhã de primavera.
9. Eu sou a sua sombra
Caminhava rapidamente de volta para casa. Já deixara para trás as ruas mais movimentadas do centro e alcançava as velhas alamedas que a levavam todos os dias para o antigo sobrado no fim de uma rua quase deserta. De repente percebeu que não estava sozinha. Havia algo ou alguém que a seguia, silenciosamente, sub-repticiamente, como um gato sobre o muro, como um rato no canto da parede. Parou estarrecida e percebeu, logo atrás de si, uma sombra alongada. Olhou para frente, para o sol, e teve um medo tão grande de que aquela sombra pudesse alcançá-la, que não atinou com o que havia acontecido quando acordou, muito tempo depois, com uma luz forte sobre o seu rosto.
10. Suspeita
Não tinha medo de nada. Descia todos os dias aquela rua escura, sem se preocupar com os muros altos do cemitério que acompanhavam a calçada deserta. Naquela noite, porém, depois de um dia extenuante de trabalho, parecia que havia olhos que o fitavam por entre as grades estranhamente entreabertas do velho portão negro.
Isaias Edson Sidney
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:29 PM
Terça-feira, Março 16, 2004
UM NOVO DIA ONZE
Os assassinos da Al Qaeda atacaram de novo. Duzentos e um mortos, até hoje, dia 16!
Não há indignação suficiente para condenar tal barbárie.
O terrorismo é a mais suja e cruel forma de luta, quando escolhe por alvo civis inocentes, trabalhadores que não têm nada a ver com a cabeça podre de fanáticos, sejam eles de esquerda, direita, religiosos ou simplesmente loucos a querer impor pela força a sua vontade.
E o senhor Aznar quis tirar proveito político do sangue de seus conterrâneos. Ainda bem que a farsa de atribuir à ETA o atentado foi descoberta a tempo e o povo espanhol pôde dar o troco a esse cidadão que apoiou, até com envio de tropas, a guerra suja do terrorista-mor, BUSH, the bush, aquele a quem o povo americano, se tiver vergonha na cara, deverá também defenestrar nas próximas eleições.
O mundo não pode continuar convivendo com os monstros da guerra. O mundo não pode continuar suportando a matança indiscriminada porque Oriente e Ocidente são diferentes.
QUE VIVA A DIFERENÇA! E QUE CADA UM RESPEITE O OUTRO!
Esta a luta que todas os seres responsáveis desse planeta devem encetar: A LUTA PELO RESPEITO ÁS DIFERENÇAS E PELO RESPEITO ÀS INDIVIDUALIDADES.
Nenhum livro, nenhuma crença política, religiosa ou filosófica podem impor sua vontade ao ser humano. Uma coisa é acreditar na Bíblia ou no Corão. Outra é querer impor, através dos ensinamentos retrógrados desses livros, a sua vontade sobre quem quer que seja. LIBERDADE DE PENSAMENTO IMPLICA SEPARAR PROFUNDAMENTE A VIDA CIVIL E CIVILIZADA DE CONVIVÊNCIA PACÍFICA DAS CRENÇAS ÍNTIMAS QUE SÓ INTERESSAM AO INDIVÍDUO.
Não posso compactuar com ninguém que misture pensamento religioso com vida diária, pregando em praças públicas o que deve ser reservado aos templos, usando signos de exclusão religiosa, como medalhas, cruzes, kipás ou véus, em público, como se aquilo o distinguisse dos outros. São signos que dizem: olhem, eu sou diferente, eu sou melhor, porque acredito nisso ou naquilo. Fé e crença são de foro íntimo, de cada indivíduo, que não devem se misturar ao convívio diário de pessoas ditas civilizadas. É o mesmo que eu querer impor aos outros a minha torcida por um time de futebol. Enquanto o homem não compreender isso, e muitas outras coisas que levem ao respeito, haverá ainda muitos outros dias onze para chorar.
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:15 PM
Segunda-feira, Março 15, 2004
ENVELHECER
Envelhecer é ver amigos, parentes, conhecidos e, até mesmo, ídolos e personagens públicos sendo ceifados um a um pela indesejada e inevitável última companheira. Envelhecer é resistir. Sabendo que a resistência é inútil. Envelhecer é solidão, embora viver seja a única alternativa. Pior, no entanto, que perder pelo caminho as pessoas que amamos ou conhecemos é sentir o tédio da vida. Para a saudade, inventamos subterfúgios. Para o tédio, não há recurso possível. O tédio leva à indesejada, sem apelação. E quando bate o tédio, olhamos para trás e vemos que vida de ontem era tão melhor que a vida de hoje. Vemos que todos os nossos valores foram jogados, solenemente ou não, na lata de lixo da história. Morremos, então. Não literalmente. Mas por dentro. Como se não houvesse mais nada a viver. E essa é a pior das mortes. A morte dos valores. Dos valores daquilo que consideramos nossa geração. E essa morte traz o mais atroz de todos os sofrimentos: o tédio da vida. A incompreensão do que se passa à volta. A descrença no homem.
Foi pensando nisso que resolvi escrever. Escrever para combater o tédio. Porque escrever é uma forma não apenas de continuar vivo, mas principalmente de racionalizar o irracional. De evitar que as emoções trazidas pelo tédio da vida tornem os anos por virem ainda mais cruéis e amargos. E começo, então, a pensar que envelhecer não é olhar para trás e contar cadáveres. E começo a pensar que envelhecer não é comparar valores e encher de fel os dias de tédio. Começo a pensar que, sim, envelhecer é combater a irracional vontade de dar emoção, através da saudade, aos inexeqüíveis velhos tempos. Envelhecer é, sim, resistir. Mas resistir às armadilhas da emocionalidade inútil de pensar que tudo era melhor no nosso tempo. Não existe nosso tempo com esse subtexto saudosista de que antes era melhor. O antes só era melhor porque éramos mais jovens e nosso organismo tinha menos problemas para funcionar. Porque, na verdade, mesmo, na verdade mais verdadeira, sem qualquer conotação passadista, o nosso tempo é o tempo em que estamos vivendo. É o hoje. Com todos os seus valores. Por menos que concordemos com eles. Aliás, discordar dos valores de nosso tempo não deve ter por origem o retrovisor do carro da vida, mas a surpresa que pode haver depois da próxima curva. Devemos discordar com o olhar no futuro. O passado não pode mais ser vivido nem modificado. O presente, não o dominamos completamente, pois escorre a cada segundo por entre nossos dedos. Só nos resta o futuro. Esse, sim, pode ser, mesmo que de forma sutil ou canhestra, moldado à nossa vontade. Deixar de pensar nisso, deixar de sonhar com isso significa ser dominado pelo tédio. E morrer a pior das mortes que é viver como cadáver insepulto a carregar o próprio caixão da vida nas costas.
25.02.04
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:11 PM
Sábado, Março 13, 2004
SÃO PAULO E AS ENCHENTES
Pode parecer cruel, e talvez o seja, mas não consigo me condoer profundamente dos atingidos pelas enchentes em São Paulo. Por quê?
Bem, vamos a alguns fatos.
Todos os anos, famílias perdem tudo e todos os anos recebem tudo de volta através de doações de órgãos públicos e da população comovida com seu drama. Ora, se eu perdesse tudo uma vez, já me sentiria bastante desgraçado para continuar a viver no mesmo lugar em que todo ano as águas sobem e levam os meus bens. No entanto, eles resistem. Continuam reconstruindo suas casas no mesmo lugar de sempre, onde as águas vão subir a qualquer ameaço de chuva e levar tudo. Sob os olhos complacentes e comovidos da população, aturdidos pela gritaria idiota dos apresentadores dos noticiosos de tevê das dezoito horas.
Há um fato natural e irreversível: rios, riachos, ribeirões, todos eles sobem na época das chuvas. O famoso rio Nilo, na Àfrica, ensejou até mesmo a famosa frase: O Egito é um presente do Nilo, por suas famosas cheias anuais. O homem sabe disso desde os tempos da caverna. Várzea de rio, portanto, não pode ser ocupada. Isso é uma lei natural. E irreversível. Somente o homem urbano, do século vinte e um, morador de grandes cidades, não sabe disso. Ou será que sabe e não tem outra alternativa?
Não. Não creio que a estupidez humana chegue ao ponto de não ter outra alternativa a não ser construir sua moradia em várzeas que inundam. E, no entanto, é o que vemos. E todos os anos, em época de chuvas, ocorrem as mesmas tragédias. O que acontece, então?
O mais incrível é que não há somente pobres favelados e desvalidos, os sem esperança e sem proteção, a construir barracos improváveis nas várzeas inundáveis. Há também casas de alvenaria e cimento, pertencentes a pessoas que têm empregos fixos ou são donos de pequenas empresas, gente considerada de recursos, de uma classe média emergente, que não depende da caridade alheia para tocar a vida. Também esses ali estão, inundados todos os anos pelas águas mal humoradas dos rios e córregos retificados, encarcerados e pretensamente domados com muito dinheiro dos impostos que pagamos para manter a cidade funcionando. E são esses os que mais gritam e mais aparecem nos programas de tevê, reclamando soluções públicas. Até por serem mais articulados que os pobres favelados de barracos precários.
Mas aí é que entra uma pergunta fundamental: por que essas pessoas construíram suas casas em várzeas alagáveis? Que mistério é esse que leva seres humanos racionais e possivelmente inteligentes a cometerem o desatino de desafiar uma lei tão básica da natureza? É como saltar do vigésimo andar de um edifício, imaginando que a lei da gravidade foi revogada!
O mistério desse comportamento só começa a ser desvelado se andarmos um pouco para trás na história da construção dessa cidade. E teremos, então, alcançado os verdadeiros culpados por toda essa insensatez. E o pior: culpados que não serão nunca punidos por seu crime.
São Paulo precisava crescer. Crescer a qualquer custo. E precisava de moradias. De progresso. De gente. E tomem medidas absurdas para o progresso irresponsável: canalização de córregos, ocupação das margens dos rios, incentivo ao adensamento populacional sem planejamento. E vendam-se ilusões: os rios e córregos estão domados. E fechem-se os olhos aos especuladores, aos grileiros de plantão, aos políticos que semeiam promessas obtusas e colhem votos de uma população enganada e vilipendiada. Um prato cheio para os especuladores de sempre. Que fazem fortuna às custas de loteamentos, clandestinos ou não, sob os olhos complacentes do poder público corrompido ou ineficiente. E não há, aí, inocente: tanto o legislativo, quando o judiciário e o executivo devem receber as devidas honras por sua inoperância. Todos os olhos foram devidamente fechados. Ou tapados por uma indústria crescente e cruel: a dos loteamentos a qualquer custo. A venda de moradias construídas para enganar uma classe média estupidificada pela propaganda enganosa de que as águas estavam domadas.
E cabem, aqui, dois parênteses, para uma constatação e uma historinha.
A constatação: se observarmos os mapas e plantas antigas do planalto de Piratininga, constataremos a abundância hídrica da região. São centenas de riachos e córregos a correr para os rios principais. O Tietê percorre o planalto tecendo meandros e colhendo essas águas como uma serpente no deserto. A riqueza hídrica de Piratininga faria da cidade de São Paulo uma verdadeira Veneza fluvial. O que fizeram nossos planejadores urbanos? Engessaram todas as águas em canos e dutos. As que restaram transformaram-nas em esgoto a céu aberto, com a conivência de uma população surda a qualquer apelo para que não jogassem nos rios todo o seu lixo. A desculpa por essa estupidez? Não. Não há desculpas. Há apenas fatos. Por que não jogariam no rio o sofá usado, se o poder público permitia que as indústrias jogassem nele todo o seu lixo tóxico? Por que não ocupariam suas várzeas, se o poder público retificava os rios e construía enormes avenidas em suas margens?
A historinha edificante: há muitos anos, ao abrir mais uma avenida de fundo de vale (não vou citar o local, por motivos óbvios, mas isso aconteceu por toda a cidade), atraiu-me a construção de um conjunto de sobrados de alto padrão às suas margens. Ao visitá-los, ainda novos, já dava para perceber sutis infiltrações e cheiro de mofo. Consultado, um engenheiro amigo desaconselhou qualquer possibilidade de compra. Aquele terreno era um charco aterrado e todas as casas, mais cedo ou mais tarde, teriam problemas. Fico, hoje, imaginando, quanto de dinheiro gastou cada infeliz proprietário daqueles imóveis com projetos de impermeabilização e controle da umidade, para continuar morando naqueles sobrados.
Assim foi feito: grileiros ou não, agentes imobiliários povoaram com sua ganância, sob as vistas grossas do legislativo, do executivo e do judiciário, as margens de todos os rios, de todos os córregos, de todos os charcos e, até mesmo, das sagradas áreas de preservação ambiental.
E todo esse povo, que aplicou seu rico dinheirinho na compra de terrenos de 20 metros quadrados para construção de barracos inseguros ou na compra de casas e sobrados de alto padrão, começaram a exigir do poder público, com o dinheiro de nossos impostos, investimento em infra-estrutura, ou seja, que se canalizassem os rios e sobre eles se construíssem largas e belas avenidas para que pudessem circular em ônibus apertados ou em automóveis do ano, comprados a prestações a perder de vista.
E todo feliz proprietário de pequenas ou de razoáveis metragens de terrenos em cada várzea de rio ou charco aterrado, o que faz em primeiro lugar? Cimenta tudo. Não deixa um só canteirinho para plantar um único e raquítico exemplar de azálea (ou azaléia, como gostam de dizer os paulistanos). E exigem mais: asfalto. Se possível até no jardim. E a cidade, impermeabilizada como um charuto enrolado em plástico, tem que se virar com as águas das chuvas de verão. Que são inconstantes e abundantes. E quando chove muito, o prefeito de plantão, o governador de plantão (e por que não os juízes e promotores de plantão?) são chamados às falas pela população encharcada, enlameada, para prestar contas do motivo por que está havendo enchente, por que não se construíram mais duzentos ou trezentos piscinões (que buscam substituir as várzeas inundáveis, numa solução meio mágica, meio tecnológica), por que não se canalizou esse ou aquele córrego, enfim, por que não se decretou a suspensão das chuvas de verão?
E todo ano é a mesma agonia. E todo ano, as televisões repetem sempre as mesmas imagens. E todo ano todo mundo perdeu tudo. E eu fico pensando: se perde tudo todo ano, como sobrevive? E eu fico pensando: para mais um piscinão vai o suado dinheirinho de meus impostos. Para mais uma obra contra enchente, vão milhares e milhões de reais que poderiam ser gastos com... Bem, deixa pra lá. Soluções? Há as impossíveis e improváveis e as que dependem da vontade política de todos os poderes e, por isso, difíceis de serem implementadas.
As impossíveis ficam na conta de começar tudo de novo, com novas políticas públicas, com planejamento e educação ambiental para a convivência numa cidade do porte de São Paulo. Seria voltar ao início do século XX. Utopia, portanto. Sonho de uma noite de verão chuvosa. Por conta das soluções possíveis de serem implementadas, mas dependentes da vontade política de todos os poderes e da sociedade como um todo, seria iniciar um lento e penoso processo de retomada dos terrenos marginais de rios e córregos, com o deslocamento dessa população para outras regiões, abrindo grandes espaços inundáveis que seriam transformados, durante o período de seca, em parques e campos de futebol e outros esportes. Ou seja, piscinões naturais para contenção das famosas águas de março a fechar o verão. E mais: já há tecnologia para asfaltos porosos, que permitem absorção parcial das águas das chuvas; já há condição de implantar sistemas de armazenamento de águas fluviais em condomínios e até residências, para reutilização posterior em lavagens de calçadas, automóveis e regas, com a economia da cara e difícil água tratada; pode-se iniciar um processo de retirada de cimentados em infinitos pequenos lugares onde eles são inúteis, substituindo-os por milhares e milhares de pequenos jardins ou gramados, que sirvam para ajudar a drenar a água da chuva e conduzi-la aos lençóis freáticos e não aos rios e riachos; desapropriação de áreas estocadas para especulação imobiliária, encontráveis em toda a cidade, entre prédios e edifícios, para que possam se transformar em mini-parques que sirvam de verdadeiros pulmões verdes e ajudem a reduzir a impermeabilização. Enfim, há pequenas e grandes obras a serem realizadas, sendo que nem sempre as grandes sejam as mais importantes.
Só assim, não precisaremos ver repetidas todos os anos as mesmas imagens das mesmas pessoas a se queixarem de que perderam tudo com a enchente e que o poder público precisa fazer isso ou aquilo para conter as águas, utilizando o nosso rico dinheirinho de impostos para pagar uma conta que, afinal, deveria ser cobrada dos especuladores, dos espertinhos de plantão que enganaram toda uma população ávida por ser enganada na sua ânsia de possuir um terreno, uma casa, um barraco a qualquer custo.
É por isso que, mesmo sendo um pouco cruel, não me comovo muito com os dramas de todos os anos, em cada enchente. Afinal, todos têm sua parcela de culpa. Enganadores e enganados.
Isaias Edson Sidney
8.2.04
posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:31 PM
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